Praedestinatum Em Busca Do Sonho.

12 Você é alguém muito mais importante a mim_ Lucas


Notas iniciais
boa leitura

Glossário:

Messor: Ceifeiro.

Deus Mortis: Deus da morte.

Tutela: Protetor

Capítulo 11:Você é alguém muito mais importante a mim do que ela_ Lucas

[Pov Lucas]

Thiago me guiava pelos corredores tumultuados de participantes que iam a direção do salão de alimentação, por isto estávamos contra o fluxo, sempre havia alguém que impedia a nossa passagem, isto me irritava.

Não demorou a chegar um homem baixo que deveria ter cerca de um metro e trinta de altura, era também gorducho e careca. Se eu não me engano, no dia em que Thiago deu as instruções da terceira fase ele o havia chamado de Castro.

Tal homem sussurrou algo pra Thiago, que teve que se abaixar um pouco enquanto andava para entender as baixas palavras de Castro.

– Onde ela está!? – Exigiu imperativo Thiago, buscando rapidamente respostas de Castro, que ao ouvir tal exclamação exagerada do Messor, pareceu ficar sem jeito.

Castro sussurrou novamente como resposta algo inaudível a mim, e por um momento ele até me encarou, acredito que era para se assegurar de que eu não poderia ouvir tal conversa.

– Mande-a me esperar!

– Mas Thiago...

– Agora!

Castro pareceu hesitar por um momento, mas obedeceu a ordem do superior.

Thiago aumentou a velocidade da nossa caminhada e pareceu estar mais ativo depois da mensagem que recebeu. Não sei se isto é bom ou não para a minha prova.

Depois de fazermos um longo trajeto, Thiago parou na frente de uma porta cumprida e larga, mas ela era feita de pedra de uma cor escura, estranhei.

– Entre e espere – Foi tudo que ele informou. Atordoado, coloquei as mãos na maçaneta maciça, girei-a e forcei a entrar, a porta mal se mexeu. — Coloca um pouco de força nisso, moleque!

O comentário do Thiago me irritou. Desta vez apoiei meu ombro na porta e a empurrei com toda a força que consegui. Ela era muito mais pesada do que eu esperava e por um momento eu realmente achei que não conseguiria abri-la, mas consegui com dificuldade.

Passei no estreito vão que abri e logo após larguei a porta que se fechou bruscamente produzindo um enorme estupor.

No cômodo que entrei estava sem iluminação, só existia um fino filete de luz que passava por debaixo da porta.

Eu não tinha idéia da extensão daquele lugar, achei melhor ficar perto da porta, lá pelo menos havia um pouco de luz para me orientar.

[Pov Thiago]

Ia à direção que Castro havia me informado, indo atrás dela. Há quanto tempo que não a via? Já fazia quase um ano!

Por que ela estava aqui?! Ela nunca havia acompanhado nenhuma prova de interfectorem, por que agora?

– Fique onde está – A voz era determinada, séria e forte, mas também aguda. Eu sabia que era dela.

Fiz um sorriso irônico, afinal, ela entrava tão facilmente em minha mente que eu parecia ser um civil normal. Fala sério! Ela era mesmo sensacional, não é a toa que era uma dos quatro Deus Mortis. Meu poder como um Messor não chegava nem aos pés dos dela. Irônico, não? Ambos fizemos ao mesmo tempo a prova dos interfectorem, mas ela está em um posto muito superior do meu no exercitus. O único posto mais elevado do dela é ser um Líder Elementar.

Muitos se surpreendem em falar que eu, em apenas dois anos, consegui me tornar um Messor. Mas e ela? Ela sim é um gênio, se tornando um Deus Mortis em dois anos foi algo que nunca alguém conseguiu fazer em toda a história do exercitus.

– O que está fazendo aqui? – Perguntei em voz alta e rapidamente ganhei uma enorme dor de cabeça, causada por ela, é claro.

– Não me responda em voz alta, idiota! – Ela rapidamente me repreendeu – Só pense em sua resposta e eu lhe escutarei.

– Onde está? – Perguntei mentalmente parando de andar e me apoiando em uma parede.

– Prefiro que não me veja, fiquei sabendo que Marco está aqui, não quero que um líder elementar descubra a minha presença, por isto minha passagem é rápida. Quero pedir algo apenas para você.

– O que está planejando!?

– Preciso que me faça um favor.

– Favor? Do que está falando?

– Lucas. – Ela limitou em dizer.

– O que tem o garoto?

– Preciso que o teste obedecendo tudo que vou te pedir...

[Pov Lucas]

Perdi a noção de tempo pelo qual fiquei naquele cômodo. Esperava que algo acontecesse naquele lugar, algo me atacasse ou qualquer coisa do gênero, mas nada aconteceu. Estava ficando entediado.

Comecei a ouvir passos do corredor atrás da porta, ela se abriu, e eu cautelosamente me afastei. A ausência da luz por um tempo fez com que meus olhos lacrimejassem com sua volta. Demorou em ver perfeitamente as pessoas na minha frente, eram Thiago e Castro.

Eles fecharam a porta e tudo voltou a ficar breu.

– Sente-se no chão – Ouvi a ordem de Thiago e obedeci, mesmo que hesitante.

Odiava ficar naquele escuro, sentia muita falta de um dos meus cinco sentidos, por isto, estava apreensivo e preparado a qualquer coisa.

Ouvi passos em minha direção.

– O que vão fazer!?

– Apenas fique quieto, garoto. – Ordenou novamente Thiago, mas ao ouvir a sua voz eu conseguia localizar sua posição, nada muito preciso, mas que com certeza a pessoa que se aproximava de mim não era Thiago, deveria ser Castro.

Os passos se cessarão, sabia que Castro estava a poucos centímetros de distância de mim, e por isto estava atento a qualquer coisa que ele tenta-se fazer. Estava aturdido com toda aquela situação. Que prova era aquela?

– Nós dois sabemos qual é o seu maior medo, Lucas. Mas está preparado para superá-lo...?

– Do que você está falando?!

– Quando entrei pela primeira vez em sua mente, demorei em entender, assim como para identificar. Mas nós dois sabemos que você bloqueou as lembranças do pior dia da sua vida, inconscientemente ou não. O dia em que todo o seu país foi massacrado – Surpreendi-me em ouvir tal explicação de Castro.

Sim, muitas coisas daquele dia eu não gostava de lembrar, mas havia ainda mais coisas que eu realmente havia esquecido? Ou melhor, bloqueado? Do que ele estava falando? Quais memórias eram estas? Como? Ou melhor, quando?

– Afinal, como alguém conseguiu sobreviver a tal massacre, principalmente um Elementorum Origo? Porque é o único? O que aconteceu naquela noite? Quais são as memórias de seu passado que você se nega a relembrar...? – As perguntas de Castro e a presença de curiosidade em cada palavra dele me assustavam.

– Por que está dizendo estas coisas?!

– Nesta prova irá apenas passar se conseguir lembrar de tudo e superar seu passado. – Desta vez foi Thiago que informou; parecia que ele estava lá apenas para acompanhar minha prova.

Mas toda aquela situação me deixava inseguro, afinal, do que eu não lembrava? Poderia haver algo pior do que as lembranças que eu já tinha?! Mas desistir desta prova estava fora de cogitação! Não havia passado por tudo para desistir agora, jamais! Eu tinha um objetivo e ia cumpri-lo!

-Então comece, não temos tempo há perder.

– Como queira.

Imediatamente ouvi os passos de Castro ainda mais próximos de mim. Senti as mãos dele tocarem minha cabeça e isto fazia com que eu ficasse mais atento a tudo e se necessário reagiria a qualquer movimento estranho.

– Preciso que relaxe – Pediu ainda com as mãos em minha cabeça — Apenas recorde de cada detalhe daquele dia.

Eu sabia que era naquele momento que começaria a nova etapa da minha prova, da minha vida.

[Pov Fernando]

A comida não poderia estar melhor! A carne assada estava maravilhosa! Principalmente o pernil! Extremamente suculento! Como eu amo o horário do almoço, o momento mais feliz do dia!

Enquanto dava rápidos goles na minha bebida ouvi um sussurro apreensivo de Clarice:

– Como será que o Lucas está se saindo?

