Praedestinatum Em Busca Do Sonho.
3 Boa sorte e que os melhores vençam_ Exercitus
Notas iniciais
Glossário:
Exercitus: Exército.
Somnium vastator: Destruidor de sonhos.
Interfectorem: Assassino.
Messor: Ceifeiro.
Capítulo 2: Boa sorte a todos e que os melhores vençam._ Equipe administrativa do Exercitus
[Pov Lucas]
Talvez já tivesse se passado quase duas horas e ainda havia pessoas em busca do número de seu quadrado demarcado. Tesc! Odeio ter que ficar aqui sentando na grama esperando a boa vontade dos outros, para que só então, o Messor possa voltar a dar as instruções. E apesar de não saber onde o mesmo estava agora, sabia que se encontrava tão ou mais inquieto e incomodado que eu. Mas minha atenção foi voltada ao baixo tom de voz masculina que eu ouvi do negro, acho que seu nome era... Fernando ou era Felipe? Talvez Flávio?
– Desculpe, nem havia me apresentado a você, seu namorado me espantou antes de te cumprimentar. – Comentou sorridente e percebi o olhar mortal que recebera do “namorado” dela. E assim como fez comigo, ele estendeu uma mão para cumprimentá-la, pois agora estava sentado no chão próximo dela, até se ergueu um pouco para se aproximar mais; e diferente de mim, ela também estendeu o braço dela, até que suas mãos se tocassem e finalmente se cumprimentassem. O negro sorriu ainda mais por finalmente achar pelo menos uma pessoa educada, já a garota estava levemente corada, desconfortável, mas não pude definir se eram pelas palavras do negro ou pelo toque, talvez os dois. — Eu sou o Fernando — Ah! Sabia que um dos três nomes.
– Prazer, eu me chamo Clarice. – Murmurou tão baixo que nem tenho certeza se ouvi direito. – E ele — Ela olhou para cima, encontrando seu olhar com o do moreno, de pé e com os braços cruzados, atentos a todos os atos de Clarice e principalmente os de Fernando. – É o Tom, meu primo. – Não sou a favor de casos amorosos entre integrantes da mesma família, acho muito estranho; talvez por isso a “mimadinha” tenha fugido de casa. E eu se fosse Fernando me afastava o mais rápido possível daquela garota, não ia demorar muito para que esse tal de Tom o atacasse por se aproximar muito da “princesinha”.
– Estou curioso para saber qual será a segunda fase da prova. É a primeira vez que presto e não sei muito bem como funciona as coisas por aqui. E tenho minhas duvidas no modo de escolha sobre a primeira fase, sei que muitas vezes precisamos de sorte na vida. Mas não achei certo o modo de seleção.
Ah! Fala sério! Como um integrante da prova pode passar da primeira fase ainda pensando que o modo de seleção era “Sorte”. Parei de encará-los e voltei a minha atenção para qualquer outra coisa que não fossem aqueles três. Não ia gastar o meu tempo prestando atenção naquela conversa tão banal e burra. Mas Tom responde alto de mais para eu conseguir ignorá-los por completo.
– Também é a nossa primeira vez — Jura?! Até eu que sou novato sei disso, e se eu sei os veteranos mais ainda. E eu tinha que cair justo no time com novatos! Já falei que sou o mais sortudo para o azar? — Mas a primeira não foi realizada pela sorte, o papel reagia com a presença do seu fluxo natural elementar. – Finalmente alguém percebeu! Pelo menos um! Voltei a encará-los e Fernando tinha uma expressão de indagação, ele encarou Clarice que afirmou as palavras do primo acenando positivamente com a cabeça, ela percebeu que o negro ainda estava confuso demais.
