Preciso de Você
1 Preciso de você
Notas iniciais
Não, eu não esperava que as coisas acontecessem daquela maneira. E sim, é claro que eu já imaginava que aquilo poderia acontecer, mas quem sou eu pra ficar falando sobre isso ?
Estou na "festa de formatura" que na verdade é só uma festinha pra passar pro 1° ano, um agrande bobagem. Nós mesmos, alunos, teríamos que pagar a nossa própria entrada, acredita ? 80 reais !
Enfim, mamãe não queria pagar esse preço, mas também não queria que eu não participasse de algo "legal" no final do ano. O ultimo que eu iria passar naquele colégio...
Aí ela conseguiu um trabalho pra mim! Como DJ ! Não vou pagar nada, vou animar a festa, vou poder comer e beber alguma coisa, não vou ter quem me relacionar tanto com o resto do pessoal, ficaria a maior parte do tempo numa cabine, com toda a visão da boate. Faria os anúncios e tudo mais. Legal, não ?
Ah! E o melhor, é que eu poderia usar o que eu quisesse e não necessariamente um vestido. Obtei por um terno bacaninha, que assaltei do guarda roupa do meu primo. Ficou bem legal em mim. Stilo Shane McCutcheon só que, claro, com certeza ela fica muito melhor.
Falar de mim? Tudo bem, olha, não tem nada demais tá ? Nasci no interior, mas com 2 anos mudei para a capital e eu sempre mudava de escola, sei lá porque, só sei que nunca foi problemática como o resto dos meus primos. Sou filha única (oba) e puxei mais para a minha mãe... Mas, os traços masculinos foram mais pro meu pai, digo, não sou totalmente masculina, mas é... Sei lá. Tenho 15 anos. Não, eu não repeti, apenas entre um pouquinho tarde no colégio.
É, sou morena, e sou bissexual, nunca sofri preconceito sabe por que ? Porque eu nunca precisei contar a ninguém. A não ser meus melhores amigos, mas isso não vem muito ao caso.
E eu sou completamente apaixonada pela minha amiga. E se eu for explicar tudo do inicio... Nossa, iria demorar tanto !
Mas, deixa eu tentar melhorar sua visão sobre a minha histórinha... Sou morena, rockeira, idiota ( no bom sentido, por favor), falam que sou bonita mas... Sinceramente, acho que sou normal. Apenas. Ah, tenho um sério problemas com consumo de morangos, simplesmente amo.
A menina ? Se chama Bianca e tem... A mesma idade que a minha só que eu sou 45 dias mais velha que ela ! E somos completamente DIFERENTES.
"Os opostos se atraem, Alê"
Isso foi meu consciente positivo, que sempre tem esperanças, sabe ?Bianca ela é... Ela é perfeita! Linda, inteligente, simpática, agradável, tem bom gosto musical, toca teclado, é ótima em matemática, é meio insensível e não sabe falar de sentimentos, mas eu adoro tudo isso nela. E não tem que me faça mudar de idéia ou desistir dela, a não ser eu mesma.
E isso é o que fode com tudo.
- Bia, tu vai pra esse negócio mesmo ? — perguntei, enquanto folheava minha revista sobre coisas estranhas.
-Vou.
Ela era meio previsível quando se trata dessas coisas do colégio, sabe ? Ela participa de muitas coisas, é ativa em tudo ! Poisé...
-E tu vai ?
Pensei um pouco. Sei lá por que eu pensei na resposta, mas tipo, eu poderia fazer uma surpresa! Não que ela vá realmente se importar, porque, parece que ela nem liga muito pra esse tipo de coisa. — Não, acho que não vou.Ela me olhou com uma carinha tristinha, típica, tanto que eu nem pensei na probabilidade de ela estar realmente triste por saber que eu não vou.
