Predestinados - Perina
45 Quarenta e cinco
Notas iniciais
Um Pedro transtornado passou pela porta de casa e a fechou num baque surdo. Havia discutido pela milésima vez com a banda nos últimos dias,e o motivo era sempre o mesmo.
Sol,Paula,Rominho e Lucca tentaram por diversas vezes animá-lo,ou ‘’tirar ele da fossa’’,como a amiga vocalista dizia. Antes de serem uma banda,eles eram seus amigos. Sol mostrou as composições novas,Rominho e Lucca o chamaram pra surfar. Nem mesmo Nando com sua guitarra conseguiram o animar.
As brigas constantes eram só o resultado do que ele já sabia: não existia vida sem Karina. Viver ele até conseguia,mas não queria mais. Via sua presença em tudo,em cada detalhe,cada singularidade,que pertencia somente a ela.
Foi até o sofá e se jogou de qualquer jeito nele,fechando os olhos e deixando as lembranças lhe entorpecerem.
‘’Estavam no quarto de Karina,subiram após a luta na tv recomeçar. A loira não pode deixar de rir ao pensar que João provavelmente a mataria quando percebesse que ela havia o deixado sozinho com os lutadores da academia.
Karina estava sentada com as costas no peito de Pedro,enquanto tomavam sorvete e assistiam ‘’O Poderoso Chefão’’.
– Tá rindo de quê,doida?
– Nada não,Pê. – desconversou num meneio de cabeça.
– Deve ser culpa desse sorvete aí. – Brincou,levando seus lábios agora frios contra o pescoço quente dela.
– Quer provar? – Ele assentiu,e ela o levou aos lábios e o beijou em seguida. – Gostoso,né?
– Você é mais. – Mordiscou o lóculo de sua orelha lentamente.
Antes de voltar sua atenção para o filme,Pedro perguntou:
– Como você sabia que esse era meu filme preferido?
– A Bi me contou,um dia quando foi lá em casa. – Explicou. – O João ficou reclamando que o filme era ruim,que preferia V de Vingança,aí ela rebateu dizendo que ele só gosta do filme por causa da Natalie Portman,e tal.
– Eu tenho que concordar com ele. A Natalie nesse filme tá.... – Parou a frase no meio ao ver o olhar de Karina. – Uma coisa horrível,uma baranga. Feia que dá dó,careca daquele jeito....
– É muito cara de pau mesmo. – Bateu em seu braço enquanto ele ria de sua reação,e voltou sua atenção pro filme.
– Amor....
– Nem vem,sai. – Seu olhar sério estava focado no filme,mas Pedro sabia muito bem que ela não prestava mais atenção no filme.
– Vai me ignorar,é? – sussurrou em seu ouvido.
– Vou.
– Tem certeza? – Ela ficava linda tão brava com ele,e Pedro estava afim de ver até onde ela conseguia ir.
– Tenho,não fala comigo que eu tô vendo o filme.
Sua resposta veio com um beijo demorado no pescoço. Ele levou as mãos a barra da blusa fina que a menina usava,a levantando e acariciando sua pele.
– O que você....tá fazendo? – A pergunta veio com dificuldade,num suspiro fundo.
– Você disse que eu não podia falar com você,mas não disse que eu não podia fazer isso – Sugou seu pescoço -,muito menos isso – desceu os beijos para seu ombro desnudo.
Ela gemeu baixo e sentiu aquelas sensações amolecerem seu corpo aos poucos. Cansada de tentar resistir,virou seu corpo para ele e o beijou com urgência. Pedro não demorou a jogar o corpo dela sobre a cama,ficando por cima.
– Sabia que você não ia resistir. – sugou a curva do pescoço dela e assoprou de leve,fazendo sua respiração ir de encontro a ponto sensível.
– O que eu fiz pra ter um namorado tão convencido? – Mordeu o lábio inferior com o sorriso torto dele.
– Eu não sou convencido,eu sou seu. ‘’
– Pedro? – Bianca o tirou de suas lembranças.
– Que é? – Bufou. Já sabia muito bem que ela tentaria animá-lo de alguma forma,e seu sorriso só deixou isso mais evidente.
– Boas notícias! Conversei com nossos pais e eles disseram que você pode tocar no Perfeitão com a banda,toda noite se quiser! Isso não é ótimo? – A animação na voz da menina só comprovava como ela era uma bela atriz,ele não pode deixar de pensar.
