Predestinados - Perina
18 Dezoito
Notas iniciais
Por essa Pedro não esperava.
Ele sequer podia imaginar,mas ali estavam eles. Depois de vários meses – ou teria sido um ano? -,seus pais estavam de volta. Pro bem,pro mal,para o que der e vier.
– Awn,meu filho! – Delma correu para abraçar o filho,os olhos marejados. – Eu senti tanto a sua falta!
Ela o enchia de beijos e o apertava forte naquele abraço. Quando finalmente o soltou,percebeu que o filho ainda estava um pouco atônito com a presença deles ali.
– Que foi,meu bem? – Saiu do transe e ouviu a mãe perguntar. – Por quê essa carinha?
''Deve ser porque eu não te vejo há seis meses?'' perguntou para si mentalmente.
– Não gostou da surpresa,é isso? – Estava a muito tempo sem vê-la,era verdade,mas ainda sabia o quanto a mãe era dramática,então tratou logo de desfazer aquele mal entendido.
– Não é isso,é só....excesso de saudade. – E beijou a bochecha de Delma.
Cumprimentou o pai com um abraço apertado. Delma enfim notou a presença da loira ali – João os cumprimentou rapidamente e foi embora.
– E essa mocinha linda é....
– Mãe,pai,essa é a Karina,nossa nova vizinha. – Pedro disse,indo para perto dela. — Mas eu particularmente chamo de esquentadinha.
Enquanto lanchavam,Bianca contou aos pais que Karina havia se mudado a pouco tempo – umas duas semanas -,que ela estudava na Ribalta com ela e o irmão.
– E a Priscila,Pedrinho? Não quis vir com você? – Delma perguntou,e logo os três já trocavam olhares nada discretos na mesa.
– A gente terminou,mãe. – Ele respondeu,sem rodeios ou algum pingo de tristeza.
– Oh,meu amor! Que pena. – Lamentou,sem saber que o filho não pensava da mesma forma. – Vocês já conversaram? Quem sabe não voltam...
– Ah,mas não mesmo! – Bianca exclamou,e a mãe a encarou,confusa. Sempre achara que Priscila era uma boa garota. Ah,se ela soubesse....
– Não temos nada pra conversar,acabou e pronto. – Pedro tratou logo de esclarecer. – Agora,cadê aqueles postais lindos que você mandou? – Tentou mudar de assunto.
– Eu também quero ver as fotos,mãe! – Bianca logo se animou.
Em alguns minutos,todo aquele clima tenso já havia ido embora. Enquanto Delma e Marcelo estavam em um sofá,vendo as fotos com a filha pela câmera,Pedro preferiu sentar-se em outro com Karina,vendo as várias outras que foram reveladas ao longo das viagens.
– Olha essa que linda. – Karina disse ao ver uma foto do casal em um museu em Dubai.
– Olha só quem foi pra Veneza e te deixou,Bi! – Pedro zombou,mostrando a foto deles no rio Sena.
– Hunf,isso não é justo! – Disse uma Bianca emburrada,e os dois do outro lado só fizeram rir.
– Não fica triste minha flor,a gente te leva na próxima,né não Marcelo? – Perguntou ao marido,vendo ele assentir.
Enquanto Pedro e Karina se divertiam vendo as fotos,Delma observava os dois,vez ou outra,sem que eles percebessem. E então entendeu o porquê do término com a ex. Estava claro o carinho do filho com a nova vizinha – talvez mais que isso,ela ainda não sabia -,o modo com se olhavam....que ali tinha coisa,tinha. E ela não demoraria muito para descobrir.
Quando a menina foi embora – Delma a fez prometer que voltaria mais vezes,ainda que os filhos já tivessem deixado claro que a menina estava sempre ali -,ela enfim fez a pergunta que não saía de sua cabeça,desde que os viu.
– Agora me contem,como anda a vida de vocês? – perguntou,sentando-se no sofá novamente.
– Ah,nada de novo.... – Bianca respondeu vagamente.
Delma e Marcelo riram.
– Então quer dizer que nós ficamos seis meses fora e não acontece nada? Pra cima de mim? – Indagou Marcelo.
– Eu já vi que vocês não vão falar,então vou ter que perguntar....
– Não precisa! – Bianca respondeu,tentando poupar a si e ao irmão das possíveis ''perguntas'' que a mãe faria.
