Prazeres Sombrios - Indômita

23 Capítulo XXII - Lágrimas da Alma


Notas iniciais
E aqui o passado do Duncan é revelado. Tive vontade de chorar por ele xDD'' Sim, eu me emociono mais que os próprios personagens kkkk A uma altura dessas, meu amor por ele é cego, mudo, insensível, incondicional, surdo... enfim... kkkk
Não respondi todos os reviews (morte depois de acabar as história, ta ? kk) mas EU RESPONDI !!
Respondi carinhosamente, confesso. E me seguro pra não dar spoilers kkkk
Meu primo ta aqui *ooo* Ele é como meu irmão mais velho, tipo Will e Leonor, eu tinha de dizer isso pra alguém kkkkkk
BOA LEITURA !!

CAPÍTULO VINTE E DOIS

Lágrimas da Alma


Leonor acordou sobressaltada, o coração martelando contra o peito; já esticando a mão para pegar sua espada. Piscou, incapaz de ver pela escuridão, zonza de sono. Antes de desembainhar a lâmina, viu que o grito que a despertara bruscamente nada mais era do que Duncan. Estranhamente, ele estava sentado na beira da cama, longe dela, tremendo e de costas para ela. Parecia assustadoramente vulnerável. Rígido. Como se tivesse medo de alguma coisa. Ela deixou a arma em seu lugar e afastou lentamente as cobertas, temendo assusta-lo. Ela estava dormindo tranquilamente quando um grito de dor e terror a puxou violentamente para os vértices da consciência, como se alguém estivesse morrendo ao seu lado.

Era estranho vê-lo daquela forma.

Sem saber o que fazer, engatinhou para ele. Sim, ele estava tremendo. Sim, estava com os ombros baixos e encolhidos. Nunca vira ninguém com uma aparência tão abandonada e maltratada. Seja lá o que tivesse acontecido, foi terrível, porque ele jamais demonstraria tanta fraqueza ante ninguém, mesmo que fosse a ela.

Oh, Deus, o que lhe fizeram?

-- Duncan? – chamou em um sussurro, sem obter resposta alguma.

Ele estava com o rosto enterrado nas mãos, os cabelos caindo em cascata ao redor dele, ocultando-o da visão dela, os cotovelos cravados nos joelhos. Sequer a estava ouvindo. Ela sabia que ele não estava chorando, mas a visão lhe partiu o coração.

-- Duncan?

Nada. Era como se ela nem estivesse falando. Leonor tentou pensar em algo que pudesse fazer sem piorar o que ele estava passando, algo que o animasse, mas as ideias eram vagas, principalmente porque estava preocupada e com sono.

-- Duncan, o que houve?

Ele respirava ruidosamente, como se fazê-lo exigisse um esforço doloroso e o ar não entrasse o suficiente em seus pulmões. Ela estava sofrendo terrivelmente por ele, absorvendo toda a dor como se fosse a própria. Com medo de dizer algo – porque não sabia o que dizer – apenas se aproximou, sentando-se atrás dele. Envolveu suas costas com os braços e, com toda a força que possuía, puxou-o para si, embalando-o contra o peito. Ele sequer se moveu. Não contestou, não emitiu um único som, apenas se deixou arrastar para os braços dela, as costas apoiadas no corpo dela. O cabelo molhado de suor lhe cobria o rosto, mas ela podia ver os sinais de estresse: o tique raivoso em sua rígida mandíbula, os lábios apertados em uma linha fina e trêmula até ficarem brancos, cada músculo de seu ser completamente tensionado... Ela passou a mão pelo peito dele e lhe beijou suavemente a testa.

-- Estou com você – ela sussurrou.

O que havia com ele? Estava tremendo. Podia ser medo? Leonor enterrou o rosno no cabelo dele e o apertou com mais força, desejando que ele soubesse que ela estava com ele, não importando o que quer que fosse o que estava acontecendo. Queria fazê-lo melhorar, mas não tinha ideia do que fazer. Mesmo vestida com a regata, o vento frio da noite a fez estremecer. Mas não se moveria. Ficaria ali até o amanhecer se assim ele melhorasse.

O silêncio que pairou no quarto era incômodo, mas ela não podia fazer nada além de mostrar a ele que não estava sozinho. Duncan permitiu que ela o abraçasse, que ficasse perto, mesmo quando estava claro que tudo que desejava era estar sozinho. Ele estremeceu. Completamente inerte.

-- Deixe-me sozinho.

A ordem fez um arrepio subir pela coluna dela e não foi nem de longe agradável. A voz dele era dura e inflexível, mais grave do que qualquer tom que já houvesse utilizado com ela, baixa e gutural. Desumana. Ele não estava bem. Ela queria saber o que fazer por ele e deixa-lo sozinho sequer estava em sua lista.

-- Não.

-- Saia daqui, mulher.

-- Não.

Bruscamente, ele se afastou dela, voltando para sua posição inicial: cabisbaixo, o rosto enterrado nas mãos e os cotovelos cravados nos joelhos. Leonor mordeu o lábio inferior. Ele estava se isolando, excluindo-a... Mas ela não o deixaria sozinho. Não importava o que fizesse, permaneceria com ele.

Colocou a mão em suas costas e ele se afastou como se fosse uma cobra peçonhenta querendo mordê-lo. Aquilo a magoou, mas já passara por situações piores.

-- Duncan...

-- Apenas me deixe só. Por que não pode fazer isso, maldita seja?

Ela se encolheu, mas ergueu o queixo com teimosia.

-- Você disse que queria absorver minhas dores, por que não posso querer fazer o mesmo contigo?

Ele a olhou por sobre o ombro. Oh, Deus... Os olhos dele estavam transtornados, exprimindo uma agonia tão profunda, uma dor incomensurável, que Leonor sentiu o coração embrulhando até formar um nó em seu peito. Depois de tudo o que passaram, ele ainda não acreditava nas palavras dela. Não acreditava que sinceramente queria estar com ele e servir de escudo e espada quando precisasse. Duncan realmente não sabia o que era amar alguém, por mais que soubesse que era isso o que sentia por ela. Leonor respirou fundo, reunindo as próprias forças, porque mostraria outras faces do que se chamava vínculo para ele.

