Predestinada - Livro 1

12 Capítulo 12 - Bom te conhecer, pai


Notas iniciais
Edição e revisão completos Talia mandando "Oie :3"

Dirigindo pelo centro comercial de Aberdeen, parei perto de um bar do lado onde comprei meu carro.

Caminhei pela calçada até uma lanchonete, onde trabalhava uma velha amiga de minha mãe, Harley Wright. Ela estava limpando o balcão e parou de imediato quando me viu.

Quando me mudei para cidade, Pearl havia proibido eu e Jess de conversar com ela, nunca tinha entendido o porquê. Mas ela sempre que me via, abaixava a cabeça e cumprimentava.

Desta vez, eu iria conversar de verdade com ela.

– Boa noite. — disse Hayley de cabeça baixa e continuando a limpar o balcão.

– Oi, Hayley. — digo. — Tem um minuto ?

Ela hesitou por um instante e depois assentiu.

Andamos até o lado de fora da lanchonete.

– Então, como você está desde... sua mãe ? — ela pergunta de braços cruzados sob o peito.

– É sobre isso que vim falar com você. — digo vestindo minha camisa xadrez, pois começara à esfriar. — Você conheceu bem minha mãe, certo ?

– Sim. — disse Hayley. — Nós éramos amigas desde crianças.

– Ótimo. Então, sabe quem ela era e todos os segredos dela, certo ? — pergunto esperançosa.

– Sim, a conheço bem. — disse ela desconfiada. — Aonde quer chegar com isso ?

– Você conheceu meu pai ? — pergunto fingindo não ter escutado sua pergunta.

Hayley ficou tensa e sua expressão mudou para sombria.

– Charlie, não faça isso. — súplica ela. — Por favor, não vá atrás dele.

– Hayley, só me responda, por favor. — suspiro impaciente. — Eu não viria falar sobre isso com você se não fosse importante.

Uma onde de culpa veio me socando em cheio por ter falado com Hayley daquela maneira. Eu tinha que aprender a me controlar, se não ficaria uma total desequilibrada.

– Tudo bem. — ela via que não tinha outro opção. — Eu conheci seu pai e nós éramos amigos também. Depois da faculdade, eles se mudaram para o Arizona e dois anos depois vieram para Aberdeen junto com sua irmã, Samantha estava grávida de você na época.

– E como você conheceu meu pai ? — perguntei.

– Depois de uma festa, eu bebi demais e sua mãe estava quieta num canto com um cara. Foi quando vi seu pai pela primeira vez. — explica Hayley. — Ele só tinha olhos para Samantha. Eles eram apaixonados um pelo outro.

Notei que Hayley ficou com o semblante de mágoa.

Ela gostava de meu pai, penso.

– E depois que eles se mudaram para cá, você teve contato com eles ?

– Sim, mas depois que você nasceu, tive pouco contato. — responde ela. — Está procurando seu pai, Charlie ?

– Talvez. — rebato desconfiada. — Só quero saber mais sobre ele, minha mãe nunca me disse nada e minha avó só diz para não o procurar. Porém não acredito em nada disso, eu sei que preciso do meu pai agora e para isso, vou precisar de você.

– Não acho que seja uma boa ideia, querida. — disse com pena Hayley. — Mas já que insiste.

Ela tirou do bolso de sua calça um papel todo amassado.

– Ligue de um telefone público e espere ele falar primeiro. — explica ela.

– Obrigada, Hayley. — agradeço.

– Não diga à ele que fui eu quem lhe dei esse número. — avisa ela.

– Entendi.

Hayley entra na lanchonete. Ando até meu carro e abro diário de minha mãe. Não sei por quê, mas não consigo acreditar muito em Hayley, por mais que lhe pedisse ajuda. Havia algo de muito estranho.

Leio o diário dentro do carro. Hayley me contara a verdade sobre quando conheceu meu pai. Mas ainda assim havia um mau pressentimento relevando à todo instante em minha consciência.

