Prazeres Sombrios - Indômita
7 Capítulo VI - Empreitada
Notas iniciais
Enfim... Peço que me desculpem por qualquer erro de português. Eu digito muito rápido e geralmente não leio o que eu escrevo e às vezes meu teclado dá problema, então, alguns problemas podem acontecer, como o Word transformar QUE em EU. kkk
BOA LEITURA !!
CAPÍTULO SEIS
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Leonor estava mais apavorada que um ratinho rodeado por gatos famintos, mas sabia que precisava ser corajosa. Não era o momento adequado para dar rédea solta a suas emoções e teria o mesmo controle hercúleo de seu marido e dos homens dele. Mary, igualmente determinada, puxou Tess para debaixo do banco, sussurrando palavras de consolo para que a donzela não os entregasse ainda mais. Esta, dominada pelo medo, encolheu-se como uma bolinha, rezando por suas vidas.
Leonor não precisava ser um gênio para compreender o tipo de tática que os vikings estavam empregando: fechariam o cerco em um movimento de pinça, jogando uma armadilha para eles. Ela reconheceu o movimento assim que os dois drakar que vinham pela frente abriram espaço, deixando um pequeno vão para o birlinn. Outro viria por trás, ela tinha certeza. Este os empurraria para o meio, onde seriam capturados facilmente. Ao menos, se Leonor fosse uma guerreira das águas, faria isso. Parecia muito engenhoso e o tipo de cerco do qual não se pode escapar. Eles não tinham tempo para contorna-los e fugir. Os vikings estavam muito próximos.
Ela correu para o lado de seu marido, enquanto Mary se sentava no banco atrás de Iain e tomava um remo. Ele a olhou por sobre o ombro e sorriu, sem discutir com sua prima. Leonor olhou para McGregor, que tinha uma expressão estoica. Seus olhos estavam estreitados em ameaça e ela percebeu que milhares de estratégias passavam por sua mente como raios.
-- McGregor – sussurrou. Ele não a olhou, mas tensão de seus braços e costas ela soube que a ouvia com uma clareza medonha. O birlinn se moveu assim que outro arpão passou por cima da galera, caindo na água. – Você vai negociar rendição ou vai lutar?
Mary estava com os homens no controle da galera e Leonor logo se juntaria a ela, mas antes precisava conversar com seu marido. A expressão dele era tenebrosa, mas o sorriso divertido pelo desafio a fez pensar se ele não era louco. Como poderia estar se divertindo em uma situação tão horrível?
-- Bàs roimh gèill – respondeu ele em gaélico. Leonor sentiu um estranho arrepio percorrer toda a sua coluna. Não sabia se temia o que pudesse acontecer vindo daquilo, se rezava por suas vidas como fazia Tess ou se sentia orgulho por ele ser um lutador como ela. Era insensato, arriscado, mas em seu coração, Leonor concordava com ele. Morrer antes de render-se. Seria pior estar nas mãos dos vikings do que lutar para escapar deles – Faça como sua donzela e se proteja debaixo de um banco, inglesa.
Leonor sabia que os vikings não conheciam o significado de clemência. Estuprariam as mulheres e matariam lenta e cruelmente os homens. Estavam tomando a rota para a Inglaterra para saquear os monastérios e eles estavam no caminho. Foi inoportuno encontra-los, mas render-se não era sábio. Não possuíam chances de escapar, mas Leonor estava disposta a mover céus e terras para manter os drakar longe deles. Ninguém tocaria nos seus enquanto respirasse.
Ela empinou o queixo com altivez e empertigou os ombros, determinada a enfrentar seus medos.
-- Diga-me o que preciso fazer. – Leonor disse com firmeza. Seu marido a olhou com raiva, as sobrancelhas franzidas. Estava fazendo aquilo de novo. Argh!
-- Vá se proteger, mulher, agora não é hora para discutirmos! – grunhiu ele com impaciência. Ela sabia que não deveria desconcentra-lo, mas também sabia que na escassez de homens, ela era forte o suficiente para supri-los. Segurou o braço dele com força, tentando ganhar um pouco de sua atenção e se surpreendeu ao notar o quão duro era. Uma pele macia e marcada por cicatrizes sobre músculos férreos... Não podia se distrair.
