Predestinada - Livro 1
11 Capítulo 11 - Entre a paz e o conflito
Notas iniciais
Até que fim, tive paz um dia inteiro.
O domingo foi tranquilo, não teve pesadelos ou sonhos estranhos, não teve ninguém querendo me matar. Mas a parte ruim que não tive notícias de Dimitri ou Rob. Jess mandou torpedos com ameaças de morte para mostrar à Dimitri, se ele não me respeitasse. Fui à missa de domingo. Rob não apareceu, as meninas da Igreja que são apaixonadas por ele, ficaram triste novamente.
Sinceramente, foi o melhor domingo que já tive em anos. Eu tinha paz.
Porém... Teve uma coisa que eu fiz. Resolvi fazer uma maratona de todos os filmes de Harry Potter, porque estava afim e todos os meus deveres de casa já estavam prontos, então que mal tinha, certo ?
Como eu acidentalmente quebrei minha cama e não daria para assistir na poltrona que tinha no quarto, pois eu gosto de espaço para ficar largada. Tive que me "mudar" para o antigo quarto de Jess.
Para mim, aquele quarto era completamente depressivo e ainda por cima, era rosa. Eu sei, eu sei, ficar num quarto rosa era um pesadelo para alguém garota que odeia a cor hoje. O motivo ? Simples. Minha mãe me fez usar rosa quase toda minha vida, uma hora eu ia ter repulsa da cor. Enfim, no quarto havia várias pinturas tristes que Jess havia reproduzido como pinturas de Picasso, Van Gough, Homero Britto, deixavam o ar no quarto deprimido, mas infelizmente, terei de ficar aqui até consertarem minha cama.
Arrumei o quarto do meu jeito e ajeitando tudo para que ficassem perfeito na hora de assistir os filmes e não ter que levantar para nada, quer dizer, só para ir ao banheiro. Acabei adormecendo quando estava em O Enigma do Príncipe.
– Charlie, acorde. — me sacode Pearl. — São 7:30.
"Droga! Sete e meia ?! Eu nunca vou chegar ao colégio.", penso.
– Calma, o Rob está lá embaixo te esperando. — disse Pearl vendo meu desespero.
"Amém! Obrigada, Senhor.", penso agradecendo.
Me levanto correndo e vou direto para o banheiro tomando meu banho.
Penteio meu cabelo e passo um creme para diminuir o volume que estava molhando e ao mesmo tempo escovo os dentes com pressa.
Enrolada na toalha, vou correndo até meu quarto pegar minha roupas. Coloco um jeans preto, uma blusa regata do American Horror Story que era uma camisa e acabei cortando; por cima a camisa xadrez que Jess me deu de presente, mas não estava tão frio, então resolvi amarrar em minha cintura e pus meus tênis Vans preto. Carrego minha mochila num ombro só e desço as escada correndo.
– Bom dia, bela adormecida. — diz Rob sentado no sofá da sala, rindo.
– Bom dia, imbecil. — respondo de mal humor.
– Charlie. — me repreende Pearl.
– Desculpe. — digo encolhendo os ombros.
– Pode ir tomar café. — disse Rob. — Eu te espero.
– Não. Por incrível que pareça, estou sem fome. — disse eu surpresa com minha falta de apetite.
– Você rejeitando comida ? — pergunta Pearl espantada. Quando descrevo espantada, é como se fosse uma das piores coisas que ela pudesse ouvir. Ela e Rob se entre olharam.
– É, estou sem fome. — digo com cautela.
– Então, vamos ? — pergunta Rob se levantando do sofá com os olhos estreitados para mim.
– Sim. — respondo abrindo a porta da frente, já indo até a caminhonete.
Rob vem andando atrás de mim. Os dez passos que dou são quatro de Rob, literalmente.
– Você está bem ? — pergunta Rob do meu lado.
– Não, estou com sono. — digo sonolenta.
– Ah, isso explicar o porque você não quer comer, mas... será que não tem haver com as mudanças com você ? — insinua Rob.
– Como assim ? — pergunto abrindo a porta da camionete.
– Além de ouvir os pensamentos das pessoas, você tem suas emoções ampliadas e corpo mais estruturado. E logo, logo, vai começar a desenvolver massa muscular. Pelo menos foi o que aconteceu comigo. — explica Rob também entrando na camionete.
– Quer dizer que eu vou ficar... — me sento no banco do carona. Não conseguia dizer aquilo na frente de Rob, era vergonhoso.
– Tipo, gostosa ? — pergunta Rob como se fosse normal eu ter que escutar aquilo.