– Nem vem com essa,mocinha. Pedro,começa você. – Delma ansiava pela resposta,toda sorridente.
– Tô começando a achar que eles não superaram essa crise de meia idade... – ele sussurrou para a irmã,que agora estava ao seu lado,rindo baixinho.
– Mas é o quê?? Eu ouvi isso! – Marcelo exclamou.
– E eu também! Mas agora vamos,pode começar a contar Pedrinho.
O que Pedro diria a ela? Que se envolveu com drogas? Que utilizava de meios nada ortodoxos para conseguir dinheiro para manter seu vício? Que um certo anjo aparecera na hora certa,e o salvou,antes que fosse tarde? Que sentia vontade de estar perto desse seu anjo,em todos os momentos?
Era demais para uma noite só,e Bianca pareceu entender o que se passava pela sua mente. Quando finalmente conseguiu voltar a realidade,respondeu:
– Erm,o lance do Duca com a Bi continua na mesma,se você quer tanto saber.
– Pedro! – Bianca gritou,tacando as almofadas nele.
– Como é que é?? – Marcelo engasgou com o suco que tomava.
– Eu sei,eu sei. É difícil de acreditar,mas é verdade. – Pedro fez drama,rindo internamente. – Acho que vou ter que levar um papo com ele,porque tá difícil....
– Cala a boca,Pedro! – Bianca gritou,roxa de vergonha.
– Então quer dizer que esse camarada tá se aproveitando da minha menininha? E debaixo do meu nariz?!
– Ah,Marcelo! Menos,beem menos. – Respondeu Delma,enquanto a filha escondia o rosto num travesseiro. – O Duca é um bom rapaz,e eles ficam lindos juntos.
– Então quer dizer que você sabia,esse tempo todo? – Ela assentiu. Marcelo respirava fundo,para não se descontrolar e ir atrás daquele sujeitinho mequetrefe.
– Não tenho culpa se você dorme no ponto,amor.
– Mas como....? – Indagou uma Bianca surpresa. – Não me diz que foi você,seu infeliz! – Pedro se protegeu da irmã,que lhe fuzilava.
– Não foi ele,filha,mas eu não nasci ontem,né? Já tive a idade de vocês...
Marcelo ainda estava em choque,parecia inconformado,e Delma tentava acalmá-lo,dizendo que esse dia chegaria.
– Mas e você,Pedrinho? Não tem nada pra me contar não? – Perguntou num tom sugestivo,se lembrando de Karina.
Bianca estava prestes a entregar o irmão,mas Pedro a impediu.
– Não mãe,não tenho nada. Acabei de terminar o namoro,né,tô fechado pra balanço,por um bom tempo. – Disse,e Bianca gargalhou.
– Ah,tá! E eu sou a Mulher Maravilha. Me engana que eu gosto! – E apertou as bochechas do irmão.
– Nem vem,tá Bianca? A única coisa que eu quero agora é focar em mim e na banda. Se eu encontrar alguém que valha a pena no meio do caminho..... – parou a frase ali,relembrando o quase beijo com a sua esquentadinha.
Delma percebeu o brilho no olhar no filho e disse:
– E por que será que eu acho que você já encontrou?
– X –
Um Pedro cabisbaixo saíra da aula de química,rumando para a cantina. Queria mais que tudo mudar,recuperar o tempo perdido. Ele só não imaginara que seria tão difícil.
Conseguiu,com a ajuda da irmã – um milagre,pois ela ainda estava brava com ele por contar sobre Duca ao pai -,conversar com a direção,alegando que estivera muito doente e com problemas pessoais,e por isso faltara as aulas e perdera os trabalhos e provas.
Bianca de início estranhou. Sabia que Pedro matara as aulas,e quando ele lhe pediu ajuda,ela topou,mas quis saber o por quê. Com a ajuda de Karina,conseguiu bolar um bom plano,dizendo que matava as aulas com Priscila,sem mencionar o real motivo – as drogas.
Os professores entraram em um consenso e resolveram ajudar o rapaz,repetindo as provas e trabalhos,com a ressalva que ele tirasse boas notas,e que não haveria uma outra chance. Mas como conseguir se concentrar,se ele não entendia uma só palavra?
