Prata

2 O acordo no 15º aniversário.


A chuva teimava em cair sobre minha cabeça, mas isso só ajudava a deixar mais pegadas no solo lamacento por onde passava. Não queria voltar para aquele lugar infernal, não poderia voltar para lá, aquilo seria loucura, uma completa insanidade! Os pés já machucados mantinham meu corpo em pé e com muita dificuldade. Eu só precisava chegar ao palácio.

A insanidade de meus pais sempre me surpreendia, mas dessa vez eles exageraram. Decidir com quem eu iria me juntar? Isso com certeza é algo impossível e jamais irei aceitar algo do tipo. Eles não respeitaram a lei mais primordial de nossas essências, que é a de achar nosso protecteur¹.

Depois de sair da residência dos Raghaillach com a descoberta que destruiria toda minha vida, corri o máximo que consegui até o meio da floresta. Seguiria pela floresta, porém iria me manter na trilha que marquei até o portal que somente eu e minha irmã conhecemos. A chuva escondia meu odor e minhas pegadas, ao longe conseguia ouvir os animais e o rio, estava perto e não queria parar naquele momento.

Com maior proximidade do rio, localizei as árvores corretas e sem hesitar, toquei as duas árvores que abririam o portal para o jardim do palácio logo o atravessando. Com agilidade, entrei no corredor principal sem ser notada, ou se me notaram decidiram por não atrapalharem meu caminho por meu estado.

Caminhei sem rumo pelos corredores do palácio à procura de um lugar para ficar sozinha. Quando a encontro, inclino minha cabeça contra a parede, uma sensação esmagadora de desesperança se chocando contra mim. É o golpe final que quebra a compostura que eu tenho me agarrado nesse tempo todo. Sinto minha respiração falhar, as lágrimas estão ameaçando meus olhos, mas se eu começar a chorar agora, não conseguiria parar. Eu tento segurar, mas um soluço escapa do meu corpo, como se um soco no meu intestino o forçou para fora. Meus dedos apertam o tecido molhado de meu vestido enquanto luto para controlar minhas emoções.

— O dia aqui realmente não está bom.

A voz atrás de mim é masculina, profunda e grave, e eu me viro, envergonhada por ter sido exposta em tal demonstração pública de pesar. Limpo minhas lágrimas com as mãos. Tento, em vão, mascarar minha dor na presença desse estranho.

O homem na minha frente é de alta estatura, com músculos destacados em seu traje oficial. Seu cabelo é ligeiramente comprido, preto que se acentuam com seus olhos dourados, como o mais puro ouro. Seu rosto parece ter sido esculpido com traços severos, e mesmo quando ele esboçou um sorriso fez com que temesse por mim.

Ele não era nada do que eu conhecida, possuía uma energia feroz, como um animal e aparentava estar descoordenado no ambiente dos unseelies.

Um lobo procurando sua caça.

— Peço desculpas. — diz ele, dando um passo para trás. — Eu não queria assustar você, princesa.

Eu tento sorrir, mas acho que isso é mais uma careta.

— Não se preocupe. Não assustou. Eu estou apenas... minha família... eu não durmo há algum tempo. — Percebo que comecei a balbuciar e mordo a língua para me calar.

Ele entrega-me um lenço e ao estender minha mão para pegar o lenço, nossos dedos se tocam por um instante fazendo meu coração errar uma batida. O encaro e percebo que talvez ele também tenha sentido, ou foi somente por estar muito sensível.

— Agradeço pelo lenço, senhor...

— Nychterinó, Dantalion Nychterinó. — Ele diz.

Ao escutar sua apresentação me sinto estranha, mas não demonstro ao secar as lágrimas devidamente. Deixo um mínimo sorriso, estendo minha mão para ele e quando minha pele toca a dele, um calafrio corre pela minha espinha novamente e meu coração se esquenta.

— É um encanto o conhecer, senhor Nychterinó. — Disse sem conseguir desviar o olhar enquanto ele depositava o selar em minha mão.

— Gostaria de me contar o que aconteceu para lhe deixar tão desestabilizada?

Me sentia tão confortável que eu lhe dei uma versão rápida da minha manhã, e me perguntei por que estou dizendo qualquer coisa a esse estranho.

Seu rosto é estoico, sério, quando eu termino.

— Sinto muito por sua situação. Eu... — Ele parece hesitante em falar. — Nunca é fácil lidar com os ideais de outras pessoas.

Enquanto eu tenho empatia com sua dor, suas palavras me picam e decido mudar de assunto.

— Veio para o reino para um intercambio?