– É. — ainda me dou o trabalho de responder.
– Vai, talvez. — ele dá ombros.
– Está bem, podemos esquecer esse assunto de ficar gostosa. — digo em encolhendo no banco.
– Às suas ordens, diva. — disse ele rindo.
Saímos de minha casa indo para o colégio. Eu estava com tanto sono que minha aparência devia estar horrível. Rob tirava seus olhos da estrada rapidamente para olhada em mim e dava uma risada, o porque eu não entendia.
– O que você andou fazendo para ficar com tanto sono assim ? — pergunta ele olhando para estrada com um sorriso bobo.
– Depois da Igreja, eu resolvi fazer uma maratona dos filmes do Harry Potter. — respondo. Então, me lembro que Rob não tinha ido à Igreja. — Porque você não foi à Igreja ontem ?
– Acabei dormindo demais. — Rob dá ombros.
– Sei. — digo estreitando os olhos para ele.
Quando chegamos no colégio andei em direção do meu armário pegando os livros e o caderno de álgebra 2.
– Estou indo para biblioteca, depois a gente se fala. — diz Rob andando de costas e indo embora.
– Okay — respondo.
Assim que fecho a porta do armário e o tranco, minha nuca começa a formigar me alertando de alguma presença. Uma "ruiva" estava parada me olhando e sorrindo de forma exagerada. Seus olhos eram pequenos e cor de avelã, o cabelo não era ruivo natural como Giulia, havia um centímetro do seu louro escuro aparecendo; tinha sardas em seus rosto.
– Você é a Charlie ? — pergunta ela simpaticamente.
– Quem pergunta ? — rebato.
– Letícia Dale. — responde ela. — Achei que você fosse mais tímida como Giulia disse, mas pelo visto, ela se enganou.
– Desculpe, você disse Giulia ? — pergunto sem entender o que ela queria dizer com aquilo.
– Sim, disse. — responde ela rindo. — Sou amiga dela. Ela também comentou que você a insultava muito, porém vamos ser sensatas, nem sempre ela é agradável para não nos dar uns nervos.
– Sempre ? — zombo.
Letícia me observa de maneira atenta e dando um sorriso suave, procurando em mim algo que lhe parecesse errado, mas vendo que obteria sucesso, apenas disse.
– Nos vemos por aí, Charlie. — a sensação estranha que tive estava indo embora junto com Letícia.
– Igualmente. — respondo.
Esse foi o papo mais estranho que já tive, mas até ela parecia ser uma pessoa boa, tirando o fato de ser amiga de Giulia.
– Charlie! — grita Clarice no meio do corredor vindo em minha direção correndo. Ela pula em cima de mim com os braços abertos, me dando um forte abraço.
– Quantas vezes eu tenho que dizer para não me abraçar ? — digo meio sufocada pelo aperto.
– Acho que para todo o sempre. — responde ela me dando um sorriso inocente. Aquele sorriso me fez lembrar o dia que a conheci aqui, neste mesmo lugar e no susto que ela me deu.
– Então, você mostrou o John para sua mãe ? — pergunto, pois lembrei que a mãe de Clarice, a Sr. Lewis, tinha achado que Rob fosse John fazendo um momento embaraçoso.
– Já e eles conversaram. Foi bem legal. Minha mãe não gostou muito da ideia de eu estar num relacionamento agora, mas ela gostou de John, então... Pelo menos isso. — explica ela, por fim dando ombros.
– Relaxa, vai tudo dar certo. — digo a encorajando.
– Eu espero. — Clarice parecia bem desanimada quanto à isso, mas sua expressão se alegrou quase de imediato, ela lembrou de alguma coisa. — E você e Dimitri ?
– É complicado. — digo rindo. — Ele é...
– Bem sexy. — responde Clarice achando que era isso que eu ia dizer.
– Não! Quer dizer, também é, mas não tenho certeza. Eu gosto dele. — digo encolhendo os ombros.
– Pode ter uma certeza, ele gosta de você. — Clarice estava com um sorriso inocente.
– Porque você acha isso ? — franzi as sobrancelhas
– Porque John me contou que quando vocês dois se viram pela primeira vez, Dimitri achou você... Diferente e idiota.
– Idiota ?! — exclamo.
– Mas olhe, é no bom sentido.
– E qual seria ? — pergunto e volto a sentir minha nuca formigar.
– De que achei você uma gracinha quando te vi. — diz Dimitri atrás de mim e Clarice.
Me viro para ele, meu rosto ferveu de tanto corar. Clarice ficou vermelha. Dimitri nos observava com atenção.