Encontrou com Rominho e Luís Cláudio no caminho,e seguiram conversando.
– É cara,essa matéria é chata de aprender mesmo. – Ressaltou o amigo,como se ele já não tivesse descoberto.
– Quando é a tua prova,fera? – Luis Cláudio perguntou. Ele já ia responder,quando viu uma cena que não o agradou em nada.
Um pouco distante dali,viu Karina conversando com um dos meninos da Ribalta,um tal de Felipe. Ela,ao invés de sorrir,dessa vez estava tensa,e percebeu que o menino a olhava de cima a baixo,com um olhar nada santo.
Ela não correspondeu em nenhum momento sequer,mas ele não pode evitar sentir vontade de quebrar a cara do infeliz,e tirar a pequena loira de lá. Quem ele pensava que era,pra ter esses tipos de pensamentos com ela? Sua raiva era tanta que nem notara a expressão apreensiva dela,muito menos o papel que ele entregara a ela,antes de sair de perto.
– Tá tudo bem,cara? – Luís perguntou,e ele então saiu do transe.
– Já entendi teu problema. – Rominho riu,percebendo o foco do guitarrista. — Bem que o Zé disse que tu tava de quatro pela loira aí,mas eu não botei fé....
Ele já ia dar uma bela resposta sobre aqueles comentários quando o celular tocou. Ele saiu de perto quando notou quem era no visor,e quando conseguiu,atendeu e colocou o aparelho ao ouvido:
– Fala,Ramos.
– Quê que tu quer,Cobra? Um olho roxo? – explodiu o guitarrista de imediato.
– Até que não seria má ideia,mas fica pra próxima. O lance é outro. – Pedro não precisava notar o tom da voz do adversário para perceber do que se tratava.
– Eu sei muito bem o que você quer,minhoca. E já vou te adiantando pra não me esperar hoje a noite na competição. – Seu tom era convicto,nunca teve tanta certeza do que queria. – Nem hoje,nem nunca mais.
Ele riu em resposta.
– É mesmo,guitarrista? Vai amarelar? – Zombou,mas Pedro não mordeu a isca. – Pois eu acho melhor você aparecer,ou é a loirinha do olho azul que vai sofrer as consequências....
– Toca num fio de cabelo dela e você não vai querer ter nascido,Cobreloa! – Berrou em alto e bom som,sua raiva misturada ao ciúme de ver Karina conversando com Felipe.
– Eu já disse o meu preço. É pegar ou largar,Ramos. – E finalizou a ligação.
– X –
Estava esperando Pedro sair da aula,para irmos embora. Lia atentamente um livro que tinha achado por acaso na biblioteca quando ouço uma voz conhecida me chamar:
– Karina?
Me virei para ver quem era. Loiro,olhos verdes...eu o conhecia,só não me lembrava de onde.
– Felipe? – chutei,e pelo que pude ver,acertei em cheio.
Conversamos sobre aleatoriedades por alguns minutos,ele percorria os olhos pelo meu corpo sem nenhuma discrição e isso já estava me irritando.
– Erm,então Felipe,você veio me dizer? – fui direto ao ponto,e ele não pareceu se incomodar.
– Você é amiga daquele Pedro Ramos,não é? – perguntou como se já soubesse a resposta,e eu apenas assenti. – Se eu fosse você,me afastava dele enquanto é tempo....
Não precisava que ele terminasse a frase para que a minha irritação aumentasse. Eu o cortei,sem querer saber o resto.
– Eu acho que sei escolher as minhas amizades. – Fui ríspida.
Ele riu da minha indignação.
– Claro que sabe. – Ironizou,desviando o olhar. – Se o conhece tão bem,então deve saber o que ele faz nas....horas vagas,ou nem tão vagas assim,eu suponho.
– Isso não é da minha conta.... – comecei,mas ele insistiu na pergunta.
– Pelo o seu silêncio,eu suponho que não. – Um sorriso de vitória estava estampado em seu rosto. – Mas pode descobrir... – e pegou um papel no bolso e me entregou. – se aparecer nesse endereço,hoje as oito da noite.
Olhei para o papel,sem reação. Tentei dizer algo,mas ele me impediu.
– Sssh,não precisa agradecer. A gente se vê por aí,loirinha. – E beijou minha bochecha,antes de sumir da minha frente.
