Notas iniciais
Praesidium. Do latim: Proteção, defesa.

Sempre me julguei uma pessoa inteligente, independente no que dizia respeito à minha intelectualidade. Suficiente no que dizia respeito às relações. Amigos, amores... eu era suficiente a mim, trancado sob uma redoma impenetrável, atacando qualquer pessoa que tentasse se aproximar dela, o mínimo que fosse. Eu me considerava forte.

Não podia estar mais enganado.

Tal qual uma criança mimada, superprotegida, eu deixei de aprender as coisas que o mundo tinha a me oferecer. Sempre protegido, por mim mesmo, do exterior, eu deixei de explorar as coisas que me cercavam. Eu sou como um doente, vivendo numa bolha, sem nunca ter respirado o ar poluído, ou ter tocado o chão sujo com as mãos... eu não havia criado anticorpos para o amor, para a solidão, para a frustração. Eu nunca havia precisado de coisas como essa.

Nessas horas você percebe que sua mente te trai, e que as coisas sempre mudam...

A curiosidade fez com que eu abrisse, ainda que aos poucos, os muros do meu castelo. Ansiava por respirar, por sentir a sensação de liberdade que eu mesmo me privara. Eu queria amar, eu queria ser amado, eu queria conhecer e ser reconhecido. Eu queria ser livre das amarras que eu mesmo me impus, por motivos que eu já nem lembro ou não quero lembrar. E de mansinho, as pessoas se aproximavam. Alguns eram cautelosos, fruto do tempo passado em que já havíamos convivido. Outras eram apressadas, pois desconheciam o meu eu de antigamente e ansiavam, talvez por curiosidade, em conhecer aquele ser quase estrangeiro; aquele alienígena no seu próprio mundo.

Apesar dos avisos, de que a qualquer momento eu poderia adentrar na minha fortaleza novamente, e expulsá-los de perto de mim, eu não fazia... não conseguia, inebriado pelas sensações que podiam me proporcionar. Pelo riso, pela diversão... eu estava aberto, e os abraçava sempre que podia. Aquilo era o mais próximo da felicidade que eu jamais havia estado. Havia abandonado as paredes, os muros, a redoma... eu estava indefeso, mas elas ainda existiam.

E então, soprou-se o vento do que era o amor. E eu, desacostumado a senti-lo, sem resistência contra ele, acabei doente. E na próxima estação, veio a frustração. E na próxima, o desespero. E então, o ódio. E eu, sem saber o que fazer, sem ter como me defender, como criança imatura, voltei-me para os braços de quem me criou, esperando que fosse curado.

Mas era tarde.

Eu entrei no castelo, doente. E doente fiquei por muito tempo... enfraquecido pelo que havia presenciado e vivido, mas com força suficiente para continuar a me afastar e afastar quem quer que tentasse se aproximar. Eu havia vivido o amor. Eu havia vivido a frustração. E eu queria que as pessoas sentissem o mesmo. Eu comecei a viver o ódio. E nele me fiz forte. E nele me fiz perigoso.

Meu castelo era uma fortaleza, onde apenas expulsar já não me era suficiente. Defender já não era agradável. Eu deixei que algumas pessoas entrassem. Eu fingi dar-lhes amor... e tomei o coração deles como se fosse nada, antes de joga-los pra fora como lixo. Eu me divertia. Uma diversão vazia, frívola, cruel. Eu me vi incapaz de amar, de me relacionar, de conter a crescente e desconhecida onda que teimava, cada vez mais, em se fazer presente dentro de mim.

E então, veio a solidão. Provando mais uma vez o quão fraco eu era. Sem defesas, não tive forças para manter de pé as paredes que me cercavam. Mas era tarde demais para que alguém tentasse se aproximar. Eu não era perigoso? Porque entrariam nos meus domínios? Eu me sentia perdido...

E então alguém apareceu.

E indiferente a tudo, atravessou minhas muralhas. Mais que isso, as destruiu. Conheceu do meu ódio, e teve coragem suficiente de me estender a mão. Me tirou da minha proteção, me trouxe para fora...

O que veio depois? Uma nova história, ainda sem final. Mas esta... bom... esta fica pra uma próxima ocasião.

Notas finais
Críticas? Elogios? Reviews!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!