O papel com o número ainda em minha mão. Estava nervosa, não sabia se deveria, mas não tinha outra saída. Era melhor arriscar.

Dou partida no carro e paro perto da cabine telefônica mais próxima.

– É agora ou nunca. — digo à mim mesma.

Olho no retrovisor e meu estado era de uma maluca fugitiva.

– Você está horrível, mas tudo bem. — saio do carro ao dizer aquilo.

Coloquei moedas digitando o número com cuidado para ligar errado. Na terceira chamada atendeu.

– O que houve, Hayley ?

– Aconteceu que eu preciso te ver, pai. — digo.

Ele ficou mudo do outro lado. Me desesperei achando que ele havia desligado.

– Você foi procurar Hayley ? — perguntou.

– Sim, eu fui, mas é por uma boa causa... — explico meio enrolada.

– Me conhecer ? — interrompe ele.

– Não, pai. Não é isso. — nego. — É sobre minha mãe.

– O que tem sua mãe ? — sua voz era calma, porém havia uma certa ponta de preocupação.

– Você soube o que aconteceu comigo há dois anos atrás ? — perguntei.

– Charlie... — súplica ele. — Não me entenda mal. Eu soube o que houve, mas não pude fazer nada. — ele deu uma pausa. — E agora você quer fazer o quê ?

– Por telefone não posso falar sobre isso, mas podemos nos encontrar. — sugeri. Usei a tática de Dimitri sobre conversas ao telefone, quem sabe meu pai não resolva ir me encontrar finalmente.

Ele suspirou e respondeu.

– Você é igual à Samantha, não tem o que tirar. Onde e quando ?

– Às seis da noite, amanhã. — respondi. — Estarei no Red Rooster Coffe House.

– Combinado, — disse ele. — mas se chegar atrasada não terá outra chance de me encontrar.

– Está bem. — digo por fim. — Pai, obrigada por me escutar.

– Você não faz ideia de como eu esperava para te ouvir, Charlie. — ele desliga, mas antes pude ouvi ele abafava um sorriso.

Dentro da cabine telefônica, me encolhi abraçando minhas pernas, chorando.

Era impossível de acreditar que finalmente iria conhecer meu pai. Porém o que mais consumia meu choro, era pensar que ele não poderia aparecer ou simplesmente, não aceitar me ajudar. Eram riscos que teria de correr, mesmo que me consumam de dor e tristeza.

Enfim, me levanto e esfrego meus olhos afastando as lágrimas e quais quer indícios delas. Saio da cabine e caminho lentamente até o carro. Eu tinha que abastecer ou não teria gasolina para amanhã. Dirijo até o posto de gasolina e abasteço.

Quando estou na fila para pagar a gasolina no caixa dentro da loja de conveniência, minha nuca começa a formigar. Passo a mão por cima para diminuir o formigamento até me deparo com a Senhorita LeClear num dos corredores com uma garrafa de vodka na mão. Ela estava vestida bem diferente de como a vi pela primeira vez. Um jeans rasgado, uma regata larga de uma banda de rock do Slipknot, botas de couro e uma blusa de flanela xadrez. Ao seu lado, havia um homem com o mesmo estilo dela, mas seu rosto era bruto.

– Se estiver acontecendo, nós não teremos chances. Se ela não optar pela transformação completa, será o fim. — disse o homem ferozmente. — Vamos estar perdidos.

– Isso não é verdade. Ela não escolheu ainda, isso quer dizer que temos tempo até lá. — disse a Senhorita LeClear calma. — Aos poucos terá descoberto o suficiente para se voltar contra eles.

– Mas ele no caminho a atrapalha. — o homem suspira insatisfeito. — Acaba dificultando ela poder escolher.

– Ainda temos o outro garoto, — sugeriu ela. — o novato. Ele está ajudando.

