Era sábado de manhã, minha mãe como sempre me acordava mais cedo chamando aos berros para arrumar a casa antes de a família chegar. Todo o sábado era dia de almoço aqui em casa, aonde toda a família vinha para almoçar, fofocar, brincar e eu como sempre ficar no computador com a porta trancada para que as pestes dos meus priminhos não me perturbassem. Mas como hoje era um dia de grande correria não iria adiantar ficar discutindo.

Levantei da cama, estava meio frio, era uma manhã sem cara nenhuma de sábado, chuvosa, e o pior de tudo, é que eu ainda por cima tinha que arrumar minhas coisas e colocar nas caixas.
Estava me mudando e esse era o dia mais corrido para todos. Já estavam colocando as coisas no caminhão de mudança. Mamãe tinha que fazer o almoço e ajudar a arrumar algumas coisas. Já papai estava arrumando o carro e como sempre apressado e meio nervoso com tudo e todos.
Coloquei minha blusa de algodão cinza com listras azuis que era a minha preferida, minha calça de moletom preta e minhas pantufas, peguei minha escova de dente minha pasta e fui para o banheiro. Fiquei olhando para o espelho, e pensando comigo mesma como seria meu dia, coloquei a pasta na escova e comecei a escovar os dentes devagar, pensando em o que poderia acontecer hoje, o que sempre faço todo dia de manhã. Minha mãe mais uma vez me chama, e agora nervosa:

- Alice ou você desce agora, ou vou te buscar! Venha logo me ajudar menina! Não esta vendo que eu tenho muita coisa pra fazer ainda?!

- Já to indo mãe! Calma! Respondi as pressas e meio nervosa.

Parei de ficar enrolando e terminei de escovar os dentes rápido, desci a escada prendendo o cabelo num rabo de cavalo meio louco.

Chegando à sala, papai me deu bom dia como sempre e voltou para suas preocupações, mamãe me deu um beijo e voltou a fazer o que estava fazendo. Comi rápido meu pão e tomei meu café que estava fervendo, queimando a língua. Maravilha. Assim que terminei, lavei os talheres e tudo que tinha na pia, e fui guardando e deixando somente o que mamãe iria usar no almoço.
Fiquei pensando enquanto lavava a louça, pensando nos amigos que iria deixar, pensando em que escola iria ficar, pensando na saudade que iria sentir da minha melhor amiga, pensando em tudo. Até que ouço um barulho totalmente irritante.

Droga. Era minha tia “grudenta” e meus primos insuportáveis. Guardei a louça e os talheres dentro da caixa e subi correndo para meu quarto, gritando para minha mãe que iria arrumar as minhas coisas.

Assim que cheguei, tranquei a porta aliviada por estar segura de meus priminhos totalmente irritantes e babões. E decidi que iria começar pelo guarda roupa, onde tem muito mais coisas. Então peguei a caixa e fui guardando as roupas, e em algumas peças, ficava lembrando um pouco do que passei usando-as, sorte minha que tinha dado a maioria delas, pois já que mamãe falou que iria renovar meu guarda roupa, só deixei a que realmente era apegada.
Mexendo em minhas bagunças, achei minha caixinha de coisas “secretas” como costumava falar antes, quando era mais nova, onde guardava coisas minhas que não queria que minha mãe ou alguém as achasse, abri e comecei a lembrar das situações, rolos e alegrias que passei, e comecei a chorar. Sim, isso foi totalmente idiota e sentimental, mas hoje dei uma folga pra mim mesma, já que era meu ultimo dia. Então coloquei tudo novamente na caixinha bem rápido e limpei minhas lagrimas com raiva, já que odiava chorar. Coloquei na caixa onde estavam as roupas e continuei com a arrumação.

Assim que terminei de arrumar tudo, sentei na cama e olhei meu quarto, sem enfeites, sem minhas roupas bagunçadas, sem meus cadernos e livros jogados, sem nada, só moveis. Senti meu coração cada vez mais pesado, e a vontade de chorar estava aumentando. Não queria me mudar dali, passei minha infância inteira naquele lugar, com aquelas pessoas, me apeguei demais com tudo. Não estava pronta para ir, mas como papai estava feliz com o novo emprego, decidi que seria melhor não falar nada, apenas concordar.

Novamente limpei as lágrimas, lavei o rosto e me recompus, estava triste pra caramba, mas como sabia que agora era tarde de mais, tentei esquecer um pouco tudo e fui descer para ver a minha “querida” família.