– Sabe os quatro elementos naturais: água, ar, fogo e terra? São também conhecidos como fluxo natural elementar, pois é necessário algum elemento para a sua existência, como o oxigênio ou o carbono para a sobrevivência dos seres vivos. Todos os seres humanos possuem o fluxo natural elementar, mas nem todos conseguem controlá-los. – Clarice deu uma pausa, encarando Fernando, que parecia surpreso por cada explicação, assim como pensei ele era muito novo e inocente sobre as informações do exercitus. — Todos os Interfectorem precisam pelo menos ser um dos seres humanos que possam controlar esse fluxo natural. Mas isso é algo muito difícil e que requer anos de treinamento, somente quando se tem um alto nível de controle do seu fluxo natural pode-se tornar um Messor, é um dos requisitos mais importantes e difíceis até. Thiago, o Messor responsável pela prova este ano, é o mais novo que eu conheço, normalmente pessoas demorar mais que 20 anos para dominar o fluxo natural elementar no nível cobrado para se tornar um Messor. — A explicação dela chamou a minha atenção, afinal, apesar de desconfiar, eu não sabia sobre aquilo com tanta precisão.
–Ele é do elemento terra? — Perguntou Fernando ainda muito pensativo em relação ao Messor, refletindo toda a informação que passaram. Clarice afirmou com a cabeça. – E como você sabe sobre tudo isso?
Imediatamente percebi a surpresa da garota, assim como o de seu primo que deu um passo a frente se aproximando ainda mais dela — se possível — como se tentasse protegê-la de algo.
A sorte daquela situação foi a presença de Thiago, o nome do Messor que Clarice tinha dito, que apareceu de repente e me entregou um envelope pardo encarando-me com aqueles olhos com o tom médio de verde, e sem dizer nada, prosseguiu o seu caminho indo em direção do time dezoito.
Quando percebi os três estavam de pé e próximos a mim, encarando o envelope. Não precisei de nenhum incentivo para abri-lo e retirar os papéis lá presentes, e me surpreendi com o conteúdo, dei uma rápida lida nas instruções, e ao perceber que tinha muito mais que uma página já entendia o que estava prestes a acontecer.
– O que tem aí?!
Percebi que Fernando ia se aproximar de mim querendo tirar aqueles papéis da minha mão, observei que muitos times começaram a ficar alvoroçados. Precisávamos agir e agora.
– Precisamos sair daqui! Agora! Me sigam! — Sabia que eles não estavam entendendo nada, e que se fosse eu na situação deles, não seguiria. Mas não era a hora de indagar nada, e pela minha sorte, assim quando dei as costas e parti correndo em direção da floresta, eles correram atrás de mim. Eu sabia que ao inicio da nova fase tínhamos que agir como um time ou então perderíamos.
E não era que eles eram bons? Porque eu sempre fui treinado, desde pequeno, e sabia que minha velocidade e resistência eram muito bem desenvolvidas, mas eles me acompanharam facilmente, admito que até mesmo a “mimadinha” era boa. Talvez, aquele time não fosse apenas o Mascote – como eu havia pensado — Apenas talvez.
Mas o terreno da floresta não era bom para uma corrida e sabia que só prejudicaria a nossa missão pelo fato de ser na mata fechada. Encontrei uma alta árvore bem folheada. Lá seria seguro para analisar todos os itens e refletir qual era a nossa real missão.
Pulei na árvore e comecei a escalá-la, admito que no começo fosse mais difícil por não ter nenhum pequeno tronco para apoiou, mas nada que eu não conseguia subir. Fui para o alto e o meu time ainda me seguia, Clarice foi a que mais teve dificuldades, pelo fato de precisar muito mais de força física braçal para escalar, mas Tom a ajudou. Poucos minutos depois nós quatro estávamos no topo da árvore. Lá tinha uma boa visão do perímetro, era um bom lugar para ficar.
– Agora dá para fala o que está acontecendo?! — Fernando exigiu uma explicação.
Peguei o envelope que tinha colocado preso nas minhas vestes. O abri novamente e tirei toda a papelada que tinha. Peguei as quatro imagens com retratos que ocupavam toda a área da folha e entreguei duas para Tom, que veria junto de Clarice, e duas para Fernando. Clarice e Tom estavam em um galho abaixo do meu, enquanto Fernando do outro lado do tronco principal. Enquanto eu peguei novamente o papel cheio de regras e voltei a lê-lo. Dessa vez com atenção.
– Troque entre si as imagens, precisamos decorar esses rostos. Porque mais tarde iremos queimar todos os documentos, não é seguro ficar com elas.
– O que é isso?! Que cara é esse?!