-- Diga o que tenho de fazer – ordenou ela entre dentes – Não sou uma menina, deixa-me te ajudar, McGregor. Estou confiando nossas vidas a você e tudo o que peço é que me deixe fazer algo.
Ele amaldiçoou, os olhos fixos na mão que apertava seu braço.
-- Pegue outro remo, na frente de Fergus e preste atenção ao que eu falo. – outro arpão passou voando por eles e o birlinn desviou com lentidão. Os drakar já estavam se movendo. Os olhos deles se encontraram e ela sentiu aquela incômoda conexão inquebrável com o escocês – Estou confiando em você, inglesa.
-- Não vai se arrepender – Leonor sorriu e retirou a mão de seu braço, mal percebendo que a levava à bochecha dele, onde acariciou ternamente. O terror da batalha esquentava seu sangue em antecipação. Logo ela ficou séria, lembrando-se do que realmente tinha ido discutir com ele – McGregor, estão fechando o cerco. É uma armadilha e...
Ele sorriu. Deus, ele sorriu. Um sorriso cruelmente divertido e brincalhão que lhe chegou aos escuros olhos e revelou graciosas covinhas em suas bochechas, contrastando com o guerreiro implacável que ela sabia que ele era. Leonor ficou boquiaberta, chocada com a beleza daquele homem que vivia de sobrancelhas franzidas, o coração se acelerando no peito.
-- Eu sei o que eles planejam – ele disse, a voz rouca e suave como uma carícia, arrepiando-a dos pés a cabeça – Vá para o seu posto, inglesa, estamos entrando em batalha.
Ela assentiu com a cabeça, incapaz de falar e correu para o banco diante de Fergus, segurando o remo com firmeza. A madeira áspera lhe machucaria as palmas, mas não estava preocupada com tamanha banalidade. Concentrou-se nos sons a seu redor, engolindo continuamente o bolão de medo que se formava em sua garganta. A espera a estava deixando agoniada. O birlinn permanecia congelado sobre as águas e McGregor não dera nenhuma ordem. Os drakar estavam fechando o cerco tranquilamente e ela podia ouvir as vozes de seus tripulantes, o tinir do aço enquanto se movimentavam. As garras do medo estavam cravadas em sua garganta e um sopro gélido de pavor lambeu sua coluna, os nervos à flor da pele. Cada segundo parecia uma hora perdida e eles não regiam ante o perigo. Vikings gritaram algo. Havia um drakar tão perto de Leonor que ela poderia tocar nos remos se esticasse a mão. Olhou para o lado, onde estavam seus atacantes e viu cabelos dourados e longos e o brilho apagado de elmos e escudos. E espadas. E machados. Eles estavam prontos para saltar no birlinn e atacar. Muito próximos. Demais. Ela engoliu em seco e sentiu como se parasse de respirar. Olhos estavam fixos nela na escuridão. Murmúrios de excitação.
Vamos, McGregor, vamos...
Um grito de guerra foi ouvido, quebrando a barreira do silêncio sepulcral da morte, seguido por muitos outros. Lanças foram disparadas, não havia como errarem o alvo, a proximidade era causticante. Vikings se precipitaram nas bordas de seus drakar. McGregor desceu a enorme vela negra da galera neste exato momento e o vento revolto se chocou contra ela, impulsionando o birlinn para frente bruscamente, levando-o pelo estreito corredor em direção à liberdade. Vikings saltaram insanamente, rosnando um grito de batalha, erguendo suas armas, enquanto outros arremessavam lanças amarradas por cordas grossas. A maioria caiu no mar e três subiram à galera. Eles nadavam em sua direção, tentando superar o peso das armas e das armaduras de aço.
-- À direita! – ordenou McGregor, movendo o mastro habilmente. Mary e Iain remaram como possessos, controlando os movimentos do birlinn enquanto McGregor desembainhava sua espada. Mas ele não podia lutar. Precisava estar com o mastro, ou eles não escapariam dos drakar, que já estavam dando a volta para persegui-los.