- Minha linda! Que saudades! Como você vai?Cresceu bastante! Venha cá me dar um beijo!

Minha tia me irritava, ela era grudenta demais da conta para que alguém possa gostar dela, mas como minha mãe iria ficar furiosa se eu a respondesse mal, só respondi o necessário, dei um beijo sem vontade nenhuma nela e fui fazer o que realmente queria.

- Mãe, eu já terminei de arrumar tudo, posso ir me despedir dos meus amigos? É rapidinho... Por favor?

Minha mãe olhou pra mim, concordou, mas acrescentou:

- Pode, mas vê se não demora muito, porque assim que terminar o almoço e eles estiverem indo embora, nós pegaremos a estrada. E não quero me atrasar.

Apenas fiz um gesto com a cabeça concordando e coloquei uma jaqueta que estava ainda pendurada perto da porta. Olhei para meus pés, vi a pantufa, mas como sabia que quanto mais eu demorasse pior seria, nem liguei e sai de casa com pantufa e tudo.

Assim que sai, vi os meus amigos sentados na calçada, todos com coisas na mão, uns chacoalhando o pacotinho, outros vendo se estava perfeitamente embrulhado e etc. Sorri e corri em direção deles, que se levantaram assim que cheguei e me abraçaram em conjunto. Fiquei super mal, embora não parecesse, porque não estava pronta pra deixar essas pestes que ficaram todo esse tempo da minha vida ao meu lado.
Depois do abraço coletivo, eles sorriram e me deram seus presentes. Jonathan o bagunceiro, me deu uma blusa dele que eu amava e sempre pegava dele quando estava com frio e ele nem ligava. Era de couro preto, com fivelas. Perfeito. E também me deu a foto que eu tirei dele mostrando à bunda quando ele estava bêbado. Todos começaram a rir, e depois de um breve minuto zoando ele, eu o abracei e ele falou que iria me ligar assim que ele pudesse. Gesticulei um ‘tá bom’ e fui para o próximo amigo, não que tivesse muitos, eram só quatro, duas meninas e dois meninos.


Olhei para o Matheus, sorri e assim que ele me entregou o presente me disse:

- Então, esse presente ai é uma coisa que você sempre quis minha, e acho que vai precisar dele para me mostrar o lugar.

Sorri e abracei-o bem forte, tá certo que câmera assim igual a que ele me deu é cara, mas nem me importei, porque esse menino fofo e gay era muito bom de vida.
Pâmela já estava me puxando antes de dar um ultimo beijo no Matheus, comecei a rir, e ela com o seu jeito tipo “vou te dar” começou a falar rápido e meio ofegante:

- Abre logo, vai vai ! Você vai amar, eu sei que vai! Era uma coisa que você queria muito, e que eu estava esperando ansiosamente pra ver sua cara!

Olhei pra ela meio assustada, e abaixei o olhar pra caixa que estava amostra, e quando abri, olhei pra ela de novo e dei um grito, e ela gritou também. Era a coleção de CDs de várias bandas de rock que o pai dela tinha, e que eu pirava quando via. Eu sempre quis ter uma coleção, e ela sabia disso. Abracei-a bem forte e falei entre o abraço:

- Meu Deus Pâmela, eu não acredito! Valeu mesmo! Caramba, eu vou pirar demais com essas musicas, e pode deixar que lembrarei de você quando as ouvir. Ela sorriu e eu também, até que me virei.

Era ela, e assim que a vi, a alegria que eu estava sentindo sumiu como vapor. Nem pensei muito e logo a abracei, já falando que eu ia sentir falta de tudo e já combinando que assim que eu pudesse levava ela comigo. Ela também falava que iria sentir minha falta e que ia contar os segundos pra esse dia chegar.

Afastei-me, olhei pra minha melhor amiga, e ela me entregou o seu presente. Sorri, e assim que abri me segurei pra não chorar compulsivamente igual uma criança birrenta num Shopping. Era nosso algum de fotos e figurinhas, e de coisas que colávamos quando éramos pequenas. Havia fotos de todas as nossas idades, desde a época de fraldas e melecas (que eram nossas mães que as tiravam, é claro), até a nossa foto com as camisetas de bandas, batom preto, e muitas caretas e maquiagens, assim como as inúmeras figurinhas desde As meninas Super Poderosas, até várias outras, de todos os desenhos que iam passando. Coladas com cola quando não colavam sozinhas, e algumas coladas com chiclete, que sempre era a porquinha da Raquel que colava.

