Predadora
2 Aquisição
Levo cinco dez segundos para trocar de roupa e lavar o sangue de meu rosto, e logo me encaminho para o salão principal, onde o rei Aro e seus conselheiros permanecem praticamente o dia e a noite toda.Dois oficiais abrem as enormes portas de madeira escura e eu arrumo a postura antes de entrar.
O salão principal é a sala do rei e, por isso, é o cômodo mais bonito e rico do castelo, repleto de detalhes em ouro e pedras preciosas, pinturas, livros e esculturas. O rei Aro, em particular, tem uma apreciação estranha pelas artes humanas e as valoriza muito.
Caminho até o centro do salão e faço uma reverência ao ficar diante do rei e da rainha, sentados em poltronas de veludo vermelho e ouro puro. Não há casal mais harmonioso do que o rei Aro e a rainha Victoria, segundo os comentários da corte. Eles fazem tudo juntos, o tempo todo, em todo lugar. É como se fossem um só e isso nunca fez sentido algum para mim. Meu relacionamento com Jacob é ótimo, mas não quero estar o tempo todo com ele e nem compartilho de suas ideias sempre.
– Majestades – sussurro ao fazer a reverência.
O rei Aro coloca-se de pé e dá a mão à rainha para que ela faça o mesmo.
– Isabella Swan – diz ele, sorrindo. Sua pele é quase translúcida e fina como papel e seus cabelos pretos escorrem lisíssimos por suas costas. Ele sempre usa preto. – Minha protegida que, por acaso, completa a idade adulta vampírica amanhã.
Não consigo conter um sorriso. A rainha Victoria também parece contente. Olho deslumbrada para seus cabelos cacheados cor de fogo e os olhos carmim que ela ostenta. Sua beleza sempre me surpreende.
– Sim, majestade – assinto.
– Temos algo importante a contar. Uma surpresa – diz a rainha, mal contendo sua empolgação.
Entrelaço meus dedos, ansiosa. Ninguém de fora da corte jamais recebeu qualquer honra ou presente da realeza. E aqui estou eu, aparentemente prestes a ser presenteada pelo rei e pela rainha em pessoa. Se meu coração ainda batesse, estaria aceleradíssimo.
O rei toma a palavra:
– É de seu conhecimento que, a partir de amanhã, você é uma vampira completa. Adulta. Livre para caçar e tomar suas próprias decisões de acordo com nossas leis, logicamente. Será membro da guarda real e uma oficial sênior em breve. – Ele troca um rápido olhar com a rainha. – Nós, porém, temos muito mais a oferecer.
– Você, querida, mostrou-se uma recém-criada muito disciplinada e obedeceu-nos por todas essas décadas sem contestar nem uma vez sequer – diz rainha Victoria. — Demonstra gratidão pelo que lhe fizemos e esforça-se para ser quem queremos que você seja. É quase como uma afilhada para nós.
Quero sair saltitando de alegria.
– Devido a esse seu histórico muito bem sucedido, querida Isabella, nós queremos que você faça parte de nossa família oficialmente...
Fico boquiaberta.
– ... casando-se com nosso filho, príncipe Caius Volturi.
Meus joelhos querem dobrar-se para frente, mas eu os faço permanecer firmes. Não consigo dizer nada. O choque é grande demais para que meu corpo frio e morto reaja de alguma maneira. Não compreendo. Não sei o que pensar. Eles querem que eu me case? Com o príncipe dos vampiros? Eu, uma oficial em treinamento que está vivendo entre os nobres apenas por condescendência do rei? Por que eu?
Não faz sentido.
– Majestades... – arquejo, sentindo um sufocamento metafórico.
O que Jacob pensará disso?
– Eu... – tento continuar.
Como seria minha vida na realeza?
– É uma grande... imensa... honra...
Qual o verdadeiro motivo disso tudo, afinal?
– ... mas creio que não serei uma esposa adequada para o príncipe – digo de uma vez, sem controle algum sobre minhas palavras.
Vincos formam-se na testa da rainha e o rei gargalha.
– Bobagem – Aro sacode a mão -, você é uma aquisição valiosa para a família Volturi, minha cara, assim como Caius foi.
– E não aceitaremos não como resposta – acrescenta rainha Victoria, sem sombra alguma de sorrisos e gracinhas.
O rei Aro disse aquisição. Como se eu fosse uma mercadoria, ou uma joia que ele está disposto a comprar custe o que custar. Será por causa do meu dom? Ele já me tem na guarda real. Não é necessário casamento algum para que eu o proteja. Ou há algo mais que eu não esteja sabendo?
Se eu fosse capaz de estremecer, estremeceria.
– Ainda não decidimos qual será a data da cerimônia, mas quanto antes melhor, não é mesmo? – rei Aro ergue uma sobrancelha, encarando-me com um sorriso.
Assinto, incapaz de dizer qualquer coisa. Preciso sair daqui e me isolar para pensar. Preciso entender o que está acontecendo.
– Vá, querida – diz Victoria –, e dê essa notícia feliz ao seu amante.
Algo dentro de mim se trinca, mas forço um sorriso e faço uma reverência antes de deixar o salão. Assim que as portas fecham-se atrás de mim, abraço meus ombros e corro para a torre onde fica meu quarto. Tenho que arranjar uma maneira de fazer com que rei Aro mude de ideia. A rainha Victoria é tão flexível como um muro de concreto, mas sei que Aro vai me ouvir e dar um jeito nessa situação. Afinal, ele me criou, ele é que tem sido como um pai para mim, um protetor. Preciso fazer com que ele entenda que não quero me casar com Caius e que posso proteger a realeza como membro da guarda.
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