Predestinada - Livro 1
14 Capítulo 14 - Estou amaldiçoada
Notas iniciais
Em meio daquela escuridão havia uma luz perolada, que aos poucos aproximava-se clareando tudo à minha volta. Ergo minha mão na frente de meus olhos. A luz incomodava minha visão, ardia cada vez que ela se aproximava. Grunhi de dor.
Até me vejo parada no quintal dos fundos de minha casa. A noite era abafada, uma ironia daquele calor que fazia estava ventando, mas um vento quente. No quintal, tinha dois corpos sentados, melhor, "largados" em um banco de madeira branco e, não poderia ser...
Era eu e Rob sentados no banco. Eu estava com calças jeans, uma regata do Ramones e chinelos de dedo. Rob estava de bermuda bege, uma camisa preta e um tênis preto.
Meu aniversário de 17 anos, penso. Não era possível.
Me lembrava perfeitamente daquele dia. Eu e Rob estávamos no sentados no banco de madeira pintado de branco no quintal dos fundos, Jess e seu antigo namorado estavam arrumando a mesa de jantar. Alguns anos atrás antes ser sequestrada, minha mãe resolveu fazer com que passássemos o verão com minha avó. Ela havia comprado e pintado o banco, dando de presente para Pearl. Minha mãe dizia que aquele banco era um lugar perfeito para refletir sobre a vida. Naquele mesmo banco, Rob acabara de me dar de presente o box de todas as temporadas de Supernatural, lhe dei um sorriso aconchegante quando olhei a embalagem e voltei meu olhar para o box, admirada por aquele presente.
Caminhei até onde eles estavam. Pensei em como estávamos diferentes alguns meses depois desse momento.
Rob não percebeu minha presença nem a outra Charlie. Estava de frente para mim mesma, as emoções em seu rosto era uma mistura de felicidade e encanto.
– O que achou ? — perguntou Rob me observando.
– Desculpe, o que disse ? — pergunta ela ainda distraída pelo box em suas mãos.
Rob dá uma risada suave e coloca uma mecha de cabelo, que estava esvoaçando no rosto de Charlie, atrás da orelha.
Toco em Rob com uma das mãos para que ele pudesse prestar atenção em mim, mas minha mão atravessa seu peito direto, fazendo com que caísse sentada nos pés da outra Charlie.
– Você gostou ? — pergunta ele com doçura.
– Gostar é pouco! — exclamou ela fazendo Rob rir novamente. — Eu amei! É o melhor presente que eu já tive.
– Rob! O que esta está acontecendo ? — berro ainda sentada no chão.
– Eu fiquei pensando em que você gostaria de ganhar e... Quando vi o box, me pareceu o presente perfeito. — explica ele.
– Ainda bem que sabe, é perfeito. — disse ela convencida abraçando o box. — Eu estou apaixonada por esse box.
– O que está acontecendo aqui ? — disse eu confusa.
– O melhor para a melhor. — sussurra Rob.
– Eu sei que está juntando dinheiro para comprar um carro, não precisava ter gastado comigo. — disse a outra Charlie olhando para o nada.
– Você me deu um presente maravilhoso, eu não soube o que dizer e nem ainda sei. — disse ele sorrindo. — É o mínimo que posso fazer por você, é minha melhor amiga e eu...
Houve um barulho vindo da floresta atrás da cerca, o som de galhos se quebrando duramente.
– O que foi isso ? — perguntou a outra Charlie.
– Eu não sei. — responde Rob. — Fique aqui.
Ele se levanta e olha por cima da cerca entre as árvores, em seguida volta e senta novamente no banco.
– Acho que é só um guaxinim. — disse ele.
Meu corpo é puxado até onde viera o barulho, como se fosse algum campo magnético puxando contra minha vontade. Me vejo parada próxima à uma árvore alta, uma espécie de pinheiro. Nela, havia um corpo escondido nas sombras da noite, mas graças à luz da lua, iluminava uma pequena parte do pinheiro. Olhos foram iluminados pela luz, um verde intenso com pequenas riscas azuis na íris e os reconheci imediatamente.
Dimitri ?, penso.
Ele estava escondido no alto do pinheiro, observava algo de longe. Tento subir até onde ele estava. Ao chegar próxima dele, procuro na direção que ele estava olhando, ele observava à mim e Rob do alto. Nem Dimitri percebeu minha presença.
Uma sombra se projeta ao lado de Dimitri.
– Está vigiando porquê ? — pergunta a sombra.
Não conseguia identificar se era homem ou mulher. A voz era com uma mistura estranha que era incapaz de adivinhar quem poderia ser.
– Porque não lhe interessa. — responde Dimitri sem olhar a sombra. — O que faz aqui ?
– Não é óbvio ? — ironiza a voz da sombra. — Estou lhe seguindo, vendo se não irá fazer nada de estúpido.
– Não vou fazer nada, apenas estou observando como sempre fiz. — disse Dimitri pensativo e sério.
– Ela ainda não deu nenhum sinal de mudança ? — perguntou a sombra curiosa.
– Não, acabou de completar dezessete anos. É muito cedo para dizer. — murmura Dimitri.
– Mas não é aos dezesseis que as mudanças começam ? — indaga a sombra.
– Na verdade, é a partir dos dezesseis. Depois dessa idade que teremos certeza. — explica ele impaciente.
– Mas todos são aos dezesseis, isso que não estou entendendo. — retruca a voz. — Será que não consegue ver ? Nem esse menino mudou ainda. Consigo ver em sua aura como é por dentro e ele é igual à ela.
– Como assim igual ? — perguntou Dimitri se virando para olhar a sombra estreitando os olhos.
– Eles estão atrasados. Não é normal isso, ao menos... — disse a voz sombria.