Depois de muita conversa, e o chororô do Matheus, levantei e me despedi de todos com um aperto no coração, e falei meio melosa:

- Bom, agora vou ter que ir... E pode ter certeza que vou me lembrar de cada um de vocês quando usar meus presentes. Amo todos vocês!

Eles sorriram e me abraçaram de novo, e assim que me deram um beijo, ficaram meio pra baixo de novo, mais continuaram sorrindo, enquanto eu ia indo pra casa novamente.

Chegando lá, mamãe estava quase arrumada e papai também estava quase pronto. Os caras da mudança estavam terminando de tirar os móveis da casa, e eu fiquei ali encostada na parede, olhando o lugar em que passei quase uma vida. Fiquei mais triste ainda, mas como estava perto do meu pai, não chorei nem demonstrei nada, porque não queria deixar ele mal, e porque odiava ser melosa ou demonstrar meus sentimentos, até mesmo para meus pais.

Entrei no carro, peguei uma cobertinha que sempre ficava lá, e me cobri, olhando para a janela. Jonathan, Matheus, Raquel e Pâmela estavam na calçada olhando e acenando pra mim. Fiquei pior, mas acenei e mandei beijo, ficando com vontade de correr até lá e ficar com eles. Meus pais se despediram dos amigos e da família que estava lá no portão de casa, e depois que deram tchau pros meus amigos, entraram no carro. Felizes da vida.

O som no carro estava bem alto, meu pai e minha mãe conversavam alegres, e até arriscavam uma notinha da musica. Meus pais eram meio bobões. Tudo era motivo de rir, e eu gostava disso neles, e com isso não pude conter e sorri também, e mesmo triste consegui me alegrar com eles um pouco. Até porque agora não tinha mais volta também.
Demoramos muito na estrada, mas antes de chegar ao lugar esperado, paramos em um posto de gasolina. Chegamos naqueles barzinhos que sempre estão lá quando precisamos. E antes de sair do carro, olhei em volta e nada de pessoas, carros, jegues ou animais. Suspirei e saí.

Voltamos para o carro, e enquanto papai dirigia, eu e mamãe devoramos o lanche (que a propósito estava muito bom). Terminei de comer, e fui novamente ficar melancólica na janela.
Tá legal, eu não sou assim, mas aquela situação era realmente engraçada, então fiquei ali me zoando e fazendo isso, até que papai começou a entrar em um lugar muito fechado, cheio de árvores e rios.

O lugar era realmente estranho, havia muita pouca casa, e havia mais árvores do que pessoas. Mas uma coisa era certa, o lugar era a coisa mais linda que eu já vi. As casinhas eram de madeira, e era meio que nem aquelas de contos de fadas, todas bem jeitosinhas, com flores e árvores frutíferas em volta, e onde passávamos, olhares curiosos das únicas pessoas que habitavam lá acompanhavam o carro. Fiquei olhando o lugar, as paisagens por um bom tempo, até que mamãe finalmente fala:

- É, demoramos mais finalmente chegamos. E vamos ter muito trabalho pela frente... hehehe.

Virei minha cabeça, e do outro lado me deparei com o troço que falaram que seria uma casa, e que era realmente muito acabada.
A madeira estava velha e úmida, as flores em volta estavam todas secas, as janelas quase caindo, o portão todo em pedaços e o quintal cheio de folhas murchas das arvores grandes, parecia mais um cenário de cemitério do que um lar de família.

Papai sorriu, e olhou para mamãe. Mamãe também sorriu e assim que olharam pra mim, vi que eu tinha feito uma cara não muito boa, pois eles pararam de sorrir na hora e mamãe me perguntou:

- Que cara é essa menina, não avisei que nós que iremos arrumá-la?

Olhei-a por um tempinho, recapitulei tudo que ela me disse a respeito da mudança e não, ela não havia me falado isso. Olhei-a de novo e respondi:

- Não dona Victória, a senhora não me falou nada disso.

Ela olhou para papai, que logo deu uma fungada, e saiu para abrir o capô pegando as malas, disfarçando o riso sem muito sucesso. Saí meio nervosa, e fui à direção da casa que estava mais pra barraco de mendigo.