– Acho melhor deixar vocês dois à sós. — diz Clarice saindo.
Assim que ela sai, antes que eu ou Dimitri pudéssemos dizer qualquer coisa, o sinal tocou.
– Eu tenho que ir para aula. — digo andando de cabeça baixa.
– Charlie. — chama ele.
Olho para Dimitri, ele estava sorrindo.
– Já disse que não precisa ficar envergonhada. — disse ele pegando minha mão.
O corredor já estava vazio. Eu tinha que ir logo para sala. Me aproximo de Dimitri e lhe dou beijo rápido.
– Quer matar aula ? — pergunta ele com um sorriso malicioso.
– O quê ? — digo me surpresa pela ideia dele. — Não dá, eu tenho uns deveres que preciso entregar.
– Tudo bem. — diz ele desanimado dando ombros. — Quem sabe na próxima.
– Me leva para casa hoje, então. — sugiro.
– Está bem. — seu rosto iluminou quando disse aquilo.
– Eu vou indo. — lhe dou mais um beijo e vou andando até a sala.
Entro na sala de álgebra 2 e recebo um olhar de advertência do Sr. Kyle. Sibilei : Desculpe! E vou caminhando rapidamente até minha cadeira e vejo Mitch sentada na cadeira próxima à minha.
– Oi, Mitch. — disse eu feliz de a ver melhor.
– Oi. — disse ela tossindo um pouco.
– Você está melhor ? — pergunto preocupada com ela. — Eu soube que você estava doente.
– Sim, fiquei com pneumonia. E você está bem ? — pergunta ela ainda tossindo.
– Estou bem. — respondo com um bocejo.
Assisti a aula de álgebra 2 com muita preguiça e conversando com Mitch. Depois disso, fui para aula de literatura inglesa me sentando no fundo da sala encostada na parede. A aula estava tão interessante que pego no sono.
No sonho, (Mais um sonho idiota! Ou não.) eu estava num quarto. Mas não era um quarto com paredes pintadas e o piso de madeira ou carpete. Era um quarto com paredes de pedra como as de uma caverna, mas tinha duas janelas feitas da própria pedra, o que me fez perceber que não era uma caverna. O teto era de madeira, o piso era de pedra cortada em retângulos, uma cortina de algodão vermelha nas janelas. No canto uma mesa com uma vela para iluminar o local.
Olho em volta de todo o quarto e me deparo com uma cama sustentada por pedaços de madeira. Na cama, havia um menino que aparentava ter uns oito anos. Ele era loiro de olhos azuis tão profundos quantos os de Rob. O menino estava enrolado em cobertas de seda azuis que realçava seus olhos, junto com ele havia também outra pessoa na cama, mas sentada na beira.
Era uma mulher que estava de costas que desta maneira, impedia que visse seu rosto; porém, de alguma forma ela me pareceu familiar. Ela tinha longos cachos castanhos-escuro que iam até sua cintura, sua pele era morena.
– Mamãe, quando o papai vai chegar ? — pergunta o menino choroso.
– Logo, logo ele estará aqui, querido. — diz a mulher.
– Então, não irei dormir até sua chegada. — determina o menino cruzando os braços sob seu peito.
– Querido, quando chegar ele irá falar com você, mas é preciso que descanse. Afinal, me ajudaste hoje no campo. — disse a mulher, sua voz era tão suave de ouvir.
– Está bem, mas cante para mim dormir hoje ? — pergunto o menino tímido.
– Claro. — disse ela.
O menino se ajeita na cama, que fez um ruído, para prestar atenção na mãe. Com uma doce e linda voz, ela canta uma canção de ninar e aos poucos, o menino fecha os olhos, dormindo. A mãe se levanta e dá um beijo na testa do filho.
– Ele dormira bem na hora que chego. — diz uma voz grave vindo da porta.
Meu olhar segue o som da voz. Era um homem muito bonito. Ele era loiro com os mesmos olhos azuis do menino. Para falar a verdade, a menino e ele eram idênticos.
– Ele está bem cansado. Me ajudou hoje no campo. — disse a mulher.
– Não é atoa que é teu filho. — brinca o homem indo até o menino lhe dando também um beijo na testa.
Me aproximo da mulher que estava de costas para mim parada perto da cama, não conseguia ver seu rosto. Fiquei de frente para ela com falta de ar, era impossível o que via. A mulher era eu. As mesmas feições, o mesmo modo de sorrir, a mesma maneira que seu olhar cai sob aquilo que lhe agrada. Era eu, só que alguns anos mais velha.