– Espero que sim, porque se não... — o homem não termina. Ele olha na mesma direção que a senhorita LeClear olhava, ou seja, para mim.

– Senhorita Stevens ? — disse ela assustada escondendo a vodka em sua costas. — O que faz aqui ?

– Estou abastecendo o carro. — respondo tão surpresa quanto ela.

– Aquele é seu carro ? — pergunta ela.

Assenti a ela e respondeu:

– Muito bonito. É um clássico.

– Obrigada. — digo pagando a gasolina no caixa.

– São vinte e cinco dólares e cinquenta centavos. — diz a mulher do caixa.

– Pode ficar com o troco. — digo dando o dinheiro à ela.

Andando até meu carro, a senhorita LeClear se pôs na minha frente suplicando.

– Não conte sobre isso à ninguém, por favor. — ela corria seus olhos para todos os lugares, eles eram loucos. — Isso me colocaria em uma reputação muito desagradável.

Vendo seus olhos varrendo todo o local, tive a impressão de que ela era alcoólatra, pois ainda segurava a garrafa de vodka com muita força.

– Não vou contar nada e além do mais, porque eu diria ? — franzi as sobrancelhas.

– Tudo bem. — disse ela virando a vodka em sua boca. Dava para ver o líquido escorrendo pelo canto de sua boca.

– Até mais, senhorita LeClear. — disse eu saindo.

– Me chame de Amy. — disse ela sorrindo.

Assenti e entrei no carro indo para casa, mas antes que pudesse dar partida, o homem que estava com Amy, a puxa pelo braço e bate seu rosto de palma aberta. Fique sem reação.

Ele gritava com Amy em outro idioma, era francês. Eu sei que é francês, porque Jess fala fluentemente, então certas palavras eu entendo de tanto ela repetir incansáveis vezes.

A mulher do caixa dentro da loja vai ao lado de fora para ver a situação. Amy estava suspirando e expirando aceleradamente. O homem, por sua vez, parou de grita e ficara com raiva, balançava a cabeça em negação e desgosto.

– Está tudo bem. — grita Amy para a moça da loja e depois se volta para mim. — Foi só... Um mal entendido, querida, pode ir. Está tudo sob controle.

Para minha sorte, Pearl estava dormindo quando cheguei. Subi para o quarto sem fazer barulho e finalmente, tomei uma banho e dormi.

Acordei com o despertador tocando tão alto que meus ouvidos zumbiram.

– Esse quarto é deprimente. — digo de mau humor olhando para as paredes.

Não estava afim de ir ao colégio de jeito nenhum. Eu tinha que me preparar para conhecer meu pai e quais perguntas faria do tipo, Porque você nos deixou ? Sabia que minha mãe chorava todo dia 16 de agosto ? Você me ajudaria à tentar achá-la ? Qual sua cor favorita ?

Perguntas das quais eu tinha que saber, não importava a resposta. Era necessário fazê-las, pois elas iriam determina um ponto que teria de relacionamento com meu pai.

Levanto da cama e permanecei sentada pensando no que diria à meu pai. Estava nervosa e ansiosa. Com medo e coragem. Diversos sentimentos de uma vez e todos confrontando o outro, porém, o mais curioso, eram que minha emoções estavam me dominando. E isso era péssimo. Eu preciso aprender à me controlar de uma vez.

– Acordou cedo. — disse Pearl segurando a porta do quarto e me observando.

Se eu não estivesse tão concentrada em meus pensamentos, teria a notado.

– Não, são seis e meia. — respondi franzindo a testa.

– Não, querida. — disse ela se segurando para não rir. — São cinco e meia.

Olho para o despertador boquiaberta e realmente era verdade, eram cinco e meia da manhã. Mas antes de dormir, havia ajustado para seis e meia.

– Que absurdo! — berro. — Eu coloquei seis e meia!

Pearl simplesmente rir de minha reação.

– Charlie, Charlie... — murmura ela. — Você não tem jeito.

