Preferiria Não Saber
27 Posso usar o banheiro sem você?!
Notas iniciais
– Ei! George! O que está acontecendo aqui?! – Disse uma voz feminina muito firme –
– Ah, Madame! Perdão! Mas é que essa garota insolente estava tentando nos enganar! – Soltou meu rosto e virou-se de frente para uma mulher que parecia ser a chefe –
– Retire-se, excremento! – O homem saiu como um cão depois de uma bronca – Ora, quanta deselegância de minha parte. Ainda não me apresentei.
– Não faço muita questão de saber quem é. – Disse com desprezo –
– Que bonitinho, parece que temos uma auto-suficiente aqui. Pois bem, não me importo. Você é apenas um objeto. Uma das partes menos importantes. Essa sua arrogância logo vai ser eliminada. Bem... Meu nome é Nayane e o seu nome eu já sei. Vim para te fazer uma visitinha; conversar e quem sabe tomar um chá – Disse em tom irônico — mas já que não sabe ser educada, — Voltou o semblante desprezível — não tenho nada mais para fazer aqui. Até mais, fútil.
– Pare aí, velha.
– Eu ouvi bem?!
– Sim, ouviu. Eu não tenho medo de você. Só quero saber uma coisa: O que pretende com isso? O que acha que vai conseguir me prendendo aqui? Eu não tenho dinheiro. O que tinha já levaram.
– Ai... Não existe algo que possa demonstrar o tamanho da minha decepção. Realmente achei que fosse um pouco mais inteligente; mas vejo que subestimei sua falta de capacidade. Agora vejo o porquê de ter sido tão fácil trazê-la até aqui.
– Não me importo, pode falar o quanto quiser. Isso não me ofende, só exijo que responda minhas perguntas.
– Meu bem, você não está em condições de exigir nada, é melhor se calar. – O mesmo rapaz de antes a interrompeu – Madame, perdão, mas seu carro já chegou...
– Já estou indo, obrigada, George. Bem... – O capanga saiu novamente – Espero que se comporte; controle essa sua língua enquanto aguardamos os heróis. Até mais ver, querida. Beijinhos.
– O que quis dizer com... Bom, deixa pra lá. Adeus, refluxo.
Ela se virou, andou até a saída e foi fechando devagar as portas de maneira que eu pude ver seus olhos maliciosos e mal delineados me encarando lentamente até que as portas se fechassem por completo. Infelizmente não ficaram abertas por tempo suficiente para que eu pudesse ver onde estava. Mais uma vez acabei ali, presa com a minha companheira: a escuridão.
P.O.V – ELOISE
– Seu? Seu pai?!
– Sim, é ele.
– E o que ele faz em tantas fotos com o meu?
– Bom, como já tinha dito, eles eram amigos, e pela quantidade de fotos juntos, bem cordiais. Acredito que seja a explicação mais esclarecedora.
– Entendo... Por acaso você reconhece algum destes lugares em que eles aparecem nas fotos?
– Deixe-me ver melhor.
James pegou o álbum que estava em uma das caixas mais pesadas. Começou a folhear página por página com muita atenção ao passar por cada cenário.
– E então, acha que conhece?
– Infelizmente não... Nada me pareceu familiar.
– Ah... Que pena... Talvez devêssemos deixar isso pra lá...
Quando já estava para fechar o álbum... – Espera! Essas árvores e esse prédio me são familiares! Eu tenho certeza que já os vi em algum lugar... Só não consigo me lembrar... Isso! – Disse eufórico – Me empreste seu laptop! Preciso procurar algo! Rápido!
Não tive como questionar, pela reação algo estava dando certo. Corri até meu quarto; peguei o laptop e voltei o mais rápido que pude.
– Aqui está. Use como precisar.
– Obrigado.
Ele colocou o aparelho sobre suas pernas e começou a olhar mapas e procurar fotos de lugares próximos a Boston. No começo não entendi exatamente onde ele estava mantendo seu foco, até que reparei no campo de buscas: ‘’New Hampshire’’.