-- Saia, Leonor, te peço pela última vez. Saia daqui.

Ela negou obstinadamente com a cabeça.

Ele suspirou, desolado, fraco, em um silencioso e frio pânico, como se seu próprio sofrimento o sufocasse, exaurindo exorbitantemente suas forças, sua vontade... Algo o estava destruindo de dentro para fora. Duncan tinha uma couraça, uma armadura em vez de pele, mas por dentro, estava quebrado. Profundamente ferido. E ela queria sustenta-lo. Talvez não fosse possível conserta-lo, mas podia... Tentar... Fazer... alguma coisa.

-- Por que não vai embora? – ele grunhiu, a voz menos que um sussurro e mais que um sopro. Ela o olhou nos olhos, temendo se aproximar e ser rejeitada outra vez. – Por que quer ver o pior de mim?

-- Eu... – mordeu o lábio inferior – Vou cuidar de você.

Ele negou com a cabeça e voltou o olhar para o nada, onde ela não podia ver sua expressão ou seus olhos.

-- Não precisa fazer isso. Apenas parta. Vá dormir em seu antigo quarto, ou com Mary... Não importa. Vá embora.

Silenciosamente, Leonor se arrastou para fora da cama. Os ombros de Duncan desmoronaram, como se ele estivesse se esforçando para mantê-los erguidos, não caídos como estavam agora. Suspirou com cansaço. Ela observou suas costas. Tinha quase absoluta certeza de que o que havia de errado com ele tinha alguma ligação com o passado. Com Lachlan McGregor. O bastardo destruiu a vida de todo mundo antes de morrer: dos Knightley, dos pais dela, a dela mesma, a de Arian, dos McGregor e, principalmente, de Duncan. Era um monstro quando vivo e virou um demônio depois de morto. Devia estar gargalhando horrores em sua tumba agora.

Leonor amaria arrancar a cabeça dele. Se pudesse, ressuscitá-lo-ia apenas para mata-lo outra vez.

No entanto, ela não foi embora. Não saiu do quarto. Não conseguiria dormir enquanto ele estava acordado e se martirizando por algo que ela tinha total e irrevogável certeza de que ele não possuía culpa. Rodeou a cama, indo até ele. Duncan se esticou como uma corda, mais tenso que nunca. Estava se preparando para expulsa-la com palavras que provavelmente seriam cruéis – pelas quais ele se arrependeria mais tarde – quando ela afastou seus joelhos e se sentou entre as pernas dele, de costas para ele e deitando a bochecha na coxa dele. Mesmo que não a quisesse ali quando ele não estava se mostrando forte e indestrutível, ela ficaria. Brigaria com ele com espadas se fosse necessário.

Inicialmente, ele ficou em silêncio. Insegura, encolheu-se no pequeno espaço no qual se enfiara, dobrando as pernas contra o peito, com uma mão no joelho dele. Estava desafiando-o. Desrespeitando seu desejo. E o inferno seria cor-de-rosa antes de deixa-lo sozinho. Diabos. Ele vira todos os piores lados dela, inclusive o ébrio, todos os vergonhosos... Por que ela não podia conhecer os dele? Não se importava com o passado dele. Poderia ter sido uma prostituta, ela não o recriminaria por isso. Ainda mais quando a culpa era do pai dele. Mas, por que cargas d’água, ele não compreendia isso?

Tapado, replicou sua furiosa consciência.

-- O que está fazendo? – ele sussurrou. Parecia cansado, totalmente exausto.

-- Não é óbvio para você? – rebateu ela – Ou, quer que eu lhe dê todas as respostas?

Silêncio.

-- Se não vai sair, volte para a cama e durma. – grunhiu ele.

Argh!

-- Você não manda em mim.

-- Chega. Obedeça ao menos uma vez na sua vida.

Sem saber o que fazer, ela cravou os dentes na coxa dele com força como clara forma de repreensão. Ele não se mostrou agradado nem a olhos cegos. Poderia tê-la puxado pelos cabelos para detê-la – ela faria isso – mas se limitou a trincar os dentes e franzir as sobrancelhas, soltando um impropério pesado, que faria qualquer padre cobrar milhares de indulgências para salvar sua alma. Leonor voltou a deitar a cabeça em sua perna. Por que ele não entendia nada? Maldito tapado!

-- Por que não conversa comigo? – ela sussurrou, já prevendo o rechaço cavalar que receberia. Entretanto, Duncan não disse nada. Não a expulsou, mas também não parecia confortável com sua presença em um momento no qual ele se sentia tão fraco quanto um bebê – Eu não vou te julgar, Duncan. Eu... Também não tive a melhor infância de todas, apesar de meu tio ter feito tudo que um pai poderia fazer por um filho por mim. Vi minha mãe enlouquecer e meus primos não me aceitavam por ser menina. Fiquei muito tempo sozinha. Minha mãe... Morreu com meu pai quando meu clã se foi. Ela não olhava para mim. Abraçava-me, mas não estava lá. Eu fiz de tudo para conseguir a atenção dela, até tentei bordar, mas tudo dava errado. Trazia flores para ela, mas ela olhava sem ver. Aprendi a falar cinco idiomas diferentes para cantar para ela, e ela me dizia vagos parabéns. Minha mãe não era mais bonita. Passou a arrancar os próprios cabelos, tentava se afogar quando a deixavam sozinha para o banho... Houve uma vez que... – ela engoliu em seco com dificuldade. Tratar daquele tema era muito sensível para ela, nunca falara aquilo com ninguém, nem com Mary e fazia de tudo para não pensar no assunto. Doía. – Ela tentou me matar. Gritou comigo e disse que eu era parecida com meu pai. Parecida o suficiente para enchê-la de lembranças ruins. Will me salvou de ser enforcada. Talvez ela tivesse seguido em frente se eu não existisse. Depois daquilo, eu fugi. Não era tão criança e tinha algumas noções de luta. Ia pegar Vento Selvagem no estábulo quando o cavalariço entrou e... Aconteceu e... Eu o matei. Essa é a verdade. Fiquei com medo. Meu tio poderia me castigar por isso. Eu fugi para o mais longe que pude, sem nem dormir. Passei dias sozinha e com fome, caçando minha própria comida quando podia. Depois Will me achou e me levou de volta para casa. Foi então que eu soube que minha mãe estava doente, na cama, desde que eu fui embora. Depois que ela morreu... Pedi a meu mestre para me ensinar a ser tão fria quanto qualquer assassino. E ele me ensinou. Não tenho medo de matar, não sinto nada quando o faço... Como eu poderia te julgar, Duncan? O que eu sinto por você não vai mudar, independente do que seja. Apenas... confie em mim também.