– Odeio despertadores. — bufo de raiva.

Acordei cedo demais. Isso me deixava de mau humor. Me pus de pé e fui tomar banho.

Após ter feito toda minha higiene pessoal e troco de roupa. Coloco uma camisa laranja, um jeans velho e surrado, botas de couro sintético. Assim que termino, desço para tomar café.

– Bom dia, querida. — diz Pearl colocando manteiga em seu pão. — Já está mais calma ?

– Talvez. — murmurei. — Não vou ao colégio hoje.

– E por que não ? — Pearl fez uma careta de reprovação.

– Porque eu não quero ir. E... — tento pensar em uma desculpa. — Eu quero estudar de um modo diferente hoje, sabe.

– E como seria esse modo ? — disse Pearl estreitando os olhos para mim.

– Biblioteca e muito café. — respondo.

Aquele argumento deveria bastar. Para ser sincera, mas se eu usasse isso para convencer Pearl do que estarei fazendo, é uma boa maneira de poder encontrar meu pai sem deixar Pearl preocupada por onde realmente estou.

– O que a faz pensar que eu permitiria, querida ? — pergunta ela ainda com os olhos estreitos.

– Um forma de estudo diferente e estimulante. — respondi.

– Parece bom, — diz ela satisfeita, por um fração de segundos. — mas isso não vai acontecer. Vai matar aula para se encontrar com Dimitri, certo ?

– Não. — digo. — Eu nem estou falando ele, quer dizer, está complicado...

Olhando para o vestido que Pearl usava, era de bolinhas branco e preto. Logo de uma vez, os pelos do meu braço se erriçaram.

Vieram flashes do meu sonho no lago como se fossem golpes a cada momento que piscava. O momento que vejo Ravenna pela primeira vez e ainda, meu corpo emergindo do lago, sem qualquer sinal de vida. Me lembro que fiz uma pergunta à Dimitri se teve algum homicídio próximo ou naquela área e ele simplesmente não me respondeu. Podia aproveitar esse tempo e pesquisar sobre isso.

– O que foi, querida ? — pergunta Pearl com as sobrancelhas franzidas.

– Nada, só estava... pensando nisso. — minto.

– Charlie, você pode ir, mas lembre-se, tome cuidado com quem encontrar. As pessoas hoje em dia, não são confiáveis. — aconselha Pearl.

– Está bem, vou à Alexander Mitchell Library agora. — digo dando um beijo na bochecha de Pearl e indo escovar os dentes.

– Eu vou fazer compras essa tarde. — avisa Pearl.

– Okay. — grito.

Saindo com o carro para Alexander Mitchell Library, me sinto com o vento em meus cabelos enquanto dirijo. Era incrível dirigir. Para mim é um ato de liberdade, nada podia me prender, ninguém poderia me impedir; pois aquela era eu indo à um rumo qualquer. Eu tinha escolha, algo que raramente tive em toda minha vida, mas essa escolha tinha data de validade até a biblioteca. Nesse momento, eu só era mais uma pessoa sonhando em como minha vida poderia ser diferente.

Pela primeira vez no outono, o dia estava ensolarado em Aberdeen. Entro na biblioteca e caminho até o balcão de recepção. Lá, havia uma mulher de meia idade lendo o que parecia relatórios, seus olhos estavam vidrados nos papéis.

– Com licença. — digo me aproximando do balcão. — Aqui tem arquivos antigos de perícia ?

– Perdoe-me por intrometer, mas porque gostaria de ver esses arquivos ? — pegunta ela sem tirar os olhos dos papéis.

– Pesquisa de faculdade. — minto. — Estamos debatendo sobre assassinatos e como devemos investigar.

– Parece interessante. — disse ela, finalmente, levantando seus olhos para mim. — Nos fundos da biblioteca, há seção falando apenas sobre isso. Há arquivos da polícia antigos que já foram fechados e outros que foram computadorizados, talvez deva ajudar em alguma coisa.