– Ela é diferente e você sabe muito bem disso. Não há nada com o que se preocupar. — disse Dimitri sério e ameaçador. — E o garoto, vai acontecer como aconteceu com Tyler. Isso é normal, uns amadurecem na idade certa e outros um ou dois anos depois. Como disse, depois dessa idade teremos certeza.
– Às vezes, acho que você gosta de fingir que não sabe de nada para não ter culpa, certo ? — comenta calma a voz.
A voz sai das sombras e mostra seu rosto, mas a imagem começou à estremecer e não consegui vê-lo.
– Você quem pensa. — resmunga Dimitri ficando de pé em cima do galho.
– O que vai fazer, seu idiota ? — pergunta assustada a voz.
– Dimitri, o que pensa que está fazendo ? — digo, sem perceber que me exaltei até dizer.
– Se me seguir, quebro seu pescoço como da última vez. — disse Dimitri por cima do ombro para a voz.
– Como ousa falar isso para mim, seu imundo! — grunhi a voz.
Dimitri pula e sou puxada assim que ele salta no chão. Grito ao ver que iria me espatifar no chão com tudo, mas apenas caio sentada e nem sinto dor. Me levanto e olho para a cerca que separava a floresta de minha casa.
– Eu estou como uma espécie de fantasma nesse lugar. — resmungo me levantando. — O que está havendo comigo ?
– Charlie, volta! — berra Rob próximo da cerca.
– Calma, eu só quero ver o que é isso. — responde ela pulando a cerca e saltando para o outro lado.
Ficamos frente-a-frente para uma a outra.
Olho para trás e vejo que Dimitri se escondeu atrás da árvore à espreita, quase não podendo o ver direito.
– Charlie, o que houve ? — pergunta Rob em cima da cerca.
– Espere. — disse ela.
Ela caminhou até onde estava Dimitri. Eles ficaram de frente para o outro. Dimitri ergueu a mão para tocar o rosto dela, mas ela não parecia o vê-lo. Ela olhava através dele, como se ele fosse invisível igualmente à mim neste momento.
– Tem alguém aí ? — perguntou ela.
A outra Charlie estava com as sobrancelhas franzidas em dúvida e ao mesmo tempo, seu rosto estava sereno. Dimitri esboçava uma expressão de tristeza em seu rosto ainda com a mão erguida bem próxima ao rosto de Charlie, que não o via. A mão dele encostou no rosto dela e, imediatamente ela se retraiu. Dimitri fechou a mão em forma de punho e a abaixou, suspirou de frustração.
– Charlie, o que foi ? — pergunta Rob, que saltou da cerca e se aproximou dela.
– Eu podia jurar que tinha visto alguém pulando da árvore. — respondeu ela confusa.
Vejo o sorriso suave de Dimitri, que logo em seguida, desmanchou-se soltando um suspiro longo e entristecido. A outra Charlie deu as costas e caminhou lentamente junto com Rob, pulando a cerca com ele a ajudando voltar para o quintal.
– Nos veremos em breve, Charlie. — sussurra Dimitri.
– Ela quase te viu, estúpido. — disse uma voz vindo atrás de Dimitri, que automaticamente reconheci. Era John.
– Eu sei, foi exatamente o que queria. — disse Dimitri olhando para a cerca. — Ela tem que se acostumar ver esse tipo de coisa.
– Não faça mais isso, está se arriscando. — repreende John.
– Sabe que eu posso quebrar seu braço lentamente. — disse Dimitri com desprezo.
– Avisei à você para não chegar perto dela antes das aulas começarem. — disse John com autoridade.
Eles estavam discutindo quando tudo ficou escuro novamente. As vozes se misturavam e estavam longe impossíveis de se ouvir, mas por um momento uma imagem de asas peroladas estavam arqueadas voando pela planície num noite escura e quente. De repente, estou de volta à realidade, estava deitada na minha cama em meu quarto e me levanto num pulo, ofegante.
Dimitri sentado de costas para mim todo curvado e ainda sem camisa na beira da cama. Pearl estava na outra ponta da cama, Rob na minha poltrona e John encostado na porta do armário. Todos estavam com olhares de surpresa e preocupação estampados. Sinto uma leve pressão em minha nuca, ela se intensificava aos poucos.
Minha cama estava consertada ?, penso. Porque todos estão me olhando desse jeito ?
– Graças à Deus, você está bem. — disse Pearl aliviada.
– O que aconteceu ? — perguntei com a voz fraca.
Percebi que minha mão estava nas costas de Dimitri.
– Você desmaiou. — responde Dimitri se virando sério. — Você está bem ?
Tirei minha mão de suas costas e sinto um arrepio subindo toda minha espinha dorsal.
– Sim, estou. — digo me controlando minha respiração e em seguida, olho para John estreitando os olhos. — E Clarice ?
– Ela está bem, eu a levei para casa. — respondeu John com a expressão de cansado.
– Eu preciso a ver. — digo me levantando da cama, mas Dimitri agarra meu braço delicadamente.
– Não, você vai ficar aqui e descansar. Já aconteceu muito por hoje com você. — disse ele.
– Charlie, querida. — disse minha vó preocupada. Não gostava de a ver assim, ainda mais quando eu era o problema. — Apenas descanse, eu vou preparar lanche para você. Rapazes vão querer também ?
– Não, obrigado. Já estamos de saída. — responde John se dirigindo à porta. — Se cuide, Charlize.
Dimitri se inclina dando um beijo em minha testa e sussurra em meu ouvido:
– Eu não vou estar na cidade durante uns dias. Então, não tente fazer nada de idiota, por favor. — súplica ele.
– Igualmente. — respondo séria para disfarçar meu medo que estava por ele.
Ele afasta um pouco seu rosto e olha dentro de meus olhos, mas desvio seu olhar.
– O que foi ? — perguntou ele sério e sombrio. — Teve algum algo você que viu ?
– Talvez tenha visto, ou não. — respondo sarcástica voltando meu olhar ameaçador a ele.