– Você sou eu! — berro de nervosismo. — Cara, eu sou gata! — tento regular minha respiração. — Okay, Charlie, se acalme. Você é gata nesse sonho, mas se controle.
A mulher caminha até a porta, mas antes ela me atravessa como se eu fosse um fantasma. E ela espera pelo marido encostada no batente da porta.
– Que bruxaria é essa ? — me apavoro e pulando.
De uma das janelas do quarto, veio uma luz muito forte que agredia minha vista. Coloco uma de minhas mãos para cobrir meus olhos. Tudo ficou claro e quando me dou conta, estou numa estrada deserta.
– De novo não — murmuro lamentando.
Essa era a mesma estrada que sonhei uns dias atrás com pessoas mudando de face e minha mãe gritando com olhos negros.
– Achei que só te veria mais tarde. — disse uma voz que fez meu corpo inteiro gelar.
Me viro. Era a mulher de aparência horrível.
– Se for tentar me matar que seja rápido. Não quero ter que ouvir sua nostalgia. — resmungo.
– Não vou te matar, embora seja de grande prazer fazer essa honra. — disse ela dando um sorriso para mim. — Acho que começamos com o pé esquerdo.
– Você acha ? — zombo.
– Acho. — disse ela rindo. Se seu sorriso era de dar medo, imagine essa praga rindo. — Sou Ravenna.
– Ravenna ? — pergunto, pois aquele nome não me era estranho, o conhecia de algum lugar.
– Sim, Charlotte. — confirma Ravenna. A fuzilo com os olhos e então ela percebeu o porquê. — Sei que não goste que te chamem assim. Me desculpe.
– Apenas me chame de Charlie. — digo. — E eu tenho umas perguntas.
– Pode fazê-las. — permite Ravenna.
– Primeira, assim que me viu disse que finalmente tinha me encontrado. Como me conhece ?
– É uma pergunta interessante. Imagino que as outras serão do mesmo modo. — disse Ravenna calma. — Digamos que eu seja uma parte sua que lhe procura.
– Como se fosse uma parte do meu subconsciente ? — pergunto.
– É, quase isso. — disse ela com uma expressão sombria.
– Está bem. Segunda pergunta. — tento pensar. — Se você dizer que é como se fosse um subconsciente meu, porque sonhei com um lago que eu nem sabia que existia ?
– Não sei, talvez parte de você sabia que o lago existia, mas nunca se passou por sua mente. — responde Ravenna.
– Porque tentou me atacar ?
– Na verdade, queria te testar, sabe. Entender até onde vai seu limite. — disse ela como se fosse o fato mais normal do mundo.
– Mas você não é...
– Parte do seu subconsciente. — interrompe Ravenna. — Não necessariamente. Você de certa forma, me criou em sua mente como uma maneira de não aceitar alguns acontecimentos, pensamentos ou até decorrentemente, dúvidas.
– Como assim ? — fico confusa com a parte de eu ter a criado.
– Você tem muitas dúvidas, isso acaba afetando sua maneira de pensar e suas escolhas.
– Tudo bem, entendi. — digo. Era muita coisa para compreender que me dava dor de cabeça.
– Essas coisas que estão acontecendo com você não são normais, Charlie. Não pode contá-las para ninguém, nem naqueles que você mais confia. — avisa Ravenna.
– Mas e esse sonhos ? — pergunto à Ravenna. — O que eles são ?
– Não posso lhe dizer, tem que descobrir por si mesma. — disse ela.
– E como posso fazer isso ?
– Procure pistas. Se arrisque. — sugere Ravenna. — Faça o que tiver de fazer, mas faça. Quanto mais tentar, mais cedo encontrará seu pai, em seguida sua mãe.
– Entendi. — compreendo. — Obrigada.
– Charlie, antes de acordar preciso que saiba de algo. — disse Ravenna com pena. — Fique longe daquele que está te ajudando, ele tem muito à esconder.
Após Ravenna ter dito aquilo, acordo com a Sra. Williams me sacudindo.
– Senhorita Stevens, minha aula não é lugar para você tirar seus cochilos. — me repreende ela. — Além do mais, foi requerida sua presença na diretoria.
– Hã... Obrigada e me desculpe. — agradeço e me desculpou ao mesmo tempo levando minha mochila e saindo da sala contente por não ter que aturar aquela professora chata, embora gostasse de sua aula. Sai da sala sorrindo, a turma inteira gargalhou por eu estar daquele jeito ao sair.
Indo até diretoria ainda sorrindo, encontro Giulia na sala de espera.