– Obrigada. — digo andando até os fundos da biblioteca.

Realmente, aquela seção só falava sobre investigação. Era livros, arquivos, diversos materiais em grande escala. Resolvi ir até o computador e ver se encontrava algo que ajudasse também.

Digitei: "Assassinatos antigos em Aberdeen, Dakota do Sul."

Havia muitos arquivos recentes, resolvi procurar pelos mais antigos.

" 13 de setembro de 1958. Um homem e uma criança negros são encontrados mortos próximo ao aeroporto de Aberdeen."

" 04 de Agosto de 1958, foi encontrado o corpo de Gwyneth Peterson é achado próximo ao lago de Wylie Park. Gwyneth tinha 26 anos, deixou uma filha de 6 anos, que está agora sob custódia do pai. "

Junto da informação, havia uma foto da mulher. Era realmente verdade, ela era eu.

Como ? Isso era possível ?, penso.

Havia a foto de Gwyneth junto de sua filha. A menina me lembrava alguém. Tento me esforçar para lembrar, mas foi uma tentativa inútil. Estava tão atordoada que não havia como me esforçar para alguma coisa.

Ainda digerindo aquela surpresa. A temperatura da biblioteca havia abaixado próximo de dez graus, embora esteja tudo calmo, pairava um ar de tenso e tenebroso. Cada pelo de meu corpo se arrepiava de puro pavor.

Não é possível, isso não pode estar acontecendo, penso. Deve ser um sonho, só pode ser. Vamos, Charlie, acorde!

Fecho os olhos e espero para ter uma certeza de que era um sonho, mas era apenas eu me iludindo com medo de admitir que poderia ser verdade que aquela mulher fosse eu. Aquilo só me deixava pior.

Mas poderia ser minha parente ou algo assim, às vezes nos parecemos muito com nossos bisavós ou uma geração antes deles, certo ?, deduzi.

Meu celular começa a toca e vi que era uma número restrito.

Pode ser meu pai, penso.

Atendo o celular, mas não era meu pai. Era alguém mil vezes pior, Dimitri.

– Minha deusa, — disse ele animado. — onde você está ?

– Não lhe interessa, minha flor. — respondo docemente irônica.

– Ainda continua uma gracinha quando tenta ser irônica. — disse ele. No mesmo instante me sinto corar. — De todo jeito, eu sei onde está. Afinal, é fácil ver seu carro à três quarteirões daqui.

– Está blefando. — acuso.

– Estou ? Bom, eu tenho certeza que não. — rebate Dimitri. — Minha deusa é bastante intelectual, então, obviamente, ela matou aula para ir à biblioteca, certo ?

Engoli em seco. Ele está me testando, só podia ser isso.

– Não, estou em casa. — minto. — Não estou me sentindo bem.

– Escute bem, Charlie. — disse Dimitri num tom tão sério que me fez arrepios. — Jamais minta para mim, não sou seu inimigo, quero te ajudar. Será que é tão difícil você entender isso ?

– Dimitri, você é muito irritante quando quer. — digo fazendo uma careta impaciente.

– E isso que é apenas uma das coisas que você mais gosta em mim. — brinca ele.

– Você não presta mesmo, seu...

Quando estou prestes à insultar Dimitri, uma página na tela do computador pisca e começa a carregar. O obituário de Gwyneth Peterson estava carregando e, as causas da morte era uma lista enorme. Desliguei o celular e direcionei toda minha atenção ao óbito de Gwyneth.

Causas da morte :

• Asfixia;

• Tortura;

• Lesões graves externas e internas;

• Parte do corpo derretidos (Possivelmente, por ácido);

• Hemorragia;

• Explosão das órbitas oculares.

Tentava puxar o ar com muito, muito esforço, porém, a cada vez que tentava respirar, parecia impossível; até que tento me acalmar aos poucos, conseguindo, enfim. A maneira como Gwyneth foi morta era horripilante. Sinta pena dela, um profunda pena.