– New Hampshire? – Perguntei em dúvida – Por que exatamente?
– Não sei. Talvez intuição. Meu pai me levava frequentemente ali quando era pequeno. Ele tinha um amigo que morava num lugar muito bonito nesse estado, porém afastado de qualquer civilização. Um pequeno e muito belo lugar, aliás.
– Acha que essa foto foi tirada lá?
– Posso até achar... Estou tentando achar algo parecido com aquilo. – Apontou para uma árvore com flores cor-de-rosa na foto de meu pai — Eu sinto que é por aqui...
P.O.V – SUELLEN
Muitas horas tinham se passado, nem tenho noção de quantas, e até cantar eu já tinha feito.
– Queria ser um lutador daqueles musculosos dos filmes que com apenas alguns segundos arrebentam qualquer corrente. Talvez mamãe esteja certa. Estou precisando de uma academia e uma boa alimentação... Os pneuzinhos estão começan... – Ouvi o ranger das portas se abrindo – Droga! – Falei quase sussurrando – Será de novo aquela velha?
– E aí moça, como vai? – Acendeu a luz e pude vê-lo; outro cara, diferente de todos vistos por mim até o momento. –
– Nossa, a velha tem muito poder, não é?! São quantos capangas aqui? 100?
– Não tenho permissão para ficar passando esse tipo de informação, moça. Só estou aqui para trazer sua comida no lugar do imbecil da última vez.
– Ok... Você parece mais gentil que ele, não quer me soltar para que eu possa comer decentemente?
– Moça... Eu não posso... Eles me disseram para dar na sua boca. Só isso.
– Mas você acha justo que eu coma assim?! Estou presa o dia todo aqui, sabe Deus se não até mais que o dia todo; não tenho noção de tempo aqui nesse galpão abandonado... Além do mais, sou um ser humano, preciso fazer minhas necessidades fisiológicas.
– Ah... Isso vai me trazer complicações. Tudo bem vai, eu vou trancar a porta antes, assim garanto a sua segurança e a minha. Se aparecer alguém e perguntar por que fechei digo que fiz sem nem perceber.
– Sabia que não era como os outros. Gostei de você. – Ele foi até as portas com seu jeito calmo e manco de caminhar – Obrigado, moça. Mas não fale muito comigo não, isso que estou fazendo já é muito mais do que podia. Não abuse...
– Ok. Não se preocupe, estou calada. – Ele voltou e ficou me olhando por alguns instantes –
– E então? Quando vai me tirar daqui?
– Ah, verdade, tinha me esquecido. Mas eu vou deixar pelo menos suas pernas presas, também gostei de você, mas não posso arriscar.
– Se prender minhas pernas como vou fazer xixi?
– Oh, droga. Verdade... Bom, entre aqui, deve ter alguma bacia qualquer.
– Vai mesmo ficar segurando meu braço enquanto urino?
– Moça, eu pedi pra não abusar...
– Tudo bem, tudo bem. Faça-me companhia então, se é assim que vai ficar.
– Ok. Pode encostar a porta, mas só encostar, ouviu?! Nada de querer fechar. Vou ficar aqui na porta ouvindo qualquer coisa que você fizer.
– Que feio ficar ouvindo atrás da porta, ainda mais de um banheiro!
– Isso nem é um banheiro de verdade, moça! É só um cômodo improvisado com uma bacia.
– Ok, ok. De qualquer forma isso não é nada agradável.
Fiz minhas necessidades, — que foi mais do que urinar, para a tragédia do capanga – e voltei para comer.
– Só porque saí do quase banheiro já precisa agarrar meu braço?! Não vou fugir. Nem tenho forças para isso.
– Acho ótimo. Agora rápido, come isso aí porque eu preciso voltar logo. Vão estranhar minha demora.
– Tudo bem, senhor. Mas o que eu queria mesmo é minha carta de alforria.
P.O.V – JAMES
– Achei! É aqui! Tenho certeza!
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