Passei pelo portãozinho que estava quase caindo aos pedaços e olhei para o quintal. Se ele estivesse limpo e arrumado, ele até que seria lindo, e eu já até que estava querendo arrumar para pelo menos deixar a parte de fora apresentável, mas deixei, porque sabia que ainda iria arrumar muitas outras coisas. Fui por uma parte da casa, olhando tudo e cada detalhe em volta, e vi que havia um tipo de porão com uma porta no chão, assim como nos filmes, e fiquei encantada e com medo ao mesmo tempo daquilo, mas deixei também isso para depois, e subi as escadas para ver aquilo por dentro.

A casa era até que bonita por dentro, estava pintada de um roxo bem claro, e estava com móveis desconhecidos cobertos ainda, o que era muito estranho, porque sabiam que iríamos vir pra cá, então deveriam ter tirado já, e até que estava bem limpinha, tirando o pó que é normal. Fui em direção de um dos móveis cobertos e, aimeudeus, era um piano.

Fiquei que nem uma desesperada e tirei o pano que o cobria por completo e me deparei com aquela coisa linda. Ele era completamente preto, e muito bonito pra estar cheio de pó. Comecei a passar meus dedos no teclado, nos lugares mais cheios de pó e fiquei apertando as teclas e ouvindo aquele som maravilhoso. Amei demais, mas já pensei em não me apegar, pois podiam ainda vir buscá-lo.

Minha mãe entrou, estava muito feliz e animada com tudo aquilo, e não pude fazer nada a não ser me animar também, aliás, nem era tão ruim como pensei quando vi a casa por fora. Papai estava radiante, e já saiu para comprar os materiais de construção. Mamãe falou que a antiga dona da casa tinha deixado esses móveis para a gente, e eu, é claro, quase morri quando soube que aquele piano era meu, mas como não iria poder tocá-lo agora, nem fiquei ligando muito para aquilo, e logo fui fazer o que realmente tinha que se fazer.

Subi as escadas e logo quis escolher meu quarto, e peguei o do final do corredor, um que dava para um laguinho com uma pequena fonte, o que era perfeito. Observei o quarto e vi que ele tinha uma parede pintada de preto. Cheguei mais perto e nessa parede havia alguns quadros. Um era de uma mulher linda, vestida com um vestido preto que chegava até o tornozelo e que tinha unhas realmente muito grandes, seu cabelo era negro como a noite, acompanhando a cor de sua roupa e sua unha, e estava com um olhar intenso e medonho, mas sorria suavemente, e tinha no colo um gato preto bem fofo. Ela lembrava muito uma bruxa.

No outro quadro havia um menino loiro, com olhos tão azuis que lembrava o céu em dias sem nuvens, e estava sorrindo, com um olhar maroto, e havia na mão um estilingue, deveria ter sido uma criança muito sapeca. Mas já o ultimo quadro, fiquei espantada ao ver. Era um homem, lindo de morrer, mas que estava sendo enforcado e havia três mulheres ao seu redor e todas sorriam, como se aquilo fosse motivo de orgulho. Fiquei olhando por um bom tempo, até levar um susto do caramba quando minha mãe entrou no quarto com a vassoura na mão gritando:

- Alice! Estou te gritando faz tempo meu! Presta atenção! Toma essa vassoura, dá um jeito nessa poeira antes do caminhão de mudança chegar. E isso não vai demorar muito! Vá logo!

Ela deixou a vassoura na porta, e já a peguei e logo comecei a varrer, pois não queria que ela ficasse me enchendo depois. Terminei rápido, até porque o quarto não era aquelas coisas de grande. Olhei o móvel que estava no canto. E era uma escrivaninha. Sorri de orelha a orelha, pois meu sonho era ter uma. Coloquei a mochila que estava comigo em cima dela e sentei na cadeira que a acompanhava, esperando o caminhão e vendo os presentes que havia recebido.

Ele não demorou muito, e assim que chegou mamãe já começou a ajudar os homens, e logo tudo estava dentro da casa, pois havia muitos homens para ajudar. Desci e ajudei mamãe a arrumar eles em seus devidos lugares, e não demorou a papai chegar do depósito e ajudar a arrumar também.
Demoramos um bom tempo arrumando só o básico, mamãe já começou a tirar os pratos, talheres e afins para preparar a janta, enquanto eu estava auxiliando papai e os homens a onde colocar os móveis do meu quarto e do resto da casa, me diverti fazendo isso e me senti como se fosse arquiteta, ironia minha.
Assim que eles terminaram de colocar os móveis, eles desceram e eu estava sozinha novamente no meu quarto. Comecei a ajeitar minha roupa, que não era muita, no guarda-roupa, e assim que terminei fui jantar.

