Predestinada - Livro 1

13 Capítulo 13 - Uma noite sem fim


Notas iniciais
Revisão e edição completos Talia mandou "Oie :3"

Estava feliz por ter meu pai ao meu lado, era um momento do qual eu nunca iria esquecer.

– Então, vamos nos sentar ? — pergunta ele sorrindo para mim.

Percebi que ainda estava o abraçando, mas a verdade, é que não queria o largar. Eu tinha medo dele ir embora e me deixar de novo.

– Sim. — respondo o soltando com cautela e nos sentamos.

– Então, como você está ? — pergunta ele com serenidade e calma.

Respiro fundo e começo.

– Estou, você sabe, ansiosa e preocupada. Enfim, várias emoções de uma vez. — digo.

Meu pai ri e olha para mim com atenção.

– Conte-me sobre você, sempre tive uma certa curiosidade de saber como você e Jess cresceram.

Não sabia o que falar de mim para meu pai, mas o que custava tentar.

Contei sobre como foi era minha vida antes e depois de ser sequestrada. Sobre Jess e seus namorados (meu pai apenas ria das maluquices de Jess), contei de Pearl estar arrasada nos últimos anos. Sobre meus amigos, meu pai ficou com ciúmes de Rob.

Não toquei no nome de Dimitri em nenhum momento, algo meu dizia que não deveria contar aquilo à meu pai.

– Eu gostaria de saber mais sobre você. — sugeri sorrindo.

– O que quer saber ? — pergunta ele com o mesmo sorriso irresistível.

– Pode ser tudo ? — brinco.

– Um pouco de cada... coisa. — responde meu pai.

– Tudo bem... — digo pensando em uma pergunta. — Como você se sentiu quando eu e Jess nascemos ?

Meu pai arquea as sobrancelhas, surpreso pela pergunta.

– Bom, foi uma sensação maravilhosa. Nunca me esqueci quando vocês duas nasceram, foi o melhor momento da minha vida. Eu sei que a Jess se parece mais comigo hoje, ela era tão linda quando pequena e... muito falante como Samantha. — ele olha para o nada com um sorriso torto, que mesmo assim o deixava bonito. — E você era tão linda e doce, mas era brava. — voltou a olhar para mim. — Duvido que tenha mudado.

– Como assim ? — pergunto confusa.

Eu não era brava, só um pouco nervosa e sem paciência. Nada mais, certo ?

– Só de olhar, consigo lhe descrever. — explica ele. — Como, por exemplo, quando olho para você, vejo uma garota confusa e com medo, há uma profunda mágoa e tristeza, além da imensa ira dentro de si, pronta para explodir a qualquer momento.

– Está errado. — digo defensiva. — Eu não sou assim.

– Eu nunca me engano quando descrevo alguém. — rebate ele dando ombros.

Noto que meu pai não pareceu envelhecer nada. Estava o mesmo que nas fotos que tinha sua, ele não mudara absolutamente nada. Há não ser pelos olhos, eles estavam mais densos e cálidos.

– Enfim, você sabe que eu fui sequestrada e, não tentou fazer nada mesmo ? — pergunto mudando de assunto.

– Eu tentei fazer contato com algumas pessoas, mas nenhuma me deu uma informação favorável. — disse ele triste.

– Então, tentou mesmo certo ? — insisto.

– Claro. — fala ele calmamente.

– Você nos deixou, porquê ? — pergunto com esforço. Não sabia se deveria fazer aquela pergunta, mas eu tinha de fazê-lo.

– Charlie, entenda uma coisa. — disse ele sério. Seus olhos mudaram, eles ficaram frios e cruéis. — Eu fui embora para proteger vocês. Jamais foi porque não as amava, mas por quê tinha que manter quem queria te machucar longe.

– Eu sei, li no diário da mãe. — digo olhando para o palco. — Quem quer me machucar ? São as mesmas pessoas que me sequestraram ?

– Não sei, não tenho certeza ainda. — disse ele com o rosto ficando raivoso. — Mas quando descobrir, vou fazê-los pagar. Eu te prometo, Charlie. Eu os mato.

Estremeci ao ouvir a promessa de meu pai.

– Entende porque eu queria conversa com você agora ? — argumento.

– O que está pensando em fazer ? — perguntou meu pai.

– Não tenho certeza, mas pelo menos, tenho uma ideia. — digo pensando.

– Você está louca se vai procurar sua mãe. — disse ele.

– Porque ? — indaguei. — Ela é minha mãe. Eu tentei ter uma vida normal até onde pude, porém sabendo que ela poderia estar viva e sendo mal tratada. Qual tipo de filha eu seria, se não tentasse pelo menos, ir atrás dela ?

– Entendo. Entendo mesmo. — disse meu pai. — Mas... você quer mesmo se meter com aquelas pessoas ? — ele direciona o olhar ao palco. — Eles vão querer te matar e, não estou brincando.

– Eu vou fazer o que for preciso para ter minha mãe de novo. — afirmo.

– Mas você tem alguma pista algo assim ?

– Vai me ajudar ? — pergunto surpresa.

– Você acha que eu devo ? — pergunta ele sorrindo.

– Sinceramente, sim. É meio que sua obrigação como pai, sabe. — brinco.

– Isso é sério ? — disse meu pai confuso e depois seu sorriso se aumenta.

– Então, vai mesmo me ajudar ? — pergunto de novo.

Para mim, aquilo parecia um sonho. Um sonho do qual não poderia se realizar, mas cá estou eu, conversando com meu pai. Diante de toda essa empolgação, lembrei de Pearl ter dito para não confiar em ninguém.