– Sabe o que seria bom? – Se sentou no sofá. – Vocês todos me deixando em paz.
– Pedro...
– Chega,Bianca! – Ele não suportava aquele tom de pena que todos andavam usando com ele. Ele não era digno disso,muito menos do amor do seu anjo. – Chega disso tudo,nada do que vocês fizerem vai adiantar.
– Nós só queremos te ajudar,Pedro! — Bianca já tinha sua voz embargada.
Ao ver os olhos marejados da irmã,Pedro respirou fundo. Aquela antiga sensação torpe do fracasso voltara com força total,sem que ele pudesse evitar. As lembranças de sua vida antes de Karina estavam se tornando evidentes novamente.
– Bianca...
Tudo o que ele não queria era relembrar os velhos tempos,mas o seu estado praticamente lhe obrigava a isso. Num ímpeto de insanidade,levantou-se bruscamente do sofá e saiu porta a fora.
– Pedro! – Bianca gritou coma voz já falha. Tentou segurar o braço do irmão,mas ele a afastou com brutalidade,tal qual da última vez. – Por favor...
O guitarrista quase parou ao ouvir o pedido da irmã,sentindo cada lágrima dela o atingir como uma faca. Sabia que estava agindo como um idiota,mas justamente o que ele não queria era que sentissem pena dele. Nada do que eles fizessem iria trazer sua loira esquentadinha de volta.
Entrou no carro e deu partida,vagando sem rumo pelas ruas. Sua garganta ardia como fogo,ele sentia cada lágrima que engoliu a força para não se demosntrar fraco. A sua maior fraqueza estava ali,no plano de cima.
Ligou o rádio,numa tentativa de tentar esquecer aqueles pensamentos que não o abandonavam,mas se arrependeu no primeiro instante que ouviu a letra da música.
'Cause you're a sky, 'cause you're a sky full of stars
(Porque você é um céu, porque você é um céu cheio de estrelas)
I'm going to give you my heart
(Te darei o meu coração)
'Cause you're a sky, 'cause you're a sky full of stars
(Porque você é um céu, porque você é um céu cheio de estrelas)
'Cause you light up the path
(E porque você ilumina o caminho)
Respirou fundo e parou o carro,desferindo um murro no volante. Afundou seu rosto ali,sentindo cada parte da música o dominar por inteiro.
I don't care
(Não me importo)
Go on and tear me apart
(vá em frente e me deixe em pedaços)
I don't care if you do
(Não me importo se fizer isso)
'Cause in a sky, 'cause in a sky full of stars
(Porque em um céu, em um céu cheio de estrelas)
I think I saw you
(Eu acho que vi você)
Não havia nada naquela letra que não o fizesse se lembrar de Karina. Seus olhos eram como um céu estrelado,um brilho azulado e intenso,que transmitiam tudo através de uma transparência cristalina. Seu sorriso era capaz de iluminar até seus dias mais sombrios. Ah,como ele sabia disso. Sua inocência era doce,seu jeito espontâneo era contagiante. Ela era apaixonante.
A dor de perde-la era imensa,ele sabia,mas ele não conseguia sentir raiva dela. Era impossível. Ele sabia porque já havia tentado,num momento de desespero deixara o egoísmo falar mais alto,mas desistia toda vez que sua risada vinha em sua mente,ou a lembrança de seu toque lhe devolvia um fraco sorriso. Ela poderia magoá-lo quantas vezes quiser,ele não importava. Só a queria de volta,dessa vez pra sempre.
Saiu do carro e pousou seu olhar sobre o céu. A noite estrelada brilhava solitária,cada pingo de luz azul parecia se encaixar milimetricamente. Pedro já perdera as contas de quantas vezes passara as noites na varanda do quarto,com os olhos fixos naquela imensidão,a procura de sua esquentadinha. A esperança de vê-la era torpe e improvável,mas ele não conseguia dizer não ao seu coração,muito menos a saudade que ele sentia dela.
Fechou os olhos por um segundo,tentando sentir a presença dela ao seu lado. Acordou de seu transe com o som de seu celular tocando no bolso de trás. Pegou o aparelho e o levou ao ouvido.
Ainda estava perdido em seu transe,mas aos poucos reconheceu a voz de um dos seus amigos da Ribalta,o chamando para alguma social que ele não tinha a mínima vontade de ir. No entanto,saiu de casa sem destino,e estava na metade do caminho. O que ele tinha a ganhar? Ou,a aquela altura,o que ele tinha a perder? Com esses pensamentos desconexos,entrou no carro e deu partida novamente,agora com um rumo definido.