Ela abraçou as próprias pernas. Na verdade, sempre se sentia mal quando matava alguém, mas não era o tipo de sensação que ocupava seus pensamentos. Era passageira. Mas todo o resto era verdade. Ela foi criada para ser um guerreiro como qualquer homem, de forma que não vomitasse ao ver um corpo humano aberto ou... Ser a causa de ele estar assim. Não era motivo de orgulho, mas não podia fazer nada para mudar. Ela não queria sofrer mais por perder alguém. Por ser rejeitada. Passara a infância ouvindo os cochichos sobre como era estranha, sobre como os Knightley pereceram pela espada de um McGregor... Aprendeu a não se importar, a ignorar. E fora sincera ao dizer que não o julgaria. Como prova de sua sinceridade, respirou fundo para se fortalecer e se virou para ele, para olha-lo nos olhos, enquanto ficava lentamente de joelhos e apoiava as mãos em suas pernas. Ele a olhou nos olhos de forma ilegível, a tristeza agonizante mais uma vez presente...

Leonor se esticou e o beijou hesitantemente nos lábios. Depois se levantou e rodeou a cama, voltando para seu lugar. Não podia força-lo a falar, ou força-lo a aceita-la, mas a proposta estava em aberto.

-- Meu pai gostava de saquear monastérios, como os vikings – ele retrucou, sem olhar para ela, de costas para ela – Minha mãe estava em um deles. Era o casamento dela quando ele a violou na frente do marido. O casamento foi imediatamente desfeito, porque ela não era mais pura e ele não aceitaria um menino engendrado por outro, ainda mais quando dezenas de pessoas sabiam o que tinha acontecido, de forma que nem o dote foi capaz de fazê-lo aceita-la. A família dela também a abandonou. Ninguém queria a imagem da desonra... Uma mulher que não serviria a propósito algum. Sem ter para onde ir, tornou-se monja. Pouco depois, descobriu que esperava a cria de Lachlan McGregor. Ela... não me queria, mesmo que eu não tivesse culpa de nada. Não a culpo por isso.

Leonor se encolheu. Imagens de Alasdair a segurando por trás, pressionando intimamente seu corpo no dela, tentando viola-la diante de quem quisesse ver encheram sua mente. Estremeceu. Entendia o que a mãe dele pensou, o que ela sentiu, ao ver-se sozinha e vulnerável, subjugada pela força de um homem que poderia fazer o que quisesse com ela ir embora sem se responsabilizar por nada. Se seu lobo não a tivesse protegido, talvez estivesse esperando o filho do McDonald. Um arrepio de medo a percorreu como o toque de um cadáver em sua pele.

-- Se... Se Alasdair tivesse completado o que queria fazer... Você... Você teria me deixado? – a pergunta saiu por seus lábios sem que pudesse morder a língua antes. A ideia de ser deixada a apavorava, mas a dúvida permanecia no ar, como uma muralha de insegurança entre eles. Bruscamente, Duncan se voltou para ela, a expressão transtornada e sofrível.

-- Não – ele respondeu com brutalidade, como se ela fosse tola por perguntar algo assim – Por que pensa isso?

Leonor negou com a cabeça.

-- Porque eu não seria capaz de tirar uma criança de mim e... e...

-- Eu jamais te deixaria, Leonor. Meses atrás, provavelmente. Agora... nem se eu quisesse.

Ela voltou a engatinhar para ele sem poder se deter. Abraçou-o por trás e o beijou nas costas, moldando o corpo ao dele. Queria aquela proximidade. Precisava disso. Desta vez, ele relaxou contra ela, deixando a cabeça repousar em seu peito. Ela apoiou o queixo em seu cabelo, esfregando suavemente seu peito com as mãos. Depois de um momento, pensou que ele houvesse adormecido. Estava muito quieto, perdendo pouco a pouco a rigidez, apesar de o estresse ainda estar lá. Assim como a dor. E uma estranha solidão que ela estava se esforçando para expulsar.

-- Diga para mim – ela sussurrou suavemente contra o cabelo escuro – O que mais aconteceu, Duncan?

-- Ela tentou me abortar. Foi a mercados, falou com rameiras, com curandeiras... Fez de tudo para se livrar de mim. Por algum motivo, as ervas não surtiram efeito. Não dava certo. A barriga crescia, mas o bebê não ia embora. Desesperada, ela tentou se matar, mas o padre a impedia. Se ela cometesse suicídio, iria para o Inferno, não seria enterrada em propriedade santa. Então, os rumores sobre o Filho do Diabo se espalharam pela Escócia. Não importava o que ela fizesse, não me atingia. Eu não morria. Não dava alívio a ela.

Duncan cobriu uma mão dela com a dele, como se, mesmo que não soubesse, também precisasse do toque dela. Leonor entrelaçou seus dedos. A pele dele era dourada pelo sol e marcada por cicatrizes e calos; a dela era muito alva para pertencer a alguém que cresceu na praia, mas não era apenas delicada, também tinha suas marcas. No entanto, a mão dela era pequena se comparada à dele. Estavam juntas. Ele apertou suavemente a dela, igualmente observando a união.