– Você me dá sua palavra de que irá me ajudar ? — perguntei.

Meu pai se remexeu na cadeira desconfortável.

– Esse lance de palavra não funciona bem comigo, Charlie.- argumenta meu pai voltando seu olhar mais um vez para o palco de apresentações. — Mas eu posso tentar.

– Não, você vai ter que me dar sua palavra, se não eu faço isso com ou sem você. — digo séria.

Meu pai suspirou alto, impaciente. Antes dele me dar qualquer resposta que fosse, Alanna havia subido no palco de apresentações e pegando um microfone.

– Olá, pessoal. Boa noite. — falou Alanna pelo microfone. — Uau, hoje está bem cheio. O que é bom!

Observo em volta, pois tinha achado estranho ela ter dito que estava cheio o local. E realmente era verdade, eu não havia me dado conta do quanto estava lotado o lugar.

Minha nuca começou a formigar, assim que vi Letícia próxima do palco. Ainda assim, o formigamento aumentou e, percebi que se tratava de meu pai. O formigamento era doloroso, mas suportável.

Que estranho, não estava sentindo isso antes, penso.

– Vamos ter umas apresentações especiais. — continuou Alanna. — E com vocês, Letícia Dale cantando um cover de Thinking Out Loud. Manda ver, ruiva!

A plateia ri e olhavam para o palco que Letícia subia junto de um violão azul. Ela estava vestindo um casaco vermelho escrito Tokyo na frente, por baixo uma blusa bege. Um short jeans junto de tênis florido.

– Oi, boa noite. Sou Letícia. — disse ela sentando-se numa cadeira alta com o microfone na frente.

Ela começou a cantar. A sua voz era suave e calma, mas hipnotizante.

Assim que voltei meu olhar para meu pai, ele estava muito tenso e pálido, como se tivesse visto um fantasma. Mas sua expressão de imediato se alterou para calma e terna, quando notou que estava sendo observado.

– Eu topo. — disse ele sem olhar para mim. — Você tem minha palavra, no que precisar conte comigo.

Ele tira uma caneta do bolso e me olha.

– Tem papel ?

Vasculho minha bolsa e não tinha. Então, lhe dei o guardanapo que não usei. Ele escreveu um endereço.

– Memorize esse endereço, depois queime o papel. Ninguém pode saber disso. Nem Pearl.

Assenti.

– Eu queria fazer uma última pergunta. — digo meio envergonha por fazer muitas perguntas. — Você apareceu para mim, algumas noites atrás dizendo para não o procurar e até pelo celular disse o mesmo. O senhor realmente não queria que o encontrasse ?

– Querida, entenda. Eu fui embora para ninguém tirar sua paz. Para ninguém fazer você sofrer pelo o que eu fiz, mas meus esforços não valeram de nada. — conta ele. — No final, você e sua mãe foram sequestradas. E não, não queria me encontrar com você por vergonha do que fiz e por ter ficado como um idiota sem poder fazer nada. Não queria te envolver no meu mundo e de sua mãe, ela entrou nessa por minha causa, porém de qualquer modo ela iria entrar. E, se eu pudesse tirar você enquanto ainda tenho tempo, eu teria de me afastar.

– Eu entendo completamente. — digo entristecida. — Eu li sua carta, minha mãe tinha a guardado. Entendo o que fez por nós, para que ficassemos seguras.

Meu pai sorri e diz:

– Eu tenho que ir, querida. — me oferecendo um sorriso aconchegante.

– Eu também. Pearl vai me matar se souber que não estou na biblioteca. — digo pegando minhas coisas na mesa.

– Mentiu para Pearl ? Para se encontra comigo ? — pergunta ele rindo. — Uau, está mesmo querendo minha ajuda.

– E te conhecer também. — disse eu encolhendo os ombros.

– Venha. — disse meu pai de pé com os bracos abertos para um abraço.

Não hesitei. Abracei-o muito forte, não queria que ele fosse embora. Eu o queria perto sempre. Queria chorar em seu ombro.

A dor era lastimável e infinita. Ter ele por perto, era como ter uma parte viva de minha mãe junto. A presença dela estava tão viva entre nós, que não duvidava em abrir os olhos e ela estaria parada nos olhando com seu sorriso caloroso. Mas quando abri os olhos, ela não estava lá. Apenas sentia sua presença e, isso me doía por não tê-la.

– Nós vamos encontrá-la. — disse meu pai afagando meu cabelo. — Eu te fiz uma promessa e não quebro minhas promessas.

– Eu sinto como se ela estivesse aqui. — confesso.

– Calme-se, querida. Vai ficar tudo bem.

Me afasto de seu ombro e limpo minhas lágrimas. Noto que meu pai me observava entristecido.

Ele deveria sentir uma dor insuportável, ele a amava demais. Imagino como deve ter sido difícil nos deixar.

Em pensar que Jess e Pearl diziam que eu não deveria o conhecer, era uma completa bobagem. Eu o conheci de maneira que elas não entenderiam. Eu contei toda minha vida para ele (exceto por algumas partes em relação à Dimitri), isso quer dizer que tenho confiança em meu pai.

– Nos veremos em breve, mocinha. — disse ele dando um beijo em minha testa e indo até a saída.

Antes que eu pudesse ir embora também, Letícia caminha em minha direção. Ela estava pálida.

– Você está bem ? — perguntou ela.

– Estou bem, sim. — disse eu pensando que estava com o semblante de choro.

– Não precisa mentir. — disse Letícia colocando uma das mãos em meu ombro e o afagando. Aquilo me tranquilizou. — Você não está bem, consigo ver em seus olhos. Quer um chá ou uma água ?