O birlinn voava sobre as ondas, ganhando distância dos inimigos. Fora projetado para uma velocidade fora do comum e Leonor a teria apreciado mais se não fosse pelas circunstâncias. Os três escandinavos cercaram McGregor, que segurava o mastro com uma mão e empunhava a espada com a outra. O coração de Leonor bateu mais rápido no peito. Os drakar estavam bastante atrás, mas poderiam alcança-los se seu marido decidisse pela espada. Um ruivo saltou sobre ele com dois machados, enquanto um loiro erguia a espada para destruir o mastro. O corpo de Leonor se moveu sozinho, impulsionado por um instinto que só era despertado durante os treinamentos. Ela não podia deixa-lo morrer. O terceiro escandinavo já estava se preparando para atingi-lo por trás e ela viu que Iain largava o remo e desembainhava sua espada. Mary teve de remar com mais esforço e já estava cansando do trabalho.
Com a mente pensando friamente, Leonor largou seu remo e saltou para o banco de Fergus, que a olhou surpreso.
-- Cuide do remo, eu volto logo – ela disse, puxando a espada dele da bainha. Era muito mais pesada do que ela tinha costume e não aguentaria empunha-la por muito tempo. Ele fez menção de detê-la, mas algo na expressão dela o fez obedecê-la – Não faça nada que não seja de sua incumbência, homem, e agora, confio em você para remar. A vida de seu primo me pertence e apenas eu posso tira-la. Esses bastardos não vão tirar isso de mim.
-- O que vai fazer?
-- Salva-lo.
Leonor saltou do banco para o chão e se deitou sobre o soalho, arrastando-se com a velocidade e a fluidez de uma serpente por debaixo dos bancos. McGregor defendia os golpes com uma ferocidade desumana, tão veloz e bruto que ela pensou que ele nem precisaria de ajuda. No entanto, mesmo quando Iain entrou na batalha e afastou o viking que queria destruir o mastro, ainda havia um que desejava decepar seu marido pelas costas. A fúria borbulhou em seu peito, mas ela manteve a cabeça fria como lhe foi ordenado, rastejando silenciosamente até estar bem próxima deles. Viu as costas largas e musculosas do viking e como seu marido usava uma única mão para deter dois machados. Um segundo inimigo era demais para ele no momento. Ela estava embevecida ao vê-lo lutar, a forma como seus músculos se tencionavam e a precisão de seus golpes. Quando o covarde ergueu a espada para mata-lo, Leonor saiu de seu esconderijo e saltou para o pequeno espaço entre o McGregor e o escandinavo louro. O inimigo desceu a folha em um arco horizontal perfeito enquanto ela erguia a lâmina e defendia o pescoço de um McGregor. O tinir do metal chamou a atenção de seu marido e ele se afastou muito pouco, furioso pela batalha e por ela estar ali.
A força do golpe quase fez tremer os braços dela, mas Leonor se manteve firme onde estava. Era uma mulher alta, mas ainda tinha de curvar a cabeça para trás para olhar o covarde nos olhos.
-- Saia daqui! – gritou seu marido furioso, empunhando a espada com renovada energia odiosa, parecendo um possesso. Leonor não se acovardou, recuou meio passo e avançou para o viking, travando uma luta bruta, onde ele era incomparavelmente mais forte e ela, mais veloz. – Enlouqueceu, mulher?
-- Maldito seja, concentre-se na sua luta!
O viking avançou sobre ela, tirando agora um machado das costas, lutando com as duas armas. Ele empunhou o machado na horizontal e ela se agachou, apenas tomando impulso para se lançar contra ele. O maldito se defendeu com a espada, mas isso não impediu que a dela o perfurasse um pouco no estômago. O suficiente para haver sangue. Ele disse algo em uma língua que ela não compreendeu, mas pelo tom deveria ser uma injúria.