Pela expressão de Dimitri percebi que ele sentiu-se tentado à rebater minha resposta, mas ao invés de dizer Dimitri me beijou lentamente, porém recuei.
– Eu te vejo em alguns dias, então. — disse ele calmo.
– Está bem. — digo querendo me livrar dele.
Dimitri caminhou até Rob e se inclinou sussurrando algo em seu ouvido. Rob apenas assentiu calmo.
– Vamos. — disse Dimitri com John, que esperava ele na porta.
Antes que Dimitri fosse embora, me deu uma última olhada delicada e se foi embora.
– Rob, o que ele falou contigo ? — pergunto demonstrando todo meu medo depois de ter certeza que Dimitri havia ido.
– Ele pediu para tomar conta de você. — responde Rob revirando os olhos e vindo sentar do meu lado na cama. — O que foi, Charlie ?
– Lembra do meu aniversário, quando eu achei ter visto alguém pulando da árvore e depois não tinha ninguém lá fora ? — relembro.
– Sim, o que tem ? — pergunta ele, mas depois pensou um pouco. — Espere, está achando que foi Dimitri naquela noite ?
– Eu vi, juro que vi. — replico. — Não acho que desmaiei, mas conseguir ver uma das lembranças dele. Isso faz sentido ?
Achei que Rob fosse rir da loucura que falei, mas ele ficou pensativo no assunto.
– Rob, me responda. — imploro.
– Eu não posso, me desculpe. — disse ele se levantando da cama. — Podem acabar comigo se eu te disser.
Dei um suspiro longo para afastar a raiva. Eu estava com medo e indefesa, mas ninguém queria me ajudar. O que podia fazer ? Estava em uma situação insana da qual todos ao meu redor sabiam o que estava havendo comigo, porém eu era a única à qual não sabia.
Me levantei da cama e abri a janela do quarto a atravessando. Me sentei no telhado e olhei para o céu tomado pela escuridão, as nuvens tapavam a lua, mas pequenos raios de luz vazavam das frechas.
Rob me segue e senta-se ao meu lado.
– Está com raiva de mim ? — pergunta ele.
– Não só com você, mas com todos. — justifiquei. — Rob, tem algo acontecendo comigo e eu quero saber o que é, mas toda vez que tento achar uma resposta, quebro a cara com tudo. Me sinto desamparada e frustrada todo o tempo.
Ficamos em silêncio durante um tempo, até eu dizer:
– Quanto tempo eu tinha ficado apagada ? — perguntei pelo sol surgindo no horizonte.
– Cerca de uma hora. — responde ele.
Depois de mais um longo silêncio, Rob diz:
– Eu preciso ir, minha mãe deve estar pirando.
Ele se inclina e beija minha bochecha.
Entramos em meu quarto e me despeço de Rob mais uma vez. Ele estava indo embora quando voltou e me deu um sorriso simpático e diz:
– Te vejo amanhã, diva. — disse ele rindo.
Devolvi o sorriso e digo.
– Até mais, princeso.
Me deito em minha cama e fico olho o teto como ele tinha um cor neutra e vazia, até adormecer em um sono profundo.
Os dias seguintes foram nebulosos e longos. Rob tentava me animar sempre que podia, mas apenas sorria para que ele não se preocupasse tanto, fazia o mesmo com minha avó. Clarice disse que não se lembrava de nada quando estávamos no refeitório. O que me preocupou bastante e fez com que eu desconfiasse de que John tivesse feito algo com ela.
– Clarice, como você está ? — perguntei me sentando ao seu lado.
John estava sentado do outro e me lançou um olhar, que entendi para ficar quieta.
– Estou bem, porquê ? — perguntou ela dando um sorriso confuso.
– Você não se lembra de nada da noite passada ? — perguntei mais uma vez me atrevendo à ignorar John.
– Não, eu... eu... eu não lembro o que fiz noite passada. — disse ela franzindo as sobrancelhas em dúvida. — O que houve ontem ?
– Nada, só estava curiosa. Nós não temos conversado muito nesses últimos dias, então... perguntei. — minto dando ombros.
– E você anda muito calada, isso não é normal. — brinca Rob depois de ter bebido seu suco de uva.
Todos nós rimos com exceção de John, que estreitava os olhos para mim e Rob.
Assim que terminamos de comer, Clarice teve que ir correndo para biblioteca terminar uma pesquisa de química. Rob estava ao meu lado e entendeu a olhada que lhe dei enquanto passamos no correndo junto com John. Rob o empurrou contra a parede.
– O que fez com ela ? — perguntei furiosa.
– Não sei do que está falando. — disse John sarcástico.
– Ah, não sabe ? — perguntei irônica. — Então, vamos fazer o seguinte. Se você me disser o que fez com Clarice, Rob não quebra seus braços. Fui clara ? — tentei ser mais ameaçadora possível, mas não deu muito certo, pois John começara à rir.
– Você é hilária, Charlize, mas isso não me apavora. Ainda mais dizendo que ele — disse John apontando para Rob. — é capaz de me machucar. Por favor, acredito mais em você quebrando meus braços do que nele o fazendo.
Olho envolta do corredor e estava vazio. Dei ombros e falei :
– Tudo bem, então eu faço.
Pego o braço de John e torço. Ele não grunhiu nem gemeu de dor, apenas riu. Aquilo só me deixava com mais raiva e torcia mais e mais forte. Quase deslocando o braço dele. Não demorou muito para ele grunhir e dizer:
– Você não tem coragem de me machucar.
– Ah, não tenho ? — zombo e giro seu braço com força, sem me preocupar em feri-lo.
– Está bem, eu digo. — grunhiu John.
– Ah, como é bom fazer as pessoas falarem. — cantarolei o soltando.
John se ajeita e olha para mim, carrancudo.
– Ela não se lembra o que houve, é isso. — disse ele sarcástico. — Ela não se lembra de nada, porque nunca houve aquilo. Tudo bem ? Não quero que ela saiba o que aconteceu.