– Não, obrigada. — sorrio para ela. — Estou bem, eu só... preciso ir.

– Está bem, mas não chore. Vai ficar tudo bem. — encoraja ela. — Seja o que for, vai se resolver.

– Obrigada. — digo. — Até mais, Letícia.

– Até mais, Charlie. — se despede ela.

Dirijo até em casa pensativa e cansada. Quando estaciono o carro na porta da garagem, noto uma figura encapuzada pelo retrovisor; minha nuca de primeiro instante formiga. Me viro para olhar, mas não havia ninguém.

– Estou oficialmente louca. — murmurei.

Assim que fico de frente a figura está parada me observando.

Engoli em seco.

Ligo o carro, mas figura já estava no lado do banco do motorista. Ouço uma risada suave e alegre, aquilo havia me enfurecido. Desligo o motor e desço do carro pronta para dar um soco, porém a figura agarra meu braço e me puxa para perto.

– Você é retardo, Rob ? — pergunto o encarando.

Ele ri e sinto o cheiro de seu hálito, era puro álcool. Dava para sua boca entrar em combustão pela quantidade que deveria ter consumido.

– Você está bêbado ? — perguntei.

– O que você acha ? — disse ele enrolado. — Claro que não... ou sim. Não sei. E que diferença faz ?

– Muita, acredite. — digo. — Porque bebeu ?

– Bom... eu não sei. Quer dizer, sei. Eu estava, sabe, com muita raiva ainda daquele merda do Dimitri, mas lembrei que fizemos uma trégua e não posso quebrá-la por você. — explica Rob. — Ainda assim, não aguento ver vocês juntos. É ruim. Ele não é tão bom como você imagina, Charlie. Deveria ficar com alguém que pense na sua segurança antes que tudo.

– Você quer dizer alguém como você ? — deduzi.

– Porque não me dá uma chance ? — pede ele como uma criança. — É só isso que te peço.

– Rob, você está bêbado. Não tem noção do que está dizendo. — replico. — Eu gosto muito de você, muito mesmo. Mas não desse jeito.

– Por favor, só tenta. Eu sempre fui apaixonado por você. Tenta por mim. — implora Rob com o rosto muito próximo do meu.

– Rob, entenda. Eu não posso. — digo calma virando o rosto.

– Porque não ? — indaga. — Por causa dele ? Eu não sou bom o bastante para você ?

– Rob, escuta. — disse eu tirando o capuz e colocando as mãos em seu rosto.

Os olhos dele estavam tão azuis quanto o normal, me deixou quase sem fôlego.

– Sim, é por causa de Dimitri. Eu gosto dele. — penso no quanto estava sendo injusta com Rob, ainda assim, não era certo com Dimitri. — Se você é tão apaixonado por mim, porque você nunca tentou antes ?

– Eu... eu... — gaguejou ele. — Eu não conseguia. Só foi depois dessa... mudança que tentei, mas você me rejeitou.

– Ouça, vamos entrar. Vou te fazer um café, quem sabe você se acalme. — digo acariciando seu rosto. — Você nunca mais vai beber, ouviu ?

– Sim, senhora. — disse ele virando seu rosto para minha palma e a beijou.

Em seguida, Rob entrelaçou seus dedos nos meus. Eu não tinha outra alternativa, quer dizer, ter, tenho; mas quem não me garante que ele não surte por bobagem novamente ? Ainda mais bêbado, não tinha nenhum tipo de condição de ter uma conversa sem uma discussão prestes à explodir.

Entramos em casa e Rob logo acomodou-se numa das cadeiras de bar apoiando os braços no balcão, me observando e sorrindo.

Não conseguia parar de rir. Por mais que Rob bêbado fosse um imbecil, ele também ficava engraçado.

– Você fica tão linda mexendo com a máquina de café. — cantarolou Rob.

– Pode ter uma certeza, quando você ficar de ressaca, vai aprender a não beber mais. — aviso rindo.

Rob fez uma careta de criança, rejeitando a ideia.

– Não achei muito legal, sabe, gatinha.

– Gatinha ? — Arqueei as sobrancelhas para ele, duvidosa.

– Isso aí. — disse ele acenando com a cabeça em concordância.

– Ainda bem que o café é extra forte. — murmurei.

Quando o café ficou pronto e estava colocando na xícara para Rob, ele havia dormido sentado com a cabeça em cima do balcão.

– Mesmo assim ele vai tomar. — disse eu. — Rob! Acorda!

Mas ele nem se mexeu.

– Mereço isso.

Caminho até ele para acordá-lo, mas antes que pudesse fazê-lo. Noto uma algo brilhando no pulso de Rob. Era como se fosse uma marca de nascença, ela brilhava como a de Dimitri.

Isso é estranho, penso. Duas marcas de nascença que brilham.

– O que houve com ele ? — pergunta uma voz atrás de mim.

Assustada quase derrubando a xícara de café, me viro para ver quem era. Era Ravenna, ela estava diferente. Seus olhos estavam com o branco do olho e tinham cor, um azul tão profundo quanto de Rob. Fora isto, continuava a mesma.

– O que faz aqui ? — perguntei incrédula, deixando a xícara no balcão longe de Rob também para que ele não derrubasse. — Achei que você apenas ficasse em minha mente.

– Exatamente, você pode me ver, ele não. — responde ela. — Além do mais, ele pode acordar e te ver falando sozinha, irá achá-la louca.

– Isso todos já acham. — zombo.

– Mas ele não sabe que existo em sua mente. — assegura Ravenna. — Estou fazendo de tudo para ele não saber.