-- Quando eu nasci não recebi nome. O padre estava disposto a me levar a um orfanato, a me dar a qualquer desesperada que desejasse um bebê, mesmo que fosse para cozinha-lo. O objetivo era se livrar do feto do diabo, não importando como. Depois de ver as tentativas frustradas de Catarina para me matar, ele também se tornou fiel ao mito de que eu não era humano. Catarina nunca me amamentou. De alguma forma, sobrevivi com leite de vaca, que uma velha monja me deu nos primeiros meses antes de morrer de velhice. As pessoas pararam de cuidar de mim quando abri os olhos. O padre encheu meu quarto de cruzes e rezava cada dia pela minha alma amaldiçoada. Foi então que Catarina me visitou pela primeira vez. Uma criança que apenas chorava sem parar, com olhos tão negros que era impossível ver as pupilas... Que não morreu mesmo com as drogas que ela tomou, com as quedas que levou... Ela me odiou ainda mais. Tentou me sufocar com um travesseiro. Não sei por que desistiu. Sempre me perguntei por que ela não completou o que tanto desejava. Talvez não quisesse sujar as mãos. Muita coisa teria sido melhor se ela simplesmente houvesse prosseguido... – ele suspirou. Leonor agradecia não precisar falar nada, porque a voz simplesmente não estava presente, a garganta havia se fechado – Meses depois, o padre recebeu uma missiva que o chamava para um enterro. Por coincidência, era o enterro dos pais de Catarina, que morreram pela febre. Ela acompanhou o padre para se despedir dos pais e para reaver suas terras. No entanto, quem herdara seu castelo foi Magnus Ferguson.

-- Ele é...

-- Pai do Erik. A esposa do Magnus, Anna, estava grávida. Bom, Magnus conquistara o castelo, na verdade... Quando meus avós morreram, o rei Donald entregou as terras aos Ferguson, já que minha mãe fora exilada. Magnus era um bom homem. Aceitou que o padre enterrasse os pais de Catarina ainda nas terras que antes foram deles e acolheu Catarina e eu como se fôssemos convidados. Alexander, pai do Niall, era um aliado, então era normal que os dois herdeiros se encontrassem várias vezes. Catarina me deu para as criadas do castelo e ocupava seu tempo conversando com Anna e bajulando Erik. Anna morreu no parto de seu segundo filho junto com o bebê e Catarina se tornou a nova esposa de Magnus.

-- Você e Erik são como irmãos. – ela disse, acariciando seu peito de forma reconfortante, depositando um tímido beijo em seu cabelo – E ainda assim, Magnus...

-- Eu não tenho o sangue dele. Não tinha direito a nada ali, mesmo sendo o filho bastardo de Catarina. Também não queria aquelas terras. Eu queria... – ele negou com a cabeça – Esqueça.

-- Eu sei o que você queria, Duncan. É o mesmo que eu desejei da minha mãe a vida toda, não precisa se envergonhar de dizer isso.

-- Você me conhece mais do que eu mesmo.

Ela abriu um sorriso triste.

-- Sou muito observadora.

Ele ficou em silêncio por um longo tempo.

-- Não vale a pena ouvir o resto, Leonor.

-- Conte-me. Por favor.

Ele assentiu com a cabeça, mas demorou a voltar a falar.

-- Não sei quantos anos eu tinha... Catarina me soltou no mundo. Simplesmente me mandou achar meu pai e nunca mais voltar. Magnus me disse que eu só precisava ir a Skye. Eu não sabia nem o que era Skye. Ao contrário de Erik, eu não recebia aulas. Não sabia de nada mais do que ouvia das criadas. E até elas não me queriam, porque sabiam que eu tinha o sangue do diabo. Pedi informações a viajantes e consegui entrar escondido em um barco que ia para um mosteiro nas Hébridas, em Iona, que passava por Skye. Passei dias buscando Lachlan McGregor e fugindo de seus inimigos como podia. Havia dias que gemia de fome e dor nos pés descalços, de frio... Imaginava um pai que me abraçaria, que ficaria feliz por me ver. Um pai que não se importasse por eu não estar morto. Invejei Erik muitas vezes. Ele tinha a família que eu não tinha e recebeu aceitação da mãe que nunca me quis. Depois de tanto tempo, quando encontrei Dragon Seafront Castle... Pensei que meu pai me quereria. Mas ele era casado e a esposa já tinha lhe dado uma filha. Ainda assim, pensei que ele ficaria feliz por ter um varão para herdar seu legado. Ele riu quando me viu. Eu estava sujo, descalço, as roupas rasgadas, cheio de feridas abertas e inflamadas. A esposa dele... Não me deu tamanha recepção. Expliquei minha história e ela me deu uma bofetada. Não ousava brigar com Lachlan, portanto, descontou em mim. Eu não tinha nome, sobrenome... Não tinha nada, Leonor. Por bondade, a senhora do castelo me permitiu dormir nos estábulos. Ninguém tinha permissão sequer para me olhar. Eu era uma criatura com maldade nos olhos, uma coisa ruim que desgraçaria sua vida se apenas respirasse o mesmo ar que eu.

Ela queria dizer que não era assim, mas não tinha voz para falar. Estava muda de choque e tristeza, porque aquele homem tão forte e maravilhoso vivera um inferno desde antes de nascer. Ela o admirava demais.

-- Lachlan me treinou para ser um soldado. Acostumou-me a comida escassa, a pegar o que eu queria de quem quer que fosse caso o necessitasse, fosse comida, roupa ou lugar para dormir. Treinou-me arduamente com as armas. Pela manhã, ele me mandava ficar de joelhos e me surrava com látegos até perder a consciência para me fortalecer, e eu não poderia emitir um único ruído de dor, ou jogaria sal em minhas feridas. Aprendi a cuidar de mim mesmo para sobreviver. Observei como as curandeiras faziam e depois roubei seus instrumentos, para logo costurar minhas próprias feridas. As das costas... Tive de me banhar na água do mar para que se curassem. Lachlan dormia com todas as mulheres da aldeia e sua esposa sabia. Ela não se importou nem quando o viu com a própria filha.