– Ora, seu... — reclamo indo para cima dele, mas Rob me detêm.
– Esquece, Charlie. Ele não vai nos dizer nada, são ordens de Dimitri. — disse Rob me segurando.
– Como assim ordens ? — sussurro para Rob. — Porque ele ordenaria que esse idiota fizesse Clarice esquecer de tudo o que houve ?
– Não é possível que você ainda não tenha percebido. — ri John. — É tão óbvio, eu percebi quando tinha quinze anos. Como você não consegue ?
– Do que está falando ? — perguntei quase socando ele.
– As respostas de todas as suas dúvidas estão à sua frente. Dimitri tem razão, você é lerda para tudo. — responde John. — Não sabe ver através dos fatos.
– Some da minha frente, agora! Antes que tome a iniciativa de quebrar seu pescoço. — falei com sarcasmo para não demonstrar a raiva que borbulhava dentro de mim. — Mas antes, se eu te ver perto de Clarice, corto seu "brinquedinho" antes que perceba. Fui clara, John ?
Ele não responde, apenas me encara. Rob estava segurando meu braço para caso eu avance em John.
– Perguntei, eu se fui clara! — berrei.
– Sim, foi bastante clara. — responde ele com um sorriso no canto da boca.
Ele caminha lentamente até meio metro de mim e Rob, nos olha por cima do ombro e diz:
– Espero que seus sonhos sejam mais doces a partir de agora.
Meu corpo todo se tencionou em choque e tontura. Estremeci arduamente perante as palavras de John. Meus sonhos não estavam sendo agradáveis comigo nos últimos dias.
Ele foi embora e desmorono em lágrimas no ombro de Rob.
– Charlie, vai ficar tudo bem. — fala ele acariciando meu cabelo. — Você vai conseguir sair dessa.
– Como ele sabe dos meus sonhos ?. — murmurei entre dentes.
Depois daquele momento. Eu fiquei mentalmente instável. Pensava sem parar naquela visão e nos meus sonhos, que a cada dia estavam me assustando.Toda noite acordava gritando desesperada, via pessoas em formas estranhas, rostos que murmuravam palavras incoerentes e asas peroladas levantando voo. O que mais me deixava desamparada, era minha avó vindo todas as noites vindo me acalmar e seus olhos crepitavam preocupação e tristeza. Eu achava que não poderia ser real, só apenas fosse algo que criei em minha mente. Eu poderia ter mesmo desmaiado como Dimitri alegara, mas na realidade estava querendo mentir para mim mesma que não poderia ser daquela forma. Não podia aceitar o fato de tudo aquilo ser verdade, me dói pensar em cada vez que fui tola de confiar em Dimitri, cada vez que deixei ele tocar em mim, cada beijo que me tirou o fôlego; fosse em vão.
O que ele queria de mim ? E porque eu sou tão especial à ponto de todos esconderem tudo de mim ? Qual era o meu problema ? Porque eu tinha a impressão de que o conhecia ?
Sinceramente, não sei bem se quero descobrir isso tão cedo.
Fazia duas semanas desde que Dimitri estava fora. Não que me importasse, porém tínhamos que conversar. Assim como Dimitri, Ravenna não se pronunciara desde que a encontrei na cozinha, chamei-a diversas vezes até em meus sonhos, mesmo sendo de tortura e terror, tentava uma forma de comunicação, ainda assim nada ocorria.
Estava sentada na mesa de minha escrivaninha fazendo deveres de casa, infeliz e preocupada. Havia dias que memorizara o endereço que meu pai tinha anotado e o queimei como tinha ordenado. Precisava conversar com ele também.
– Olhe, ela sabe escrever. — brinca Rob encostado no batente da porta do meu quarto.
Estava tão presa em meus pensamentos e no dever, que não tinha sequer notado sua presença.
– Você nem é bobo, não é mesmo ? — rebato rindo.
– Como está ? — pergunta ele se encaminhando e sentando na poltrona.
– Cansada e com sono. — digo sorrindo e esparramando na cadeira de rodas.
Não estava nem um pouco entusiasmada, mas aquela era a forma de entreter Rob para que não ficasse preocupado. Então, era o que tinha de fazer.
– Ah, isso é normal. — disse ele rindo, mas seu sorriso vacilou por um momento. — Ainda está pensando nisso. Charlie, esqueça isso, por favor. É melhor para todos e para você.
– Você disse que não iria ler minha mente sem permissão. — rosnei.
– Sinto muito, mas a situação em que você se encontra tenho que ler. Você não fala nada para não preocupar eu ou sua avó, mas não percebe o quanto te afeta tudo isso. — disse Rob. — Você ainda está preocupada com aquela "visão" de Dimitri ?
– Estou, mas é muito confuso. — digo pensativa. — Não consigo compreende como todas as coisas podem acontecer à uma só pessoa. — dramatizei um pouco.
– Quando Dimitri voltar, pergunte à ele. — disse Rob fazendo uma careta de desgosto.
– O que quer dizer com isso ? — pergunto com as sobrancelhas franzidas.
– Ele pode te dizer o que precisa saber ou... — ele sugere e me olha de maneira curiosa.
– Ou ? — pergunto curiosa.
– Ou você pode descobrir sozinha. — continua ele dando ombros.
– Sozinha ? — rio sem humor. — Como ?
– Onde está aquele medalhão que eu te dei ? — perguntou ele relaxado em minha poltrona.
Tento lembrar onde havia colocado o medalhão.
– Aguardado, porquê ? — pergunto sem entender.
– Não o perca. — pede Rob. — Vai por mim.
– E porquê tanta preocupação com um medalhão ? — zombo. — Ele vale uns dez mil dólares ?
– Não, estou falando sério. Eu sei que parece estranho, mas é o que posso te dizer no momento. — disse Rob olhando a vizinhança pela janela.