Voltando ao que importa, já estou na festa, e está tudo tão animado, mas o único som que eu escuto é de 3OH!3 nos meus lindos fones. As luzes piscam sem cessar, colorindo a negra pista de dança, com corpos juntos, balançando num ritmo alegre e contagiante. Eu estou sozinha na cabine, olhando para tudo e todos, e estou sendo alvo dos fotógrafos do colégio.
Até que alguma pessoa pediu para que eu tocasse uma música mais lenta para os casais. Tudo bem, sem problema . Só preciso de uma garrafa de gim e um cigarro. Sim, tenho 15 anos, já fumo e bebo, mas, e daí ? Coloquei meu fone, puxei do meu bolso um chip minusculo e fino e coloquei num aparelhozinho novo, que eu havia ganhado do meu pai.
Escolhi a música, não era tãaao romantica, era uma baladinha romantica, mas para dançar, não precisava ser necessariamente um casal. Do outro lado do vidro que me separava da multidão, eu vi aquela bela imagem, de vestido roxo, um pouco curto. Com um sorriso bobo, e um pouco acanhada, afinal de contas Bianca não estava acostumada com " aquele tipo de festa " . Mas, então, vi outra imagem, agora um pouco maior e máscula. Era ele. Era Leonnardo, e estava chamando ela pra dançar. Bianca aceitou e... Nossa, por que estou me preocupando com isso ?
E por que agora estou lagrimando ? Não, não posso chorar, não aqui . O vidro é transparente, tipo, não tem a película. Não podiam ver a DJ do nada chorando.
Chamei o meu ajudante, que ficou a festa toda na porta, e pedi para que ele tomasse conta. Fiz tudo isso com muita pressa. Quando saí da cabine, foi correndo. O banheiro ficava do outro lado do salão e eu não podia "quebrar o clima" entre os outros ali. Resolvi ir para o andar de cima. Corri tão rápido que não sei se alguem conseguiu me ver e se conseguiu, com certeza não vai saber onde estou.
-Droga, droga! Péssima idéia vir.
Abri a torneira e lavei meu rosto. Fiquei me observando no espelho, e aquela vontade de chorar veio novamente. Sentei-me no piso gelado e me coloquei a chorar. Por que, oh céus ? Tenho que parar com isso. Levantei e fui para o terraço, que por um milagre encontrei uma garrafa de whisky. Fui lá, sem saber a quem pertencia e bebi um gole generoso. A bebida desceu rasgando a minha garganta. Nisso, peguei um maço de Free colocando um na boca, acendi e fiquei lá. Observando o sinistro céu negro e vermelho. A noite tinha um cheiro em especial.
Além do cigarro tinha um cheiro em particular, uma mistura entre cítrico e doce, mas, era bom. A escuridão dominava, mas ainda sim, eu conseguia ver pelas fraca luz da lampada da porta que dava acesso ao terraço. Sentei-me num murinho e fiquei lá, com a brisa em meu rosto onde estava somente eu e eu.
-Alê ?
Assustei-me, é lógico. Deixei o cigarro cair no chão e virei-me para saber quem tinha sido o animal.
-Bia ? O que tá fazendo aqui ?
Os par de olhos castanhos me fitava com certo receio, ou sei lá. Bianca sentou-se ao meu lado, e olhou o cigarro no chão.
-Não acredito nisso.
-Pode acreditar.
Não sei mas, escondi a garrafa de gim, mas ela já tinha percebido. Ah, quer saber, foda-se .
-O que tá fazendo no terraço da festa, sendo que você falou que não vinha ?
-É porque eu sou a DJ da festa. Tu sabe, minha mãe não queria pagar o preço, mas também não queria que eu perdesse a festa...
Ela ficou olhando pra todo o meu corpo, visualizando as minhas vestes. Confesso que fiquei um pouco... Envergonhada e estremeci.
-Por que não me contou ?
-Faria alguma diferença, uai ?
-Só os idiotas respondem com uma pergunta.
-Se é pergunta, não é resposta.