— Não. Eu estou aqui por outros assuntos.

Algo em seu tom me fez perceber que sua presença estava relacionada com o Rei Oberon, meu tio. Parece que ele quer dizer mais, como se tivesse algo terrível e escuro que ele precisa compartilhar, mas balança a cabeça.

— Cuide-se, princesa Bellona. E tome cuidado. Às vezes, lobos vêm em pele de cordeiro até mesmo em nossas famílias.

Ele se vira para ir embora, e assisto até ele desaparecer ao redor de uma esquina, intrigada com o seu estranho aviso. Afinal, o que isso quer dizer?

Eu ainda posso sentir o calor da mão dele contra a minha, a força que pulsava através dele. Estou perdida em pensamentos enquanto caminho para a sala de descanso e afundo em uma cadeira no canto para continuar meu purgatório de sofrimento. Encaro os detalhes entalhados a ouro e prata, esperando que dê clareza à minha mente confusa. Quando Hypolita e Armand entram carregando suas espadas, me levantei jogando-me nos braços de ambos.

— Finalmente. — Digo enquanto Hypolita beija minha bochecha.

— Nós não apenas viemos. Nós trouxemos provisões. — Ela olha em volta do cômodo, seu nariz se enrugando de desgosto. — Espero que nossos pais não estejam relacionados com seu estado deplorável.

Cada um deles me flanqueia enquanto nos sentamos. Suspiro. — Eu não aguento mais.

— O que eles aprontaram dessa vez — Armand pergunta. Ele é um seelie da luz de baixa estatura com cabelos ruivos encaracolados. Há muitas sobrancelhas levantadas quando ele e Hypolita estão juntos em público, mas eles não parecem se importar. A princesa Hypolita e o plebeu mestiço, filho de um unseelie com uma humana. Alguns unseelies são seres tão restritivos quando se trata da mistura das raças e o amor, mas onde está o sentido nisso?

Em uma reunião de família Armand defendeu as escolhas de Hypollita confrontando meus pais. Eu acho que me apaixonei por Armand um pouco naquele dia. Depois de algum tempo, ele se juntou às pessoas que mais amo, como um irmão.

Eu digo a eles todo o ocorrido e o casamento arranjado com um conde com idade para ser meu avô apenas em troca de acordos de negócios e Hypollita se retira com o semblante nublado demorando alguns minutos para retornar.

— Eu mandei uma mensagem para o Rei. — diz Hypollita séria ao retornar à sala. — Você está fora das obrigações com os Raghaillach até sua maioridade.

Eu dou meio sorriso para ela, meu coração afundando ainda mais quando as ramificações do que aconteceu hoje me atingem. Minha mãe me ameaçou, meu pai me humilhou. Como vou passar por isso? Mas não posso me preocupar com isso agora. Primeiro, só preciso ter certeza de que Hypolita ficará bem com os Raghaillach. Nós vamos lidar com o resto mais tarde.

Em silêncio ouvimos a chuva cair no exterior e aparentava não terminar tão cedo e resolvo quebrar o silêncio.

— Minha irmã, você conhece o visitante chamado Dantalion Nychterinó? — A curiosidade estava me devorando para saber mais do estranho.

Tanto Hypolita quanto Armand se entreolharam com um olhar estranho antes de novamente o ambiente cair em silêncio por longos minutos. Desta vez fora Armand a quebrar o silêncio retirando toda minha dúvida do momento.

— Ele é o herdeiro da demonarquia. Você o encontrou?

Senti meu coração acelerar. Então ele era... Nunca pensei que sua aparência seria tão magnifica como se tivesse sido abençoado.

— Sim. Hoje, um pouco antes de vir para a sala, o encontrei assim que cheguei. Ele foi gentil comigo.

Novamente o silêncio pousou na sala enquanto os dois se encaravam novamente. O que estava acontecendo? Ninguém ousou falar mais nada e eu sabia que não deveria me atrever com novas perguntas relacionadas a um daemon. Algo no meu interior se remexia sentindo que eu o encontraria novamente.

— Se me dão licença, irei para o meu aposento trocar de vestes e depois irei para a biblioteca estudar. — Despedi-me de ambos deixando um apertado abraço em cada. — Nos encontramos na comemoração e... obrigada. Eu não sei o que seria de mim sem vocês.

***

Horas após o episódio da manhã, encontrava-me na imensa biblioteca dos Rent’ly realizando pesquisas sobre outras criaturas. Considera-me sortuda por ter todo esse conhecimento disponível e iria retirar minhas dúvidas sobre os daemons e continuaria meu estudo da poesia.