– Tudo bem, Dumbledore. Vou fingir que entendi seu conselho. — zombo de novo. — Agora, me ajude à fazer o dever ? Ou o princeso não trouxe o dele e vai tirar foto do meu ?
Rob não me responde, ele apenas me lança um olhar de diversão e mostra a língua, como uma criança.
– Depois eu quem sou criança. — murmurei.
Rob me ajudou à fazer o dever no final das contas, e em seguida tirou foto para copiar em seu caderno mais tarde.
Acabei por cochilar na cadeira de rodinhas e acordo com Rob me colocando em seu colo.
–Desculpe, não quis te acordar. — sussurra ele comigo em seu colo.
– Tudo bem, relaxe. — digo sonolenta.
Ele me coloca na cama, beija minha testa e vai em direção à porta.
– Rob. — chamei.
Rob se vira dando seu sorriso simpático.
– Sim ? — pergunta ele.
– Fica aqui. — peço envergonhada encolhendo os ombros.
Sinto minhas bochechas corarem rapidamente e levando a vermelhidão para todo o meu rosto.
Rob hesitou por momento, achando que fosse alguma brincadeira, mas quando viu que eu estava falando sério. Se encaminhou até minha cama e se deitou.
Ficamos de frente um para o outro nos encarando.
– Você sempre foi tão feio assim ? — provoco.
– Não, só quando estou com você mesmo. — rebate ele sorrindo.
– Idiota. — retruco rindo.
– Chata. — disse ele.
Fecho os olhos e suspiro. Sinto a respiração de Rob em cima de meu rosto e dou uma risada sem humor.
– Se você me beijar, te dou um soco. — aviso.
Abro os olhos e ele me fitava bem próximo de meu rosto.
– Isso não vai ser necessário. — disse ele sorrindo. Seu sorriso era lindo.
– Então, se ajeite que vou deitar no meu novo travesseiro. — digo fazendo uma careta preguiçosa.
– E seu travesseiro novo seria eu ? — perguntou ele com as sobrancelhas arqueadas e eu assenti, ele continuou. — Tudo bem, então. — e riu.
Deitei minha cabeça no peito de Rob colocando meu braço envolta de seu tórax, ele acariciou meu cabelo fazendo com que eu adormeça depressa.
Tenho um sonho no qual a noite era fria, o céu estava como um diamante de tantas estrelas revelando seu brilho. Estava sentada em um telhado de uma casa antiga com um estilo rústico e clássico, me lembrava muito casas francesas. Ao meu lado tinha uma janela aberta, vinha um notas musicais de jazz e blues numa sintonia sensacional.
Percebi, próximo à janela, uma garota com máscara de baile estilo de borboleta e um vestido longo verde-escuro. Ela estava elegante, mas sua postura demonstrava tristeza; ela usava um acessório que me pareceu familiar, era um medalhão com uma rosa azulada e asas...
O medalhão de Rob... , penso.
Eu reconheci um pouco do rosto dela, embora esteja de máscara. Parecia...
– Gwyneth ? — me assusto.
– Está se escondendo ? — perguntou uma voz vindo da janela. Eu a reconheci tão bem, que os pelos de meu corpo se arrepiaram.
– Desgraçado... — murmuro.
Dimitri estava vestindo um terno com riscas de giz e uma máscara preta, ele passou pela janela e ficou em pé no telhado.
– O que faz aqui ? — perguntou ela assustada.
– Estou me sentando no telhado junto com uma amiga. — responde ele com um sorriso maldoso e sentando-se ao lado de Gwyneth.
– Você entendeu o que quis dizer. — disse ela estreitando os olhos para ele.
– Está bem. — disse ele suspirando e tirando a máscara. — Eu soube da festa e que você viria, então... aqui estou.
Dimitri estava o mesmo até no corte de cabelo, só que estava penteado para trás. Ele estava tão bonito que os olhos de Gwyneth brilhavam quando olhava para ele.
– Não devia estar nesse bairro. — comenta ela. — Sabe o que acontece quando pessoas como você vem para cá ?
– Não, o que acontece ? — disse Dimitri sarcástico com um brilho desafiador nos olhos.
– Você é um tolo! — esbraveja Gwyneth. — Qual é seu problema ? Quer tomar mais uma bairro para não termos onde morar ?
– Não quero tomar bairro nenhum. — fala Dimitri com doçura. — Vim aqui para lhe ver. Queria saber como está e pelo visto, você parece triste. O que houve ? — ele acaricia a mão dela e lhe observa.
– Meu pai quer que mudemos de cidade. — disse ela triste quase chorando e tirando a máscara. — Eu não quero ir embora, minha vida é aqui em Nova Orleans, não em uma cidade pequena. E ainda mais longe de você.
Então, estou Nova Orleans ,penso.
– Para onde vai morar ? — perguntou ele pensativo.
– Em Aberdeen, Dakota do Sul. Me pai acredita que seja bom nos estabelecermos em uma cidade pequena. — disse ela apoiando a cabeça no ombro de Dimitri.
– Quando vai ? — perguntou ele colocando os braços ao redor de Gwyneth.
– Daqui há três meses. — responde ela chorando.
– Não chore, Gwen. — pede ele. — Iremos nos ver.
– Não quero te deixar. — fala ela chorosa olhando nos olhos de Dimitri. — Me peça em casamento ou vamos fugir juntos, mas eu não quero ir. Não posso te deixar.
– Ainda temos tempo, querida. Vai ficar tudo bem. — disse ele a acalmando.
– Então, eu quero aproveitar esse tempo agora. — disse ela sentando no colo de Dimitri de pernas abertas e o beijando.
Eles ficaram num beijo longo e intenso.
– Eu te amo. — murmura Gwyneth com os lábios sob os de Dimitri.
