Prazer, a Primavera
1 Capítulo 1 - O filho do chefe de guardas
Notas iniciais
Boa leitura!
Prazer, o Primavera
O nariz arrebitado coçou e logo depois o jovem filho de mercador espirrou. A neve do inverno ainda chegava no meio das galochas próprias desse clima, mostrando que ainda faltava um bocado para a primavera, contudo a simples e solitária flor que fora colocada no vaso de cristal há alguns minutos pela aprendiz de arrumadeira atiçou sua alergia.
O homem de traços finos olhou o objeto delicado e somente rolou os olhos. Não via a graça que as pessoas – em especial as mulheres -, viam naquilo. Também pudera, sua visão deficiente enxergava somente em tons de cinza e isso repercutia em seu humor, que era desbotado, sem graça e sem sal.
— Senhor Vorster[i], deseja que eu faça um chá para sua gripe? – Perguntou a garota de maneira preocupada, afinal era nova e precisava se mostrar necessária para não ser dispensada.
— Hm. – Respondeu com impaciência. Como ela não sabia que era alérgico a flores? Sua ama deveria ter a contado.
— Céus, Brunswichk[ii]! – Falou outro homem, entrando na casa e olhando o amigo que bebia seu chá calmamente, lendo um livro diferente do que estava acostumado. – Esse livro foi feito no prelo? – Indagou curioso, já se esquecendo da falta de humor do futuro mercante.
— Comprei para ver se era mais agradável a escrita. – Explicou dando o livro para Scholten[iii], o supervisor de áreas silvestres de seu pai, o qual era somente dois anos mais velho que si. – Sinto que é mais imparcial do sentimento, mas ao mesmo tempo, mais fácil de ler.
— Até que enfim inventaram isso! Estamos no meio do século XV e ainda nesse retrocesso de escrever a mão! – Falou insatisfeito, foleando a novidade. Sua família não tinha dinheiro o suficiente para ter um daqueles.
Prelo era a novidade do momento para a pequena parcela da população que era letrada. Os livros agora eram feitos num incrível mecanismo que usava uma alavanca que girava uma rosca de madeira, que abaixava uma tábua, que apertava o papel úmido, que estava colocado sobre as letrinhas, que arrumadas em palavras e frases e sujas de tinta iam imprimindo as páginas uma a uma.
Era uma revolução para a época, porque até então todos os livros eram escritos a mão – e sinceramente muitas vezes tinham partes ilegíveis. Agora todos eram de formas uniformes e havia uma produção bem maior e mais rápida.
Mas toda essa tecnologia custava caro e somente homens como o da família Vorster podiam o comprar. Essa família em especial tinha o dom do dinheiro. Vladimir, o primeiro deles, tinha salvado a vida do rei e com isso ganhado a guarda do reino e passado de geração em geração.
— Enfim, a que devo sua visita em pleno horário de trabalho? – Perguntou direto, querendo terminar o terceiro livro da Bíblia Sagrada, Levítico, o qual estava tentando entender o sentido de alguns pormenores.
— O Rei Maximiliano e sua Rainha, senhora Maria, marcaram outra reunião com o senhor seu pai, Vladimir III e foi me mandado lhe informar. – Explicou Scholten, aceitando um pouco da água que a serviçal lhe ofereceu.
— Novamente sobre o suposto casamento com a segunda princesa? – Indagou entediado. Não que se opusesse a ideia de casamento arranjado – de modo algum, afinal ganharia titulo de nobreza, mas a garota não era das mais simpáticas.
— Creio que sim. – Falou se levantando. – Tenho que voltar ao meu trabalho e creio que seria de bom tom você chegar com antecedência. – Aconselhou o homem de porte forte, afinal tratava com matérias selvagens.
— Agradecido. – Falou Brunswichk e acenou com a cabeça em sinal de despedida.
O filho do delegado não era forte, mas também não magro, nem gordo. Tinha a proporção certa para aguentar o frio do inverno rigoroso Condado de Holanda. Sua pele como era normal daquela região, tinha os cabelos loiros e os olhos claros, sendo os seus num oliva mais puxados para o castanho mel. Sua barba estava crescendo, mas antes de encontrar o Rei e sua filha, passaria a navalha dela.
— Antje[iv], prepare a bacia para mim. – Ordenou a mocinha de feições parecidas com a sua, indo escolher a própria roupa.
Roupa escolhida, o aprendiz de guardal foi para a bacia, onde se barbeou e limpou embaixo dos braços, separando um pano húmido para passar pelo corpo. Em outra bacia lavou a mão e fez uma mistura de água com banha de porco para deixar o cabelo brilhante e arrumado para trás. Completou com a colônia francesa, as melhores as época, para disfarçar o cheiro incomodo da gordura.