-Hein?
A gente ficou se encarando, então começamos a rir.
-Quando começou a beber?
-Desde o início do ano.
-E a fumar?
-Também.
Um silêncio predominou por ali, e eu o quebrei.
- Então, a festa tá ruim lá ?
- Ah, não, tá legal. É que eu te vi correndo pra cá...
Mas, por que ela iria ligar pra isso ? Tipo, eu sou eu , que tipo de pessoa como ela ia ficar er... Preocupada ? Tá, ela é minha amiga, mas ela nem é tão próxima. E por que deixaria o Leonnardo , ele é tipo, o mais lindo, rico, mais popular, legal, blablabla.
-Eu tô bem.
-Não, Alê. Não tem nada bem contigo. Escuta, parece que eu não noto nada, mas, eu tenho percebido que você está tão diferente. Você costumava falar mais, rir mais, falar coisas bobas...
- Meeesmo ?
Soltei o meu melhor tom irônico. Bianca também havia mudado e muito. E sabe, eu resolvi "amadurecer" . Agora ela tá provando do que eu tive que aguentar.
- Eu vim aqui pra te ajudar e não pra -
- Vai me ajudar se sair daqui
- O que disse ?
Sim, eu estava expulsando a garota que eu amo dali. E ela estava tentando ajudar. Sabe quando você ama tanto que acaba virando ódio ? Não era exatamente ódio, era medo de me iludir mais uma vez com uma aproximação repentina dela.
- Você entendeu.
Não, não era minha intenção ser estúpida com ela. Mas, eu simplesmente cansei. Eu ... Sei lá. Não queria mais insistir e me machucar, apesar de eu ainda querer ela.
- Ótimo, quando eu tento me aproximar de você, é assim que você me trata ?
- E por que isso agora ? Falta apenas dois dias para você sair do colégio, falta apenas dois dias pra eu ir embora do BRASIL, você teve 5 anos pra tentar ser pelo menos minha amiga de verdade! Quem foi a alma que sentiu pena de mim e foi falar pra ti que estou assim por sua causa ?!
- Como ... ?
É isso que acontece quando eu me altero: Acabo falando coisa que não devia.
- Nada.
Dei mais um gole no whisky, e eu ainda sentia a presença da Bia ali. Daí ela se aproximou ainda mais e me abraçou por trás e disse perto do meu ouvido.
- Eu ainda me importo com meus amigos, apesar de tudo.
Olha, não sei se fico triste, ou alegre, ou com raiva. Mas, sentir ela me abraçando daquela forma, com certeza, me dava um pouquinho de esperança. Indevida, mas esperança.
Eu ainda escutava a música, e o meu ajudante havia colocado nossa música favorita: " The Ballad of Monalisa — Panic! At the Disco "
- Nossa.
- Né
Ainda estava no início e aquela música me dava vontade de...
- Vamos dançar ?
- Claro.
Não que essa música seja lá pra dançar, descemos e começamos os nossos movimentos animados, alegres, e sintonizados. Em um instante, achei que realmente tivéssemos algo além da amizade, a dança não mostrava nada a ver com amizade , tinha sensualidade naquilo. Por parte dela e minha. Eu segurava a cintura dela, passava as mãos pelos seus braços, rodava ela, sorria com ela, meu corpo enconstava com o dela, devido as pessoas pularem, se divertirem, pois a música não tinha uma dança exata, era como queriam. E aquele era o nosso ritmo.
No final da música, ficamos nos encarando por um instante, e aproximamos nossos rostos. Mas, alguém puxou ela. Alguem tirou-a de mim.
- Bia, Bia, o Leonnardo tá te chamando, você não ir perder o BV com ele ?
Ao escutar isso, fiz logo a minha típica cara de arrependimento e olhei pra Bia com cara de bunda.
- Vai lá — eu disse — Por que perder essa oportunidade, não ?
Fale com o autor