Examinei as anotações de uma pequena lista de tarefas para o resto do dia. Duas questões dessa lista teriam que ser necessariamente resolvidas, a primeira era a mais fácil. A resposta se encontrava em um antigo periódico que estava em uma das prateleiras das estantes que se estendiam até o teto. Empurrei a cadeira para trás, determinada a só sair da biblioteca depois que tivesse resolvido a tal questão da minha lista.

O acesso às estantes superiores do setor da era feito por uma escada que terminava em uma galeria alta por cima das mesas de leitura. Subi os degraus em direção aos livros encapados em couro, dispostos em ordem cronológica nas fileiras de estantes de madeira. Localizei o volume ele se encontrava no alto da estante, fora de alcance.

Um risinho chamou a minha atenção. Virei a cabeça para ver quem estava sentado na escrivaninha no extremo da Biblioteca e não vi ninguém. Eu estava ouvindo coisas novamente. Àquela hora a biblioteca Real estava totalmente deserta.

Procurei por uma escada, mas não o encontrei. Hesitei por um momento com a ideia que me surgiu. Usar meus dons, se bem que não conseguia o controlar direito. Por outro lado, ninguém veria nada mesmo que eu derrubasse metade dos livros. Mesmo com todos esses pensamentos, minha pele estava gelada de ansiedade. Eu raramente tentava usar o dom. Respirei fundo, estiquei o braço e mentalizei o livro vindo para minha mão e lentamente uma linha de trevas saía de minha mão alcançando o livro e o puxando.

Com a mão aberta segurei o livro quando ele se moveu e pousou suavemente. Respirei fundo em plena felicidade por ter obtido sucesso naquela pequena empreitada. De repente, senti meu coração esquentar como se o sol estivesse presente

Segurei com força o volume que peguei e me virei para ver o que causou aquilo. A figura estava na penumbra, no único lado que a iluminação não era presente.

Daemon.

Eu o observava e ao mesmo tempo ele estava me olhando fixamente. Diferente de nosso encontro mais cedo, os olhos daquele Daemon estavam negros como o céu noturno, uma de suas sobrancelhas se ergueu em uma curva como uma indagação.

Ele parecia estar ainda mais encantador, se é que poderia ser possível. O rosto dele era realmente incrível, bem delineado e eu só queria memorizar cada parte. A perfeição física não era o que mais estava me desconcertando. A perigosa combinação de força, agilidade, inteligência aguçada era tão intensa que se tornava palpável. Suas vestes eram elegantes em tons escuros e dourados, com os cabelos negros descaindo displicentemente até a nuca, ele parecia um lobo que poderia atacar a qualquer momento, mas sem nenhuma pressa para isso.

Ele sorriu. Apenas o esboço de um sorriso tímido, sem mostrar os dentes. Por via das dúvidas, levei em conta que atrás daqueles lábios e olhos havia um guerreiro brutal.

A simples alusão ao brutal descarregou uma corrente instintiva de um sentimento de medo que percorreu meu corpo todo, deixando um formigamento nos meus dedos. Um único pensamento me passou pela cabeça: “Vá até ele”. A escada pareceu mais longa do que o de costume. Eu desci apressada e tropecei no último degrau, caindo direto nos braços do daemon.

As mãos de Dantalion eram quentes e os braços pareciam feitos de aço e não de carne e osso. Meu coração ainda estava quente e o medo havia sumido no instante que ele me segurou. Ele me endireitou, pegou o volume de poesias que tinha caído e me entregou me entregou com uma reverência perfeita.

— Nos encontramos novamente, princesa Bellona.

Assenti com a cabeça ainda me sentindo aérea.

— É ótimo o encontrar novamente! — Disse sorrindo ignorando a conversa com Hypollita e Armand. — O que faz na biblioteca?

— Pensei ter a visto entrar e resolvi ver se não havia me enganado.

Ouvir aquela confissão me deixou eufórica o que fez meu rosto esquentar e meu sorriso aumentar. Ele veio me procurar.

— Queria conversar comigo? Pensei que seu assunto era com meu tio... quero dizer, o Rei.

— Meu assunto oficial com o Rei Oberon já foi encerrado, e recebi o convite de participar da celebração de seu aniversário. — Despejou de uma vez sem desviar os olhos dos meus. — Gostaria de me dispor para ser o seu acompanhante esta noite. Mas é caso não tenha um.

Um silêncio constrangedor se espalhou. Eu não sabia o que dizer, ou como reagir com a oferta. Sentia meu coração zumbindo em meus ouvidos, mas de certo eu não possuía um acompanhante. Era a vergonha os Raghaillach e a segunda princesa unseelie. Não chamara muita a atenção e não possuía amigos.