Senhor, que esta mulher alcance a paz, penso, orando por Gwyneth. Ela não merecia ter sofrido tanto, independente do que tenha feito.

Ainda fitando a tela, o obituário de Gwyneth. Me assusto ao ver uma sombra enorme passando rapidamente pelas grandes janelas da biblioteca tampando por fração de segundos, a luz do sol que irradiava dentro do local. Posso estar ficando louca, mas podia jurar que tinha visto asas gigantes como um vulto.

Antes de levantar da cadeira e ir diretamente para janela ver o que era. Fechei todas as abas de busca do computador e apaguei o histórico todo da hora que entrei até o momento que saí.

Quando me aproximei da janela, procurei incansavelmente as asas. Mas encontrei algo desagradável e se chamava Dimitri.

Balanço a cabeça em negação.

Ele está me perseguindo, penso.

O idiota estava encostado em sua moto com o logo da floricultura de sua mãe. Ele estampou um imenso sorriso em seu rosto quando o notei. Se não estivesse com um pé atrás com Dimitri, teria me derretido por àquele sorriso.

– Eu vou te matar! — sibilei à ele fazendo um gesto com o dedo passando pela garganta.

– Entra na fila. — sibilou ele também.

Caminho até a saída da recepção e a mulher não estava mais lá. Achei estranho, mas continuei à andar.

– O que você quer ? — pergunto cruzando os braços, quando me aproximo de Dimitri. Minha nuca formigou instantaneamente.

– Se eu disser, você vai ficar vermelha de vergonha. — responde ele com seu sorriso malicioso.

– Você é um babaca. — digo impaciente.

– Você me ama. — disse ele dando uma piscadela para mim. — Então, o que você faz aqui ?

– Estudando, tinha uma pesquisa para fazer e não fiz. — minto.

– Sinceramente, — disse Dimitri esfregando o mão na lateral do rosto. — você é impossível. Eu estou tentando te ajudar, mas você ainda continua à mentir.

– Quem sabe você não escondesse certas informações de mim, eu não mentiria. — resmungo.

Dimitri me observa atentamente. Parecia tentar descifrar meus pensamentos, mas não pareceu obter sucesso.

– Tudo bem, eu escondo certas informações. Mas é para seu bem, não quero que se envolva em minhas... batalhas. — disse Dimitri com o olhar de triste.

– Se você começar à chorar, eu vou embora. — brinco.

Dimitri ri e em seguida, me encara.

– Precisa de ajuda ou conseguiu fazer tudo sozinha ? — perguntou ele.

Penso à respeito. Dimitri havia sido um babaca, mas estava disposto à ajudar. E eu precisava de ajuda, mesmo que ele não seja agradável.

– Não sei, não. — digo pensativa.

– Tudo bem. — diz ele dando ombros.

– Você é muito idiota. — digo o puxando pelo braço junto de mim até meu carro.

– O que está fazendo ? — pergunta Dimitri quando chegamos ao carro. Ele percebeu que havia tirado o livro e o diário de minha mãe, mas não fez nenhum comentário.

– Vamos. — digo com ele indo atrás de mim, mas paro abruptamente percebendo que tinha visto uma coisa estranha no pescoço de Dimitri.

– O que foi ? — perguntou ele.

Me viro para olhá-lo e jogo minha atenção toda me seu pescoço. Era marca de nascença esquisita, mas ela estava bem diferente, ela parecia brilhar.

– O que é isso em seu pescoço ? — pergunto.

– Isso o quê ? — disse ele engolindo em seco.

– Não se faça de cínico, essa marca de nascença, eu acho. — pressiono.

– Exatamente o que é, uma marca de nascença. — responde ele.

– Marcas de nascença brilham agora ? — provoco.

– O quê ? — pergunta ele com calma, mas pavor em seus olhos. — Você está a vendo brilhar ?