Não demorou a chegar . Estacionou o carro próximo aos outros,saiu e apertou o botão do alarme,rumando para um dos andares do apartamento. Alan o recebeu e depois de alguns minutos de conversa, -que acabou se resumindo em o amigo falando e ele acenando em sinal de concordância – ele resolveu procurar algum rosto conhecido,sem muito sucesso.
Bufou em desagrado,pegando uma cerveja e levando a boca. Bebidas não lhe traziam boas lembranças,mas ele tinha certeza que nenhuma delas seria,naquela noite.
– Procurando alguém? – Uma voz feminina doce e desconhecida sussurrou perto dele.
Não conseguiu conter o susto ao ver a menina que agpra estava tão próxima a ele. Era loira,tinha olhos azuis,porém não chegavam nem perto da imensidão anil dos de Karina. Sorria pra ele,mas seu sorriso apresentava pura malícia,totalmente diferente do sorriso doce e único dela....
Karina. Karina. Karina. Era só nela que ele pensava.
Saiu de seu transe com a voz a chamando novamente.
– No que tá pensando,hein lindo? – Se aproximou dele,colando seus corpos numa tentativa um tanto quanto forçada.
– Hã? Em nada. – disfarçou com um sorriso fraco. Era o máximo que ele conseguia fazer,mas a menina a sua frente pareceu não ligar.
– Vem aproveitar essa noite comigo,vem... – Antes que ele pudesse responder,ela o puxou pela mão,o levando para o meio da grande sala,onde várias pessoas conversavam e dançavam ao som da batida da música eletrônica que tocava.
Can't be sleeping
(Não consigo dormir)
Keep on waking
(Não consigo dormir)
Without the woman next to me
(Sem minha mulher ao meu lado)
Guilt is burning
(A culpa está queimando)
Inside I'm hurting
(Estou ferido por dentro)
This ain't a feeling I can keep
(Não consigo suportar esse sentimento)
A loira dançava com o corpo colado ao dele,rebolava seguindo as batidas da música,descendo e subindo devagar. Os efeitos do álcool já se manifestavam aos poucos aquela altura,e antes que pudesse se arrepender de alguma coisa,sussurrou:
– Acho melhor pararmos por aqui... – disse ao tentar se afastar dela.
Ela o impediu de continuar,o puxando para perto novamente e espalmando as mãos em seu peitoral,voltando a rebolar e mover seu corpo de forma provocante. Mordia o lábio inferior,seu olhar de desejo poderia o queimar por dentro.
So blame it on the night
(Então coloque a culpa na noite)
Don't blame it on me
(Não coloque a culpa em mim)
Don't blame it on me
(Não coloque a culpa em mim)
Blame it on the night
(Então coloque a culpa na noite)
Don't blame it on me
(Não coloque a culpa em mim)
Don't blame it on me
(Não coloque a culpa em mim)
Não sabia se era culpa da menina a sua frente,da música,do álcool ou de sua nostalgia,que estava presente até em momentos como aquele,mas por um breve segundo,só conseguiu enxergar Karina ali.
Seu olhar provocante e sedutor em nada pareciam com o de sua loira,mas ele não se opôs. Pedro sentiu seu corpo corresponder aqueles toques,deixando seu instinto ou o que quer que fosse aquilo,falar mais alto. Ele não ouviria mais sua razão.
Ou pelo menos,não naquele momento.
Foi por essa razão que puxou a loira provocante mais pra perto,entrelaçando sua cintura fina em seus braços e capturando os lábios dela num beijo quente e forte. Pedro já não tinha mais controle sobre seus atos,mas aquela altura,ele nem queria mais isso.
– Como eu senti sua falta,esquentadinha... – sussurrou,voltando a beijá-la.
Ao abrir os olhos,a realidade o atingiu como um choque. Um baque surdo. Uma queda livre.
Não era ela ali. Não era,tampouco seria algum dia. A verdade era que ela nunca iria voltar,e o que havia acabado de acontecer era sua mente tentando lhe enganar por alguns segundos,tentando lhe pregar uma peça que não tinha graça alguma.