Os braços dela doíam pelo peso da espada de Fergus e estavam muito perto de fraquejarem. Furiosa por não ter nascido um varão, por ser mulher e não aguentar tanto as armas dos homens, por todas as piores coisas que aconteceram em sua vida, Leonor grunhiu um rosnado de batalha e chutou o bastardo no joelho. O osso quase cedeu, mas a dor que lhe produziu o fez dobrar-se para frente. No entanto, ele não parou de lutar. Tentou lhe cortar as pernas com o machado e ela pulou para longe. Ele não cederia e ela já estava cansando de sustentar o peso do aço. Precisava encerrar logo com aquilo ou acabaria morta.
Também não conseguia acreditar que estava protegendo um McGregor. Era absurdo! Deveria tê-lo deixado morrer. Não estaria sujando as mãos, seria viúva, a paz estaria estabelecida, haveria testemunhas de que não foi culpa dela, ganharia uma ilha inteira como herança, já que ele não tinha filhos... Ainda assim, a ideia de que alguém que não fosse ela o matasse a enfurecia. Duncan McGregor era seu para morrer.
O viking urrou como o diabo e se lançou sobre ela. Leonor girou nos calcanhares, atingindo-o no flanco, sentindo como a folha perfurava a carne. Ele urrou outra vez e a cortou no braço com o machado no mesmo instante em que ela desviava. Leonor gemeu de dor, mas manteve-se firme em seu posto. Sangue escorria quente por seu braço, pingando ao chegar ao cotovelo. Olharam-se aos olhos. Ele não queria mata-la, ou já o teria feito. Estava se empenhando em leva-la e ela não o permitiria nem se fosse necessário se jogar ao mar com ele. Sorrindo tenebrosamente, o viking avançou. Desceu a espada sobre o ombro dela e ela defendeu com a lâmina, usando o punho da claymore para atingi-lo no nariz, quebrando-o com a força do golpe. Leonor lhe deu uma joelhada entre as pernas antes que pudesse fazer uso do machado. Gemendo, o gigante cambaleou para trás, mas antes de cair pela borda da galera, agarrou a longa trança de Leonor e a levou consigo.
Duncan perfurou a garganta do filho de uma cadela que tentava mata-lo com a claymore. O último viking foi ao chão da galera como um pesado tronco, o estrondo ecoando no silêncio que se seguiu à batalha. Ele ainda estava com o sangue quente e borbulhando de fúria por ver sua esposa empunhando a claymore de Fergus como uma valkyria entre os inimigos, mas uma estranha queimação em seu peito por saber que ela estava defendendo suas costas foi maior. Esfregou o peito com força, como se assim pudesse fazer desaparecer aquele ardor, mas de nada serviu. Nunca vira uma mulher lutando e foi a experiência mais incrível que já testemunhada. Ela era forte e graciosa, tão veloz e ardilosa que o surpreendia. Seus movimentos eram fluidos e certeiros.
Salvara seu pescoço.
Pela primeira vez na história, um Knightley protegeu um McGregor. E não era um qualquer: uma mulher e sua esposa. Ainda estava ruminando essa descoberta quando Mary irrompeu pelo sangue dos inimigos, o rosto desesperado e cheio de preocupação. A expressão dela o deixou com os sentidos em alerta máximo e franziu as sobrancelhas. Algo não ia bem. Varreu a galera com o olhar em busca da mulher que não deixava de surpreendê-lo e seu peito se apertou dolorosamente ao não encontra-la. Não sabia o que havia de errado consigo, mas o mesmo desespero estampado no rosto de Mary reluziu em seus olhos.
Onde estava Leonor?
Não importava quanto procurasse, não conseguia encontrar sua esguia figura em lugar algum.
-- Duncan – disse Mary, agoniada – Leonor não está no birlinn, ela caiu...
Antes que percebesse, ele estava se desarmando e se lançando precipitadamente no mar, deixando tudo nas mãos de Iain e Fergus. Nadou como um possesso e mergulhou, ignorando o ardor nos olhos provocado pelo sal. Estava escuro demais para que pudesse ver alguma coisa. Os drakar se aproximavam e tudo o que ele sabia era que não podia deixa-la morrer. Emergiu para respirar e olhar em volta, buscando qualquer sinal da inglesa louca que era sua esposa. Passou a mão nos olhos, tirando a água dos cílios. Não conseguia acha-la, não importava o quanto a buscasse. Não podia ficar nas frias águas por muito tempo, os vikings se aproximavam e era muito arriscado.