Não me dei ao trabalho de responder a pergunta rapidamente, dava atenção era em aproveitar muito bem tal refeição. Sei lá quando teria outra! Na última passei uma fome danada. Vou aproveitar ainda mais.

– Ele deve se sair bem – Comentei de boca aberta e quase perdi um pedaço de carne por isto.

– Tenha modos, moleque. – Ordenou Tom que torcia o nariz. Ele sim que era um cara nojento.

– Moleque é... – E até continuaria se não fosse interrompido com a presença de três homens altos e bem mais velhos que nós, deveriam ter por volta de 35 anos.

– Tom Barden Vargas – Chamou um dos homens encarando o idiota, todos eram do exercitus porque usavam uma farda típica, quando se está em uma missão não é obrigado a usar tal farda, mas quando se está trabalhando dentro do campo do exercitus é obrigatório tal uso. Apenas os Messores que não obedecem tal ordem, mas bem, eles podem.

– Sim. – Tom respondeu pelo chamado.

– Acompanhe-nos, sua prova irá começar.

Quando ouvi isto foi ai que comecei a comer mais rápido! Sei lá quando vai chegar a minha vez! Eu é que vou aproveitar cada grão de arroz!

Nem prestei atenção na saída do Tom, mas ouvi poucos murmúrios da Clarice e dele. Ela deveria ter desejado boa sorte e mais algumas baboseiras, típicas da Clarice.

– O Tom já foi e você nem desejou boa sorte a ele! – Exclamou me cutucando, mas ainda tendei ignorá-la. Sabemos muito bem que entre todos, Tom é o que tem a maior chance de passar na prova.

Mas o silêncio não durou muito, Clarice voltou a falar:

– Agora nós dois estamos sozinhos... – Ela hesitou, isto me chamou atenção.

Se fosse uma pessoa normal, principalmente uma mulher com a idade de Clarice e dissesse tudo da mesma forma dita por ela, eu saberia que ela estava insinuando algo nada puritana, mas não a delicada e ingênua Clarice.

– O que você quer dizer?

– Vamos agora para o seu quarto!

– Hãn – Cadê a ingênua Clarice?

– Você disse que precisava de ajuda, não é? E que o segredo tinha que ficar apenas entre nós dois, não vai ter um momento melhor do que este! Vamos começar agora!

Senti-me até aliviado ao perceber sobre o que Clarice dizia. Era sobre meu pedido há poucas horas atrás.

– Agora? – Repeti atordoado, aquela ideia não tinha surgido em mim. – Há! Não vai rolar, Clarice. Eu combinei de me encontrar com a recepcionista mais tarde... Não me olhe assim! Eu já tinha combinado!

– Olha só, Fernando. Sou eu que estou lhe fazendo um favor e se você quer a minha ajuda vai ter que ser agora, não vai ser muito fácil ficarmos com a ausência do Tom. Cada momento tem que ser muito bem aproveitado... Mas bem, o interesse é seu, vê o que é mais primordial, sair com a recepcionista ou eu te ensinar o que tínhamos combinado mais tarde.

Desde quando a Clarice sabe persuadir?

– Deixa-me terminar de comer...

– Agora!

Fiquei sem escolha, da próxima vez que pedir algo para ela, pensarei duas vezes antes, porque terá consequências. Perdi um encontro com a recepcionista gostosa.

[Pov Lucas]

Fechei meus olhos e me concentrei em lembrar de tudo que eu ainda conseguia. Ao fechá-los percebi alguns passos de aproximação, deveriam ser de Thiago.

Eu continuava a sentir as mãos de Castro sobre a minha cabeça e sabia que ele deveria estar tão concentrado quanto eu, ele me parece muito curioso com o que aconteceu naquele dia. Bem, na verdade, aquele dia de início foi tão normal quanto qualquer outro, apenas seu final foi dramático, e esta é a parte que eu menos gosto de lembrar. O que será que eu bloqueei daquele dia?

– Para de raciocinar tanto, Lucas! – Exigiu Castro, fazendo com que me assustasse, será que ele conseguia saber o que eu pensava? – Apenas relaxe e tente se lembrar de tudo, cada detalhe daquele dia.

Certo, aquilo era muito estranho. Ainda mais sabendo que Castro veria tudo daquela minha memória, ela é pessoal, entende?

– Lucas. – Ele me chamou com repreensão, com certeza ele conseguia ler a minha mente. – Sim, sim, eu consigo. Agora dá para se concentrar, tenho mais provas de outros candidatos pra realizar hoje. Se continuar a enrolar, terei que desclassificá-lo.

Sem escolhas, eu me concentrei para lembrar de cada instante daquele dia. Não era difícil fazer isto, já fiz tantas vezes.

Eu podia sentir suas mãos carinhosamente massageando meus cabelos e sua doce voz me chamando para levantar. Apesar de toda a sua delicadeza eu não estava de muito bom humor e queria continuar deitado na minha confortável cama, ela estava bem quentinha e macia.

– Mais cinco minutos, mãe. – Resmunguei escondendo melhor o rosto e o cobrindo com o cobertor. Aquela manha estava bem fria, já conseguia perceber.

– Já passou do horário de você levantar, querido. Verônica está na sala de visitas lhe aguardando.

– Diga pra marcarmos o horário do treino mais tarde...

– Lucas! Não aja como um menino mimado. Levante, não me faça chamar o seu pai aqui.

Minha mãe era a pessoa mais gentil e meiga que eu já conheci, mas quando ficava aborrecida é um grande problema.

– Ok, já estou levantando.– Murmurei sonolento, afinal eu só queria dormir mais um pouco!

– Agora!

– Certo...

Sentei-me na cama e cocei sonolentamente minha cabeça, meus cabelos pareciam estar sebosos.

– Vá tomar um banho rápido e se agasalhe bem, está bem frio hoje. – Foram às últimas palavras que ouvi da minha mãe antes dela fechar a porta e sair do quarto. Na verdade, aquelas foram também às últimas palavras que eu ouvi dela, na época eu só não sabia disto.

É nostálgico lembrar do meu quarto, ele era realmente enorme, cheio de estantes e prateleiras lotadas de coisas que eu jamais conseguirei lembrar de tudo, mas que sempre estava organizados, logicamente coisa da minha mãe. Sinto falta daquele cômodo, eu jamais encontrei outro tão reconfortante quanto aquele.

Levantei-me da cama e andei sonolento até a suíte do quarto.

O banheiro era repleto de espelhos e tinha uma banheira de mármore com a água em uma temperatura alta e ótima para uma manha de inverno, tudo preparado por alguma empregada.

Tirar a roupa naquele frio era terrível, mas ficar sobre a água quente era maravilhoso. Aproveitei para lavar os cabelos e acho que até cochilei no banho, acordei com batidas fortes na porta. E o que mais me surpreendeu foi à pessoa que a batia.

– Lucas! Você já está atrasado uma hora de treino! Hoje eu ainda tenho que te mostrar algumas coisas por ordem de seu pai. Ele não vai ficar nem um pouco feliz em saber que você acordou tarde e ficou atrasado com os seus deveres da manha!

– Já estou saindo Verônica!

Dei um salto rápido da banheira e fui em busca de uma toalha. Molhei o chão inteiro do cômodo.

Como de costume, uma roupa já pré-escolhida estava separada sobre a cômoda. Vesti-me rapidamente e sai do banheiro secando os cabelos. Como esperado, Verônica não estava mais lá. Antes de sair do quarto, joguei a toalha sobre a cama e fui em busca de uma jaqueta de pele mais pesada para suportar o frio da manha daquele vigoroso inverno, peguei uma de pelo claro.

Saindo do quarto uma velha senhora me aguardava. Ela era a empregada mais antiga da família, onde até hoje ela dizia ter criado e visto meus pais crescerem, principalmente minha mãe. Ela estendeu suas mãos respeitosamente entregando-me um dos maiores legados de minha família, uma espada de gerações.

– Obrigada – Respondi rapidamente a pegando de qualquer jeito e a prendendo na fivela da cintura. Estava apressando e saí sem tomar café.