Agora que deu merda, penso com meu sorriso se desfazendo. Ela vai querer me bater de novo.
Giulia estava bem séria mais do que o normal. A secretária da diretoria não estava em sua cadeira de recepção.
– O que faz aqui ? — pergunto à Giulia.
– Vim falar com você. — responde ela se levantando indo em minha direção.
Fecho os olhos e prendo a respiração esperando Giulia me socar logo de uma vez. Não sou de brigar, a não ser com Jess ou talvez com Dimitri, o que é completamente diferente, mas eu não sei bater e sempre fico nervosa na hora.
– O que está fazendo ? — pergunta Giulia.
– Esperando você me socar ou algo assim. — respondo abrindo os olhos.
– Não vou lhe bater. — disse Giulia. — Quero... pedir desculpas por ter te batido e por tudo que lhe fiz. E por ter te atropelado.
– Você está me pedindo desculpas ? — pergunto boquiaberta e espantada com os olhos arregalados.
– Sim e se contar à alguém, juro que te arrebento. — ameaça Giulia.
– Está bem, está bem. — levanto as mãos para cima. — Ninguém vai falar nada à ninguém.
– Ótimo. — aceita ela.
– O que te fez mudar de ideia ? — pergunto curiosa.
– Você não é tão ruim assim como eu pensei. Além do mais, te dei uma surra e você nem pôde se defender, o que é covardia da minha parte. — explica Giulia.
– Okay... — digo ainda em choque.
Viu como tudo se resolve de maneira simples ? Você vira inimiga de alguém e depois que ela te arrebenta, vocês podem ser amigas! Que droga...
– Mas isso não que dizer que somos amigas. — disse ela. — Ainda tenho raiva do que me disse.
– Está bem, então. — digo meio tonta.
– Você está bem ? — pergunta Giulia. — Você está pálida.
– Estou bem. — respondo.
– Agora pode voltar para sala. — sussurra ela.
– O quê ? — me confundo.
– Quem você acha que te chamou aqui, lerda ? — zomba Giulia.
– Ah! Foi você. Tudo bem, entendi. Até mais. — digo voltando para sala, mas o sinal do intervalo tocou.
Ando até a cantina, encontro com Clarice e Letícia conversando e dando gargalhadas. Senti uma pontada de ciúmes por aquilo.
– Hey, lerda. — chama Rob atrás de mim.
– E aí ? — digo. — Comer ? — lhe pergunto levantando as sobrancelhas.
– Comer. — concorda ele sorrindo.
Pegamos nosso lanche e sentamos numa mesa perto das janelas e as portas de vidro longe de Clarice e sua nova amiga.
– Quero ir para casa, — resmungo comendo uma batata frita. — me jogar... Quer dizer, deitar na cama.
– Porque você deixou esse "jogar" bem vago ? — pergunta Rob tomando seu suco de laranja.
– Eu quebrei minha cama. — digo me encolhendo.
– Você o quê ? — ri Rob. — Você quebrou sua cama se jogando nela ?
– Eu sempre faço isso. — reclamo.
– Bom... Uma hora ia ter que quebrar. — zomba Rob.
– Não sei, eu sempre me jogo e já fiz de maneira pior. Será que não tem haver com... Você sabe ? — pergunto pensando.
– Depois da aula de história vamos ver isso. — diz Rob.
Lembrei de que Dimitri ia me levar hoje em casa depois da aula.
– Rob, você não disse que tem aula junto com Dimitri também ? — pergunto, sem saber o que a fiz.
– Sim, porque ? — ele diz estreitando os olhos para mim.
– Porque vocês não se dão bem ? — pergunto.
– É complicado e coisas de homem. — responde ele. — Você gosta dele não é ?
– Rob... — não tinha coragem de dizer isso à ele. Ele realmente gosta de mim, mas o que eu faria se fosse para dizer. Era melhor mentir ou contar à ele ?
– Não precisa dizer nada. — disse ele olhando para o campo através da janela. — Não vou ficar com raiva de você, mas eu já te avisei sobre ele.
– E se ele não fosse como você pensa que é ? — desafio Rob.
– Não tenho certeza do que faria, mas... Te pediria perdão logo de primeira. — disse ele voltando seus olhos para mim. Eram de dor e tristeza.
– Não precisa pedir, você sempre terá meu perdão.
– Você vai sair com ele depois da aula, certo ? — pergunta Rob.
– Ele vai me levar para casa. — respondo. — Você pode vim junto. De repente, vocês possam, não sei, fazer uma trégua de paz.