Duncan sempre cuidava do que era seu e aquela mulher lhe pertencia por um casamento indesejado. Não permitiria que fosse tomada dele tão facilmente, nem que para isso devesse confrontar três drakar transbordando de escandinavos só com as mãos e a raiva por não ter sido capaz de mantê-la em segurança. Ela não deveria ter se metido naquela luta, seus motivos não justificavam suas ações.
Ele mergulhou outra vez, forçando-se a ver algo na densa escuridão. O gelo da água parecia se infiltrar por seus poros como lâminas, cravando-se em seus ossos e adormecendo seus músculos. Mergulhou ainda mais fundo, até que foi capaz de avistar um leve movimento. Aproximou-se, indo mais para baixo, cada vez mais frio. O que quer que estivesse se mexendo subiu em um engalfinhado indefinível e Duncan seguiu os movimentos, até emergir. A fúria o consumiu a fogo lento ao ver o viking esmurrando sua esposa enquanto ela lutava como uma leoa, mordendo-o e arranhando-o, chutando-o e se debatendo. O escandinavo maldito a segurou pelo cabelo com uma enorme mão e usou o punho da outra para atingi-la na cabeça. Duncan sabia que ela era cabeça-dura, por isso não ficou desmaiada nos braços do bastardo, o que o fez empregar mais força no próximo golpe.
Ninguém tocava no que era seu.
Silencioso, Duncan se aproximou deles e desprendeu uma adaga de seu cinto. Quando o viking percebeu sua aproximação, já era muito tarde: cortou a garganta do escandinavo antes de cravar a folha entre seus claríssimos olhos de cadela leprosa. Jorrando sangue, o corpo afundou e Leonor, com os olhos arregalados de pânico, nadou para perto de Duncan, jogando os braços ao redor de seu pescoço e enterrando o rosto em seu ombro. Estava tremendo, e ele não saberia dizer se era por medo ou por frio, e se sentiu impelido a rodeá-la com os braços. Seus corpos estavam colados, separados apenas pelas roupas. O coração dela estava muito acelerado.
O mais incompreensível era que o apertão doloroso em seu peito sumiu ao aperta-la contra si.
-- Sobrevivestes – sussurrou ela contra sua pele. Duncan beijou o alto de sua cabeça, embalando-a, acomodando-a a seu corpo. Parecia estranhamente correto tê-la daquela forma.
-- Sim, inglesa, sobrevivi – sussurrou contra seu cabelo perfumado a canela – Encontra-te bem?
-- Sim, eu... Sim.
Muitas pessoas já lhe tinham dito sobrevivestes. Mas, em nem uma dessas vezes, foi pronunciado com tanto sincero alívio, sempre havia sido dito com desprezo, decepção ou asco. Nada tão... Ele devia estar vendo coisas onde não havia. Mas a forma como ela se apertava contra ele...
Ela estava bem. Era o que bastava.
-- Nade até o birlinn, estão nos esperando.
Leonor assentiu com a cabeça e se separou dele. A sensação que o incomodou devia ser por causa da falta do calor de seu corpo. Apenas isso. Eles nadaram o mais rápido que seus corpos aguentavam, mas ele teve de ajuda-la várias vezes porque ela estava cansada e seu vestido estava muito pesado pela água. Ela afundou e Duncan a puxou para cima. Iain direcionou o birlinn para eles a toda velocidade, usando somente a vela, disparando sobre as ondas como uma flecha. Quando os alcançou, Fergus e Mary ajudaram Leonor a subir, para logo alça-lo sobre a galera.
Duncan esfregou o peito outra vez, sentindo aquele estranho ardor ali. Nunca antes tivera aquilo, por que só agora? Estava morrendo? Sim, com alguma doença cardíaca, talvez arritmia... Mary e sua esposa se abraçaram fortemente. Iain dirigiu o birlinn para longe dos vikings, a galera quase voando, planando sobre as ondas pela velocidade.