– Dã, claro que sim. Porque eu estaria te perguntando se não fosse por isso ? — indago.

Dimitri não me respondeu, apenas me olhava com preocupação e com sua jaqueta de couro escondeu a marca de nascença brilhante.

– Quer saber, esqueça. — replico. — Vamos.

Ao chegar aos computadores, resolvo mostrar o livro à Dimitri. Por mais que estivesse desconfiada com ele, tinha que mostrar confiança. Se Dimitri soubesse de algo que ajude, me levaria até onde quero.

– Como conseguiu isso ? — pergunta ele engolindo em seco.

– Era da minha mãe. Encontrei no sótão no meio de um monte de caixa, achei que podia ajudar. — disse eu olhando a capa. Tentando entender o porque o nome do autor estava raspado, sendo que o livro em si, estava intacto.

– Você o leu ? — ainda perguntando Dimitri.

– Não, só o primeiro capítulo. — respondo.

– Te fez... lembrar de algo ? — pergunta ele inquieto.

– Não, porque ? — digo franzindo as sobrancelhas.

– Nada. É só... essas histórias sempre me lembram outras, sabe. — responde ele.

– Você já o leu ? — pergunto, incrédula. — Você tem um exemplar ?

– Não. — disse ele sombrio.

– Está bem.

Lado a lado, lemos o livro em silêncio.

– Espera, aqui está contando a vida da mulher que deu à luz ao primeiro Nephilim na terra. Mas está contando também sobre a vida dela antes ? — pergunto tentando entender.

– Exato, para entender o que aconteceu dela dar à luz ao primeiro Nephilim, tem que entender o que houve antes. — explicar Dimitri.

– Bom, ela era casada, tinha um filho menino... — digo, mas deixa as palavras serem levadas pelo vento.

Será que podia ser haver com meu sonho ? Com a mulher que era eu, seu filho e o marido, que viviam em uma época à qual eu não sabia, porque só fiquei alguns pequenos minutos presenciando ?

– Ela é a filha mais nova de duas irmãs. O pai era um escravo e a mãe uma doce camponesa. — disse Dimitri pensativo.

– Tudo bem, mas isso é só um livro de ficção, não deveríamos dar tanta importância à uma história como essa. — digo cética.

– Acha que anjos caídos, nephilins, tudo isso não existe ? — pergunta Dimitri segurando minha mão com a sua.

– Acredito em anjos, mas não como aqui descreve, porque... Qual é! É insano. — indago. — Parece mais um romance barato com nenhum tipo de estrutura à qual se basear.

– É preciso ter bastante fé para que possa enxergar bem. — disse ele.

– E você ? — pergunto. — Você acredita ?

– O que você acha ? — responde ele com um sorriso malicioso. — Se acredito, você quem vai responder por mim.

– Para mim, você é igual a Jess, um cético. — digo rindo.

Olho para o relógio do meu celular. Eram 17:47 da tarde.

Droga! ,penso.

– Eu tenho que ir. — digo pegando o livro e o diário.

– Para onde ?

– Encontrar com uma pessoa. — digo já de pé.

– Que bom... — disse ele com desdém. — De ser um cara legal para você me largar aqui.

– Não desse tipo, imbecil. — disse eu batendo em seu braço com o livro.

– Pelo menos isso é bom. — disse ele de pé me puxando pela cintura. — Ninguém vai tomar meu lugar.

– E quem disse que eu pertenço à você ? — provoco arqueando as sobrancelhas.

– Eu digo. — falou ele por cima de meus lábios junto dos seus.

Nisso, nos fundimos num beijo longo e intenso. Ondas de calor subiam por todo meu corpo. Eu queria Dimitri cada vez mais.

– Tem certeza que depois desse beijo você vai embora ? — perguntou ele com o rosto ainda próximo do meu.

– Tenho, sim. Se fosse bom, quem sabe eu ficaria. — digo provocando mais ainda.