Leonor estremeceu. As imagens do que ele falava enchiam sua mente em um pesadelo sem fim. Arian com Lachlan, Duncan se banhando em sal para sobreviver, a loucura para a senhora do castelo... Ela tinha certeza: assim como ela, ele aguentou tudo e fez o que fez apenas para chamar a atenção do pai, para receber sua aceitação... Para ouvir apenas um muito bem, meu filho. Ela também esperou ouvir isso da mãe. E ali estava ele, depois de tanta crueldade...

-- Certa manhã, ele mandou um criado me chamar. Pensei que era pelo meu sucesso na primeira caçada com um esquadrão do exército, mas... Ele me vendeu para Alasdair McDonald. Meu pai me trocou por gado. Baixei a cabeça e obedeci. Fui com Alasdair como um escravo. Quando chegamos ao seu castelo, a filha dele cuidou de minhas feridas. Pensei que era por bondade, mas... Fui vendido outra vez. Eles me engordaram por uma semana e negociaram com ingleses. Meu peso em ouro em troca de um escravo desumano, que não se importava com a dor, com nada.

Mas ele se importava. Ela sabia. As pessoas costumam achar que você não tem sentimentos apenas por se fazer de forte, mas ela sabia que não era assim. E a prova estava no que ele se tornara.

-- Os ingleses me ensinaram a lutar. A luta das ruas. A luta dos cães. Treinavam-me durante o dia e se eu me saía bem, recebia comida. À noite, eu era solto em uma gaiola. E lutava até a morte. Contra cães. Contra lobos. Contra um urso. Contra um touro. Ou contra outro menino desgraçado como eu. A lei era viver, não importava como. Aprendi a jogar sujo, a manipular apostas. Era o melhor cão que eles tinham. Desde quando nasci, eu era maior que as outras crianças e as lutas me desenvolveram. Com catorze anos, parecia um garoto de dezoito. Uma vez você me perguntou como foi a primeira vez que matei... Eu não senti nada. Matei um garoto da minha idade para ganhar um prato de comida e passar uma noite sem grilhões nos pulsos, apesar de eles ainda manterem a coleira no pescoço e a jaula fechada. Não se arriscavam a me dar uma arma. Lutei pela minha vida e sequer sabia pelo o que estava vivendo. Passei anos servindo de cão. Tentei fugir apenas uma vez e me deixaram com tanta fome que pensei que ia morrer. Então... alguém me comprou por um preço muito alto, porque eles não me perderiam em troca de nada. Fui banhado depois de meses, cortaram meu cabelo e me barbearam. Depois me vendaram os olhos, acorrentaram meus pulsos e apertaram a coleira. Não vi meu proprietário até estarmos nas terras dele, porque até então eu nem sabia onde estava. Quando me tiraram a venda, vi água e comida... O instinto foi mais forte e eu comi sem me importar. Meu estômago não estava acostumado ao luxo e eu vomitei depois... Para comer de novo. E beber água. E ver Edgar. Pensei que ele tinha me levado para lutar por ele. Ele negou. Sugeri que era para ser a... – ele limpou a garganta – sua puta. Mas também não era isso. Edgar libertou todos os cães dos ingleses daquela área e os levou para a corte. Ele me deu um nome. Roupas. Comida. Quando passei a confiar nele, contei-lhe minha história. Passei a treinar com seu exército e me tornei importante. E extremamente temido, porque não era segredo a ninguém quem era meu pai. Foi na corte que vi Erik e Niall outra vez. Catarina morreu por alguma enfermidade e Magnus foi morto em batalha. Erik agora era o chefe do clã e Niall logo seria proclamado chefe dos Ashenbert. Eles foram comigo quando retornei a Skye. A esposa de Lachlan havia se suicidado e Drustan era apenas um menino. Arian estava mais receptiva a me aceitar como irmão. Lachlan riu ao me ver e me chamou de diabo. Porque eu não morria. Não morri quando minha mãe tentou me abortar... Não morri quando ele tentou me matar naqueles treinamentos... Eu achei que ele queria me fortalecer, e ele só queria se livrar do bastardo. Por quê, Leonor?

Ele tremeu em seus braços e ela o abraçou com mais força. As lágrimas arderam nos olhos dela, mas engoliu cada uma. Não queria que ele visse sua bravura como algo digno de pena, porque não era nisso que ela estava pensando.

-- Por que ninguém nunca me quis?

Duncan não tinha culpa de nada. Como poderiam tê-lo destruído tanto? Ele tinha uma natureza gentil, mesmo com tudo o que passou e... Foi maltratado. A mão que deveria lhe afagar a cabeça se ergueu para açoita-lo. Como poderiam ter sido tão cruéis com um menino? Por dentro, ela chorava por ele. Sem saber o que fazer, aninhou-o nos braços, aferrada a ele, absorvendo sua dor como se fosse a própria.

-- Você ouviu minha história – ele sussurrou quase inaudivelmente – então pode dizer o que eu fiz de errado?

-- Nada, mo gra – a voz dela tremeu absurdamente.

Ele suspirou com pesar. Parecia que respirar para ele era a coisa mais difícil de fazer. Para a surpresa dela, Duncan se desvencilhou de seus braços e se afastou lentamente, levantando-se da cama e caminhando para a janela. A luz da lua refletia cada parte de seu corpo nu, desde o movimento dos músculos até as cicatrizes que marcavam aquele imperioso corpo de guerreiro. Seus olhos mostravam uma escura e incurável agonia construída por anos e anos de sofrimento.

-- Se quiser sair, vá. – ele grunhiu friamente.