A expressão de Rob ficou indecisa entre querer rir do que eu disse ou me lançar um olhar severo. Mas no final, ele optou em fazer ambos.
– Trégua ? — ri ele. — Não acho que ele aceitaria.
– E porque não ? — pressiono Rob.
– Porque nós dois queremos a mesma coisa e temos propósitos diferentes com ela. E, pelo o que me lembro, os nossos lados não influenciam em trégua atualmente. — explica ele, mas acabou dificultando tudo.
– Finjo que entendo. — digo querendo esquecer o assunto.
– Okay... — suspira Rob.
Minha nuca estava formigando, mas meu pescoço inteiro formigou mais ainda, e então quando notei Dimitri parado atrás de mim e Rob.
– Oi. — digo surpresa. — Achei que você fosse...
– A Charlie não precisa saber dessas coisas, Robert. — interrompe ele. Ainda chamando a atenção de Rob de um modo que me deixou tensa. — E você tem razão, não há trégua e nem nunca houve.
– Ela precisa saber e você sabe muito bem disso, Dimitri. — disse Rob entre dentes. — Não finja que se importa com ela não saber.
– Você não entende nada, não é, moloque ? — provoca Dimitri. — Ou eu devo te chamar de anjo ? — ele deu um sorriso malicioso e sombrio.
Rob se levantou e ficou frente-a-frente com Dimitri. Meu corpo inteiro se enrijeceu. Não sabia o que fazer caso os dois fossem se matar agora.
– Não ousem começar com uma briga. — digo sem pensar e me levantando.
– E quem disse que quero briga. — zomba Dimitri. — Mas só se o anjo querer.
Os punhos de Rob cerram e estavam pronto para socar Dimitri,as não antes de eu entrar na frente.
– Não faz isso. — repreendo. — Vai lhe causar problemas.
– Isso, anjo, escute a garota dos seus sonhos que você não pode ter. — implica Dimitri.
– E você, — me viro para Dimitri. — pare de provocar.
– Sinto muito, mas nada disso aconteceria se o anjo não ficasse quieto como deveria. — disse Dimitri.
– Já chega! — explode Rob. — Eu já perdi minha paciência com você.
– Você perdeu a paciência como perdeu a Charlie para mim ? — disse Dimitri colocando as mãos em minha cintura.
Então, empurro Dimitri me virando para Rob e só vejo seu punho passando de raspão em meu cabelo, enfim, acertando Dimitri em cheio que caiu no chão e logo depois se levantou indo para cima de Rob.
Todos no refeitório estavam olhando para nós. John estava sentando com Clarice e Letícia em uma mesa distante olhando para nossa direção.
– Você perdeu a paciência ? — pergunta Dimitri com calma à Rob, mas uma chama de ódio havia em seus olhos. Estavam tão verdes que parecia lente de contato. Me pus na frente de Dimitri para segurá-lo. — Você tem noção no que fez agora ?
– Se você não tivesse provocado também, nada disso estaria acontecendo. — sussurro para ele.
– Está defendendo ele ? — pergunta Dimitri com mágoa.
– Não estou defendendo ninguém. Só quero um pouco de paz. — digo olhando em seus olhos.
– Charlie... — murmura ele. — Você terá paz...
– Não quero que me leve para casa hoje. — digo fazendo uma carranca e me volto para Rob. — E nem você. Não quero que me busquem ou algo assim, vou me virar do meu jeito. — pego minha mochila e andando, mas paro. — E só voltem a falar comigo se vocês resolverem suas diferenças. Façam a porra da trégua que nunca houve, acontecer logo de uma vez.
Saio refeitório com olhares sob minhas costas, mas saio de cabeça erguida. Não fico para aula de história, precisava ir para o centro comercial de Aberdeen. Eu tinha um plano para me virar sozinha.
Então me lembro do Ravenna me disse.
"Faça o que tiver de fazer, mas faça."
Antes de chegar no local esperado, fui ao banco sacar dinheiro, mas tive que conversar com o gerente do meu banco o porque estava sacando mais que o normal. Andei e muito, mas valeu à pena. Caminhei até a concessionária que vendia carros usados mais próxima e entrei. O porquê uma concessionaria de carros usados ? Bom... Eu sei que vende carros usados e antigos. Resolvi dar uma olhada nos carros dali.
Não sou cardíaca, mas quase tive um ataque fulminante quando vi um Ford Mustang GT 1970 preto. O vendedor era um homem velho quase sem cabelo e corcunda.
– Quanto eu posso das de entrada nele ? — pergunto apontando para o Mustang.
– Esse carro... não acho que vá querê-lo. — disse o vendedor.