Ele olha dentro dos olhos dela e acaricia seu rosto, voltando a beijá-la. Gwyneth desabotoa a camisa Dimitri e ele tenta achar a abertura do vestido. Eles pararam e se entre olharam indo para dentro da casa.
– O que está acontecendo aqui ? — perguntei a mim mesma em choque.
Escutei Gwyneth gritar. Corri para dentro da casa e percebi que ela estava rindo. Dimitri estava com Gwyneth contra a parede e beijava o pescoço dela, mas ela sentia cócegas com uma gargalhada alta e exagerada, embora seja contagiante.
Nós temos a mesma mania, penso. Que... ridículo...
Noto o local e estávamos em um escritório. Ali, havia estantes de livros, uma escrivaninha, que sob ela tinha uma máquina de escrever antiga, um abajur e um porta canetas de mogno. Poltronas e um sofá de couro no meio da sala, um tapete persa bem interessante.
– Pare, por favor. — ri ela. — Minha barriga dói.
Olho para eles dois encostados na parede, abraçados.
– Já te disse o quanto gosto da sua risada ? — disse Dimitri rindo junto.
– Não, mas gostaria de escutar mais uma vez o célebre elogio do Sr. Taylor. — Gwyneth gargalha mais.
– Taylor ? — penso em voz alta. — Mas o sobrenome dele é Reese.
– Está ficando mal acostumada. — brinca ele.
– Você quem me acostumou desse jeito. — rebate Gwyneth com um sorriso malicioso.
– Acho que vou vomitar. — resmungo.
– Eu fico pensando em como seria ótimo acordar ao seu lado e ouvir o som da sua risada de manhã, é uma perfeita forma de começar o dia bem. — elogia Dimitri.
– Meu anjo, isso foi a coisa mais linda que já disse antes. — Gwyneth dá sorriso suave.
Fico pensando em Dimitri, ele era tão diferente do que é hoje. O que teria mudado ?
A expressão de Dimitri havia mudado para séria.
– O que foi, meu bem ? — perguntou Gwyneth preocupada.
– Acho melhor sentar-se, preciso lhe contar uma coisa. — disse ele acariciando com o polegar o queixo dela.
Eles se sentaram no sofá.
– Diga o que é. — diz Gwyneth segurando delicadamente a mão de Dimitri.
– Eu quero que você vá com seu pai. — disse ele beijando a mão de Gwyneth, mas ela a puxa, intrigada.
– Alguns minutos lá fora, você implorava para que eu não chorasse e que ainda tínhamos tempo para pensar nisso. — disse ela com amargura nas palavras. — Agora, você tem a coragem de me olhar e dizer que tenho de ir embora ? — ela olhou para janela a fora com os olhos marejando em lágrimas.
– Gwen, olhe para mim, por favor. — pede Dimitri e espera, mas ela era teimosa. — Se não quer olhar, apenas escute. Eu não posso ficar com você, sabe o quanto é arriscado para você não para mim. Me importo com você, de verdade.
– Não se importa, não. — retruca ela, furiosa. — Eu sou apenas uma diversão para você, eu devia ter escutado Wendy antes. — volta seu olhar para Dimitri.
– Não posso deixar você aqui, não entende. — berra Dimitri para que ela o deixasse falar.
Assim como eu, Gwyneth se assustou. Os pelos em seus braços nu erguiam-se de medo.
– Me desculpe, me desculpe. — disse ele tentando se controlar. — Você tem que ir e fazer sua vida por lá. Eu quero te proteger, se ficar aqui pode morrer e venho lutando para que isso não aconteça, porque eu não consigo mais te perder todo o tempo. — ele fecha os olhos e suspira fundo. — Eu quero te ver envelhecer e ter uma vida maravilhosa, mesmo que eu não faça parte dela.
Ao invés de Gwyneth se aproximar dele, eu o faço. Olho para o rosto de Dimitri que se contorcia para não cair em lágrimas.
– Qual é o problema comigo ? — pergunta ela.
Sinceramente, quis dar um soco em Gwyneth. Ela não via o quanto Dimitri estava se esforçando para lhe dizer aquilo, eu não o conheço muito bem neste tempo, mas sabia o suficiente para ver quando ele estava preocupado.
– Eu não sei se te conto tudo ou, se conto o necessário. — murmura ele pensando.
Ela se aproxima dele e praticamente me atravessa, nós duas estávamos tendo uma visão única de Dimitri. Gwyneth toca no rosto dele receosa com a reação de Dimitri, mais ainda assim o fez. Embora, eu reconheça que ela esteja assustada.
– Me diz tudo o que preciso saber. — disse ela olhando de forma doce e inocente para ele.
– Você foi amaldiçoada...
Quando ele estava prestes à dizer, acordo com o barulho do despertador.
– Não! — grito ficando sentada na cama. — Não!
Acordo aterrorizada me contorcendo e cravando as unhas no braço de Rob sem ter percebido até ele gritar de dor.
– Charlie, meu braço! — berra Rob se sentando também e tentando tirar minhas unhas de seu braço.
Paro de me contorcer e solto o braço de Rob. Me afogo em lágrimas.
O que estava havendo comigo ? ,penso.
Rob me puxa para aninhar em seu peito e envolve-me com seus braços, onde eu fiquei chorando por um longo tempo até Pearl abrir a porta e nos ver.
– Foi só um pesadelo. — digo à Pearl. — Me desculpe.
Ela apenas assente reprimindo um choro e sai do quarto.
– Seu braço. — murmurei chorosa para Rob. — Como está seu braço ?
– Está bem. — responde Rob. — Não se preocupe com isso agora.
– Deixe-me ver. — disse eu puxando o braço de Rob e passando a mão por cima do seu braço.
Ficamos um tempo calados. Rob estava acariciando meu cabelo e eu olhando para o que tinha feito em seu braço, que cicatrizou pouco depois do incidente.
– Você está bem ? — sussurra Rob em meu ouvido.
– Não, não está nada bem. — digo mais calma. — Eu não aguento mais. O que eu sou ?