Duncan ainda não conseguia acreditar que Anna Leonor Knightley sabia manejar uma espada com a habilidade de um homem. E, admitia: vê-la lutar o excitou a um nível inimaginável. Sua graça e sensualidade eram marcantes. E era sua. E ainda não a tomara devidamente como Deus mandava. E era uma Knightley.
Dane-se.
Os drakar agora não passavam de pontinhos no horizonte, enquanto eles cortavam a noite em direção a Skye. Um pouco menos estressado pelo distanciamento do inimigo, tratou de ir atrás de algo que pudesse dar calor a ele e a Leonor – excluindo a ideia libidinosa de seus corpos nus e entrelaçados expulsando o frio para muito longe – buscando a bolsa de viagem de pele com um tártan com suas cores. Nunca realmente esperou usar aquilo, mas teria sua utilidade. Achou a bolsa debaixo de um banco e a abriu. Ali estava: o tártan de lã vermelho e verde de seu clã, dos McGregor. Puxou-o e deixou a bolsa onde estava, atravessando a galera tranquilamente. Fergus deveria ter jogado os dois corpos no mar, pois tudo estava limpo, a não ser pelas manchas de sangue que secavam.
Deveriam estar chegando a Skye na metade da manhã do dia seguinte, não demoraria tanto. Seguiriam direto para Dragon Seafront Castle, onde poderiam ter ao alcance todas as acomodações necessárias. Ele se ocuparia dos problemas do clã antes de qualquer outro assunto. Mandaria uma missiva a Edgar para garantir que sua esposa ainda não o matara e nem ele, tampouco, tivera a necessidade de mata-la. Estavam... passivos, por assim dizer. Ao menos, por enquanto.
E este por enquanto realmente durou menos que alguns segundos, pois a raiva explodiu em seu interior como lava, ardendo a fogo lento em seu sangue e o fazendo franzir as sobrancelhas profundamente. Havia um profundo e horroroso corte no braço de sua esposa, rasgando a manga em forma de sino de seu encharcado vestido, a água salgada e o sangue se mesclando no tecido fino, escorrendo por seus dedos e pingando no chão. Ela não lhe dissera nada, sequer chiara sobre a ferida. Aquilo precisaria de pontos. Leonor estava se desculpando com Fergus sobre algo como perder a espada dele ao ser puxada para a água. A ele importava um grão a conversa deles. O sal ajudaria na cicatrização da ferida, mas a tornaria muito mais feia do que realmente era.
Soltando fogo pelas narinas, Duncan a puxou pelo braço, forçando-a a se virar para encara-lo bruscamente. Ela arregalou os olhos por causa da surpresa, mas logo franziu o cenho escuro, fuzilando-o com o olhar. Não havia mais nenhum traço da mulher desamparada que o abraçara. Claro, ela só iria toca-lo em um momento extremista, foi levada pelo medo. Agora que estava em segurança, o ódio antigo renasceu em seus olhos azuis. Mas também havia dor. Ele afrouxou o aperto em seu braço ferido e estreitou os olhos para ela, expondo o sangue e a fenda aberta em seu antebraço.
Se ele não tivesse sido tão descuidado, ela não teria roubado a espada de Fergus e não estaria ferida. Duncan desejou poder matar aquele viking outra vez, mas de uma forma bem mais dolorosa por ter tocado em algo que lhe pertencia. Por ter danificado um pertence seu.
-- Está ferida – grunhiu ele. Ela sustentou corajosamente seu olhar.
-- É apenas um arranhão – rosnou, puxando o braço, mas não conseguiu se desvencilhar dele. E Duncan realmente não estava preocupado com a atenção que eles estavam recebendo. – Solte-me, McGregor!
-- Vai precisar de pontos, maldita seja!
-- Tem agulha e linha aí? – rebateu ela acidamente, puxando o braço furiosamente, sem obter nenhum resultado que lhe agradasse. – Acho que não, McGregor, então, que tal me largar?
-- Não deveria ser tão descuidada. O que estava pensando quando pegou a espada de Fergus? – rosnou ele – Queria morrer? Bastava dizer e eu o faria de bom grado.