Afinal, mesmo eu sendo um Elementorum Origo e a Verônica apenas uma “professora” ou a minha Tutela, eu não era idiota de deixá-la esperando mais do que eu já havia feito. Aprendi da pior maneira possível que não é nada bom irritá-la. Sobre isto ela é muito impaciente.

Achei que ia encontrá-la com a minha mãe na sala, mas não, ela estava sozinha, observando alguns velhos quadros de auto-retratos dos meus ancestrais. Os quadros e a espada eram as poucas coisas que tínhamos dos ancestrais da nossa família principal, os Elementorum Origo.

Percebendo minha presença, Verônica se voltou a mim e quando os nossos olhares se cruzaram percebi que ela estava levemente aborrecida, nada bom.

Sem dizer nada ela saiu do cômodo e do palacete, a acompanhei em silêncio. O dia estava mais frio do que eu imaginava. Á noite inteira passada teve tempestade de neve, apenas agora pela manha havia se cessado, mas o forte vento frio produzia uma sensação térmica ainda mais baixa, até eu da Patrium Ventosa estava achando aquele vento forte de mais.

– Aonde você está me levando? – Perguntei depois de minutos em silêncio, ela não poderia ficar tão aborrecida só porque a fiz me esperar um pouco, sem contar que o fato de estar com tanto sono era culpa dela!

– Para as colinas. – Ela me respondeu como se fosse a coisa mais simples do mundo.

– Está louca! – Exclamei e dei passos mais largos e a alcancei, ficando ao seu lado – Se aqui já está quase congelando imagina lá, sem contar que temos que andar muito. Há! E o vento! Nossa, deve estar insuportável nesse clima!

– Para de reclamar, Lucas – Ela olhou para mim e sorriu – Vai ser divertido.

– Há sim! Como se lutar num lugar ainda mais frio que aqui, com um vento bem mais intenso vai ser muito mais divertido. Há! Não se esqueça da altitude! Nem vou conseguir respirar direito.

– É por isto que o que vamos fazer é um treinamento. – Ela quase soletrou a última palavra e isto me irritou.

– Não precisa me castigar por fazê-la me esperar, foi sem querer, eu juro! Qual é? É sua culpa também por eu estar com tanto sono...!

– Minha culpa?! – Ela rapidamente comentou ironicamente – Você poderia ter muito bem dormido no sofá, foi o que eu fiz.

– A claro, não é sua culpa ter me chamado no meio da noite pra ir à sua casa – Falei com ironia mesmo, fiquei a madrugada inteira acordado por isto.

– Primeiramente é a casa da Lilá...

– É onde você mora – Eu a interrompi, mas ela me ignorou e continuou com a sua explicação fajuta.

– Perdi o sono no meio da noite e achei legal te chamar... E não me olhe assim! Você bem que queria beber o chocolate quente que a Lilá prepara!

– E como não querer!? – Exclamei dizendo a pura verdade e ela riu por isto. – Tah, mas é sua culpa sim eu ter dormido tarde, a tempestade de neve começou e eu fiquei preso na sua casa... Melhor, na casa da Lilá. E você disse que ia me fazer companhia até a tempestade parar e acabou dormindo! Eu não consegui, também tenho o direito de perder o sono. Quando saí da casa o sol já tinha se erguido.

– Mas não tem o direito de se atrasar com os compromissos do outro dia. – Ela rapidamente comentou, dando-me de ombros, isto me fez rir.

– Eu nunca vou ganhar uma discussão com você, não é?

– Não mesmo.

Ambos sorrimos; e como eu adorava ver o sorriso dela. Apesar de Verônica ser mais nova do que eu, o comportamento dela era sempre maduro de mais para a sua idade. No começo não nos dávamos nada bem; eu não aceitava ter uma tutela mulher e ainda por cima mais nova do que eu, mas com o tempo — muito tempo mesmo — fomos nos conhecendo melhor.

Quem não a conhece bem, sempre a vê séria e comportada de mais e sempre me tratando com o maior respeito possível; mas na verdade não é bem assim que as coisas acontecem. Ela continua sendo um pouco da menina madura e orgulhosa, mas ao mesmo tempo é minha amiga, onde conversamos sobre tudo. E apenas quando estamos completamente sozinho que conseguimos nos tratar desse jeito... Diferente.

Afinal, eu sou o futuro Líder da Patrium Ventosa, filho do atual líder. Possuo alguns amigos, mas que não os vejo todo dia, como a Carlos, Júlio, Jean e até a Juliana. E mesmo assim, nenhuma amizade é igual a minha com a Verônica. Nós nos vemos todos os dias e ela sempre esta presente no meu cotidiano. Uma hora ou outra tínhamos que aprender a nos darmos bem.

Só que o problema foi que eu sei que quero ser mais que um amigo a ela, mas que jamais isto vai dar certo.

Verônica é minha tutela, trabalha para o meu pai e seu único objetivo é sempre me deixar seguro. Ela se tornou também a minha mestra, pois realmente é uma garota prodígio, e meu pai sabendo disto, achou que a melhor solução fosse que ela me ajudasse a treinar.

Verônica sabe muito bem o que eu sinto por ela e eu sei que ela também sente algo, talvez não tão intenso como o meu, mas ela é muito boa em esconder o que sente ou pensa. Isto a maioria das vezes me irrita. Não é fácil adivinhar sempre o que ela pensa ou quer. Nunca eu a vi lutar por algo, sempre aceita todas as ordens que lhe são ordenadas e é extremamente fiel ao meu pai. Sei que ela não tem vontade própria e isto me irrita muito!

Ela só possui uma meta, que foi ordenada pelo meu pai: me manter em segurança custe o que custar; mas não possui nenhum objetivo na vida. Isto me entristece, eu jamais poderia viver deste jeito. Se pensarmos bem, não somos muito diferentes apesar das diferenças sociais. Eu fui designado a liderar meu povo, ser um Líder do Vento e tão poderoso quanto meu pai, eu não tenho direito de escolha sobre isto, está predestinado desde que eu nasci. Verônica também não teve escolha em aceitar ser ou não uma tutela, meu pai me explicou há muito tempo atrás que quando uma criança nasce, se mede a quantidade de energia elementar natural presente nela. Normalmente são níveis baixíssimos. Mas uma criança em cada mil nasce com essa energia acima do normal. Dependendo do nível, a criança é mandada para o exercitus, lá recebe um árduo treinamento desde seu nascimento para tornar-se leal ao exercitus. No caso de Verônica, ela foi designada a se tornar uma tutela oficial.

Mesmo meu futuro já estando predestinado para me tornar o próximo Líder da Patrium Ventosa, eu não vou aceitar tudo com muita facilidade, mas Verônica não é assim, ela aceita tudo que meu pai ordena. Mas ela apenas age com naturalidade quando estamos sozinho, exclusivamente comigo. Não nos vemos como a sociedade separa.

– Hoje você está bem longe, Lucas – Ela comentou ao meu lado me observando; estava tão pensativo que nem havia percebido.

– Estou apenas pensando.

– Pensando? Sobre o que?

Suspirei lentamente e olhei para o nosso caminho à frente. O chão estava coberto de neve extremamente clara, o dia estava nublado e apesar de já avistar as colinas a diante, ainda demoraríamos um bom tempo de caminhada para chegarmos ao topo da colina. Mas pelo menos tínhamos muito que conversar ate chegar em nosso destino.

– O que você acha que vai acontecer com a gente daqui dez anos?

Ao encará-la e esperar por uma resposta, o sorriso que antes ela tinha em seu lindo rosto desapareceu, ela voltou a ficar com aquela expressão séria, que sempre usava principalmente quando estava ao lado do meu pai.

– Daqui á dez anos estaremos velhos. –Ela rapidamente observou, forçando um sorriso e eu sabia muito bem que a qualquer momento ela tentaria mudar de assunto. Eu não ia permitir.

– Não estaremos tão velhos assim. Eu terei 25 e você 24 anos.

– Seu pai talvez já esteja renunciando e você estará no poder, já pensou nisto?

– Todo o instante, não sei se quero me tornar um líder... – Ela logo me interrompeu.

– Você não tem escolha.

– Como você pode ser assim!?!?!?

– Assim como?