Num completo ímpeto de sanidade,recobrou sua consciência o mais rápido que o álcool podia permitir e saiu deperto da menina,passando pela multidão e indo em direção a varanda do apartamento – ou qualquer lugar onde ele pudesse mandar seus pensamentos perdidos para longe,se entregando a bebida.
A dose de vodka desceu como fogo. Ele não importava,só queria algo que o pudesse fazer esquecer o que havia acabado de fazer com Karina,e principalmente com ele mesmo. Se fosse aquele o caminho,não iria pensar se era erradoou se estava voltando as suas origens. Não naquele momento.
Demorou tarde demais a perceber que não pensar foi a pior decisão que ele poderia tomar naquela noite. Já estava para amanhecer quando ele decidira que era hora de voltar pra casa. Pedrojá havia perdido a a conta do quanto havia bebido. Sua visão já estava turva e já não tinha mais tanto controle sobre seus atos.
E pode colocar isso a prova quando uma voz conhecida ecoou perto dele,fazendo seu sangue ferver.
– Olha quem temos por aqui. — Cobra riu sarcástico e Pedro sentiu os punhos s fecharem de forma quase automática. — Quem é vivo sempre aparece,não é Ramos?
– Digo o mesmo de você,Cobreloa. — Se aproximou mais,ficando frente a frente com ele. — Como é que tava lá no presídio?
– Era pra você estar lá,não eu. — O ex adversário de Racha de Pedro sentiu seu maxilar trincar,e sua voz saiu como um grunido.
– Eu errei sim,mas isso não é motivo para ter parado atrás das grades. E você sabe muio bem que eu só fui naquele maldito Racha porque você ameaçou a Karina. — O álcool estava em suas veias,mas ele nunca se sentira tão são naquele momento. — Se tem uma coisa que ela me ensinou é que nunca é tarde para assumir meus erros. Bom,eu fiz isso e consegui recuperar o tempo perdido. Você apenas colheu o resultado dos seus erros,então não venha me culpar por isso.
Dito isso,Pedro saiu de perto,dando as costas. Mas parou no mesmo instante que ouviu aquela frase.
– Que belas palavras,Ramos. Olha,fiquei até emocionado. — Riu com uma ironia palpável. — Aquela loirinha devia ser muito boa de cama pra te fazer mudar de ideia assim,tão rápido. Uma pena que você não soube fazer direito e ela te deixou. Ah,se fosse comigo.....
Pedro não demorou a se virar pra ele,avançando a passos cheios de fúria.
– O que foi que você disse? Repete,seu filho da puta! — Mas não du tempo para que ele sequer pudesse continuar.
Acertou o nariz de Cobra com um soco. A visão dele tocando sua loira o tirava a razão,ou pelo menos o pouco que lhe restava aquela altura. Cobra aproveitou do estado de Pedro e revidou o soco,e antes que ele pudesse fazer o mesmo,desferiu um murro em sua barriga e o fez cair no chão.
Algumas pessoas que estavam em volta incitavam a violência,outras tentavam impedir. Pedro estava imobilizado no chão,enquanto Cobra o acertava. Com certa dificuldade,conseguiu se soltar e revidou,acertando o supercílio do rapaz.
– Chega! O que tá acontecendo aqui?! — Alan berrou em alto e bom som. Dois caras imobilizavam Cobra,enquanto outros dois afastaram Pedro.
O guitarrista alterado tentou se soltar,sem êxito.
– Me solta,porra! — Berrou,sentindo raiva por ter sido atingido por Cobra e por ter sido impedido de quebrar a cara dele como queria.
Saiu da casa de Alan um tanto cambaleante,sem conseguir se lembrar para aonde deveria ir,muito menos como conseguira chegar até a saída do prédio.
Atravessou a rua totalmente perdido e desnorteado. A única coisa que ele queria,ele não podia ter,e a cada constatação do impossível um pouco de sua vida desmoronava.
Mas,naquele momento,foram aqueles pensamentos que o impediram de ver um carro vindo em sua direção,não o atingindo por muito pouco.
– Pô cara,quer matar a gente de susto brother? — Uma pessoa de voz conhecida desceu do carro,parando em sua direção.
– O q-que...vocês tão fazendo a...qui? — Um Pedro cambaleante murmurou com a voz arrastada.
– Nossa mano,ele tá mal mesmo. — Um dos caras disse.
– Bora levar ele pra casa,tu ainda sabe o endereço? — O outro perguntou.
– E como sei.