Ela pisou em seu pé, e como não serviu de nada, cravou os dentes em seu pulso com uma força bestial. Duncan amaldiçoou e a largou, sentindo aqueles malditos dentes perfurando sua carne. Ela se afastou dele de um salto quando se viu libertada e ele quase esperou que chiasse como um gato. Porque era isso o que ela estava parecendo: um gato quando se pisa em sua cauda. Olharam-se silenciosamente. Ele mal acreditava que ela o tinha mordido, mas sempre podia esperar o mais absurdo daquela inglesa intrépida.
-- Está me ameaçando, McGregor? – essa não era a intenção dele, mas agora não valia a pena voltar atrás. Nunca se explicava ante ninguém mesmo. Sua falta de resposta foi o suficiente para fazê-la empertigar os ombros e erguer aquele orgulhoso nariz que lhe dava nos nervos – Toque-me outra vez e vou castra-lo com as unhas, maldito bastardo.
-- Nunca mais vai se envolver em uma luta de homens, ouviu bem? Empunhe uma espada e corto suas mãos para o meu almoço.
Ela esticou as mãos para ele em desafio e isso esquentou ainda mais seu sangue. Estava perdendo a paciência.
-- Tenta – provocou asperamente. Mary parecia a ponto de interceder e Fergus estava branco como leite – Vem aqui e corta.
Duncan rosnou.
-- Não me provoque, inglesa.
-- Ou, o quê?
-- Cale a boca.
-- As coisas não funcionam assim, marido, não adianta me lançar esse olhar de guerreiro odioso, não temo nada que venha de você.
-- Pois deveria.
Ela cruzou os braços diante do corpo.
-- Vou empunhar quantas vezes eu queira a arma que eu desejar e você não vai me impedir.
-- Sou seu marido, me deve obediência.
-- Ninguém manda em mim. Não se iluda achando que está levando uma esposa submissa a seus surtos temperamentais, não tenho a obrigação de tolerar seu mau-humor. Se quiser gritar, que o faça com seus homens.
Ele estava a muito pouco de explodir. Estava tão furioso que poderia estrangular aquele delgado pescoço inglês sem piedade alguma. O sangue fervia em suas veias e os resquícios de paciência se esvaíam sem muito esforço, evaporando em segundos. Ela o tirava do sério como ninguém. Pela primeira vez, ele tentou intimidar alguém com seu tamanho. No entanto, ela empinou ainda mais o queixo, esticou ainda mais a coluna e sustentou desafiadoramente seu olhar.
-- Aprenda a controlar sua língua se não quiser perdê-la, mulher.
Ele lhe deu as costas, estava indo pegar o mastro de Iain, quando sentiu uma pancada nas costas. Virou-se pronto para brigar, vendo que sua maldita esposa rebolara nele suas sapatilhas molhadas. Estreitou os olhos para os calçados antes de enfrentar seu irritado olhar. Ambos estavam a um passo de continuar aquela guerra interrompida treze anos atrás.
Duncan nunca usara violência com uma mulher e jamais o faria. Não era como Lachlan McGregor, não intimidaria alguém mais fraco com sua força, mas estava a um milímetro de explodir sobre aquela mulher. Estava descontrolado, o que nunca acontecia. Ele sempre mantinha a raia seus sentimentos, mas com ela tudo nele se tornava incerto e instável. Desde que a viu naquela praia em Ulster, sua vida virou um inferno. Andava com uma queimação no peito quase dolorosa e tão mal-humorado que não parecia ele mesmo. E só o pensamento de bater nela para aliviar sua fúria, mesmo que fosse para fazê-la entrar em razão, enojou-o. Foi exatamente isso que o fez respirar fundo e se controlar. Jamais tocaria nela para uma maldade. Jamais.
-- A próxima vez que houver uma espada em seu pescoço para lhe arrancar a cabeça, McGregor, pode ter certeza de que será a minha.
Ele não tinha dúvidas.
Notas finais
A) Um beijo do Iain
B) Um beijo do Duncan
C) Vários beijos dos dois
D) Um abraço da Priscila, Rainha do Deserto
E) N.D.A., meu coração é puro, comento por amor
E assim você fará uma criança feliz, tipo, CRIANÇA ESPERANÇA do NYAH! kkkk
Obrigada por lerem !!! *---*
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