– Assim! – Como ela não percebia? –Você aceita tudo o que meu pai lhe diz, não questiona nada, é extremamente obediente a ele! Parece que nem tem vontade própria.

– Contra teu pai eu nunca desobedecerei à ordem alguma. – Ela disse com uma extrema frieza que por um momento achei que nem ao menos humana ela era.

– Você não percebe como isto é absurdo! – Eu era o único que estava indignado com tal situação!? – Olha, por um lado eu até entendo, você cresceu com o único objetivo de se tornar uma tutela, ganhou o seu posto com apenas sete anos, a mais nova da história do exercitus... – Ela me interrompeu.

– Quem lhe deu o direito de pesquisar sobre o meu passado!? – Me assustei ao vê-la tão aborrecida por um simples comentário.

Um silêncio incômodo reinou sobre nós, encarávamos aborrecidos. Eu nem havia percebido que em algum momento daquela pequena discussão havíamos parado de caminhar.

– Desculpe, não tive intenção de te aborrecer, Verônica.

Ela hesitou por um momento refletindo. Eu sabia que ela tinha algo que a afligia. Eu á conhecia muito bem, tão bem que também sabia que não era o momento certo de perguntar o que era, apesar da minha enorme curiosidade. Pude ver seus lábios hesitantes se abrirem e fecharem diversas vezes, mas nada ela disse. Observei sua expressão angustiante, mesmo que por poucos segundos.

Finalmente ela falou, mas não o que eu queria ouvir.

– Sou eu que lhe devo desculpas. Não devo levantar a voz ao senhor.

Como eu odiava quando ela me chamava de “senhor”, eu tenho cara de velho por acaso? Mas ela sabia disto, afinal, apesar de achar que a conhecia bem, sabia que ela me conhecia muito melhor.

Nós voltamos a andar em silêncio, desta vez mais rápido, a desculpa de Verônica era que se não andássemos mais rápido demoraríamos muito mais a chegar nas colinas, mas eu sabia que bem lá no fundo ela não queria que continuássemos a conversar ou discutir sobre o que conversamos.

O caminho foi longo, as colinas eram bem distantes do centro de Patrium Ventosa, era uma região periférica do nosso território. Naquele dia todo o caminho estava coberto pela neve e caminhávamos entre a floresta de Tundras.

O solo daquela região era pouco fértil, isto era afirmado na ausência em ver uma árvore pelo nosso percurso. A alta altitude fazia que o clima do inverno fosse mais intenso que em outras regiões, principalmente das colinas, por isto as condições tanto físicas quanto climáticas faziam com que aquele território fosse inabitado.

E como eu sei de tudo isto? Oras! Como se meu pai não me obrigasse a conhecer tudo de nosso país. Se dependesse dele eu teria que decorar até a posição de cada pedra e grão de areia. Mas como nos últimos tempos ele anda ocupado de mais, é menos frequente nós dois fazermos nossa escurções por todo país, demorávamos cerca de quatro meses e meio para ele apresentar o ínfimo território, todavia como fazemos isto desde pequeno eu conheço extremamente bem cada singelo local de nossas terras.

Meu pai diz que um bom líder é aquele que conhece seu povo e seu país e por isto eu tenho que saber de tantas coisas quanto ele.

Este é o meu carma. Ser cobrado em ser melhor do que meu pai e ocupar seu cargo hereditário em liderar todo um povo.

Mas algo que sempre me incomodou é desconhecer o que se tem além de Patrium Ventosa. Eu nunca saí daqui, nunca conheci nenhuma pessoa ou povo que não seja daqui. Não sei como é o território além de minhas fronteiras. Isto me atiça.

– Pare Lucas. – O pedido imperativo fez até que eu me assustasse, olhei para Verônica, que estava ao meu lado com um gentil sorriso nos lábios. – Pare de pensar, apenas aproveite a distância, às vezes é bom estar longe de casa – Achei estranho ser ela em dizer aquilo – Sinta a brisa.

Brisa? Fala sério, aquilo era uma ventania, mas ao vê-la erguendo os braços e fechando os olhos para aproveitar o momento eu quis fazer o mesmo que ela. Mas antes não pude deixar de observar suas madeixas flutuarem como ondas no ar. Verônica era linda, sempre foi, não havia ninguém que poderia negar isto.

– Sinta o vento batendo em seu rosto e corpo, ele não se importa com a direção ou intensidade que vaga pelo mundo. Isto sim que é liberdade, este é um elemento livre. Sinta, Lucas. Logo quando você dominar este elemento, quando ele fizer parte de você e você dele, você irá vivenciá-lo.

– É neste momento que você se sente livre? – Eu tive que perguntar, afinal, eu quero entendê-la melhor. Não percebe? Em alguns momentos eu acho que a conheço extremamente bem, afinal crescemos juntos! Mas em outros momentos parece que ela ainda é a pequena garota desconhecida com sete anos. Por que Verônica precisa ser tão complexa? De todas as mulheres, para mim ela é a mais enigmática.

Verônica abriu lentamente seus olhos, mas não tirou o sorriso que estava em seus lábios. Naquele momento eu sabia que ela afirmava minhas palavras, mesmo não dizendo nada.

– Pare de questionar coisas que não são importantes.

– Isto é importante para mim. Eu gostaria de saber a sua opinião sobre as coisas. Parece que só assim que irei conhecê-la melhor. Não é você que diz durante o treino que em uma luta só se vencerá aquele que ver além do que o físico? Então, estou tentando fazer isto.

– Quer uma dica, Lucas? Não tente me entender, eu mesma não consigo.

– Isto é alguma filosofia feminina?

– Talvez.

Comentamos com humor, pelo visto não conseguiria nenhuma resposta hoje dela.

Chegamos às colinas, não a escalamos, porque havia um caminho engrene que poderíamos fazer a pé. Verônica explicou que não subiríamos ao topo, se não demoraríamos muito tempo para chegar e voltar, sem contar que mais tarde ela ainda tinha que me levar em um local aonde meu pai ordenou que me mostrasse.

– Que local? – Eu perguntei quando chegamos em um pequeno espaço plano da colina, uma área que não era maior que dez metros quadrados, mas o suficiente para treinarmos.

– Um local que você não conhece.

– Existe algum? – Eu poderia jurar que conhecia cada canto de nosso país.

Verônica começou a rir e logo disse com uma sinceridade que me fez ficar até sem jeito.

– É lógico que existe. Você conhece apenas aquilo que seu pai quer que conheça, não se esqueça disto, Lucas.

– O que você quer dizer com isto?

– Não me olhe desse jeito, sabe muito bem o que eu quero dizer, mas não fique assim, esqueça. Vamos, pegue a sua espada, já perdemos tempo de mais. Está na hora de treinarmos.

Como de costume eu mal me posicionei e ela já me atacou, como de costume treinamos por horas, como de costume ela lutava sem se esforçar muito, independente de meus esforços e como de costume ela sempre vencia e eu perdia.

Eu sei, é estranho e até mesmo humilhante perder dela. Mas quando isto se torna rotina também se torna cotidiano. Verônica é assim, a garota prodígio, não era a toa que meu pai a escolheu que ficasse perto de mim. Ela não apenas me protegeria como também me ensinaria, pelo menos era isto que ele pensava, porque vamos combinar, ser aluno dela não é nada fácil, entretanto não existe uma fórmula mágica para me tornar tão bom quanto ela.

– Droga! Teremos que parar imediatamente, Lucas! – Ela exclamou se afastando de mim e guardando a sua espada na bainha presa na cintura. – Vai começar uma nevasca.

– Como você sabe disto? – Perguntei aturdido.

Eu mal terminei de falar e já pude ver um pequeno e fino floco de neve começar a cair diante de mim.

– O vento. – Ela restringiu em responder – Venha, tem uma gruta que poderemos nos afugentar, pelo clima não parece que vai ser uma nevasca longa, esperaremos um pouco e iremos embora. Siga-me.

É, talvez eu não conhecesse tão bem o meu país, afinal, Verônica sabia cada passo que dava por entre aquelas colinas como se sempre morasse naquela região.