– Esse é o nosso time alvo, Fernando — Respondi olhando melhor para a folha com as instruções -Consta aqui que é o time 53. Precisamos capturar todos os integrantes e levá-los até o perímetro do quadrado 17 que estávamos, isso daqui a uma semana.
– Uma semana! Isso é sério?
– Pior do que isso – Observou Tom, que me encarou — Do mesmo jeito que estamos caçando alguém, também seremos caçados.
– Isso quer dizer que só metade vai passar.
– No máximo, prima. Poderá ter time que não será capturado e nem capturar. E se estamos caçando o time 53, pelo menos são 212 integrantes que estão participando desta prova, mesmo que reduza pela metade esse número, ainda continuara com muitos inscritos, muitas outras fases estão por vir.
Ele estava certo, nenhum ano tinha uma quantidade certa de fases, somente quando o administrador da prova achava que estava bom era que ela terminava, era ele que decidia a quantidade de fases e aprovados. E aquela prova estava muito longe de acabar.
– Eu vou ler as regras. Prestem atenção, porque logo depois precisamos nos livrar de tudo isso. – Eles concordarão comigo e me encaravam sérios. Todos nós faríamos de tudo para nos tornar um Interfectorem. Então comecei a ler em voz alta as instruções.
10 de janeiro de 504
Time 17,
A segunda parte da prova será realiza para testar seu desenvolvimento físico, psicológico e em grupo. Trabalhar no exercitus significa servir unicamente as ordens dos dois Líderes Elementares, o da Água e Terra; com o principal objetivo de eliminar Somnium Vastatore, e assim, também o grupo rebelde. Mas para isso vocês precisam estar bem preparados.
Sua segunda parte da prova é uma missão para caçar, encontrar e capturar o time 53.
O líder da missão é a pessoa que recebeu o envelope, o mesmo necessita usar um broxe negro que é necessário estar presente no dia marcado de encerramento da missão.
Objetivo: Capturar os quatro integrantes – fornecemos imagens com retrato de todos os capturados – Do time 53 — e tomar posse também do broxe negro do líder.
Levá-los no dia 17 – sete dias de duração da prova – para o quadrado com a demarcação de seu time até o meio dia, término da segunda etapa da prova.
Só irão passar aqueles que tiverem TODOS os integrantes do time capturado e o seu próprio time COMPLETO.
O líder de cada equipe em hipótese nenhuma pode perder o broxe, se isso ocorrer, mesmo se todos os critérios acima forem cumpridos, o time será desclassificado.
Boa sorte a todos e que os melhores vençam.
Equipe administrativa do Execitus.
Ao termina de ler percebi que meus “colegas” de time estavam atentos e pensativos a todas as – poucas – regras.
– Metade! Nem 25% vão passar nessa missão se tiver tantos critérios a cumprir, mesmo que sejam simples. Principalmente se a duração da prova for em sete dias! Quantas coisas podem acontecer em sete dias!?
Sabia que Fernando estava certo. Mas agora precisamos nos livrar de toda a papelada, pois se algo acontecer, lá estava escrito tudo que precisaríamos fazer, e se cair nas mãos do time que está nos caçando, estávamos perdidos!
Mas agradeci por nenhum dos três questionarem o fato de eu ser o líder, tudo que não precisamos agora é de uma discordância no time, algo que infelizmente é bem fácil de acontecer.
– Precisamos nos organizar. Primeiro... – Clarice mexeu em seus braços e desprendeu algo de seu ombro, foi só então aí que percebi que ela carregava uma mochila. Ela a abriu e tirou de lá um recipiente de couro com um pó negro, que eu rapidamente indentifiquei como pólvora – Vamos queimar essa papelada, mas não sei se é bom queimarmos as imagens com os retratos, podemos esquecer ou ficar em dúvida sobre quem vamos caçar em sete dias.
– Certo, vamos manter as imagens. – Sabia que ela estava certa, era arriscado, mas era um risco que precisávamos correr. – O que você tem aí dentro?
– Não muito. Apenas duas facas; duas garrafas de água, uma cheia e outra vazia; um recipiente para guardar alguma coisa como carne e um pouco de pólvora. Ah! E uma corda, de uns três metros.