– Como assim ? — perguntei confusa. — Sei que Rob lê minha mente às vezes, mas o que isso quer dizer ?

– Ele lhe contou isso ? — disse Ravenna com pena. — Ele sempre lê sua mente, o tempo todo. Ainda bem que bloqueio maior parte de suas lembranças e pensamentos para ele e qualquer outro. Já lhe contei, ninguém pode saber de mim.

– Está bem. — digo por fim. — Mas ainda não me disse o que faz aqui.

– Estou vigiando você como sempre fiz. — disse ela orgulhosa. — Faz parte do meu dever te proteger, caso contrário, eu deixo de existir também.

– Tem razão, há logica nisso. — digo dando ombros.

– Os sentimentos dele por você são verdadeiros, sinta-se lisonjeada. — disse ela sorrindo, em seguida ele se desfez como se lembrasse de algo desagradável. — Encontrou seu pai, então.

– Sim. — respondo lembrando de minha conversa com ele.

– Iremos conversar sobre isso mais tarde. — diz Ravenna. — Enquanto isso, acorde o garoto e lhe dê algo para dor de cabeça. E continue com o plano. Faça o que tiver de fazer.

Ao fim dessas palavras, Ravenna desapareceu. Não havia notado, mas Rob já tinha acordado. Me olhava confuso.

– Com quem você estava falando ?

– Com você. — minto. — Estava tentando te acordar.

– Pare de mentir. — acusa ele. — Você estava falando sozinha, ou... com alguém. — ele olha em volta de toda a cozinha e se levanta indo para sala, vasculhando o local.

– Está bem. — digo indo atrás dele. — Estava falando sozinha, eu penso em voz alta. Ajuda à ter mais clareza com as coisas.

Esperava que Ravenna o bloqueasse. Se ela havia dito que não era para ninguém saber dela, eu o farei. Ela me ajudou tanto quanto qualquer outro. Eu tive coragem, e consegui fazer tudo sozinha, sem precisar depender dos outros. Isso me deixava mais forte.

– Depois eu quem sou maluco. — murmurou Rob.

– Mas você é. — digo dando um tapa leve em seu braço. — Seu café está pronto e, é bom não se acostumar com isso.

Rob abriu um sorriso suave.

– Apesar de ser tão linda, você é muito brava. — disse ele acariciando meu rosto.

A marca de nascença em seu pulso deixara de brilhar e voltou para sua cor normal.

– Deixe de bobagem, garoto. — digo afastando sua mão.

– Boa noite, minha deusa. — disse uma voz, que fez minha nuca ferver de tanto formigar.

Era a sensação mais estranha que senti das outras vezes, vinha com mais intensidade.

Me viro para a cozinha e lá estava Dimitri com as costas apoiadas na porta da cozinha.

– Dimitri... — rosna Rob.

– O que faz aqui ? — perguntei.

– Vim ver se está bem. — responde ele sério vindo em nossa direção lançando um olhar de desconfiança para Rob. — Você está com cara de quem bebeu, anjo.

– Não me provoque, Dimitri. — disse Rob.

– Como quiser, anjo. — disse Dimitri sério e depois se volta para mim. — Precisamos conversar e em particular.

Rob me lança um olhar duvidoso, como se alguém dissesse Isso é mesmo sério ? Apenas assenti para ele e suspirei.

– Se precisar de mim, estou na cozinha. — avisa Rob.

– Está bem. — digo observando Dimitri.

Esperamos Rob ir para cozinha e nos sentamos no sofá.

– Sobre o que quer conversar ? — arrisco perguntar.

– Não se faça de idiota comigo, Charlie. — disse Dimitri olhando janela a fora.

Mesmo sem conseguir ver seus olhos completamente, havia um crepitar de chamas irradiando ódio por eles.

– Não estou me fazendo de boba. Eu realmente não sei do que está falando. — conto.

– Você encontrou seu pai, não ? — pergunta Dimitri, mas parecia mais uma afirmação do que uma pergunta.

– Eu ia te contar, mas... — digo pensando no que Dimitri poderia fazer.

– Quando ? — duvidou ele. — Quando ia me contar ? — seus olhos havia se voltado para mim, me arrepiaram apenas de olhar.

– Na cabana. — digo. — Eu realmente iria te contar, você é o único em que posso confiar agora.

Será que Dimitri havia me seguido enquanto estava com meu pai ?

– Como sabe que fui me encontar com meu pai ? — pergunto.

– Isso é informação sigilosa. Além do mais, não contou para seu admirador não-tão-secreto ? — perguntou ele.

– Não, se Rob soubesse ele iria surtar. A essa altura da situação, ele estaria tentando ir atrás de meu pai. — digo. — Você é o único em quem posso confiar agora.

– Porque desmascarei você ? Ou porque teve peso na consciência ? — provoca Dimitri.

– Porque estamos nessa juntos. — explico. — Dimitri, eu sabia que você não iria deixar encontrar com meu pai, teria me impedido de todo modo, mesmo que contasse para você.

– Isso é comovente, mas ainda não me convenceu. — Dimitri forçou um sorriso sombrio.

– Então, eu não tenho mais nada à dizer para você. — digo séria.

– Como você disse, estamos juntos nessa. Ainda vou te ajudar, mesmo que minta para mim, mas isso não vai ser mais um problema. — disse Dimitri ainda sorrindo. — Porque vou arrancar a verdade de você nem que seja à força.

O efeito das palavras de Dimitri foram instantâneos sob meu corpo. Ondas de tremor e adrenalina faziam movimentos repentinos de ida e volta. As palmas de minhas mãos suavam frio, cada vez mais era difícil respirar.