– Charlie, você tem descobrir sozinha, faz parte do processo de mudança. Ninguém pode te dizer. — disse Rob me apertando mais contra seu peito.
– Por favor, me diz. — disse eu olhando dentro dos olhos dele. — Eu preciso saber.
Rob engoliu em seco e acariciou meu rosto.
– O que houve no sonho ? — perguntou ele.
– Está preocupado com o sonho... — digo indignada.
– Apenas responda. — interrompeu Rob.
Eu entendo que Rob esteja preocupado comigo, mas isso era algo que eu tinha de discutir com Dimitri, por mais que eu odiasse ter de fazer isto.
– Não consigo me lembrar de tudo, apenas de fragmentos. — minto.
Para cá, Gwyneth veio para Aberdeen três meses depois daquela conversa com Dimitri, murmuro em minha mente sem parar. Ele veio também ? Eles tiveram uma filha ? Quem era a filha de Gwyneth ?
– O que houve nesses fragmentos, Charlie ? — perguntou Rob.
– Eu fui... — digo reprimindo uma crise de choro.
– O que, Charlie ? — pressiona Rob.
– Eu não sei... — respondo. — Estou amaldi...
– Amaldiçoada ? — pergunta Rob.
Estreitei os olhos para ele e pergunto:
– Você sabe, Rob ?
– Não, eu não sei. — responde ele dando ombros.
Ele estava mentindo, penso.
Me irritei e empurrei Rob, mas ele me agarra pela cintura. Me debato em seu aperto.
– Me solta! — falo com uma criança mimada esmurando seu peito.
– Charlie, pare. — pede Rob.
– Não, pare você! Pare de mentir para mim! — falei entre dentes me cansando de debater.
– Charlie, eu sinto muito. — disse Rob me abraçando. — Mas eu não estou mentindo para você.
– Vai embora. — explodo. — Vai embora, Rob. Eu não quero mais falar com você.
– Charlie... — gagueja ele. — Vo-você não está pensando direito. Está furiosa, eu entendo. Mas...
– Robert, eu estou pensando perfeitamente bem. — disse eu sarcástica. — Você mente e esconde coisas de mim, você não é diferente de Dimitri em nada.
Rob olha em meus olhos e me solta de seu abraço. Ele se levanta e caminha até a porta parando.
– Mesmo você agindo desse jeito, eu não vou desistir de você. — disse ele por cima do ombro.
– Devia desistir e recuperar sua antiga vida de antes de me conhecer. — resmungo para ele.
– Sabe porque eu fiz aquilo ? — disse Rob se virando para mim. — Porque todos te julgavam por a acharem estranha e a história do seu sequestro sendo dita o tempo todo nos corredores quando passava. Eu nunca gostei daquilo, porque via uma garota triste, doce e linda que passou por um momento difícil na vida e estava tentando recomeçar, por isso eu abandonei todos meus antigos amigos para você não se sentir sozinha. Fiz isso por você.
Aquilo era verdade. Rob foi popular antes de me conhecer. Abandonou tudo quando se aproximou de mim, preferia sair comigo do que toda a vida que ele levava antes. Eu estava sendo egoísta, admito, mas eu não aguentava o fato de não saber o que estava acontecendo comigo. Eu devia ser uma pessoa melhor com ele, afinal, ele fez tanto por mim.
Me levanto da cama e coloquei meus braços envolta de seu pescoço, abraçando Rob.
– Eu sinto muito. — disse eu o apertando mais. — Odeio te deixar preocupado e deixar minha avó... minha avó está abalada. Eu não sei o que fazer, Rob. Me desculpe se eu sou grossa, impaciente e imbecil com você.
Estava me sentindo estranha. Como se uma parte de mim quisesse beijar Rob, eu queria ficar próxima dele mais ainda.
Afastei meu rosto, olhando dentro dos olhos de Rob, acariciei seu rosto e olhei para seus lábios, assim que voltei meu olhar para seus olhos, eles brilhavam encantados.
Espere, aquela não era eu. Eu nunca quis e nunca pensei em Rob dessa forma, o que mudou assim de repente para tomar uma atitude com essa ? Eu não sou assim. Sou Charlie Stevens, a garota mais estranha da Aberdeen High School e não apaixono facilmente, principalmente, se for meu melhor amigo.
– Acho melhor eu dormir. — digo abaixando o rosto envergonhada por ter feito aquilo.
Rob assentiu e beijou o canto de minha boca. Corei instantaneamente.
Isso foi... desnecessário ,penso.
– Até amanhã. — disse ele com um leve sorriso no canto da boca.
– Até amanhã. — digo nervosa.
Vejo Rob indo embora pela janela do quarto. Ele acena e buzina quando sai.
– Ele pensou voltar e lhe beijar loucamente, mas acho que você não fosse gostar muito. — avisa Ravenna atrás de mim. — Se fosse você, não hesitaria em retribuir o beijo.
Me assustei quando ela falou.
– Como é ? — digo com a mão em minha testa.
– Olá para você também. — disse Ravenna dando um sorriso meigo.
Ravenna havia mudado novamente. Ela estava menos pálida e suas asas estavam mais suaves e as cicatrizes estavam menos aparentes.
– Porque cada vez que a vejo está... diferente ? — pergunto.
– Sinto que fica desconfortável com minha aparência medonha, o que posso dizer que é bastante compreensível. — responde Ravenna. — Por isso, eu mudo aos poucos. E... você está fraca.
– Jura ? — ironizo. — Não tinha percebido antes.
– Quis dizer que sua aura está fraca. — disse ela. — Temo que algo ruim possa acontecer à você.
– Isso é a menor das minhas preocupações agora. — comento. — Então, porque sumiu ?
– Estava poupando minhas energias. Toda vez que falo com você, fico fraca. — resmunga ela.
– Esse tempo todo ? — digo desconfiada.