Ela nos levou até uma pequena gruta na continuidade do caminho na colina. Entramos e imediatamente eu senti uma temperatura muito mais agradável, lá dentro estava mais quente.

– Bloqueei que alguma corrente fria entre aqui dentro – Ela explicou como se fosse a coisa mais simples do mundo – Manterei uma temperatura agradável, você pegou muita friagem hoje e não será nada bom se ficar gripado. Sua mãe não ficará nada feliz com isto.

Ela se sentou no fundo da gruta, que não era mais que três metros de distância da entrada, eu me aproximei dela e me sentei ao seu lado, desamarrando antes a abainha da minha cintura e a colocando ao meu lado.

– Verônica – Chamei-a encostando a minha cabeça na parede rochosa e observando a entrada da gruta onde podia ver a nevasca, agora bem mais intensa que antes.

– Sim.

– Desde quando você controla o elemento do Vento?

Do mesmo jeito que eu, ela observava a nevasca da entrada da gruta. Ela demorou tanto em responder que deu até tempo para tirar o meu casaco de pele.

– Não sei.

– Como assim você não sabe?

– Eu não me lembro – Ela disse com humildade. Não sei qual dos dois me surpreenderam mais.

– Desde quando você controla tão bem este elemento?

– Este seu “tão bem” é relativo...

– Desde quando os anciões da Patrium Ventosa reconheceram seu domínio do elemento.

– Desde os meus treze anos – Ela disse com tanta insegurança que parecia estar até envergonhada de me confessar tal coisa.

– Treze anos – Eu repeti quase soletrando. Aquilo era surpreendente, jamais alguém havia conseguido dominar um elemento natural em um nível tão alto que os anciões reconhecessem com uma idade tão baixa! O Líder da Patrium Ventosa e o guerreiro mais poderoso de nosso país, o meu pai, só conseguiu tal reconhecimento dos anciões com dezenove anos. – Isto é extraordinário!

– Não, não é. Isso é assustador. – Comentou tão cabisbaixa que isto me preocupou.

– Do que você está falando? – Ela parou de encarar a entrada da caverna e abaixou o rosto.

Eu sabia que alguma coisa estava muito errado com ela, algo a incomodava profundamente, eu só não conseguia entender o que.

– Você nunca se perguntou porque a cor de meus olhos é diferente da sua ou de qualquer outro morador da Patrium Ventosa...? É claro que não, afinal, você nunca viu ninguém além das pessoas de seu país.

– Verônica, o que você está dizendo? Estou começando a ficar preocupado com você.

– Eu sou uma mestiça – Ela sussurrou tão baixo que parecia que aquele era o maior segredo de sua vida.

– Achei que não importasse com isto.

A observei voltando a erguer o rosto, mas jamais me encarava, apenas observava a nevasca.

– Não me importo muito, mas os outros sim, principalmente os anciões. Jamais um mestiço controlou um elemento natural, isto em qualquer lugar dos quatro países. Pior, controlo em um nível que jamais uma pessoa tão nova tenha controlado. – Ela permaneceu em silêncio por um momento, encolhendo-se contra a parede e recolhendo seus braços para perto do peito, como quisesse o proteger de algo, talvez, se si mesma. – Dias depois do meu nascimento foi decidido que eu deveria ser morta, seu pai foi contra. Tudo que sou hoje é graças a ele. Entende agora? Se ainda estou viva é graças ao seu pai e não pense que algum ancião nunca tentou me matar mais tarde, porque tentaram, mais que uma vez. Perceba Lucas, não é a toa que me tornei à tutela do filho do homem que salvou a minha vida diversas vezes, Fabiano percebeu que eu precisava ficar perto dele ou perto o suficiente de me manter segura. Se eu moro com Lilá é porque ela é o braço direito de teu pai e uma das pessoas que ele mais confia. Eu sou extremamente grata ao teu pai, ninguém jamais me defendeu de nada, ele é o único que fez isto, por isto serei eternamente fiel ao seu pai.

Fiquei extremamente aturdido em cada palavras que ela disse. Como aquilo era real? Será que ela poderia oferecer tanto perigo assim para que até mesmo os anciãos a tentassem matar? Por que meu pai a defendia? Por que ela poderia então controlar um elemento natural sendo uma mestiça? Aquilo tudo não fazia sentido!

– Eu sei que seu pai faz de tudo para permitir a minha segurança, mas também sei que ele me teme tanto quanto qualquer outro ancião, mesmo não querendo transmitir isto. Nem ele esperava que eu pudesse estar no nível que estou. Ninguém gostaria, muito menos eu. Tudo seria tão mais simples se eu fosse... Normal.

Eu não sabia o que dizer, muito menos o que pensar. Apenas a vi se encolher ainda mais contra a parede. Então eu finalmente entendi, ela tinha medo de si mesma.

– Eu sou um monstro, onde todos não sabem o que fazer e como controlar. – Sua voz ecoou tão friamente pela caverna que logo eu senti uma brisa bem mais forte entrar na gruta, eu sabia que naquele momento ela estava tão distraída que o seu rendimento no uso do elemento natural havia caído. Até finalmente ela virou o seu rosto em minha direção e me encarou.

Verônica tinha uma cor de pele clara, mas não tanto quanto a minha. Seus olhos eram negros que hipnotizavam e me levavam para o fundo daquela escuridão. Neles, eu jamais sabia decifrar o que ela pensava. Seu rosto tinha expressões fortes, seu queixo levemente erguido, mesmo depois de dizer coisas tão íntimas, ela jamais se mostraria cabisbaixa, Verônica era muito orgulhosa para isto; mas o que mais me incomodava era perceber que por suas expressões tentavam transmitir ser alguém onipotente, mas ao mesmo tempo eu percebia angústia na garota a minha frente. Afinal, Verônica ainda era uma frágil garota, igual a todas de sua idade, foi apenas à vida que a fez torna-se tão madura. Eu poderia ouvir um sussurro pedindo “ajuda”, ele vinha de sua alma.

– Por que, Lucas? Mesmo depois de lhe dizer isto, por que você não me parece assustado? Não percebe? Deverias me temer tanto quanto qualquer um.

– Mais eu não temo.

Então sua mascará que permanecia em pé até aquele instante desmoronou, eu vi a aflição e surpresa nos olhos da pequena grande mulher. A mesma aflição do dia que ela me entregou a carta da mãe. Porque mais assustado do que qualquer um, era ela mesma. Verônica não sabia quem era e não tinha uma família que a apoiasse. Ela era apenas uma garota que se comportava e tinha responsabilidades de uma mulher, mas ainda era apenas uma garota.

– Eu sei Verônica que jamais irá me oferecer perigo, jamais.

– Obrigada.

Tudo que fizemos foi observar o término da nevasca, desta vez em silêncio, mas ele não era desconfortável e sim acolhedor. Eu sabia que ela já confiava em mim, porque apenas por isto ela teria me pedido para ler a carta de sua mãe há meses atrás, mas agora eu sabia que ela não apenas confiava em mim: ela sabia que eu confiava nela, e isto, talvez fosse ainda mais valioso.

[Pov Clarice]

– Isto é impossível! – Fernando exclamava alto jogando-se na cama com um livro cobrindo o seu rosto. Nem fazia tanto tempo que eu havia lhe ensinado o alfabeto e ele agia como se estivesse quase morrendo de cansaço.

– Nunca disse que era fácil, mas vamos! Não reclame, leva um tempo, mas não é impossível, se não ninguém conseguiria ler e escrever. Agora levante e repita comigo a ordem do alfa...

– Não! Chega! Não dá Clarice, é muito difícil pra mim essa Ordem alfábélica...!

– Ordem Alfabética – Tentei corrigi-lo, mas ele nem me deu atenção.

–...Fala sério! Por que as letras precisam de uma ordem!? Por hoje já deu! Agora saia do meu quarto que se eu me arrumar rapidinho ainda vai dar tempo de ir ao meu encontro...

– Encontro?! Fernando, em vez de você se empenhar em algo que precisa aprender você fica pensando em encontro!

– Você já me ensinou um pouco hoje. – Ele comentou erguendo-se rapidamente da cama e já me empurrando para a saída do quarto.