— Será uma honra lhe ter como acompanhante.

***

Eu não imaginava que horas mais tarde, após aceitar a companhia de Dantalion, estaria com as emoções a flor da pele. Não por causa da celebração, ela seria somente mais uma na qual pessoas que não gostavam de minha presença apareceriam para um evento vazio. O motivo de meu nervosismo tinha nome e um rosto; Dantalion.

Hypollita caçoou de meu nervosismo enquanto me arrumava, mas ela não sabia quem iria me acompanhar, pois preferi manter em segredo até entrar no Grande Salão. Ela estranhou quando disse que não precisava que ela me acompanhasse, mas aceitou de bom grado quando a deixei ir aproveitar e cumprimentar os nobres.

Meu vestido para a noite foi escolhido há alguns meses por meu tio, sendo feito com um tecido fino na cor de branca estilizado e símbolos da família real e de fertilidade da época bordados em fios dourados e prateados. O corpete possuía com um encantador padrão de luas e estrelas.

Faziam alguns minutos que estava aguardando Dantalion, não que ele estivesse atrasado, pelo contrário. Eu me torturava achando que ele iria me deixar sozinha após a conversa na biblioteca. Felizmente minha autotortura não durou muito quando ouvi as batidas na porta. Senti o coração esquentar no mesmo instante. Era ele.

Não me demorei em autorizar a entrada dele em meu quarto e quando coloquei meus olhos nele, fiquei sem palavras. Ele estava mais lindo do que o esperado.

— Você está de tirar o fôlego – disse Dantalion quebrando o silêncio.

Não prestei atenção suficiente aos acontecimentos seguintes. Só retornei a prestar atenção quando me encontrava com a mão encaixada no braço de Dantalion em frente a porta do Grande Salão. Deixando escapar um suspiro resignado, encarei o perfil de Dantalion permitindo-o me guiar para dentro do Salão.

A música e o barulho pararam assim que entramos. Todos presentes pararam para encarar meu acompanhante, como se ele fosse um criminoso e não consegui evitar de abaixar a cabeça para soltar uma pequena risada, o que não passou despercebido por Dantalion, mas ele não se pronunciou.

Aos poucos a música e as conversas recomeçaram, deixando o ambiente menos constrangedor. Paramos de caminhar quando alcançamos meu tio. Ainda encaixada em Dantalion, realizei uma graciosa reverência.

— Meu rei.

— Pequena Bellona, como sempre surpreendendo. — Disse encarando o demônio ao meu lado.

— Rei Oberon. É um imenso prazer acompanhar sua sobrinha, a princesa Bellona.

Eu e Dantalion nos sentamos a sós à mesa da família, enquanto rei Oberon e Hypolita circulavam para ver se todos estavam sendo servidos e se as crianças estavam recebendo uma justa porção de espetinhos de lebre assada e bolinhos de queijo. De vez em quando, Hypolita olhava em nossa direção com orgulho, como se tivéssemos vencido dragões naquela tarde.

— Nunca pensei que presenciaria um dia como esse – disse Hypolita para mim quando se sentou graciosamente ao nosso lado. – Reza a nossa tradição que a primeira dança seja com sempre entre as irmãs. – Fazendo uma reverência teatral para mim e conduzindo-me pelo salão. Ela era uma excelente dançarina, mas quase fiz com que caíssemos no meio do salão. Só paramos quando Hypolita olhou para algo atrás de mim, que retirou completamente o sorriso da face de minha irmã.

— Posso? – A voz de Dantalion surgiu atrás de mim fazendo Hypolita apenas virar as costas e ir conversar com os guardas.

Os outros que também dançavam se afastaram para que ficássemos no centro do salão. A música se fez deliberadamente mais lenta quando um músico dedilhou as cordas do instrumento, acompanhado com as doces e melodiosas notas de um instrumento de sopro.

— Você dança melhor que Hypolita, por mais que a considere a melhor. – disse-lhe quase sem fôlego.

— Isso é porque é a minha parceira. – Disse em tom de brincadeira. – Você brincava a cada passo com a princesa Hypolita.

— Agora que estamos afastados. Posso lhe fazer uma oferta? – perguntou ele, retomando os passos da dança.

— Isso depende. – Ponderei. – Irá me salvar do meu destino cruel?

O sorriso que surgiu nos lábios de Dantalion me fez entender o ponto que ele queria chegar e isso só fez meu coração acelerar em plena felicidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.