– Acha que recupero isto de uma hora para outra ? — retruca Ravenna. — Isto leva tempo.
– Então, você recupera sua energia através de mim, me deixando fraca enquanto você ficar bem. — supus. — É isso ? — levanto uma das sobrancelhas.
Ravenna apresenta uma expressão de nervosismo e ira.
– Como ousa me acusar desse ato ultrajante ? — esbraveja ela.
– Não estou acusando, apenas perguntando e você acabou de se entregar. — digo. — Mas não quero brigar. Da última vez disse que queria conversar sobre meu pai.
– Sim, enquanto eu estava em silêncio consegui ver algumas informações. — disse ela. — Vá conversar com seu pai sobre sua mãe e pistas que precisam. Qualquer informação é essencial, Charlie, então não esconda nada.
– Está bem. — digo. — Agora, poupe energia e vá.
Ravenna desapareceu como a névoa se dissipando.
No dia seguinte, Rob e eu ficamos tímidos um com outro, mas não levei para o lado pessoal que ele quase me beijou na noite passada, falei normalmente com ele. Assim que eu acabara de chegar do colégio, tomei a decisão de ir até a cabana, que eu e Dimitri nos encontrávamos.
Antes de ir eu tinha ido tomar um banho e trocar de roupas. Ao abrir o armário, um monte de roupas embaralhadas caiu aos meu pés. Organizo roupa por roupa e vejo uma camiseta preta, era a camiseta preta de Dimitri que ele deixara em meu quarto na noite em que nos beijamos.
Resolvi a levar junto comigo até a cabana. Na entrada percebi que a porta estava trancada, mas isso não foi um problema para mim. Eu tinha prendido meu cabelo com um coque alto, nele havia um grampo, no qual retirei de meu cabelo colocando na fechadura e iniciando minha arte de arroba portas. Demorou um tempo, mas eu consegui abrir a porta, — depois do meu sequestro eu treinei para destrancar fechaduras, não me julguem. — assim que entrei, fui recebida com uma lufada de ar com cheiro de mofo, que inundou meu nariz de repulsa. Abri as janelas deixando arejar um pouco de ar fresco no local e deitei no sofá pensativa.
Estou deitada quando ouço o som de galhos se partindo abruptamente. Meu corpo começara à ficar tenso, mas resolvi esperar. Senti uma leve pressão na nuca e algo me dizia que havia apenas uma pessoa por perto.
A porta se abre e me levanto ficando de pé. Dimitri estava entrando e me lançou um olhar de advertência.
– Você abriu a porta ? — perguntou ele sério, assenti e ele continuou. — Com o quê ?
Mostrei o grampo e lhe mostrei um sorriso sorrateiro.
– Me deve uma fechadura nova. — avisa ele.
– Foi mal. — dei ombros.
– O que faz aqui ? — perguntou ele sério.
– Só vim ver como estava a cabana. — respondo.
– E para isso precisa ficar deitada ? — zomba Dimitri ainda com expressão séria. — Bom, eu acredito que não.
– Tudo bem, então. — digo levantando as mãos. — Eu vou embora se é o que quer. — pego sua camiseta e jogo em cima dele. — Tome sua camiseta.
– O que fazia com ela ? — pergunta Dimitri carrancudo.
– Você deixou no meu quarto no dia em que me beijou. — respondo ríspida.
– Que seja. — resmunga ele.
– Onde esteve ? — pergunto tentando controlar minha raiva.
– E porque eu te diria ? — insinua Dimitri dando ombros.
– Qual é o seu problema ? — pergunto irritada.
– Até agora, você. — responde ele com cara de nojo.
– Jura ? — provoco. — Se eu sou seu problema, porque fez trégua com Rob ? Porque me ajudou esse tempo todo ? Porque me vigiava no dia do meu aniversário no alto de um pinheiro ?
– Como sabe disso ? — pergunta Dimitri rude.
– Todos temos segredos obscuros, Dimitri. — disse eu cínica. — Então, vai desmentir ou não ?
– No que você acredita que eu vá fazer, Charlotte ? — fala Dimitri com doçura, mas pelo seus olhos o brilho de malícia era notável.
– Honestamente, Dimitri, eu não sei. Eu não sei qual é o seu joguinho. — digo entre dentes. — E não quero participar dele.
Dimitri me conhecia bem o suficiente para saber quando estou com medo, nervosa ou com raiva — o que era muito fácil de até um cego notar— , mas eu tinha que mostrar para ele que não estava me afetando em nada suas palavras.
– O que você acha que viu ? — pergunta com um sorriso maléfico. — Foi um sonho ou..
Alguma visão, como você diz ? , disse Dimitri em minha mente.
– Como fez isso ? — pergunto dura.
Olhei dentro de seus olhos e a impressão de eu o conhecia antes, estava me perturbando por dentro com a curiosidade de saber como e de onde o conhecia.
– Fiz o quê, minha deusa ? — disse Dimitri cínico e estampando um sorriso malicioso.
Eu não respondi. Balancei a cabeça em negação e o empurrei para sair dali. Dimitri estava me testando, tentando saber qual era meu limite, mas eu não ia deixar tão fácil assim para ele.
– Stevens. — chama Dimitri.
Me virei e esperei ele falar.
– Se você tem algum tipo senso racional, não ande pela floresta sozinha. — avisa.
– Não vou. — disse eu determinada. — Mas... uma garota amaldiçoada não pode ter controle de tudo.
Dimitri deixou escapar por uns segundos a expressão de sério para surpresa e indignação.
– O que disse ? — rosna ele.
– Não disse nada. — disse eu ressentida.
– Charlie... — chama Dimitri duro.
Eu dei as costas à Dimitri e segui meu caminho. Ele estava brincando comigo. Ele sabia o que eu era, mas se ele queria que entrasse no joguinho dele, eu iria. Eu iria jogar do meu jeito.
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