– A questão é que o seu aprendizado não depende de mim! E sim de você! Hei! Não me empurre assim, eu sei muito bem aonde fica a saída.

– Então saí rápido! Minha agenda está cheia. Preciso sair com a recepcionista e ainda ficar pronto para terceira fase...

– E estudar todos os pergaminhos que eu te passei! – Exclamei rapidamente, ele não poderia esquecer isto! Apenas com o treino e dúvidas que Fernando ia realmente aprender a escrever, mas parecia que apenas eu sabia disto, mesmo repetindo diversas vezes aquilo a ele.

– Certo, certo! Isto também! Agora tchau!

– Mas é muito mal agradecido! – Ele literalmente me expulsava do quarto. Até abriu a porta para eu passar e ainda a fechou com brusquidão.

Isto me irritou, afinal, era eu que estava fazendo um favor pra ele, era eu que deveria dizer quando terminaria ou não a aula e era ele que tinha que agradecer! Mal educado! Tudo para ainda conseguir ir num encontro! Como isto me irrita! Ele tem que aprender também em saber reconhecer prioridades!

– Dá próxima vez que você me pedir ajuda, Fernando, vou pensar muito bem se devo!!! Mal agradecido! – Não me importei em gritar no meio do corredor vazio, desde que ele ouvisse, mas duvido, não tive resposta, aquele idiota já deveria estar no banheiro tomando um banho!

Tudo que me restou fazer foi perambular sobre os corredores. Era estranho me sentir sozinha, porque eu sempre estava acompanhada de alguém, do Tom principalmente, mas naquela prova Lucas e Fernando também sempre estavam comigo. Pensando nos garotos, como será que vão se sair nessas provas?

[Pov Lucas]

A nevasca havia terminado rapidamente, assim como Verônica tinha dito antes, ela também me informou que não iríamos mais treinar naquele dia, em vez disto, ela ia me levar no tal lugar que meu pai pediu que me levasse, estava curioso sobre isto.

Saímos da gruta que estávamos antes e fomos descendo a colina.

- Aonde você está me levando?

– Para o palacete.

– Por que está me levando para casa? Pensei que tinha que me levar para um lugar antes.

– E é lá o local.

– Não pode ser, Verônica. Eu conheço cada pedra e tijolo daquele palacete!

Mas ela riu com o meu comentário e isto me deixou irritado.

– Eu já lhe disse, não é? Você apenas conhece o que o seu pai quer que conheça.

Ela me tratava como uma criança ingênua.

Quase no final de toda a colina, Verônica parou diante de uma enorme parede de pedra, que naquele momento estava esbranquiçada graças à passageira nevasca que tinha tido.

Ela colocou as mãos sobre a parede que deveria estar gélida.

– O que você está fazendo?

– Apenas observe. – Ela ordenou.

Percebi a concentração de Verônica, que por um momento fechou os olhos.

O que clima que antes já estava frio se intensificou, principalmente com uma maior corrente de vento que se canalizou sobre nós. Em um ágil movimento, Verônica se afastou da parede de pedra e a corrente de vento que ela controlava bateu bruscamente contra a parede, produzindo um som tão alto que ecoou pelos vãos das colinas e poderia ter sido ouvido a kilometros de distância, mas como aquela região era inabitada eu sabia que ninguém teria ouvido.

Fiquei extremamente surpreso ao ver que o local onde a corrente de vento bateu fez com que a parede de pedra afundasse em formato de um retângulo perfeito; e sem explicação técnica, todo o gelo daquela área derretia rapidamente, como se um forte calor a tivesse atingido.

– Tutela – Verônica repetia tal palavra com tom melodioso.

Não conseguia entender o que estava acontecendo, mas fiquei ainda mais surpreso ao analisar a superfície daquela parede escura de pedra formar desenhos com figuras que eu não conseguia entender, até que finalmente uma fenda se abriu e criou-se uma passagem. Imediatamente Verônica parou de dizer “Tutela”.

– Venha, vamos por aqui.

Fiquei boquiaberto. Como aquilo era possível? Então finalmente eu entendi e perguntei:

– Vamos para o palacete por este caminho, não é?

Ela apenas me respondeu com um sorriso e foi entrando na passagem e repetiu algo como “eu lhe disse, você apenas conhece aquilo que seu pai quer que conheça”.

Desconfiado, eu fui até a entrada da fenda, onde o seu caminho para dentro estava escuro, mas vi uma escadaria que parecia bem longa, onde Verônica já estava na metade.

– Lucas, estamos um pouco atrasados. Pode confiar, aqui não é perigoso.

Era surpreendente pensar que haveria um caminho subterrâneo que levava até o palacete á vários kilomentros de distância do mesmo.

Questionei sobre quantas passagens secretas a mais eu não conhecia, tanto as que levavam ao palacete quanto de meu país. Também questionei sobre o que mais meu pai escondia de mim, mas o pior foi imaginar o motivo de só agora isto ser revelado a mim, mas esta pergunta terei que fazer diretamente ao papai.

Então finalmente entrei na passagem, na época pensava que por algum motivo eu deveria estar lá. Hoje eu sei que foi o maior erro que cometi.

[Pov Fernando]

Saí do banho o mais rápido que consegui e agora escolhia uma roupa agradável que o exercitus dispunha. Admito que quando não estávamos em uma prova eles davam uma ótima assessoria aos participantes.

Ouvi uma forte batida na porta.

– É ela! – Exclamei já imaginando a loira gostosa da recepção.

Na pressa, peguei a primeira camiseta que vi, sabia que todas ficariam bem em mim.

– Já estou indo querida!

Só que ao abrir a porta eu não via a loira de um metro e setenta com um corpo espetacular, mas sim um homem branco e alto, que de princípio não identifiquei, mas que avançou sobre mim me acertando com um soco poderoso de direita que eu quase consegui desviar, mas que me levou bruscamente ao chão. Senti ao mesmo instante ele segurar o colarinho da blusa que tinha acabado de escolher e vi em vultos mais pessoas entrando no meu quarto. Aquele cara não estava sozinho.

– O que você estava pensando quando estragou os meus planos, Fernando?! – Ao ouvir aquele timbre de voz estranhamente rouco eu reconheci aquela pessoa.

– Brutus? – Perguntei confuso, tentando me recompor do soco e encarei aquele homem, então finalmente vi aqueles olhos verdes da cor tão clara quanto os de Clarice.

– Quem mais seria!? – Ele exclamou me largando bruscamente no chão e se afastou agitado – Te deixo uma tarefa que até agora não conseguiu fazer, atrapalhou o do pessoal que eu tinha contratado e agora vejo o meu alvo saindo do seu quarto livre! Tínhamos um acordo moleque e é melhor você ter uma boa explicação para eu ainda não ter Clarice Tierra nas mãos!!!

Senti um gosto de ferro na boca e sabia que era sangue, algum corte que fiz pelo soco, por isto passei uma mão na boca limpando o que lá escorria.

O encarei tão furioso quanto Brutus me encarava.

– Vamos! Estou esperando uma resposta, moleque! Você nunca foi de me deixar na mão! Agradeça por eu ser um homem muito bom e estar esperando por uma resposta ainda! Se fosse outro já estava morto! Mas você sabe disto.

– Em nenhum momento você disse que a menina que eu tinha que capturar esta sempre acompanhada do primo. Pior! Nunca me contou que ela era filha do Líder Elementar!

– Nunca te passei informação dos alvos.

– É, mas com ela é diferente!

– Diferente? Por que? Se não era capaz era só avisar. Duvidei mesmo se você ia conseguir fazer o novo trabalho, por isto contratei um time que veio fazer está prova apenas para achar e capturar a filha do Líder Elementar da Terra, assim como você. Só que aí fiquei sabendo que você atrapalhou tudo, pior! QUE SALVOU A GAROTA! Vamos, Fernando! Por que está hesitando!? Quero uma resposta.

– Oras! Já disse que ela nunca está sozinha!

– Nunca está sozinha!? Você está curtindo com a minha cara! Esqueceu a noção do perigo, é?! Olha só, moleque, já falei que a vi saindo agora pouco do seu quarto! Sozinha!

– Há! Claro! Como se eu fosse raptá-la quando o Líder da Terra estiver aqui! É loucura! Suicídio!