Papai e mamãe se divertiam, falando como seria o dia seguinte, pintando a casa, decorando e construindo mais coisas, comecei a falar também, e confesso que até gostei da ideia, ficamos um bom tempo falando disso, quando mamãe mudou de assunto e falou:

- Ah meu anjo, estamos tão felizes! Logo iremos achar uma escola para você terminar seus estudos e assim que terminar iremos tentar achar uma boa faculdade aqui pra você! Se tiver, é claro... E tenho certeza que você vai nos dar orgulho como sempre deu!

Pensei naquilo e fiquei em pânico, era a primeira vez na vida que eu iria estudar em uma escola diferente. Nunca havia mudado, passei desde a primeira série até o segundo colegial no mesmo lugar, e agora, iria terminar o segundo e começar o terceiro em uma escola completamente diferente da minha. Fiquei pensando e me deu um embrulho no estomago. Disfarcei e terminei de comer com muito esforço, coloquei o prato na pia, e subi correndo pro meu novo quarto.

Fiquei deitada um pouco e depois voltei a arrumar meu quarto, pois mamãe não parava de arrumar a casa também, e papai já começou a pintar um dos cômodos. Não havia mais nada a fazer, meu computador estava encaixotado ainda, e a única coisa que estava instalada era o chuveiro, a televisão, o telefone e a luz mesmo. Mamãe entrou no meu quarto, e para minha surpresa ela sentou na ponta da cama e falou calmamente:

- Filha, eu sei que é muito difícil pra uma menina de só dezesseis anos se mudar de um lugar que passou bastante tempo, mas eu e o seu pai estamos fazendo de tudo para que você se adapte com esse novo lar, você não tem ideia de como ele está feliz por você ter concordado em se mudar.

Eu sorri, abracei-a e ela me apertou forte e me deu um beijo. Logo olhou meu quarto dizendo:

-Mas que parede é essa? E esses quadros? Onde isso estava?Credo!

Ela me olhou com espanto e logo falei animada:

- Já estava aí quando cheguei mãe, e eu quero continuar com esses quadros, achei legal. Por favor, vai?

Ela me olhou com mais espanto ainda, e com certa estranheza me disse:

- É... Esta bem então, os quadros ficam, mas essa parede preta com certeza vai sair, pois parede preta em casa não é legal.

Concordei, até porque não dava para discutir com minha mãe, falei para ela pedir para papai que pintasse meu quarto de roxo, já que é minha cor preferida, e ela concordou e desceu falando para ele o que eu tinha pedido.

Fiquei sentada na cama observando os quadros, e quando olhei para a janela, vi que já havia escurecido completamente. Peguei minhas roupas e as coisas que iria usar e fui ao banheiro.
Chegando lá, tomei um longo banho na linda e grande banheira que tinha, era muito bom depois de um dia realmente muito cansativo, e fiquei pensando em como seria o dia de amanhã. Decidi que iria conhecer mais o lugar, e que iria acordar cedo pra isso. Desci e tomei um copo de refrigerante que estava na geladeira e subi para dormir.

Mamãe já havia arrumado a cama, então apenas deitei e fechei os olhos. Fiquei com um pouco de medo, pois a casa estava muito escura e lá fora estava fazendo um barulho muito estranho. Levantei-me e vi que meus pais já estavam dormindo.
Tranquei minha porta rápido, e fui olhar à janela, vi uma luz bem longe, era como se fosse uma roda de fogo ou alguma coisa do gênero, tentei ver o que era direito, mas não dava ao certo pra saber, a rua estava completamente vazia, a não ser por gatos que estavam correndo um atrás do outro, e pelas corujas nas árvores. Era encantador, principalmente por causa das corujas, que sempre foi meu animal favorito, fiquei observando a rua e aquela luz por um bom tempo e só vi apenas algumas pessoas passando, de onde saíram não sei, só sei que ficaram olhando para minha casa. Todas de preto com roupas muito estranhas, e eles estavam indo em direção daquela luz pelo que parece.