– Garota você é um gênio! — Exclamou Fernando, tive a impressão que ele a abraçaria, se pudesse. Mas eu concordava com ele, a “mimadinha” não parava de me surpreender.
– Líder! Estamos tempo de mais aqui — Tom observou, ele também estava certo, mas era muito estranho ser chamado daquele jeito.
– É, precisamos sair daqui, achar água e alimentos, nos abastecemos e então irmos à caça; sem nunca esquecemos que estamos sendo caçados. Não sabemos o que encontrar daqui para frente. Sei que é difícil, mas vamos ter que agir como um grupo para conseguir passar de fase. O Messor usou critérios para nos definir como um time, e por algum motivo nós quatro estamos juntos. Vamos pensar desse jeito para manter essa união.
– É isso aí líder. Isso que é um discurso inicial! — Fernando tentou brincar comigo, pelo visto essa viagem vai ser longa — Você ainda não disse seu nome.
Eu me levantei e comecei a descer da árvore, atento a tudo que estava no chão, para não cairmos numa enrascada. Porque mesmo em cima da alta árvore não observamos nenhum time.
– Lucas — Olhei para cima e encarei Fernando, com aqueles olhos arroxeados que me analisavam — Meu nome é Lucas. – E ele sorriu, algo me dizia que ele não estava lá para se tornar um Interfectorem, pelo menos não era seu critério primordial. Ou então, aquele era um sorriso falso.
O outro problema da missão, tirando o captura, era: Saber até onde se podia confiar naqueles três. Porque uma traição como vazamento de informação de um único integrante poderia comprometer a missão.
E enquanto pensava em mil coisas não pude não questionar se a liderança foi escolhida aleatoriamente. Naquele momento lembrei que o Messor sabia quem eu era, assim também, sobre o meu passado. Thiago, porque me colocou nessa situação? Para me ver falhar como meu pai?
Quando o time estava completamente em terra firme, fomos atrás de suprimentos. Atentos a cada passo que dávamos, a aflição foi aumentando ao passar do tempo. À noite logo chegaria, precisávamos encontrar um lugar seguro – algo muito difícil – e mantermos em vigilância alternada.
E apesar de nenhum esforço físico muito intenso, estávamos cansados, e eu sabia que só pioraria em sete dias.
Existia um silêncio incomodo no time durante a nossa busca de alimentos. Comum entre pessoas que não se conhecem; mas mesmo assim, eu odiava aquele clima.
Achamos muitos suprimentos. Não duraria para todos os dias, é claro, mas pelo menos para uns dois dias para nós quatro. Fernando ainda conseguiu pegar três coelhos selvagens, não me perguntem como, eu não faço a mínima idéia, mas ele conseguiu.
O nosso momento mais tenso foi na parte da água, porque a recolhemos em um lago; e naquele local éramos um alvo muito fácil. Afinal, água todos precisão e na sobrevivência é mais importante que o próprio alimento. Mas nada de ruim aconteceu, talvez por ter se passado poucas horas desde o início da missão ninguém ainda foi buscá-la, muitos não tem onde armazená-la – sorte nossa a Clarice ter garrafas — então só realmente a buscariam quando estivessem necessitados. Só que poderiam ser atacados em busca disso, pois todos sabem que uma hora os integrantes precisam da água, e seu caçador poderia se aproveitar dessa oportunidade para achá-lo e atacá-lo. Tesc! Odeio toda essa situação. Parece que pelo fato de não poder enxergar para trás, tem alguém ali, com uma faca apontada para mim, pronta para me matar!
Ah sim! Falando na morte, algo me chamou muita atenção naquelas regras, em nenhum momento falou qual tem que ser o “estado” dos integrantes dos times caçados. Portanto, matar é uma opção, e me envergonho de dizer que é até o mais fácil, pois um morto é muito mais fácil como um prisioneiro do que um vivo; imagine quatro então!?
– Lucas, falta pelo menos duas horas para escurecer e preciso assar esses coelhos ainda de dia e hoje, até amanha talvez estrague.
– Não vai dar tempo para assar tudo em apenas duas horas, sem contar, que ainda temos que achar um lugar seguro. – Tom afirmou antes de mim.