– Então, vai ficar sem a partir de agora, Charlotte. — brinca ele.

– Deixe de ser idiota. — digo enquanto o puxo para fora da biblioteca.

Me despeço de Dimitri com um beijo, uma piadinha de que o beijo não foi bom e depois um tapa, por ele dizer que eu deveria ser menos anã.

Chegando ao Red Rooster Coffe House. Embora, todo o nervosismo e a ansiedade me consumisse, estava um tanto confiante em relação à isso.

Apesar de não saber qual tipo de pessoa meu pai fosse, eu tinha de pensar com clareza. Ele poderia ser perigoso, hostil, uma péssima companhia, mas era meu pai. Não importava o quanto dissessem para ficar longe dele, iria do mesmo modo.

Nunca havia ido à cafeteira, mas sendo essa a primeira vez, me impressionei com o local. Assim que abri a porta e entrei, havia um balcão de atendimento com um mostruário de donuts, cupcakes e diversos tipos de doce. Atrás do balcão, mostrava as máquinas de café.

Mais à frente havia sofás, uns de cores neutras e outros floridos e extravagantes, cadeiras de metal floridas, mesas de madeira. No teto tinha holofotes pendurados e um palco montado para uma espécie de apresentação que iria ter. Em toda parte da cafeteria tinha estantes e mais estantes espalhadas por cada canto do local.

– Esse lugar é perfeito. — murmurei.

– Olá, bem-vinda ao Red Rooster Coffe House. — diz uma garota, que automaticamente reconheci pelo jeito extrovertido de falar. Era Alanna.

– Oi, obrigada. — digo.

– Charlie, tudo bem ? — pergunta ela. — Até que fim você veio aqui, mocinha.

Gargalhei ao ouvir Alanna falando.

– Estou bem. — respondo ainda rindo. — Eu vou querer um descafeinado com chantilly.

– Gostei, — comenta Alanna. — tem bom gosto.

Espero o café ficar pronto e me dirijo à mesa na parte de trás. Vejo às horas no relógio, eram 17:58.

Meu estômago estava querendo revirar, mas tomo um gole do café e ele se aquieta. Expiro e inspiro lentamente para manter o controle. E quando olho para a porta, lá estava ele, vindo em minha direção. Meu pai viera.

Ele era alto no mesmo tamanho que Rob, cabelos loiros e curtos. E seus olhos, realmente como minha mãe descrevera no diário, eles eram cinzentos profundos e traziam paz. Ele usava uma jaqueta de couro preta e por baixo uma blusa azul-clara, usava botas de motoqueiro, um jeans surrado. Ele era elegante e bonito, havia um andar gracioso, era como se estivesse voando. Se não fossem pela roupa de roqueiro, eu diria que ele era da alta sociedade.

Ao me ver, seu rosto esboçou um sorriso irresistível. Jess era igual à ele, do sorriso ao jeito de mexer no cabelo.

– Bom te ver, Char... — disse meu pai sendo interrompido quando me levanto e o abraço com força.

Estava quase chorando em seu peito. Eu não podia acreditar que finalmente estava conhecendo meu pai.

– Me desculpe. — digo chorosa. — Eu só... estou feliz por te ver depois de tantos anos.

– Tudo bem. — disse ele acariciando meu cabelo. — Para ser sincero, eu estava nervoso de te ver.

Levanto a cabeça para o olhar e sorrio.

– Bom te conhecer, pai. — disse eu ainda agarrada à ele, tão feliz por aquele pequeno momento.

Notas finais
Olá, leitor. Gostaria de agradecer à você que leu mais um capítulo de Predestinada, não deixe de clicar em favoritar, pois ajuda na divulgação da estória. Se você ainda não acompanha a estória, clica no botão para ficar atualizado dos próximos capítulos. Tem muito por vir e acho que vão gostar. *suspense* Sem mais delongas, TaliaEverdeen _|||_