Leonor não conseguiu nem mesmo se mover. Entendia porque ele era tão fechado, porque demorou a aceitar o amor dela e porque ainda estava aprendendo a ama-la. Porque se mantinha distante, porque era rígido e inflexível. Porque não se importava com o que diziam dele. Mas ela se importava com ele. Amava-o o suficiente por todas as pessoas que o rejeitaram, por ele mesmo, por ela e por quem mais viesse. Ela não ia ter um filho dele só porque andaram fazendo besteirinha por aí. Ao contrário do que pensou meses atrás, aquele filho não era o fruto do ódio de dois clãs. Não, longe disso. Aquele filho vinha da união de dois clãs e de um homem e uma mulher que buscavam aceitação. Uma família.

Ela se levantou da cama e caminhou para ele sem fazer barulho. Antes que ele se virasse, rodeou a cintura dele com os braços e o abraçou com força, enterrando o rosto nas musculosas e marcadas costas. Agora sabia de onde vinham as cicatrizes que não foram feitas pela espada.

-- Eu queria que você se visse como eu te vejo – ela sussurrou contra as costas dele – Não me mande ir embora de novo, Duncan, porque eu não vou. Nunca. Entenda isso. Eu... – ela molhou os lábios e respirou fundo. Precisava dizer aquilo. – Vejo um homem forte. E bom.

-- Eu não...

-- Cale a boca e ouça. Pode fazer isso?

-- Como quiser, esposa.

-- Pois bem... Eu não posso mudar o seu passado. Não sou uma fada para ser capaz de fazer isso. Nem um druida. Eu não conheci o seu eu do passado, mas eu conheço quem você é agora e é contigo que estou casada. Você foi gentil comigo quando poderia simplesmente ter consumado o casamento e acabado com aquela confusão. Mas você respeitou o meu medo. E poderia ter me deixado para morrer nas mãos dos vikings. Edgar não poderia reclamar, não era sua culpa. Mas você voltou e me salvou. Lutei contra você a cada minuto desde que te vi no meu quarto em Ulster, te ameacei com uma agulha e gritei contigo até ontem. Mas você não me bateu. Esperei que me batesse. Eu merecia. Mas não o fez. Cuidou de mim, Duncan. Salvou o lobo para mim e... – ela enrubesceu profundamente – Fez amor comigo quando estive pronta. Se outros tolos não viram isso... Quero dizer... Você me fez amar você. Pelo o que você é. Se é bastardo, se já foi escravo, se já matou... Tudo isso faz parte de você. E eu te amo. Eu não teria te dado o meu corpo se tivesse dúvidas. Nosso filho é a prova disso, entendeu? Eu quero estar com você até depois dos duzentos anos.

-- Não vamos viver tanto tempo – ele disse suavemente.

Ela sorriu e o beijou nas costas.

-- Eu não pensaria isso se fosse você – ela se afastou e ele se virou, olhando-a nos olhos – Tenho planos para a eternidade, não para algumas décadas.

Para a surpresa dela, ele corou e desviou o olhar.

-- Realmente me vê assim? Faz-me parecer algum tipo de herói, como aquele seu Tor... Torlak?

Leonor riu.

-- Thorin – corrigiu-o – Thorin não é meu herói. Ele pertence a Gwyneth. E, veja que coincidência, os dois têm uma cicatriz na face. – ela disse e rodeou o pescoço dele com os braços, colando-se ao corpo dele. As mãos dele a seguraram pela cintura, prendendo-a a ele – Você sonhou com o passado, Duncan?

-- Sim.

-- Não se preocupe com isso, está bem? Ainda não sei como, mas vou te ajudar a superar.

Ele a olhou. Mais uma vez, com aquele brilho triste nos olhos, como se aguardasse pela rejeição.

-- Não tem nojo de mim, Leonor?

Ela franziu as sobrancelhas.

-- Tenho nojo do seu pai. Tenho pena e raiva da sua mãe. Mas por que teria nojo de você?

-- Porque eu sou um monstro.

-- Diga isso de novo e arranco a sua língua. Você não é um monstro, quantas vezes devo dizer isso? Se acredita tanto que é um monstro, seremos monstros juntos. Você come as criancinhas no desjejum e eu as caço para você.

A expressão dele se suavizou e ele, inesperadamente, pressionou os lábios aos dela em um beijo de felicidade, de aceitação, de adoração. Ele esperava a rejeição e ela lhe deu o acolhimento. Duncan enterrou o rosto na curva do pescoço dela, fazendo-a estremecer.

-- Acho que eu preciso agradecer Edgar por me forçar a casar com você.

-- E Henrique também. Não se esqueça dele.

-- Sim, Henrique também.

-- Deixando os reis de lado... Há uma esposa grávida querendo deitar com seu marido, é possível?

-- Sim, mo shíorghrá.

Ele a segurou nos braços e ela teve de se apertar nele para não cair, por mais que soubesse que ele jamais a derrubaria. Duncan se deitou com ela na cama, abraçando-a como se jamais fosse deixa-la ir e ela apenas relaxou, sentindo cada parte dele envolvendo-a, esquentando-a mais que as peles.

-- Nunca me deixe, Leonor, eu... Não posso viver sem você.

-- Eu sei. É por isso que eu disse para não me mandar embora. Não importa o que pense, eu vou te perseguir mesmo depois de morta.

-- Você não vai morrer. Já estava acreditando na eternidade, ou estava me iludindo?

Ela riu.

-- Com certeza não. Tenho muitos planos.

Silêncio.

-- Duncan?

-- O que foi?

-- Enfrente o seu passado comigo, está bem? Eles são apenas fantasmas do que já aconteceu. Eu estou aqui para você e estou armada.

-- Obrigado, Leonor.

-- Você costuma ter pesadelos com isso?

-- Sim. Desde quando Lachlan morreu.

Claro. O maldito destrói as vidas dos outros mesmo sem estar vivo.

-- Eu sinto muito – Leonor suspirou.

-- Não sinta.

-- Eu te admiro, não se esqueça disso.

Ela caiu no sono logo em seguida, pensando constantemente no que poderia fazer para alegrar a vida dele de forma que o passado fosse apenas isso: o passado.