Parecia que tinha voltado para o galpão abandonado onde foi meu sequestro. Todo aquele terror e agonia, que havia cavado um buraco fundo e os enterrado, estava emergindo das profundezas.

– Dimitri, pode parar com isso. — digo nervosa. — Já entendi o que quis dizer, não precisa ser tão...

– Tão o quê, Charlotte ? — disse ele sendo sarcástico. — Diga, eu quero ouvir o que tem à dizer.

– Se você não parar com isso, vou chamar Rob. — ameaço.

– É muito fácil mexer com você, Stevens. — diz Dimitri rindo sem humor. — Se mentir para mim de novo ou esconder algo que envolva está em perigo, eu não vou pensar duas vezes antes de...

– Antes do quê ? — provoco.

Dimitri apenas fecha os olhos e respira fundo, os músculos de sua garganta estavam bem tensionados, como se ele estivesse segurando um grito. Quando ele abre os olhos novamente, eles estão muito verdes e cálidos, igualmente quando alguém estava com dor.

– Antes que eu mesmo faça a bobagem de surtar de vez. — disse ele.

Ele me comoveu. Apesar dele agir de forma estranha e suspeita, tinha de entender também seu lado. Estava com um pé atrás com Dimitri e sua confiança era algo duvidoso, mesmo assim, tinha de confiar. Pelo menos, naquele momento. Ele era uma das minhas únicas esperanças, das quais eram poucas e estimáveis.

– Ei, olhe para mim. — digo colocando as mãos em seu rosto. — Me perdoe, mas precisava ter feito aquilo. Ainda assim, me sinto péssima por ter mentido para você.

– Quero que confie em mim a partir de agora. — fala ele.

– Quem lhe disse que não confio ? — brinco.

– Escuta, sei o que vou lhe pedir agora pode parecer tão estranho para você quanto à mim, mas temos que contar isso ao Rob. — pede Dimitri fazendo cara de nojo ao dizer o nome de Rob.

– Está brincando ? — pergunto incrédula pelo pedido de Dimitri. — Tem razão, é muito estranho.

– Bem que queria, mas esse lance de trégua influência nisso. — conta ele.

– Não entendo esse negócio de trégua entre vocês. Parece coisa de gangue... — digo vindo uma ideia de eles poderiam fazer parte de uma para se odiarem tão. — Você não estão se envolvendo com gangues, certo ?

– Não, mas não queira saber dessa trégua, por favor. — disse ele preocupado. — É algo que não quero que se envolva.

– Está bem. — digo por fim.

Penso um instante sobre contar de meu pai à Rob. Se com Dimitri essa fora a reação, a reação Rob era a que mais me causava pânico.

– Dimitri, não sei se posso contar isso à Rob. E se ele resolver ir atrás de meu pai ? — indaguei.

– Te dou minha palavra que não vou deixar ele fazer isso. — promete ele. — Temos um a trégua e ele tem que respeitar, caso contrário, só irá pior a situação.

Ficamos um tempo calados, pensativos no assunto.

– Não vou chamar aquele gigante se é que está pensando. — disse Dimitri sarcástico quebrando o silêncio.

– Rob, pode vir aqui, por favor. — chamo.

Rob caminha com cautela até a sala e olha desconfiado para Dimitri. Noto que ele cerrava os punhos, eles já estavam ficando brancos.

– O que ele fez ? — perguntou Rob com determinação e ódio nas palavras.

Estava ficando tensa. O ar que pairava sob nós três estava muito denso. Temia que assim que os dois se cruzassem, soltasse faíscas de seus olhos para tentarem se matar.

– Está tudo bem, Rob. — disse eu o acalmando. — Só queremos conversar sobre uma coisa com você.

– O que é ? — perguntou ele.

– Apenas sente-se e escute a Charlie. — disse Dimitri impaciente.

– Não está ajudando. — sussurro e belisco sua coxa.

– O grandão não parece compreender o que dizemos. — murmura Dimitri. — Sabe falar nossa língua, certo ? Sabe inglês ?

– Deixe de ser infantil, Dimitri. — resmunga Rob, que se sentava na poltrona.

– Ele sabe. — provoca Dimitri. — Enfim, minha deusa, prossiga.

Lanço um olhar ameaçador à Dimitri para que ele ficasse quieto, e até que funcionou com ele e Rob também.

– Eu tenho uma notícia, não sei quanto à você, mas é boa para mim. — começo a dizer. — Encontrei essa noite com meu pai.

– O quê ? — pergunta Rob sombrio. — O que você fez ?

– Eu encontrei com meu pai. — repito. — Eu sei, é estranho, mas consegui.

– Como conseguiu ? — perguntou Rob se recuperando do choque. — Quer dizer, você não conseguiu fazer tudo isso sozinha. — ele lançou um olhar de ódio à Dimitri.

– Se quer saber, Roberta, eu estava a ajudando. — argumenta Dimitri. — E ainda estou, afinal é o que ela quer e não posso negar isso à ela. Todos tem o direito de conhecer seus pais, independente das circunstâncias.

– Eu sei disso, mas as circunstâncias de Charlie não são das mais favoráveis. — rebate Rob. — Não podemos a colocar em risco dessa maneira. É muito imprudente de sua parte deixar que isso aconteça.

– Caso não se lembrem, eu estou aqui. Escutando tudo isso. — digo. — Rob, eu pedi para ele me ajudar. Você não estava aqui quando precisei e ele se ofereceu. Como consegui achar meu pai não importa.

– Claro que importa. — disse Dimitri. — Não quis te pergunta, mas como falou com seu pai ?