– Está brincando comigo ? — surto. — É um Ford Mustang GT 1970! Ele é perfeito. Tem noção de que não existem mais carros maravilhosos como esse ? Eu o quero.
– Você tem certeza, minha jovem ? — pergunta ele com preocupação para mim.
– Absolutamente, sim. — confirmo.
– Está bem. — disse ele por fim pegando a papelada para assinar.
Após ter dado entrada no carro e assinar uma enorme papelada, eu estava tão feliz por ter comprado o carro. Finalmente, vou para casa.
Dirigi até a garagem da minha casa, mas estava ocupado por dois outros carros. A camionete de Rob e o SUV de Dimitri e John. Então, estacionei em frente a calçada de casa. Pulo para fora do Mustang e caminho até a porta de entrada de casa, a destrancando.
Assim que entro me deparo com Rob, Pearl, Dimitri e John na sala.
– Onde esteve todo esse tempo ? — pergunta Pearl preocupada.
– Eu estava... Bom... Eu... — gaguejei.
– Charlie, você tem que me avisar para onde vai. Tem noção de como fiquei nervosa ? — disse ela suspirando.
– Eu comprei um carro. — digo por fim.
Todos se entreolharam, inclusive Rob e Dimitri.
– Quando disse que ia se virar sozinha, não estava brincando. — disse Dimitri.
– Realmente, não estava. — rebato.
– Charlie, você está bem ? — pergunta John. — Está sentindo alguma coisa estranha ou algo do tipo ?
– Estou bem, nunca me senti melhor. — digo com cautela.
– Tem certeza, deusa ? — pergunta Dimitri estreitando os olhos para mim.
– Já disse, estou bem. — respondo friamente.
– Eu disse que ela não iria ser sutil conosco depois daquele briga. — disse Rob.
– Que briga ? — pergunta Pearl. — Do que eles estão falando, Charlie ?
– Não é nada demais. — disse eu.
– Se não é nada demais, porque não me conta...
– Já disse que não foi nada demais! — explodi.
Minha cabeça estava martelando. Suor escorria pela minha testa, minhas mãos grudentas pelo suor. Tudo parecendo ficar lento e mais lento.
Dimitri que estava próximo de mim, tentou me segurar, mas lhe empurrou. Ainda assim, ele agarra meus braços e tento me soltar dele. Estava com raiva dele e de Rob, o fato dos dois querem se matar e não me respeitarem, fez com que eu quisesse bater neles. No momento que me soltei, tento socar Dimitri por ser um babaca, mas porque eu quis fazer isso, não sei. Ele desvia do meu golpe e acertei a parede com tudo, abrindo um buraco no meio dela.
Engoli em seco, pois eu havia feito um buraco no meio da parede e não sentia dor alguma. Nem inchada ela ficou. A expressão no rosto de cada um foi de espanto, não por ter perfurado a parede, mas por eu não está demonstrando nenhum vestígio de dor. O que consume cada pedaço dentro de mim por me achar estranha ou anormal.
Sinto a necessidade de esconder meu rosto no buraco, mas a atitude e força foram afetados perante ao meu medo que senti. Apesar de Rob saber o que esta a acontecendo comigo, ele balançava a cabeça em negação.
– Satisfeito agora? — pergunta Dimitri à John.
Me viro para olhar Dimitri, entender o porque dele dizer aquilo com John.
– Na verdade, isso é...
– Insano. — completa Rob por John.
– Exato. — concorda Pearl pasma.
– Você ia fazer isso na minha cara. — sussurra Dimitri. — Mas não se preocupe, eu desviei bem e não afetou meu lindo rosto.
– Você é retardado ? — pergunto em choque pelo que fiz.
– Um pouco. Quer dizer, às vezes. — ele dá ombros. — Tudo bem, o tempo todo.
– Que seja. — resmungo.
– Além do mais, qual o carro que minha deusa comprou ? — pergunta ele como se estivesse tudo bem, eu não havia feito um buraco na parede e estávamos nos divertindo. — Estou afim de dirigi-lo e bater num muro com ele por diversão.
– Você não vai encostar um dedo no meu carro. — ameaço.
– Está bem. — Dimitri levanta as mãos em defesa. — Mas você dirigiu o meu o que torna injusto.
– Vamos embora ? — sugere John.
– Claro. — disse Dimitri agarrando minha cintura e me surpreendendo com beijo. — Só para você saber, fizemos uma trégua. Eu fiz por você, saiba disso.
– Fez porque eu disse que não ia mais falar com você até se resolverem. — digo entre dentes.
