Pray You Catch Me
1 Capítulo I - No You Girls
Notas iniciais
O som dos meus saltos em atrito com o chão era o ritmo ouvido naquele escritório e devo confessar que isso me dava um prazer inenarrável.
— Bom dia, senhorita Mills — disse-me Belle com um sorriso simpático.
Inclinei minha cabeça para o lado e com um meio sorriso respondi a garota de cabelos castanho claro delicadamente cacheados.
— Bom dia, Belle.
Quando as portas do elevador se abriram, entrei e limitei-me a cruzar os braços impaciente. Só queria estar o mais rápido possível imersa em papéis e mais papéis.
Eu era advogada, a melhor da cidade e dentre as mais faladas do país, o escritório em que eu trabalhava era o sonho de consumo de todos os estudantes de Direito que se preze.
Robin, meu estagiário, trazia meu café quando as portas do elevador se abriram. Olhei para cima e mordi o lábio, evitando que o sono vencesse-me e eu pudesse bocejar.
— Obrigada, Robin! — eu agradeci pegando o café em sua mão. — Cappuccino descafeínado com chocolate e sem chantilly? — perguntei
Ele assentiu. Era parte de sua rotina, ele nunca erraria, mas eu preferia confirmar. Ele repassou ali, no trajeto até minha sala, quais seriam as tarefas do dia.
Esqueci-me apenas da reunião com a nova estagiária, já que Robin seria contratado e trabalharia em outro setor. Claro, eu perderia meu melhor estagiário e ainda por cima, teria que ensinar tudo a outra pessoa.
Como amo mudanças, nossa.
Quando sentei-me na minha cadeira e organizei todos os contratos e relatórios em minha mesa, percebi que não havia tantas coisas a se resolver como eu adoraria que houvesse.
O real fato é que eu só queria mergulhar em outra realidade que não a minha. O fim do último relacionamento amoroso trouxe-me esse defeito. E hoje são exatos 2 meses que fui obrigada a presenciar Zelena se agarrando com sua chefe em sua sala.
O batom da minha namorada (ex, agora) espalhado pelo pescoço da moça que vestia naquele momento apenas o seu sutiã azul celeste e tinha sua blusa branca e social completamente desabotoada. Sempre tive esse amor pelos detalhes, mas naquele momento eles eram a minha saída.
A ânsia se fazia presente quando fui carregada de meus pensamentos pelas batidas de Robin na minha porta. O rapaz de, no máximo, 24 anos tinha os cabelos mais escuros que já vi, a quase pele morena, era alto, se vestia muito bem e entrava em minha sala com um olhar que podia implorar por desculpas. Normalmente eram minhas expressões sérias e de quem possui muito desgostos e amarguras que causavam esse desconforto e medo nas pessoas. Deixei escapar um breve sorriso e ele se acalmou.
— Mills, os candidatos para a entrevista chegaram... — ele disse, parado no batente da porta. Percebendo que ele tinha mais a falar e esperava um sinal meu, balancei a cabeça como quem o encorajava. — Mas só uma moça parece realmente se encaixar no perfil da empresa e digamos, no teu perfil.
Devo confessar que fiquei surpresa com o fato de ser uma moça. Eu nunca contratava mulheres por culpa dos meus superiores. Havia uma série de absurdos machistas que limitavam o ingresso de mulheres na empresa, a não ser que ela fosse terrivelmente bem recomentada e tivesse ótimas referências.
— Robin, confio em você. Deixo que você decida se ela merece ou não seu posto e se sim, que você a ensine o que fazer e como. — eu disse, tentando ser o mais simpática que eu pude. — E que ela esteja pronta para assumir o emprego mais rápido possível, já que você deve assumir cargo em menos de 5 dias úteis. — eu falei mais como quem alertava-o.
Voltei meus olhos para o notebook em minha frente, quando o rapaz fechou a porta. Acessei todos os portais de informações possíveis, indo atrás de informações sobre o último caso que me foi dado e já estava praticamente ganho. Eu só precisava garantir que minha cliente mantivesse nosso combinado e não se metesse em mais confusões.
A verdade é que eu não queria lidar com mais ninguém naquele dia. Contava apenas com a sorte e com o bom gosto do meu empregado, esperava que ele fosse sensato na contratação. Encaixei minha cabeça entre minhas mãos enquanto meu cotovelo estava na mesa, já completamente arrumada e livre de pastas, minha cabeça latejava e eu só sonhava com um processo complicado enviado por não sei qual glória. Meu celular tocou.
— Hoje é dia de não permitir-me um segundo de paz, não é? — eu murmurei para minha mesma e logo atendi a ligação.
— Regina? — a voz adorável me falou.
— Quem é e o que deseja? — Eu perguntei como quem não liga, não está interessada.
É óbvio que eu reconhecia aquela voz. Era com toda a certeza Zelena. Era única a forma como ela dizia meu nome, como quem sorri a cada sílaba ou quem sofre a cada letra.
— Só quero conversar e duvido que tenha esquecido minha voz assim tão rápido. — agora ela deixava escapar o narcisismo que lhe era digno. E com isso, toda a farsa de arrependimento com o tom chorado com que ela iniciou a conversa quando atendi...
— Devo confessar que ainda não esqueci, mas é questão de tempo... E não tenho nada a falar com você,srta. Smith. Agora, se me permite... — eu dizia quando fui interrompida.
— Não, não permito. — Zelena foi arrogante no tom de voz. Eu podia imaginar a expressão furiosa dela. Ela odiava se sentir desprezada, mas era essa a forma como eu agiria. Sorri vitoriosa.
— É uma pena, pois desligarei da mesma forma. — eu disse, como uma despedida. E desliguei.
Fiquei ali, parada pensando no que tinha acabado de fazer. A reunião com o conselho foi cancelada e então, restou-me apenas a tarefa de babá da minha cliente. É, até eu pensava que minha vida seria mais agitada depois dos 5 anos de faculdade e 3 de especialização e doutorado.
O dia se arrastou e logo eu já estava em casa, jogada no sofá enquanto Carmen, a mulher que cuidava de mim desde que sai da casa do meu pai, aos 19 anos e comprei esse apartamento. Todos os detalhes foram muito bem planejados por mim. A necessidade de um lugar meu era imensa, um lugar em que eu me sentisse acolhida e protegida dessa cidade.
— Niña, seu jantar está pronto. — a mulher disse-me beijando minha cabeça e tirando o avental preto que usava para proteger-se do molho que ela fez. — Agora, eu me vou.
Carmen cuidou de mim desde que era um bebê. Ela tinha acabado de sair da adolescência e era imigrante, minha família precisava de uma babá, afinal, todos eram ocupados demais para se dedicar integralmente a nova integrante da família Mills.
— Obrigada, meu anjo. — eu respondi abraçando-a e me despedindo — Um bom fim de tarde pra ti.
— Amanhã cedo, te vejo. — ela respondeu com o sorriso mais simpático e amável que eu já havia visto em minha vida.
Carmen era o mais perto de uma família que eu chegava. Depois de um bom banho, jantei sozinha e depois de algum tempo, fui para cama. Revirei-me por horas pensando na ligação de Zelena, revivendo o passado, meu e dela. E quando já eram quase 3 da manhã, me rendi ao sono mais facilmente.
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