– Marco Tierra está aqui? – Imediatamente Brutus mudou de postura e se aproximou de mim cautelosamente.

– Está sim. E se eu não agi foi por prudência. Imagina só se eu sequestro a garota e ele estando por aqui? Eu serei pego, e isto não é bom pra mim e nem pro senhor.

– Está me ameaçando, moleque?

– Só estou deixando bem claro que eu sempre cumpro o que me mandam, mas se eu me der mal, não vou sozinho.

Nos desafiamos por um tempo, mas logo eu voltei a me explicar:

– O primo dela é muito forte e protege a garota de tudo. Há! E eu não sabia que você tinha contratado um outro pessoal para capturá-la. Mas você deveria agradecer, aquele pessoal ia ser pego como já foram pelo Tom. Eu tomava cuidado era com eles, são eles que podem lhe entregar e não eu!

– Já resolvi este problema!

– Que bom então, não sei se Tom já falou ou não sobre isto com o Líder Elementar da Terra, mas acho que ele não desconfiou que aquele time estivesse apenas atrás da Clarice. Nem eu sabia.

– Sorte então, porque se aquela tutela tivesse descoberto ele já teria dito ao Marco...

– E possivelmente Marco já teria tomado as suas providências em descobrir quem contratou aquele pessoal, sorte sua que fui eu o capturado! Melhor ainda, Tom está começando a confiar em mim, assim como Clarice. Preciso apenas de tempo, então lhe entregarei a garota.

Esperei por uma confirmação de Brutus que parecia hesitante.

– Eu lhe dou meia estação! Nem menos ou mais do que isto! Mas agora eu quero a cabeça da garota! Está prestando atenção! Quero a cabeça dela em uma bandeja de prata, se não, eu terei a sua, Fernando, e você sabe que eu não estou brincando.

Ele não esperou por resposta e saiu do meu quarto antes que pudesse responder.

Tudo que fiz foi permanecer atônito no chão e refletindo. Sim, eu sabia desde o começo que tinha que capturar uma garota da prova, a Clarice, mas na segunda fase da prova eu me aproximei tanto dela que até tinha esquecido o real motivo de estar inscrito naquele lugar.

Mas a realidade tinha voltado e eu tinha que fazer o meu dever.

O choque foi descobrir que em algum momento depois de ter entregado Clarice a Brutus que ela seria morta. Pior, desde quando eu passei a me importar com isto? Antes, isto nunca acontecia. São apenas negócios, sempre foram.

[Pov Lucas]

Depois de descer toda a escadaria existia um corredor subterrâneo revestido de pedras, provavelmente ainda da colina. Tal corredor era estreito e não muito alto, cerca de um e noventa de altura e um metro e meio de espessura.

Nas paredes laterais, nas extremidades de cima como na de baixo, existia um fino filete de fogo, que clareava o caminho que fazíamos.

O mais curioso era ver que elas se acendiam de acordo que eu e Verônica avançávamos, mas também se apagavam quando passávamos por eles.

– É você que está fazendo isso? – Perguntei a Verônica, ela sabia que eu me referia à luminosidade.

– Não se esqueça que eu sou do elemento vento, Lucas, não do fogo, jamais conseguiria fazer isto. Este lugar foi projetado por um homem muito poderoso, quando este palacete estava sendo erguido há poucas décadas atrás. Este lugar é especial, eu não sei te explicar como isto foi construído, mas estas pedras ao nosso redor não são comuns e muito menos este fogo, criado essencialmente por alguém deste elemento. Eu apenas sei o que seu pai me explicou. Estou levemente usando o meu elemento natural, conduzindo o vento de acordo que avançamos. Quando este vento entra em contato com as extremidades da parede imediatamente este fogo aparece. Não é a toa que a pessoa que projetou todo este sistema era considerada um gênio.

– Espera, você está querendo dizer que quem construiu esta passagem foi o Mestre!?

– Sim.

Fiquei fascinado por aquelas paredes que tinham um sistema de iluminação tão brilhante. A iluminação sempre foi um grande problema de nossa sociedade, à noite dependíamos essencialmente da vela, feita de uma cera acinzentada que tirávamos de uma planta. Meu pai me explicou que nem sempre foi assim, apenas nas últimas duas a três décadas. Tudo por causa da desunião dos Líderes Elementares.

Admirado, analisava as labaredas do fogo em combustão criadas sem nenhuma matéria prima. Nunca havia visto antes.

Aquela só poderia ser uma obra do Mestre mesmo, ele foi um grande homem, ninguém ao certo sabe o nome verdadeiro dele, mas foi ele que treinou os atuais Líderes Elementares. Foram o Mestre e os quatro Líderes Elementares quando ainda jovens, que libertaram os Elementorum Origo da repressão de tiranos que estavam no poder a quase meio século.

Foram os Líderes Elementares que também criaram a grande cidade Pacem, onde pela primeira vez as quatro etnias conseguiram conviver juntas, mesmo que por pouco tempo.

Meu pai não gosta de contar as histórias do passado, mas os outros... Nossa! Já me contaram tantas aventuras! E toda a revolução que existiu há quase quatro décadas foram principalmente graças às orientações e ensinamentos do Mestre sobre os quatro Líderes Elementares.

Ele realmente foi um grande homem.

Enquanto refletia sobre o passado, continuávamos a andar, coisa que fizemos por horas, então eu sabia que já deveríamos estar no subterrâneo do palacete, perguntei a Verônica e ela me afirmou que sim.

– Não consigo ouvir nenhum barulho por aqui.

– É difícil mesmo, apenas se for algo extremamente alto lá em cima que talvez consigamos ouvir algo aqui de baixo.

– Você vai me mostrar algo que não seja esta passagem secreta? — Finalmente perguntei.

– Seu pai quis que lhe mostrasse um compartimento, sem contar, é claro, está parte subterrânea do Palacete. Esta região foi criada em situações de emergência, para evacuação, por isto a saída fica nas colinas, tão longe do centro.

– Então existe uma entrada no palacete?

– Sim, na sala. Lembra-se dos quadros que eu estava vendo hoje?

– Os auto-retratos da minha família?

– Estes mesmos. A parede daquele cômodo é do mesmo material destas pedras. Existe uma abertura lá, igual a que eu te mostrei nas colinas, funciona do mesmo modo também, é apenas aberta ou fechada quando se utiliza o elemento natural do vento. Qualquer um que saiba dominar este elemento poderá abrir a passagem secreta. Como você vê, apesar deste corredor ser estreito ele é bem longo e uma grande quantidade conseguiria ficar aqui por um longo tempo. O cômodo ao qual irei lhe mostrar é o mais seguro de todos. No caso de evacuação em massa, a melhor solução é sair pelas colinas mesmo. Mas se a evacuação for pequena, com menos de 20 pessoas, a sala na qual vou te mostrar é o melhor lugar para ficar. Lá é extremamente seguro, que mesmo se descobrirem sobre essa passagem secreta é muito provável que não descubram aquela sala. Mas acho que não vai dar tempo de lhe mostrá-la hoje...

– Como não!? Agora eu estou curioso!

– Não sei se você lembra, mas ainda tem um jantar hoje.

– Jantar?

– Com a sua noiva. – Sua informação me fez lembrar que meu pai havia me notificado sobre isso há alguns dias depois de que passei no oráculo. E isto mudou meu humor completamente.

– Eu não pretendo casar com a Juliana – Rapidamente informei, mas sabia que Verônica não daria importância as minhas palavras, pois ela já deveria saber disto.

– Lucas, é melhor você tomar cuidado com o que diz, o casamento de vocês está definido á séculos. Talvez agora não perceba, mas vocês estão destinados um ao outro. Está escrito nas estrelas. Com o tempo sua opinião deverá mudar e você verá que realmente deseja se casar com ela.

– O oráculo deve ter lido errado, não tem como ser a Juliana a mulher escrita em meu destino. Eu tenho certeza disto.

Eu queria que ela entendesse que não era Juliana que eu gostaria que estivesse escrita em meu destino, e sim ela, Verônica.

Com apenas um olhar cúmplice eu entendi que ela sabia disto, ela sempre soube.

