Predestinada
2 Capítulo 1
Eu estava cansada e perdida, esgotada física e mentalmente. Cada osso de meu corpo doía, minha cabeça latejava; cada centímetro de meu corpo estava coberto por sujeira, meu cabelo estava oleoso, minhas unhas horríveis e provavelmente meu cheiro estava pior. Mas eu preferia não pensar sobre isso. Já faziam alguns dias que evitava passar em frente de algo que pudesse refletir minha imagem. Minha barriga fazia um som tão intenso que tinha a sensação que poderia ser ouvido do outro lado da rua.
Circulava um humilde prédio, talvez abandonado, ou só entregue ao descaso; ou, ainda talvez, entregue a pobreza da região. Estava procurando algum lugar que pudesse me lavar. Provavelmente aquela era a área mais pobre da cidade, não que eu já tenha estado nesta cidade antes, mas era fácil deduzir. Podia ver mulheres de rostos sofridos e cansados lavando roupa ou varrendo os pátios, homens cheirando a álcool, sentados em botequins depois de um longo dia de trabalho, e crianças barrigudas, apesar de desnutridas, brincavam nas ruas. Apesar disso, eles provavelmente tinham uma aparência melhor que a minha.
Caminhei ao longo de uma viela, até que achei uma casa aparentemente desabitada. Entrei, rezando para que a água funcionasse. O dia estava virando noite, as pessoas estavam mais preocupadas em cuidar das suas próprias vidas do que ficar olhando uma mendiga – deduzo que era assim que me assemelhava-, então quando tive certeza que ninguém estava olhando, invadi o pátio abrindo um portão improvisado de madeira e entrei na casa. Percebi que ela não estava desabitada, apenas vazia. Provavelmente o dono, que deduzo ser um homem solteiro – solteiro e muito desleixado por sinal – pela desorganização e roupas jogadas no chão.
Era uma casa simples, mas não podia deixar de admitir que a decoração era harmoniosa. Com uma boa limpeza, organização e uma pintura nas paredes, ela ficaria perfeita. Como filha de uma arquiteta, não poderia deixar de notar certas coisas.
Tomei banho um banho curto, mas a sensação foi que este foi o melhor banho de toda a minha vida. Por sorte trouxe meus itens de higiene básica, porque não fazia ideia de onde o dono da casa guardava sabonetes e coisas assim. Joguei minhas roupas fora, peguei em minha mochila uma muda nova. Depois de tanto tempo imunda, a sensação de limpeza era maravilhosa. Como que para retribuir o banho, arrumei a casa. Juntei as roupas sujas e coloquei para lavar, depois pendurei no varal nos fundos da casa. Lavei alguns pratos. É, definitivamente sou uma pessoa caridosa.
Cerca de 45 minutos depois que entrei na casa, já estava indo para a estação rodoviária. Agora limpa e com roupas novas as pessoas não se assustariam em sentar-se ao meu lado em um ônibus, mas essa não era a minha preocupação. Não sabia se eles estariam em meu encalço, e isso me assustava.
Vasculhei minha mochila procurando um amarrotado mapa que peguei logo que cheguei à cidade, procurando o caminho para rodoviária. Passei pelo porto, depois pelo centro da cidade. Por ser uma cidadezinha do interior, ela não era muito movimentada nem moderna. Eu tinha certeza que poderia ficar mais alguns dias aqui, porque o obvio seria ir para uma cidade grande e se misturar na multidão. Mas uma lição que aprendi é que o óbvio nem sempre é o caminho certo e mais seguro.
Já não tinha muito mais dinheiro, apenas algumas poucas barras de cereais sobreviveram a minha jornada. Não sabia o que faria depois, apenas que, mais uma vez, trocaria de cidade tão rápido quanto cheguei.
Não estava com cabeça para tomar decisões, o futuro, e o que aconteceria nele, deixaria para depois. Paguei a passagem e enfiei-me no fundo do ônibus, esperando passar o mais despercebida possível. O sono estava chegando, e me entreguei a ele. Quando fechei os olhos, pensei ter ouvido a voz de minha mãe. Mas, como tantas outras coisas que vinham acontecendo na minha vida, isso era impossível.
Durante muito tempo fiquei em algum lugar entre a consciência e a inconsciência, tendo pequenos vislumbres, quase sonhos, de cenas muito coloridas e estranhas. Não percebi que um homem de meia idade sentara-se ao meu lado até este começar a me sacudir e a eu ouvir gritos na frente do ônibus. Abri meus olhos sobressaltada, meu coração foi à boca com as imagens que eu vi. Entrei em pânico.
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