Saiu de casa com as pesadas roupas de inverno, em tons pretos – ou ao menos imaginava isso, indo direto para o estabulo e pegando seu cavalo de sangue nobre, subindo nele e dando o sinal para que andasse, cavalgando elegantemente em sentido ao castelo de pedras de Maastrich.
—
Como sempre aquele tipo de evento cansava Brunswichk. Parecia que todas as damas em seus enfeitados vestidos e os cavelheiros nos ternos de linha eram falsos e só pensavam em beneficio próprio, o que de jeito nenhum era mentira.
Seu pai, por exemplo, estava oferecendo a sua fortuna adquirida como chefe da aduaneira e mercantil em troca do casamento de seu único filho com a segunda princesa. As coisas no condado não estavam bem e precisavam de dinheiro para manter a independência recém conquistadas daquelas terras.
— Princesa Adelheid[v]. – Educadamente o homem se curvou e lhe beijou a mão desnuda, logo subindo os olhos para a moça de cabelos de um louro puxado para o vermelho, que estava preso em tranças e coque atrás de sua coroa.
— Senhor Vorster. – Falou olhando para os próprios pés. Era de conhecimento de todos que a princesa não queria se casar com seu prometido, mas nada podia fazer contra os desejos de seu pai. – Chama-me de Heidi, como todos aqui o fazem. – Pediu ao noivo, por conselho de sua mãe.
— Heidi...
Depois de ter feito como o pedido, pegou a mão delicada da moça e a conduziu para a pista de dança, onde todos se sincronizavam em uma complicada coreografia.
Dançaram o tanto de tempo que a etiqueta permitia que uma senhorita acompanhasse seu prometido sem parecer vulgar. Curvaram-se ao se despedir e logo a jovem foi ter com as damas e o homem em seus 26 anos foi tomar para a área externa do castelo.
Respirou o ar puro, sentindo o frio entrar no pulmão e se espalhar por todo o seu corpo, o fazendo ter um calafrio. As vezes as pessoas comentavam que era tão frio quanto o inverno, pois poucos eram aqueles que conseguiam se aproximar, mas não gostava daquele titulo.
Somente não gostava de pessoas falsas e interesseiras e por pertencer a uma das mais ricas família dali, mesmo não sendo nobre, todos queriam se aproveitar de si.
Só queria encontrar alguém diferente, com quem pudesse conversar, trabalhar e quem sabe... Rir!
Foi tirado de seus devaneios por uma borboleta pequena e amarela.
Mas que raios! O que uma borboleta tão frágil fazia voando no final do inverno? Ainda deveria estar resguardado em seu quente casulo!
Sem mais nada o que fazer, o jovem guarda a seguiu com calma, não percebendo que rumo tomava, somente intrigado em como as asas dela não congelavam com a geada.
Estava tão inerte em sua atenção que não percebeu outro corpo, se chocando contra ele e acabando por cambalear, somente não caindo por ter sido aparado por uma árvore que... Se movimentou?
— Como...? – Perguntou olhando surpreso e descrente para os galhos que se retorciam como se estivessem se espreguiçando e numa possível ilusão de sua mente, viu olhas aparecendo do tronco ressecado.
— Hey, deveria se desculpa! – Ouviu uma vozinha se manifestar e olhando para o lado não achava ninguém que pudesse ter falado consigo. – Ei, aqui! – A voz voltou a se manifestar e quando o moreno o achou, viu que quem falava era um esquilo. – Você achou a Prima! – O acusou.
— Mas o que esta acontecendo? – Perguntou confuso, balançando a cabeça numa tentativa de parar de delirar. Nessa movimentação, viu um corpo imerso pela luz caído da neve e aos poucos o ser foi se erguendo, se mostrando da altura de Brunswichk.
— Muito prazer, a Primavera. – Falou aquele ser, com a voz de veludo e de trombetas de anjo, com uma agitação e bondade que nunca tinha ouvido.
—
[i] Vorster – Xerife (nome associado a profissão)
[ii] Brunswichk – Local escuro
[iii] Scholten — supervisor de áreas silvestres
[iv] Antje – Derivado de Ana
[v] Adelheid — de nobre linhagem
Notas finais
Dedico a história a Alessandra (Arê chan) por ser a pessoa maravilhosa que ela é e esse primeiro capítulo a Dani ( Stakaha), primeiro por usar esse nome, depois por ter lido e me incentivado a postar!
Até semana que vem! Ou que sabe antes ;)
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