– Preciso lhe informar sobre algo... –Ela comentou hesitante, isto me surpreendeu e me deixou intrigado. – Hoje é o meu último dia como sua tutela.

– C-como!?

– Precisarei me afastar da Patrium Ventosa por um tempo. Hoje é o meu último dia aqui.

Suas palavras para mim pareciam choques que travavam todo o meu sistema nervoso me deixando paralisado.

Paramos de andar e o silêncio vagava naquele cômodo e entre nós.

Não poderia ser possível! Verônica era minha tutela, sendo assim, jamais podia se afastar de mim. Por que agora?

– Por que você está indo embora, Verônica? – Tive que perguntar, mas o silêncio dela permaneceu – Por que está me mostrando este lugar!? Não me trate como idiota! Vamos, me explique! Alguma coisa muito estranha deve estar acontecendo! O que você e meu pai estão me escondendo!?

– Não grite, não percebe que isto dá um eco danado aqui debaixo.

– Verônica – Quase rosnei chamando seu nome e ela apenas deu um longo suspiro, refletindo sobre como e o que dizer a mim.

– Tentarei tirar suas duvidas, mas vamos continuar andando, existe muita coisa que ainda preciso lhe mostrar hoje e não temos muito tempo.

Ela voltou a andar e isto me forçou a segui-la. Eu precisava saber o que estava acontecendo, antes que minha paciência terminasse, entretanto ela começou a explicar:

– Você sabe que as relações entre os outros países elementares não estão bem. Mas nos últimos tempos a Somnium Vastator está frequentemente atacando nossas fronteiras, invadiu ontem um território nosso ao norte, mas seu pai desconfia que isto seja apenas uma distração. Eu e mais dois Messores vamos comandar um pequeno grupo de interfectorem e vigiar as outras fronteiras a partir de amanha. Neste momento um grande número de interfectorem devem estar expulsando o Somnium Vastator ao norte.

– Você não pode ir! É a minha Tutela, seu único objetivo é me proteger!

– Não, meu único objetivo é cumprir as ordens de seu pai. Ele me tornou uma tutela, agora, ele me tirou de meu cargo e me colocou em outro posto...

– Ele o quê!? – Era apenas eu que estava surpreso de mais com aquela notícia!? Verônica sempre estava comigo, sempre. Como meu pai pode fazer isto sem ter o meu consentimento!?

– O líder da Patrium Ventosa precisa de minha força, para algo devo servir.

– Você sempre serviu para algo! Era a minha tutela, responsável pela minha segurança!

– Me diga, Lucas, uma única vez que eu realmente tive que salvar a sua vida! Responda-me! Não, mas é claro que não irá, afinal, eu nunca salvei, sua vida jamais ficou em risco! Tudo que eu sou é uma companhia e sua mestra nos horários livres.

– E isto não é o suficiente, Verônica?

Ela me encarou aflita, colocou uma de suas mãos no cabo de sua espada e a outra no peito, e afoita, ela finalmente me respondeu:

– Não, não é. – Comentou abaixando levemente sua cabeça e me dando as costas, voltando a caminhar.

– O quê está faltando para você? Você quer lutar? Quer estar em uma guerra? Conhecer novos lugares? Novas pessoas!? Que droga, Verônica! Para de andar e não dê as costas para mim! Vamos! Diga o que você realmente quer!

– Quero estar longe de você!!! – Seu desabafo foi como um dos socos mais poderosos que eu poderia ter levado, senti meu estomago embrulhar e meu coração disparar. – Eu não posso mais continuar ao seu lado, desculpe...

– Por que? – Minhas palavras sairão tão baixas quanto as desculpas dela.

– A data de seu casamento foi marcada. Será daqui um mês.

– C-como?

– Isto seria noticiado a você hoje à noite. Finja ficar surpreso quando ouvir isto, esta bem?

– Não, espere! Como assim irei me casar? É com a Juliana? É lógico que é com a Juliana, com quem mais poderia ser? Como isso pode ter sido concedido sem a minha permissão!?

– O oráculo disse que seus destinos estão escritos nas estrelas...

– Foda-se o Oráculo e suas estrelas! Meu pai ou qualquer outro conselheiro não tem o direito de decidir isto por mim. É a minha vida! É o meu destino! São as minhas escolhas!

– Pare de agir como um garoto independente! Você não é! E não pode fugir disto!

– Quer que eu faça o que? Aceite as coisas tão facilmente como você!?

– Sim! É isto que eu quero!

– Ótimo!!!

– Ótimo!!!

Voltamos a caminhar em silêncio, irritados um com o outro. Afinal, acabo de descobrir que meu CASAMENTO estava marcado e eu tenho apenas 14 anos! E agora a Verônica vai parar de ser minha tutela! Assim, tão de repente! Ela está presente em meu cotidiano há anos! Ela não pode desaparecer!

– Por que? – Apesar de estar muito irritado com ela, eu tinha que perguntar.

– Por que o quê?

– Por que você não quer continuar sendo a minha tutela? O que o meu casamento tem haver com isto?

Ela parou de andar e me encarou atônica, como se fosse apenas agora que percebesse o que havia me dito, parecia até que tinha parado de respirar, seu tom de pele ficou mais pálido.

– Por favor, não posso responder o que me pede.

– Por que não? Por que está tão assustada? Apenas diga.

– Não posso.

– Não pode o que? Admitir isto a mim ou a você mesma?

– Eu não posso admitir em nenhum dos casos! Por que faz isto comigo, Lucas!?

– Eu apenas quero saber a verdade, droga! Quero que seja verdadeira comigo! Eu preciso saber o que você pensa! Eu preciso saber que não sou o único que sente isso! Diga! Pelo menos reconheça isto por você!

– Você quer saber o que? Desculpe, Lucas, mas eu sei onde fica o meu lugar. Sei que jamais poderei ter o que Juliana tem de você, ou ser o que ela é! Chame isto de ciúme ou qualquer outra coisa! Mas não posso continuar servi-lo sabendo que não serei a única!!!

E logo depois da explosão, veio o arrependimento dela. O que fiz, foi me aproximar. Porque diferente de Verônica, eu não tinha medo de fazer isto.

Mas ela não me encarou, muito pelo contrário, encabulada, ficou fitando o chão e ia dizer algo, se eu não a interrompesse, enquanto parava em sua frente.

– Não percebe? Você é alguém muito mais importante a mim do que ela. Sempre foi você, Verônica.

Delicadamente, tentei erguer seu rosto tocando seu queixo:

– Tem alguma coisa errada... – Ela murmurou;

– Por favor, não vamos discutir mais sobre isto...

– Não! Tem alguma coisa muito errada! O vento... Ele... Está mais intenso?!

O tom de voz sério de mais dela me alertou que havia algo muito estranho, e desta vez não tinha nada haver com a nossa conversa anterior.

Alerta, ela se afastou de mim, olhando misteriosamente para o longo corredor escuro.

– O que foi...? – Perguntei confuso.

Minha resposta não foi dada por Verônica, e sim, por um forte tremor, onde o chão parecia não ser sólido, o som era ensurdecedor e o medo de que o teto, feito de pedra, desmoronasse sobre nós dois, era enorme. Eu jamais havia sentido algo daquele gênero, apesar de ter durado poucos segundos, aqueles parecerão os segundos mais longos de minha vida.

Afoitos, trocamos olhares cúmplices.

–...Isto. Não podia ter acontecido, não é?

– Não, seria impossível, ao menos se...

– Ao menos, o que? Hei, Verônica, me espere! Aonde você está indo?

Ela saiu correndo, tudo que fiz foi segui-la. Havia algo muito errado, e algo me alertava, que ela sabia o que era.

Continua...

Notas finais
nossa faz tempo, não é? Espero que n tenham esquecido da história.
Na verdade este capitulo está pronto faz algum tempo, mas queria ter colocado todas as memorias do Lucas neste dia, mas percebi que ia ficar muuuito grande e demoraria muito mais a postar, então decidi posstá-lo agora. Espero que tenham gostado, achei as partes dele com a Verônica muito fofas
E espero que a parte do Fernando tenha surpreendido a muitos, as pessoas nem sempre são o que aparentam
bjs nessa