No caminho pra casa – acabei indo sozinha,com os últimos acontecimentos acabei indo sem Pedro -,me peguei pensando nas palavras de Felipe.
Eu não sabia aonde ele ia,era bem uma verdade,mas ele já havia me provado que queria mudar. Já não era o suficiente? Eu deveria ir? E ele,será que iria naquela noite? O que eu encontraria lá?
Quando dei por mim,já estava em casa. João notou que eu estava distante,e me perguntou o que eu tinha.
– Ahn,não é nada,não. – disfarcei.
– Hum,vejamos. Fase 1: afastar a Priscila do Pedro,concluída. Fase 2: tirar o Pedro das drogas....em andamento. Fase 3....
– Que língua é essa? – perguntei,sem entender nada do que ele falava.
Ele me olhava sem saber o que responder,quando finalmente disse algo,eu não acreditei.
– Ah,esse lance de fases? É linguagem de vídeo game.
– E por que raios você tá usando linguagem de joguinho pra falar comigo? – Eu cada vez o entendia menos.
– Ah,é..... – ele não conseguia formar uma frase inteira. – Eu tô jogando vídeo game a tarde no QG,pronto,falei!
Até onde eu sabia,QG era o local de trabalho de Cobra. Eu o encarei,incrédula.
– Então quer dizer que enquanto eu tô me esforçando pra fazer essa missão dar certo,você tá jogando??? – Quase gritei.
– Calma,calma. Eu vou explicar.
– É bom que explique mesmo,João. Anda,desembucha. – Ordenei.
– Enquanto você se aproximava do Pedro,da Bianca e do Duca,eu tinha que fazer o trabalho sujo dessa missão,então resolvi me socializar com o Cobra. – Ele falava pausadamente.
Refleti por um segundo. É,até que fazia sentido.
– Prossiga.
– E então ele me apresentou os jogos....Eu confesso,não resisti.
– Tá,tá perdoado. – Ele respirou aliviado. – E você conseguiu descobrir alguma coisa,durante esse tempo?
– Eu descobri que o Cobra vai em algumas competições,eu ainda não sei ao certo,e o Pedro também participa delas. Deve ser pra manter o vício,não tenho certeza.
Assenti,me lembrando da conversa com Felipe,mais cedo.
– E você já sabe aonde é? – questionei.
– Ainda não,mas acho que muito em breve saberemos.
Tirei o papel do bolso e entreguei pra ele.
– Algo me diz que não vamos precisar dele.
– X –
No horário marcado,eu e João chegamos no local. Era um beco escuro,com um corredor único e estreito,que dava acesso a um local mais amplo e aberto.
– Acho que é aqui. – conferi o endereço pela milésima vez no dia.
Seguimos a pé pela estrada de terra em meio a noite,parando apenas quando dois caras muito altos e fortes nos pararam.
– Pra aonde pensa que vai,boneca? – Ele me olhou de cima a baixo,e eu me encolhi,com medo.
– Erm,boa noite – João começou. Acho que deveria dizer a ele que ser simpático naquela situação não ajudaria muito,mas me calei. – Estamos procurando por Pedro Ramos.
O cara que eu descobri se chamar Meião disse:
– Aí Pão Com Ovo,esses dois tão procurando o frouxo do Ramos. – Fez piada para o ''amigo'',que riu junto.
– Pode nos levar até ele ou não? – Peitei um dos homens,e João tentou me proteger.
– Por quê a pressa,docinho? Vai apostar nele?
Eu cada vez entendia menos sobre o que se passava ali.
– Pede pro Churrasquinho levar eles,mano. – Um deles disse,e quando dei por mim,um cara de aparência duvidosa nos escoltava até o lugar.
Nada me preparou para ver o que eu via naquele momento. No entanto,eu estava ali.
Eu imaginei tudo,mas ainda assim fui surpreendida. Eu não podia acreditar.
João tentou me chamar para a realidade,mas foi em vão. E tudo ficou pior quando eu o vi ali. Depois das promessas,de jurar que queria mudar,ele estava ali.
Mentiras. Tudo não passava de mentiras.
Senti meus olhos marejarem de lágrimas quando João disse:
– Detesto admitir,mas o anjo Gabriel estava certo. Precisamos de reforços,e o mais rápido possível.
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