– X -
Eu não podia acreditar no que os meu olhos viam.
Pedro estava saindo do carro,sendo praticamente carregado por Meião e o outro cara que eu nao me lembrava o nome,mas sabia muito bem quem era. Estava meiodesacordado e tinha o rosto ferido tinha o olhar perdido e parecia não ter a mínima noção do que se passava ao seu redor.
– Fira... — senti meu coração apertar ao balbuciar seu nome. — Me deixa ver como ele tá...Ele...Por favor!
As palavras saíam sem nexo algum,meu corpo tremia e eu só consegui imaginar o pior. A cada vez que eu o via naquele estado tão sozinho,tão perdido......meu coração se apertava sem que eu pudesse evitar. Eu nem mesma queria.
– Querida,eu não posso fazer isso. Eu sinto muito. — Seu olhar transmitia pena,mas naquele momento era a única coisa que eu não conseguia ver. — São ordens da instância superior,eu não posso intervir.....
– SIM,VOCÊ PODE! Eu sei que você pode. — Joguei todo o meu orgulho no lixo e me aproximei dela,trêmula e nervosa. Que se danasse o meu orgulho! Tudo o que importava era Pedro. — Pelo amor de todos os anjos desse céu,Fira! Eu sei que eu nunca fui uma anjo exemplar tipo o certinho do João,que sempre te dei trabalho...mas eu te imploro,esquece isso tudo pelo menos por um segundo e me deixa ir até ele.
– Oh,meu bem.... — Ela pareceu hesitar po um instante. — Ai meu santos,está bem!
Meu coração deu um pulo de felicidade por impulso,dei um abraço nela,que retribuiu.
– Isso não vai te dar problemas,né? — Perguntei,e ela negou veementemente.
– Hum,digamos que eu saí e acidentalmente deixei o portal aberto....- Riu em seguida. — Agora vá! Antes que eu mude de ideia.
Não pensei duas vezes e voei até ele,atravessando aquela escuridão estrelada até conseguir me aproximar.
Meião e Pão com Ovo tentavam levar Pedro com dificuldade para casa mas ele parecia relutante e se debatia para que o soltassem.
– Pedro... — Minha voz saiu fraca,quando meus pés relaram o chão e eu o vi.
– Loirinha? — Um deles disse um tanto quanto assustado por me ver de novo.
– Ah cara,essa parada de anjo de novo não. — O outro reclamou,meio atordoado.
E então ele me viu. Nada me importava naquele momento,somente o meu coração acelerado quando nossos olhares se encontraram. Ele passou a se debater com mais força,tentando ir ao meu encontro.
– Me solta,agora! — Esbravejou,como se precisasse me alcançar antes que eu pudesse fugir.
E ele não estava errado.
– Podem soltar,eu vou cuidar dele.
E assim foi feito. Fui ao seu encontro,meus olhos a essa altura inundados de lágrimas. Meu olhar clamava por ele,meu corpo implorava para sentir seu toque contra minha pele. Afundei meu rosto em seu peito quando seus braços me envolveram num abraço sem fim. Ele estava alterado,era verdade,mas a verdade do seu olhar não mentia,ainda estava intacta ali.
Tão intocada quanto a verdade de seu coração batendo contra o meu.
– Minha esquentadinha.....você voltou! Você voltou pra mim... — Ele sorria feito bobo,me abraçava e me apertava contra ele como se eu fosse frágil demais.
Eu não conseguia dizer nada. Não conseguia explicar o que eu estava sentindo,só conseguia chorar e não querer soltá-lo,nunca mais.
– O que houve com ele? — Perguntei pros dois,beijando seu rosto e qualquer parte que eu conseguia alcançar.
– Calma anjinha loira,o pedrão tá só meio alterado. Amanhã ele tá pronto pra outra. — Assenti e eles se foram.
– Vem,vamos entrar.
–Com um pouco de dificuldade,entramos em casa e,ao fechar a porta,demos de cara com Bianca e Duca,vendo algum seriado na tv a cabo,num típico sábado a noite.
– Pedro.....Ai,meu Deus! Karina,é você mesmo?! — Bianca exclamou,vindo em nossa direção. Não sabia se me abraçava ou se ia até o irmão.
Eu sabia exatamente o que fazer.
– O que cê tá fazendo aqui,K? E o que houve com o Pedroso? — Duca se manifestou. — Vem,pode soltar que eu subo com ele.