– Por telefone, mas foi de uma cabine. Eu peguei o número com uma velha amiga de minha mãe. — confesso.

– Primeiro, porque não me contou dela antes ? — pergunta Dimitri nervoso. — Segundo, porque ela teria o número de seu pai e não ter lhe contado nada durante esse tempo ?

– O nome dela é Hayley, ela conheceu meu pai na faculdade junto com minha mãe. Pearl havia proibido eu e Jess de conversar com ela, o motivo nunca entendi e ela sempre pareceu ter medo de mim. — conto. — Não sei o porquê ela ter o número de meu pai, acho que ele deve ter mandado ela me vigiar.

– O que parece mais provável. — comenta Rob pensativo.

Não confie tanto nele, ouço Rob falando em minha mente. Ele não é tão bom quanto parece.

Havia me esquecido completamente de que poderia escutar o pensamento das pessoas. Ainda mais, eu podia escutar Rob em minha mente. Nós tínhamos esse "dom", mas não necessariamente nos fazia sermos bons, era um dom do qual não sabíamos utilizar. Ainda nos faltava pratica e determinação para controlá-los.

Mas me perguntava se Rob referia-se à meu pai ou a Dimitri. Bom, essa parecia ser uma dúvida eterna.

– Meu pai pediu para que não contássemos nada à Pearl e, eu concordo. Tenho medo de sua reação e ela ter alguma crise ou qualquer coisa desse tipo. — conto.

– Está bem. — concordaram os dois ao mesmo tempo.

Depois de um momento de silêncio amplamente desconfortável, Rob o quebrou.

– Dimitri, gostaria de conversar com você à sós. — disse Rob sério. — E, tipo, agora.

Meu corpo ficou mais tenso do que já estava. Tinha muito medo do que aconteceria entre esses dois sem minha presença para intervir. Era aterrorizante só de pensar.

– Não, vocês dois sozinhos não. — falei.

– Nós não podemos nos matar, mesmo que quiséssemos. — diz Dimitri se espreguiçando.

– Pelo menos essa droga de trégua funciona para alguma coisa. — resmungo.

– O que é uma pena... — murmura Rob levantando-se

– Já volto, deusa. — diz Dimitri dando-me um beijo rápido.

Minhas bochechas coram de imediato, princialmente por Rob está presente na sala. Isso tudo fazia o momento ser desconfortante.

– Não se matem, por favor. — suplico.

– Só vamos conversar, nada demais. — assegura Rob sem olhar para mim.

Sentada no sofá cheia de preocupação, observo Rob e Dimitri caminhando até ao quintal dos fundos e fechando a porta da cozinha para que eu não escutasse, fazendo com que a sensação diminuiu assim que eles foram. A conversa entre os dois estava calma até então.

A porta da sala abre e vejo Pearl entrando com um monte de sacolas. Me levanto rapidamente para ajudá-la.

– Chegou agora, querida ? — pergunta Pearl.

– Já tem um tempo. — digo levando as sacolas mais pesadas para a cozinha. — Como foi a tarde da senhora ?

– Foi bem tranquila. — disse Pearl cansada. — E a sua, meu bem ? Conseguiu estudar direitinho ?

– Sim, senhora. — disse pondo as compras no balcão.

Tinha pego as sacolas mais pesadas, porém pareciam leves até demais. Como se eu carregasse uma dúzia de penas e ainda assim, não conseguia sentir seu peso.

Pearl me olha de um jeito estranho que não pude entender bem, acho que era por levar as sacolas pesadas com facilidade, mas não dei importância pelo o que a incomodava.

A porta da cozinha abriu uma frecha e vi Dimitri observando o que estava havendo, ele deu um risada baixa olhando para mim e sibilou Estou te vendo, Charlotte! Nada que não fosse uma típica brincadeira dele.

Pude ver Rob me olhando também, ele apenas assentiu e pediu para Dimitri fechar a porta. Rob estava chateado, conseguia ver pela sua postura.

– O que foi, Charlie ? — pergunta Pearl. — Quem está lá fora ?

– Rob e Dimitri. — respondo ajeitando as compras.

– Meu Senhor! Você deixou aqueles dois no mesmo espaço sozinhos ? — berra ela.

– Eles estão apenas conversando. — murmurei.

– Você quem pensa que estão... — murmura ela.

Controlo minha irritação e respiro fundo, procurando por calma. Eu precisa me controlar e era isso que iria fazer.

– Vó, se acalme. — interrompi calma. — Eles estão conversando, está tudo bem. Antes da senhora chegar, eles já estavam desse jeito.

– Está bem. — disse ela por fim. — Só não quero ter outra parede ou qualquer coisa quebrada.

Sorri ao ver minha avó brincando. Percebo que ela não fazia brincadeiras desse tipo havia dias. Mas meu sorriso não durou por muito tempo.

Meu celular tocou e atendi de imediato.

– Alô ? Charlie ? — chama Clarice.

– Clarice ? — digo surpresa. — Oi, sou eu.

– Charlie, cadê você ? — perguntou ela. — Estou te esperando aqui faz meia hora e está muito escuro.

– Do que está falando ? — pergunto assustada.

– O que houve, querida ? — pergunta Pearl preocupada.

Faço um gesto com a mão para que Pearl esperasse.

– Você me mandou uma mensagem. — disse Clarice nervosa. — Por favor, venha logo.

– Clarice, eu não te mandei mensagem alguma. — disse eu tentando não surtar.

– Como assim, não ? — berra ela. — Estou com medo. Venha rápido, Charlie.

Pela súplica de Clarice, meu coração estava prestes a ter um ataque cardíaco. Mas fiz com que ele aguentasse até conseguir buscar minha pequena amiga.