Fiquei olhando, e quando o sono bateu de vez, fui direto para cama, porque senti um medo tão estranho que fiquei até com medo de perder o sono. Mas a casa também não contribuía para meu descanso. Fazia barulhos no andar debaixo, e pude jurar que ouvi o piano tocar uma nota e mesmo com muito sono, meu peito se encolhia de tanto medo que senti. Obriguei-me a fechar os olhos com mais força, e colocar a coberta no rosto, mas a droga do meu cérebro me lembrou dos quadros que havia em meu quarto, e sem conseguir me segurar, olhei-os em meio à quase escuridão. Deus, aquilo era realmente muito, mas muito medonho mesmo. As mulheres do terceiro quadro pareciam sorrir mais ainda, e o menino sapeca, que de começo achei fofo, agora de fofo não tinha mais nada. Nem seu sorriso maroto. Cobri a cabeça, e encurvei a coberta por baixo dos meus pés, num ninho que sempre fazia quando era criança e quando sentia medo. E dormi.

Acordei no dia seguinte exausta, estava com muito sono, já que tinha demorado a dormir. Lembrei-me dos barulhos do andar abaixo, e olhei para a janela e para os quadros. Não pareciam tão assustadores como na noite passada. Balancei a cabeça, e me levantei, lembrando também do meu plano de conhecer o bairro novo, se é que podia chamar aquele lugar disso.

Me troquei, escovei meus dentes, e assim que desci, perguntei para mamãe se podia ir, recebendo um não na cara, pois teria que ajudar na casa também. Ah, que inferno. Pensei.

Tomei apenas um gole de chocolate quente, e fui para a parte de fora da casa, porque se era pra ajudar, iria ajudar na parte mais legal do lugar. Assim que saí, senti a chuva fina e gelada de um inverno rigoroso e totalmente lindo no meu rosto. Sorri, pois desde pequena amei o frio e a chuva, era mágica, pura e totalmente deslumbrante para mim. Papai já estava arrumando o portão, com alguns caras da construção. Dei bom dia, e fui para o lado que dava à janela do meu quarto.
Chegando lá, fui correndo em direção da porta que provavelmente dava ao porão que tinha visto ontem assim que vim pra cá. Passei a mão, e vi que não estava tão suja assim, parecia que alguém tinha limpado, e então pensei que papai havia passado por ali. Olhei para traz, e só havia o rio com sua maravilhosa fonte, então decidi que iria mesmo arrumar o porão.
Voltei e olhei na janelinha que tinha, e ao conseguir enxergar bem, vi que era um lugar realmente medonho. Mas como papai estava lá fora com dois homens que pareciam lutadores de boxe, poderia gritar até eles me ajudarem. Então respirei fundo, coloquei meu cachecol no rosto, e abri a porta.
Estava muito limpo o lugar, sério, não havia poeira alguma, lembrei de que papai poderia ter passado por aqui, ou até mesmo mamãe. Então continuei e desci a escadinha de madeira lentamente, tomando cuidado com cada passo, já que sou completamente estabanada. E assim que cheguei lá embaixo, me arrepiei da cabeça aos pés. Mesmo sendo de manhã, liguei a luz do lampião que havia, pois estava escuro mesmo na luz do dia, e assim que voltei a olhar, soltei um grito de susto, medo e horror que senti na hora.

Havia um circulo no meio do cômodo, e no meio desse circulo, um pentágono com nomes e figuras. Fiquei de boca aberta. Aquilo era com certeza um lugar de rituais satânicos. Fui andando devagar, e lá havia livros, velas e vários objetos medonhos de corte. O medo tomava conta do meu ser por completo, nunca vi de perto coisas assim, sempre ouvi falar dessas coisas medonhas, mas tinha tanto medo que nem prestava atenção no que me falavam direito. Ao chegar num canto, pude ver que dentro de potes de vidro com água, ou alguma coisa líquida não identificada, havia animais mortos, e também havia um feto. Segurei para não gritar novamente e fui até a estante que estavam os livros, comecei a mexer e, quase tive um ataque cardíaco quando um livro grosso e pesado caiu no meu pé. Olhei para ele me recompondo do susto que levei, e assim que vi a foto que estava na pagina que caiu quando abriu, fiquei surpresa.