Pedro relutou um pouco a me soltar,mas quando conseguiu,ainda sorria pra mim,cantarolando alguma música que eu não sabia qual era e subindo os degraus.
Com a ajuda de Duca e Bianca,coloquei Pedro deitado na cama e me sentei ao lado dele,apoiando sua cabeça em minhas pernas. Afaguei seus cabelos,endo suas pálpebras pesarem e relutarem a se fechar. Ele mantinha o olhar fixo em mim,pegou minha mão e depositou um beijo ali.
Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar
– Ah,Pedro... — O choro veio,desmedido e sem aviso.
Vê-lo assim era mais que uma tortura pra mim. Eu sabia,era minha culpa. Minha função como um anjo era fazê-lo seguir em frente,mas tudo o que eu havia conseguido até agora era deixá-lo mais preso a mim. O fato era que eu não conseguia controlar meu egoísmo,a ponto de aceitar ver Pedro com outra pessoa. Por um segundofechei os olhos e pedi a Deus para não estar viva para ver aquele momento chegar.
Que é que eu vou fazer pra te deixar?
Sempre que eu apresso o passo, passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar
Ele ouviu meu choro baixo e se sentou na cama,se virando pra mim e secando minhas lágrimas,uma a uma,beijando meu rosto. Estremeci com seu toque,desejando cada vez mais.
– Não chora,por favor meu anjo.... — E como um insight,as lembranças vieram.
O nosso segundo encontro,na minha casa,quando o tirei da rua e o levei para perto de mim. Aquelas mesmas palavras,com novos sentimentos. Eu não sabia até que ponto eu poderia lidarnem se conseguiria deixá-lo mais uma vez.
Eu só queria que aquele momento durasse pra sempre.
Me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar
– Eu te amo tanto.... — sussurrei. Seus olhos perdidos me analisavam com precisão,como se quisessem captar cada detalhe,para não esquecer quando ''acordasse''. Como se seu inconsciente soubesse que eu iria partir mais uma vez. — Como isso é possível?
– É o que eu me pergunto todos os dias,quando olho lá pra cima e não te vejo.
Uniu minha testa a dele,me fazendo amaldiçoar minha condição celestial. Diziam que o amor poderia superar barreiras,mas eu sabia que a nossa era impossível de ser quebrada. Já o meu coração,eu não podia dizer o mesmo.
– M-me desc-ulp-a... — murmurou,sem coragem de me soltar de seu abraço. — E-eu não queria ter feito que eu fiz hoje...
– Sshhh. — Pedi,o impedindo de terminar a frase. — Eu te perdoo,juro juradinho. — Beijei meus dedos,e ele repetiu o gesto,me fazendo sorrir. — Agora vem cá.
Ele se deitou na cama e eu me deitei ao lado,encostando minha cabeça em seu peito e o abraçando de lado. Ele afagou meus cabelos e beijou minha testa,me puxando mais pra perto,como se fosse possível.
– Eu não vou te deixar ir embora,ouviu? — Eu apenas assenti,me aninhando contra seu corpo e me entregando aquele momento,que mais parecia um sonho real.
Eu sabia que não era sonho,mas ele poderia confundir com um. Seria o certo,mas eu nao queria isso. Assim que ele pegara no sono,me levantei com cuidado e velei seu sono por alguns instantes. Dei um beijo em seus lábios antes de partir,sabendo que agora ele teria uma prova de que eu estive ali.
– X -
Pedro acordou com sua cabeça a latejar de dor. Abriu os olhos,ainda pesados,um a um,e se sentou na cama. Tudom sua mente era um borrão. Tentava se lembrar do que houvera ali,mas tudo o que via eram pequenos flashes difusos.
E então ele se lembrou dela. Tão leve e solta,tão dele. Não conseguia se lembrar de como era seu toque ou a sensação de tê-la tãi perto,as lembranças não lhe traziam isso e ele se recriminou. Poderia ser um sonho? Uma miragem? Ou pior,uma ilusão que sua mente criara?
Desistiu de todas aquelas hipóteses quando viu o que estava em seu criado mudo. Lindo,brilhante e solitário,ali estava o colar de Karina.
Um sorriso se formou em seus lábios. Ele não havia sonhadoou fantasiado nada daquilo.
Agarrou o amuleto da pequena loira contra seus dedos,o admirando. Era a maior prova de que ela estivera ali.
Fale com o autor