Leonor acordou com a luz do sol entrando pela janela. Espreguiçou-se como um gato ao despertar de uma tarde de sono bem dormido, esticando-se sobre o colchão e bocejando. Duncan dormia ao seu lado, tão tranquilo como ela nunca vira, a expressão relaxada e suave, sem as rugas de estresse que ela estava acostumada a ver. Poderia babar por ele o dia inteiro sem cansar. Beijou-o nos lábios e, cuidadosamente, se arrastou para fora da cama, onde se espreguiçou de novo. O céu estava tão azul que parecia surreal. Então seus olhos pousaram em uma folha de papel meticulosamente dobrada sobre a mesa. Uma folha que não estivera lá noite passada. Franziu as sobrancelhas, o coração acelerado no peito por causa da ansiedade do que esperava que fosse. Pegou o papel e o abriu. Seus dedos tremeram e precisou se sentar no colchão para não cair. O pavor a sufocou. A realidade a atingiu como um banho de água fria, um choque que percorreu todo o seu ser e se concentrou no coração, fazendo doer profundamente.

Não era um pesadelo. Não era um pesadelo.

Você já teve o tempo necessário para brincar. Agora faça o serviço que lhe ordenei. Sei onde está a entrada secreta, posso entrar com todo o exército em uma emboscada. Fergus e Arian vão me guiar. E aí, o que vai ser? Destrua-o.

Foi como uma estaca no peito. Tinha se esquecido totalmente daquilo. Depois da noite que tivera, sonhara com o futuro pela primeira vez. Vira-se ao lado de Duncan, os dois juntos e criando um garotinho e uma garotinha de cabelos e olhos negros como a noite. Tudo se esvaiu com a mesma velocidade com a qual o pai dela destruiu tudo. Leu várias vezes o bilhete escrito por Hugh, temendo estar enganada, mas sabia que não estava.

Amassou a folha e a jogou na lareira. Debaixo da cama havia uma minúscula arca de madeira de cedro. Ela a puxou e a abriu. Em seu interior estavam algumas folhas, um pincel e o livro preferido dela. Leonor pegou o que precisaria e tragou o choro. Não era uma menina, era uma mulher e precisava ter sabedoria na hora de agir.

Mas a ideia de seu pai ter entrado no quarto sem que ninguém percebesse era aterradora. Nenhum guarda o viu, ninguém no castelo o percebeu... E ainda deixara um bilhete para ela sem fazer um único ruído. Hugh poderia ter simplesmente matado Duncan sem que ela soubesse. Mas não o fez. O que ele queria, tortura-la?

A vida de Duncan pela de todos.

Seria capaz de fazê-lo?

Guardou a folha dentro do livro e colocou tudo sobre a mesa. O punhal que seu pai lhe dera estava debaixo do travesseiro. Deslizou a mão pelo colchão até tocar o punho da arma. Lentamente, puxou-a para fora do esconderijo. Suas mãos tremiam. Por anos Leonor matara sem piscar. Mas agora, isso parecia errado. Impossível. Quando apertou o punhal na mão, não teve aquela familiar sensação de segurança e poder. Deitou ao lado dele devagar para não acorda-lo.

Duncan. Meu maior medo... é perder Leonor. Oh, Deus. Eles tiveram uma noite tão especial... Tinham comemorado a gravidez dela de tantas formas... Ele finalmente tinha se aberto com ela, exposto suas fraquezas tanto quanto as forças... Tinham feito amor e dormido abraçados. Como poderia mata-lo? Os nódulos de seus dedos estavam brancos de tanto apertar o punhal. Tocou o peito nu dele com a ponta afiada da folha de prata.

Por que não parava de tremer? Tinha de mata-lo. Se o matasse, todos ficariam bem. Bessie, Mary, Iain, Drustan, Seamus, Angus, as crianças... Eles ficariam bem. Era um sacrifício. Seu tio lhe dissera que o mundo era regido por trocas equivalentes: se quer algo, dê uma coisa de mesmo valor em troca. Se quisesse salvar sua família, teria de mata-lo.

As lágrimas deslizaram por sua bochecha contra sua vontade. A gravidez a estava tornando sensível. Pressionou o punhal sobre o coração dele. Só bastava um pouquinho de força, só um pouquinho... E tudo estaria terminado.

De repente, o ar não entrava mais em seus pulmões. Leonor tremeu, sem conseguir manter o punhal firme. Mata-o. Mata-o. Faz isso, salva tua família. Vai ganhar o respeito do teu pai.

A troco de quê?

Uma vida por várias.

Eu posso dizer a ele... Posso prepara-lo para...

Acha que ele não vai desconfiar? Ele sabe como é apegada a sua família de sangue, é óbvio que sabe que vai trai-lo. Que vai preferir Hugh do que a ele. Está no seu sangue ser fiel aos seus.

Ele confia em mim. Ele me ama.

Não seja tola, Leonor. Duncan não vai acreditar em você. Desde o começo, você deixou bem claro que preferia seu pai, os Knightley. Por que Duncan deveria confiar em você? Apenas siga a correnteza e ajude o lado que te favorecerá. Se não por você, pelo seu filho.

Não posso fazer isso...

Mata-o.

Mordeu o lábio inferior para não soluçar, chorando em total silêncio. Admirou aquele rosto cinzelado e que sorria tão raramente. O mesmo rosto que mostrou amor a ela quando deveria tê-la açoitado por rebeldia. Os mesmos lábios que beijava ontem suplicaram para que não o abandonasse jamais. O homem que a enfureceu, que a entristeceu, que a fez rir...

Duncan, me perdoa, mo chroí...

O homem que a trancou no quarto como castigo... O mesmo que perdeu a virgindade com ela. O pai do seu filho...

Mata-o.

Por muito pouco não largou o punhal. Inspirou profundamente. Estava tremendo demais e as lágrimas a cegavam. Sabia o que tinha de fazer. Já executara aquele tipo de serviço dezenas de vezes sem pensar ou ter remorsos. Por que agora é diferente? Porque é Duncan.