Na foto havia uma família, mas não era apenas uma família normal, eram elas, as mulheres do quadro que havia no meu quarto, agora um pouco mais velhas, mas excepcionalmente bonitas. Como estava com muito medo e não queria mais ficar naquele lugar, fechei o livro as pressas e sai correndo dali.
Corri sem parar até chegar à porta de entrada da casa. Fiquei segurando o livro com força, e respirando rápido e ofegante. Papai me olhou e perguntou se eu estava bem, fiz um positivo com a cabeça e subi para meu quarto. Chegando, coloquei-o na gaveta da escrivaninha, mas mesmo morta de curiosidade para ler o que havia lá dentro. Somente olhei para os quadros, e saí do quarto para arrumar o resto (que na verdade, não havia arrumado nada). E a minha tarde se resumiu em desencaixotar moveis e coisas, arrumá-los em seus lugares, tirar pó, varrer e todas as coisas que se faz em mudanças chatas.

No final do dia, a casa já estava quase praticamente pronta, a única coisa que faltava era pintar o resto dos cômodos, arrumar a parte de fora, e ajeitar mais algumas coisas. E foi aí que percebi que a casa só estava mal cuidada, e que não era feia como eu havia falado.

Papai depois de muito trabalhar, resolveu que queria jantar fora, e eu dei pulos de felicidade, já que nesses dois dias só fiquei arrumando a casa. Depois que tomei meu banho, coloquei a minha nova jaqueta de couro que recebera de presente, minha calça Skinny preta e meu All Star velho que sempre amei, e sempre vou amar. Não costumava me arrumar tanto para sair com meus pais, mas como a cidade era nova, a minha primeira impressão tinha que ser boa.
Fiquei um bom tempo arrumando meu cabelo e passando maquiagem, me empolguei tanto que tive que me obrigar a me acalmar, até porque poderia não haver nada de importante aonde eu iria.

Assim que terminei, percebi que realmente havia mudado, não era mais aquela menina gordinha, cheia de espinhas, com o cabelo feio, dentes tortos e tudo mais. Eu realmente estava bonita. Tá certo que eu só tenho ainda dezesseis anos, mas eu realmente consegui mudar bastante desde os meus dez anos. Agora estava com um corpo legal, meu cabelo também estava legal, minha pele havia melhorado pra caramba e meus dentes se arrumaram depois de passar dois anos com aparelho. Eu era aquela típica menina durona, com o coração de uma romântica incorrigível. E esse é um dos motivos deu não demonstrar muito meus sentimentos.