– Clarice, me escute. — digo tranquila para que ela ficasse calma. — Estou indo te buscar, mas preciso de você calma para isso, está bem ?

– Está bem. — disse Clarice com a voz mais calma.

– Agora, diga-me, onde você está ? — perguntei saindo de casa e indo até o meu carro, com Pearl vindo atrás de mim.

– Estou no parque Wylie Park. — disse ela.

– Você o quê ? — agora era eu quem berrava. — Porque eu me encontraria com você aí ? Quer saber, não importa. Estou indo.

Ouvi barulho de galhos se quebrando no fundo através da ligação.

– O que foi isso ? — perguntei à Clarice.

– Eu não sei. — responde ela. — Charlie, acho que tem alguém aqui. Venha logo, eu....

Clarice não termina, escuto ela gritando. O que fez todo meu corpo usar toda a adrenalina.

– O que está havendo, Charlie ? — pergunta Pearl nervosa.

– Não sei, mas acho que alguém mandou uma mensagem para Clarice dizendo que era eu e agora ela está em perigo. — falo.

– Deixe um dos rapazes fazer isso, Charlie. — implora minha avó.

– Não. Vó, eu vou resolver isso. — asseguro. — Ela precisa de mim.

Entro no carro e dou partida acelerando tanto que chegava aos 100 km por hora. Chegando ao Wylie Park depois de tanto pisar no acelerador e possivelmente ter ganho uma multa, consigo manobrar o carro rapidamente e estaciono.

A noite era nebulosa e aterrorizante. Não havia estrelas no céu, era como se a escuridão dominasse todo brilho que ali existia, não deixando nenhum vestígio seu.

Atravesso correndo todo o campo de minigolfe. Chegou a entrada de Wylie Park, estava cansada e ofegante, mas ainda tinha muito pela frente. Não poderia deixar Clarice sozinha, ainda mais, quando ela disse que fui eu quem lhe mandei mensagem dizendo para a encontrar lá.

– Clarice! — grito. — Onde está você ?

Não houve nenhuma resposta. O problema de Wylie Park, é o fato dele ser enorme comparando com o tempo que tinha até encontrar Clarice. Então, poem aí que não vou sair tão cedo deste lugar.

– Clarice. — chamo novamente.

Procuro entre as árvores a esperança de a encontrar sã e salva.

Ouço o barulho de galhos se quebrando. Supus que fosse a própria Clarice, mas meus sentidos me trouxeram à outra suspeita que tinha mais alguém no parque. Meu pescoço formigou e por alguma razão, sentia como se a pessoa estivesse à 500 metros ao norte de mim. É bem estranho, eu admito, mas sentia sensação de aviso; um sexto sentido bem aguçado.

Quem quer que fosse aquele ser, estava aproximando e depressa. Precisava achar Clarice logo.

Então, tomo a decisão mais óbvia da vida, corro na direção contrária da ameaça. À medida que corri, sentia como se estivesse voando pela velocidade ia.

Passei perto de um banco de piquenique e pensei ter visto um vulto de alguém deitado em cima dele. Diminui a velocidade e caminhei lentamento banco, vendo que minha esperança tinha prosperado... e morrido em menos de cinco segundos.

A boa notícia é que encontrei Clarice, havia checado seu pulso, estava bem estável. A má era que ela esta a desacordada. Ou seja, eu teria de carregar a garota. Mas como ? Essa dúvida me fazia suspirar de preocupação

Qual é! Clarice é uma anã, penso. Consigo fazer isso.

Coloco um dos braços de Clarice envolta de meus ombros para servir de apoio. Quando estou prestes a sair daquele lugar, todo meu pescoço formiga em alterta máximo. Vasculho o local procurando por quem estava por perto. No momento que percebo, algo bate em minha cabeça. Desabando eu e Clarice simultaneamente ao chão.

Assim que acordei, minha cabeça latejava e minha visão estava bastante turva, apenas via os vultos de árvores e dois corpos de pé.

– Finalmente a temos. — disse a voz de um cara. — Podemos a matar de uma vez por todas.

– Ela não pode ser morta, não agora. — disse uma mulher. A voz dela me era familiar, já havia a escutado antes, porém a lembrança era claramente vaga. — Preciso dela viva ainda.

Estavam com os olhos semi-abertos, minha visão aos poucos se estabiliza, fazendo com que consiga ver a aparência dos dois indivíduos. O homem era alto e magro, seus cabelos era a mistura de loiro e cinza, mas o surpreendente, ele era jovem. Seus olhos eram castanhos escuro.

A mulher, por sua vez, me deixara tensa e preocupada. Ela era do meu tamanho de pé e tinha pele tão pálida quanto Ravenna, seus cabelos negros em longos e encaracolados, se esvoaçam até sua cintura. Seus olhos eram azuis como o gelo, penetrantes e vazios, mas me traziam algo familiar apavorante.

– Então, vamos simplesmente as deixar ir ? — perguntou o homem.

– Teremos outras oportunidades em breve. — assegura a mulher docemente. — Por enquanto, deixemos esta questão de lado. Há muito o que fazer ao longo do tempo, ainda mais quando ela está em fase de mudança. Eu adoro quando eles começam a mostrar sua aura assim tão novos, é mais fácil de achá-los e matá-los.

– Enquanto os outros não o acham para controlar seus poderes. — disse com amargura o homem. — Quando você irá voltar ? Muitos ainda não acreditam que está viva desde...