Não podia permitir que todos morressem. Mas também não podia mata-lo. Duncan não. Oh, não, ele não. Lembrou-se de quando o conheceu na praia, da queda que levou do cavalo. Ele apeou imediatamente para ajuda-la e ela instantaneamente se encantou por aqueles olhos negros. Não podia fazer aquilo e nem podia deixar que qualquer outro o fizesse.

Mas ele não acreditaria nela. Leonor sempre fora fiel ao sangue que tinha, até conhecê-lo. Mas Duncan não acreditaria nela. Ontem mesmo acreditava que ela o deixaria só por saber de seu passado, como reagiria ao vê-la como traidora?

Nunca me deixe, Leonor, eu... Não posso viver sem você.

E o que estava fazendo agora?

Traidora desprezível.

Ergueu o punhal. Quando o descesse, tudo estaria acabado. Ele estaria morto. E os McDonald iriam embora.

Com a finalidade de quê? Quando eles fossem embora, o que seria dela? Ficaria sozinha e sofrendo, com um filho para criar, recebendo a caridade dos outros, até morrer de tristeza como sua mãe? Se existissem companheiros da alma, Duncan era o seu. Se o matasse, teria um vazio tão profundo no peito, que a vida seria sua degradação. Uma morte lenta e dolorosa bem merecida. Duncan confiava nela. Dependia dela. Não podia trai-lo. Talvez, pudesse... Enterrou o rosto no travesseiro para não ver. Talvez, se ela pensasse apenas um pouquinho mais, encontrasse uma forma de manipular Hugh e expulsar os inimigos de Dragon Seafront Castle. Não podia mata-lo. Inferno. Não era capaz de fazer aquilo nem se desejasse. Amava aquele homem. Era algo forte demais para que pudesse escolher.

Não o mate, implorava toda a essência de seu ser.

Você precisa...

Não posso fazer isso. Não importa o que aconteça depois, não posso mata-lo. Ele é tudo pra mim.

Um soluço baixo escapou por seus lábios. Não tinha forças para isso. Talvez, se explicasse a ele de verdade... Ele acreditaria nela, certo? Tinha de acreditar... Não podia recorrer ao passado, quando... Você o trai no presente? Ótimo argumento, víbora.

Não. Olhou para a própria mão. Era como se o punhal pesasse demais para que fosse capaz de sustenta-lo. Se o baixasse com o mínimo de força, o resto faria a lâmina. Cravando-se no peito dele. Matando-o. Traindo-o. Faça algo egoísta ao menos uma vez. Toda a sua vida girou em prol dos outros, que tal fazer algo por você? E por ele também...

As lágrimas não paravam de escorrer por seu rosto, encharcando o colchão abaixo dela, congestionando o nariz. Não ia mata-lo. Não importava o que acontecesse depois, ela arranjaria uma solução, mas Duncan tinha de viver. Ele tinha...

-- Leonor?

Ela ergueu os olhos para os dele, que... Oh, Deus! O punhal caiu de sua mão e ela se afastou de um salto, correndo para fora da cama, os joelhos fraquejando e a fazendo cambalear. Encolheu-se, apavorada, tremendo como uma doente e chorando como uma desesperada. Duncan segurava o punhal com incredulidade, como se acreditasse ainda estar dormindo, sem conseguir acreditar no que via. Olhava fixamente para a arma, piscando, sem voz para falar.

-- Leonor – ele disse. Havia uma dor profunda em seus olhos e a voz mostrava a traição que havia em seu peito. Ela o machucara. Não fisicamente como o planejado, mas de forma pior. Foi tão terrível quanto Lachlan ao fingir que o amava para vendê-lo a Alasdair McDonald. Porque ela o fizera ama-la para logo em seguida trai-lo. Dera-lhe esperanças... Ela nunca seria capaz de apagar da memória a expressão dele.

Duncan se sentou na cama, alternando o olhar entre ela e a arma como se não reconhecesse nenhuma das duas, a mágoa tão patente que ela poderia toca-la. Leonor olhou para os próprios pés, sufocada pela própria vergonha, por sua incapacidade de resolver as coisas. Pare de chorar.

-- Leonor – ele repetiu – O que estava fazendo?

-- Eu...

De repente, a porta se abriu. Ela pulou de susto e empalideceu ao ver Fergus parado na entrada, a expressão furiosa. Havia alguns soldados McGregor atrás dele e todos entraram no quarto sem se preocupar com nada, a atenção posta totalmente nela.

-- Eu tentei te avisar, não foi, primo? – ele disse – Leonor é uma cobra! Desde o começo, estava planejando te matar. Ela sabia que Hugh estava vivo. Era só questão de tempo. Mas você não me ouviu e por muito pouco não perdeu a vida. Satisfeito? Conseguiu a prova que queria: a inglesa traidora é completamente fiel ao papaizinho.

Fergus a segurou pelo braço com força, puxando-a violentamente na direção da porta. Foi uma armadilha. Ela queria se defender, ela queria gritar e se rebelar, lutar pela justiça que não lhe era feita... Hugh armara uma armadilha e ela foi tonta o suficiente para cair. Endureceu a expressão. Precisava de um plano antes que fosse tarde demais.

-- Eu disse, primo – continuou Fergus – Ela traiu a todos nós.

-- Defenda-se, Leonor.

Respirou fundo.

-- Não há o que defender – respondeu Fergus.

Ela permaneceu em silêncio, o que servia como mais que uma confirmação.


Notas finais
Caramba, escrevi ouvindo umas músicas muito tristes kkkkk Eu só escrevo ouvindo música e é isso que me inspira nas cenas, tanto pra ler como pra escrever. E a minha trilha sonora me emocionou tanto quanto o Duncan perguntando POR QUE? pra Leonor. Eu adotava ele, sabe ? kkkkkk
Eu mereço comentários né ? Tanto pelo passado dele como pela cena da "descoberta". Todo mundo só aparece quando a Leonor ta nua né ? kkkkk
P.S.: Cantada do Meu Irmão: Você não é Merlin, mas me enfeitiçou!
Dá pra acreditar nisso ? kkkkk