Dei mais uma leve ajeitada no visual, passei perfume e desci, correndo, pois uma voz masculina estava gritando meu nome. Papai estava impacientemente me esperando na porta, e mamãe já estava dentro do carro. Sorri para ele em desculpa, e fui para o carro também.
Como era de se esperar, naquele lugar não havia restaurante, apenas um barzinho vinte e quatro horas, então resolvemos comer apenas um lanche lá mesmo. Enquanto comia, fiquei olhando o movimento (que para a minha pura infelicidade, não era muito), e na frente da mesa onde eu estava que dava direto para a porta, foi que eu vi o menino que iria mudar toda minha vida naquele lugar entrando. Ele estava todo de preto, assim como as outras pessoas que eu havia visto na noite anterior, estava com um suéter lindo, calça Skinny e um sapato social. Deliciosamente bem vestido, em minha opinião. Sua pele era branca e totalmente perfeita, seu cabelo era de um preto totalmente brilhoso e seus olhos pareciam duas órbitas azuis. Só percebi que estava encarando ele quando minha mãe me cutucou perguntando o quê que eu estava vendo. Sorri e disse que não era nada, mas mesmo tentando disfarçar, não conseguia parar de olhar para ele. Ele pediu apenas um café, e estava tomando calmamente, com uma expressão intensa, parecia que estava pensando em milhões de coisas ao mesmo tempo. Observei-o de canto de olho várias vezes, e assim que ele terminou seu café e saiu. Comecei a comer meu lanche prestando atenção de verdade no que estava fazendo e ficamos um tempinho conversando até que enfim decidimos voltar para a casa. Enquanto estávamos voltando, olhando pela janela eu o vi indo embora, estava ainda na mesma avenida, então não consegui ver pra onde estava indo. Não consegui vê-lo por muito tempo, mas fiquei estranhamente curiosa pra descobrir onde ele morava.
Chegando a casa, fui direto pro meu quarto, papai e mamãe decidiram que iriam assistir filme no quarto deles, portanto ficaria em paz para fazer o que eu bem entender. Tirei minhas roupas e coloquei meu pijama curto cor-de-rosa que amava, a noite estava agradável, embora não estivesse calor, mas também aconchegante e não estava a ponto de colocar blusa. Ainda não haviam instalado meu computador, então resolvi ligar para Raquel. Sim, já se passavam da meia noite, mas sabia que ela não estaria dormindo. Mas nada. Ela não me atendeu. Não liguei em sua casa porque seus pais sim estariam dormindo, então deixei para ligar amanhã. Lembrei-me do livro que havia encontrado no porão, mas mesmo sendo idiotice, não iria ler de noite aquele livro. Então apenas peguei minha escova de dente e meu removedor de maquiagem e fui direto para o banheiro.
Já havia terminado de escovar os dentes e estava me preparando para tirar minha maquiagem quando ouvi aquele barulho. Eu tinha absoluta certeza do que se tratava, mas fiquei com tanto medo que obriguei minha mente a ignorar aquilo e voltar para o que eu realmente estava fazendo. O barulho lá embaixo aumentou e com isso não deu realmente para ignorar. Abri a porta do banheiro e saí, olhando o corredor. Fui andando lentamente para o quarto dos meus pais, sem tentar fazer barulho algum e bati de leve na porta. Nada. Abri e vi de relance a TV desligada, já estavam dormindo. Ótimo, pensei. Se houver algo lá embaixo, vou ter que lutar sozinha e ainda com pijama totalmente indecente! Que maravilha.
Assim que fechei a porta, respirei umas sete vezes antes de me distanciar da porta do quarto deles. Estava tudo apagado, exceto a luz do banheiro. Fui andando em direção à escada e apaguei também a luz que havia deixado acesa. Nunca fui corajosa, mas naquela hora estava conseguindo ser, então aproveitei isso em mim ao invés de surtar e acordar meus pais que nem uma menininha de cinco anos de idade. Quando cheguei à escada soltei um suspiro, não havia luz, mas as luzes da rua e da lua ajudavam a ver um pouco e não havia nada na sala pelo menos. Fui descendo o mais delicado que pude e finalmente cheguei à sala. Estava tremendo muito, minhas mãos estavam completamente geladas e meu rosto provavelmente estaria horrível nessas horas. Olhei à minha volta e não havia nada além do meu lindo piano e da minha sala ainda meio desajeitada pela mudança. Fui andando em direção à cozinha morrendo de medo, chegando lá me escondi e espiei. Como não havia ninguém lá também, parei de me esconder e vasculhei cuidadosamente o andar de baixo. E mais uma vez, nada. Não havia ninguém. Suspirei nervosa. Como pude achar que haveria alguma coisa de diferente em um lugar como esse? Pensei. Fui em direção novamente da escada e quando ia subir correndo ouvi outro barulho. Droga, o barulho vinha do lado de fora da casa. Paralisei e prendi minha respiração e depois inspirei algumas vezes bem fundo antes de descer novamente.
Coloquei a blusa do meu pai que estava jogada no sofá antes de ir para fora e peguei as chaves com o maior cuidado que pude ter para não fazer barulho. Lembrei que alguém podia me ver pela janela e assim me joguei no chão, literalmente, e fui engatinhando até a porta dos fundos que ficava na cozinha. Pode parecer babaquice, mas como parecia realmente que havia alguém do lado de fora, eu fiz isso mesmo. Chegando à porta, consegui abri-la silenciosamente e me levantei. Estava tremendo tanto que tive que me agarrar para poder fazer alguma coisa. Saí e fui andando alertamente pela varanda, desci a escadinha e comecei a caminhar pelo quintal. Olhei para cima em direção à janela do meu quarto, a luz estava apagada, fui olhando as outras janelas, todas estavam apagadas também, assim como eu havia deixado. E quando fui para o lado direito da casa, que é de onde veio o barulho, que levei o choque. Havia alguém dentro do porão. A porta estava aberta e a luz estava acesa. Meus pais estavam dormindo, os pedreiros com certeza estavam em suas casas, não havia o porquê de alguém estar no meu porão à uma hora dessas, mas infelizmente estava. Virei-me e fiquei encostada na parede respirando rápida e ofegante, tentando organizar minha mente. O quê exatamente eu deveria fazer? Correr? Gritar? Pegar uma pá e ir para atacar alguém ou algo que está no meu porão? Entrar que nem uma louca varrida em minha casa e acordar meus pais aos berros? Não, pensei. Eu não posso agir feito uma criança! Forcei meu cérebro a parar de surtar e meu corpo a parar de tremer com tanta voracidade e fui em direção ao meu porão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.