– Verdade, mas eu faço o que você manda. — disse ele me soltando e indo embora.
– Até mais, Charlie. — disse John seguindo Dimitri.
– Até mais. — respondo olhando para Rob.
Ele anda até a mim pegando na mão que perfurei a parede.
– Vai ficar tudo bem. — assegura ele.
– Assim espero. — digo abaixando a cabeça.
– Olha para mim. — disse ele e eu obedeço. — Não quero ficar brigado com você, odeio isso. Quero estar sempre com você.
– Rob, você é meu melhor amigo. Eu não quero mais brigas ou algo assim, quero estar contigo. Me dando apoio...
Ele me abraça. Apenas sinto a calma que Rob me passava, eu estava tão desesperada pelo fato de ter feito um buraco na parede e por todos me olharem com pena por isso. Era como se a esperança deles tivesse morrido naquele instante. A única chance de terem certeza de que não podia ser o que temiam, mas aconteceu no final de tudo.
– Você vai ficar bem, estou aqui com você. — disse Rob em meu ouvido.
Por um momento, lembro da presença de Pearl na sala Sernada no sofá encarando na lareira pensativa. Ela estava tão quieta que me sentir pior pela maneira que a tratei. Não era certo, foi terrível o que fiz. Se eu pudesse voltar no tempo, nunca teria falado com ela daquele jeito.
– Não foi sua culpa. — sussurra Rob. — Aquilo foram suas emoções se ampliando, não você. — conta ele. -Faz parte do processo de transformação, então não se preocupe, mas tente controlar o quanto puder. Lembre-se quanto mais controle, menos tempo você tem que aturar isso.
– Rob, você está lendo minha mente ? — pergunto desconfiada de que ele fazia isso.
– Às vezes, sabe... — se envergonha ele. — Não faço por mal.
– Promete para mim que não irá ler minha mente sem minha permissão ? — sugiro.
– Sim, eu vou tentar. — promete ele rindo. — Agora eu vou embora. — ele se inclina e me dá um beijo na testa. — Até mais, diva.
– Até mais, princeso. — digo vendo ele ir embora.
Pearl estava me olhando e quando me virei para ela, simplesmente suspira. Me sentia péssima por ter feito aquilo. Minha avó era minha família, e minha família sempre vou lutar por ela.
– Vó, eu sinto muito pelo jeito que falei com a senhora, foi horrível. Me desculpe. Eu não estava pensando direito, ou melhor, eu não estava pensando. — me desculpo. — E foi mal pela parede.
– Você não precisa se desculpar. — disse ela pensativa. — Eu entendo o que você sente, não se preocupe com nada, tudo bem. Eu vou chamar alguém para arrumar a parede e sua cama. — Pearl se vira do sofá para me olhar de outro ângulo. — E não se preocupe com a parede. Lembra quando você e Jess chegaram aqui e ela estava quebrada ?
– Sei. — confirmo.
– E seu carro ? Qual modelo ele é ? — pergunta ela com os olhos brilhando.
Sorri ao responder.
– É um Ford Mustang GT 1970. Ele é preto e estou apaixonada por ele. É um carro perfeito para mim. — digo.
– Sua mãe que iria gostar dele. Vocês duas tem a mesma paixão por carros antigos. — sorria ela ao se lembra, mas seu sorriso se desmancha apenas sobrando um olhar triste e melancólico em seus os olhos.
– Vó, — caminho até ela e me ajoelho em seus pés. — vamos achar minha mãe. Eu vou fazer de tudo para a encontrar, nada vai me impedir. — prometo.
– Não quero que tome a decisão errada. Pense com clareza e enxergue quem realmente está ao seu lado. — avisa Pearl se levantando e subindo as escadas, mas no meio do caminho se vira e me diz. — Só isso que lhe digo, querida. Eu quero seu bem.
Com esse aviso de Pearl me faz pensar no aviso de Ravenna, de Rob, de Jess. Tudo se ligava aos poucos em minha mente fazendo com que eu me sinta no instinto de fazer algo o mais rápido possível. Eu tinha que agir ou minha mãe estaria morta por minha causa e isso não vou permitir.
Vou até meu quarto pegando o diário de minha mãe, o papel que Dimitri tinha me dado com informações sobre meu pai.
Procure pistas., as palavras de Ravenna ecoam em minha mente atiçando cada vez mais minha curiosidade. "Faça o que tiver de fazer, mas faça."
É agora ou nunca. Não sei o porque, mas acho que sei onde encontrar meu pai e não vai ser muito bom.
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