– Hipócritas! Todos eles! — rosna a mulher. — Eu estou viva e ainda recuperando forças, porque acha que estou me escondendo nas sombras de outros ? Para voltar mais forte e colocar um basta nessa história. Aquele cego do Ansel não vê o que faço é para colocar ordem nesses mortais fracos e repugnantes, ainda mostrar que não se pode amar alguém diferente de você.

– Acho que ele está vindo, — avisa o homem. — e com companhia de um... — ele fala em outro língua da qual não entendi bem.

– Deve ser o bastardo dele, com certeza. — disse a mulher com desprezo.

– Este é diferente, a aura dele... — arfa o homem com os olhos arregalados e murmura outra vez em outra língua.

Tatei minha mão devagar procurando por Clarice. Achei sua mão, ela estava gelada.

– Isso é impossível. — grunhiu a mulher. — Eu teria notado antes. Enfim... Deixe-as aqui e vá embora já, mas antes, a bastarda acordou. — a mulher apontou para mim e deu um sorriso medonho. — Nos veremos logo, querida. Espero que consiga ver quem eu sou perto de você.

O homem se aproxima de mim e com um pedaço de madeira acerta de novo em minha cabeça.

Antes eu apagasse, tudo aconteceu rapidamente. Um flash de luz perolado irradia com muita agressividade, incomodando meus olhos. O homem grita por clemência a luz, mas não houve piedade, ele havia desaparecido. E apenas senti braços envolta de meu corpo frágil, reconheci de quem era os braços, mas parece que a ideia tinha sido evaporada de minha mente como se nunca tivesse existido.

***

Quando acordo colocando a mão na cabeça e gemi de dor. Fui acertada com um pedaço de madeira duas vezes na cabeça. Ou seja, os efeitos eram dobrados sob mim. Estavam sentada no banco da camionete de Rob, entada entre ele e outra pessoa. Ouço uma reclamação sobre uma camisa e reconheci que era Dimitri.

– Eu gostava dessa camisa. — reclama ele sentado entre do meu lado segurando uma malha toda rasgada que devia ser sua camisa. — Você me deve uma, cara.

– Eu não lhe devo nada, você quem quis dá uma de herói. — rebate Rob dirigindo.

– Se não, você iria ficar parado sem fazer nada. — disse Dimitri sarcástico.

– Dá para as mocinhas pararem de discuitir do meu lado ? — berro.

– Você está bem, minha linda ? — pergunta Dimitri com doçura.

– Onde está Clarice ? — pergunto sem me dar conta que Dimitri havia feito uma pergunta à mim. — Ela está bem ? Preciso a ver! — me agito e Dimitri coloca o braço envolta de meu ombro.

– Ela está bem, John a levou para casa. — responde Rob. — Você está bem ?

– Não sei, quer dizer sinto muita dor de cabeça. — respondo massageando minhas têmporas.

– Bateram na sua cabeça ? — perguntou Dimitri.

– Sim. — digo olhando para ele e, me dando conta de que ele estava sem camisa.

Corei quase instantaneamente.

– Como me encontraram ? — pergunto. — Ou melhor, como sabiam onde estava ?

– Seu celular tem GPS, então pode-se dizer que foi fácil. — disse Rob dando ombros.

– Encontraram alguém ? — digo séria.

– Não, só você e Clarice caídas no chão, demorou para achar vocês, mas conseguimos. — disse Dimitri pensativo.

– Olhe para mim. — mando.

Ele obedeceu e entrelaçou seus dedos nos meus.

– Está mentindo. — afirmo.

Não sei porque, mas conseguia olhar para Dimitri e ver que ele estava mentindo. Ele esconde muitas coisas e das quais me apavoram só de pensar.

– Charlie, encontramos alguém sim, mas... meio que fugiu. — disse cautelosamente Rob.

– Os dois ? — perguntei.

– Só tinha uma pessoa ali, Charlie. — fala Dimitri sério.

– Eu ouvi duas vozes. — replico.

Todos ficaram em silêncio angustiante. Esperava Dimitri fazer uma piada de Então, você é maluca, mas nem isso aconteceu. Ele estava tão sério e aparentemente, preso em seus pensamentos que não aproveitou a oportunidade.

Chegando em casa, vejo meu carro estacionado na porta da garagem com John encostado no capô. Queria sair da camionete e dá um soco em John se ele amassasse o capô, mas notei que na verdade, eu estava estressada e queria descontar em alguém.

Quando Dimitri foi descer da camionete para que eu pudesse sair, vejo cicatrizes em suas costas num formato de V invertido.

O que é isso ?, penso.

Já havia o visto sem camisa antes, mas aquelas cicatrizes nunca estiveram ali. Só se ele tivesse se metido em uma briga, o que é pouco provável, pois elas tinham aparência de antigas. Não eram cortes como de faca ou qualquer objeto do tipo que tivesse feito aquilo, eram estranhas aquelas cicatrizes.

Eu sentia a necessidade de saber o motivo daquelas cicatrizes, era um desejo incontrolável. Eu queria saber.

Toquei nas costas de Dimitri, não direto nas cicatrizes, mas em uma área qualquer de suas costas. Sendo assim, fui sugada para algum lugar o qual a escuridão era o único fato conhecido para o que estava acontecendo.

Notas finais
Olá, leitor. Gostaria de agradecer à você que leu mais um capítulo da série Predestinada e... Desculpe pela demora do capítulo, minha vida está uma loucura. Se você gostou do capítulo, não deixe de clicar em favoritar, pois ajuda muito na divulgação e me motiva à postar com mais frequência. Se você ainda não acompanha a história, vai lá clica, é rapidinho hahahahaa. Bom, meus lindos leitores, obrigada pela atenção e tenham uma excelente leitura. TaliaEverdeen