Sabia que os dois estavam certos, mas achar um lugar seguro realmente era um problema.
– Eu acho o lugar. – Afirmou convicto Fernando.
– Como? — Perguntou docilmente Clarice, que ajeitou a pesada mochilas nas costas.
– Relaxa docinho, você está falando com o senhor experiência aqui.
E eu antes dizendo que ele era ingênuo e “bebê”; bom, talvez o bebê ainda continuasse; porque em alguns momentos ele realmente era infantil. Mas ele começou a guiar e eu fiquei impressionado.
Fez caminhos difíceis, que até mesmo eu tive dificuldade de passar. Era uma subida interminável, e um relevo que fisicamente eram impossíveis de ficar naquele lugar e posição. Depois de um tempo vi que Clarice estava tendo bastante dificuldade pra escalar; mesmo Tom a ajudando e carregando – não sei dizer desde quando – a mochila dela. O chão antes era uma terra até que bem escura, mas agora era repleta de pedras e muita areia, fácil demais para escorregar, teve um momento que Clarice escorregou, mas mais uma vez Tom a pegou a tempo. Virei imediatamente para baixo, assim como Fernando, ouvi alto o tom de pequenas pedras deslizando, se alguém cair, iria se machucar e feio.
– Está tudo bem aí? — Perguntei principalmente a Clarice, que ainda se segurava em Tom.
– Está... – Respondeu envergonhada.
Fernando não deu muito importância e voltou a subir, ele era rápido e nunca conseguia alcançá-lo, sabia que ele subiria até o topo daquele relevo estranho em menos de meia hora, mas estávamos demorando uma hora, se não mais, e percebi que a lerdeza o irritava.
– Vamos gente, assim não vai dar para cozinhar esses coelhos nem daqui sete dias! — Eu realmente estou odiando esse humor dele.
Em um momento mais plaino eu esperei Tom e Clarice, eles demoraram mais chegaram, Tom sempre a ajudando. Clarice mostrava-se já estar sem fôlego, realmente era uma “mimadinha” e com um resistência muito baixa, mas talvez não tão mimada quanto eu pensava quando a vi pela primeira vez; em vez de “mimadinha” era “mimada”, porque a que eu imaginava não conseguiria nem começar a fazer aquele caminho maluco.
– Me desculpe pela demora... — Murmurou tão baixo que eu não sabia se era por vergonha ou por estar sem fôlego, mas depois soube que eram os dois.
– Você se cortou — Observei olhando para o braço esquerdo dela, um fino e cumprido corte do punho até o cotovelo.
– Foi nas pedras — Informou Tom, a encarando preocupado; mas ela devolveu o olhar séria, até levemente irritada. Ambos pareciam que conversavam pelo olhar, na verdade, eu sabia que eles realmente conversavam.
Clarice se surpreendeu ao ver que eu rasgava um pedaço longo da caminha camiseta, deixando um pouco do meu abdômen a mostra.
– O que você... Está fazendo?! — Perguntou exclamou principalmente depois de eu puxar seu braço cortado.
– Calma, só vou enfaixar — E antes que ela reclamasse, logo eu completei — Não sabemos como e nem o que esta nos perseguindo. Não é bom deixar gotas de sangue por aí como se fossem migalhas de pão, certo? – E mesmo a contra gosto, eu enfaixei seu braço.
– Hei! Vão demorar ainda mais!? — Perguntou Fernando impaciente.
– Vai à frente, ache o lugar que você quer e asse esses coelhos! — Exclamei olhando para cima, mas eu mal consegui enxergá-lo de tão distante que o moleque já estava, ele era rápido.
– Ok! — E então eu realmente o perdi de vista. Suspirei cansado e olhei para o céu, o sol começava a se esconder atrás das colinas, não tínhamos muito tempo. E se aquela escalada era difícil iluminada, imagina sem.
– Vamos. Mas antes, me passe à mochila, Tom. – Eu sabia que ela estava muito cheia e pesada, mas ele era bem melhor para ajudar a garota do que eu, afinal, ela confiava nele. Percebi que ele ia negar – Isso é uma ordem. – Mamãe não ia se orgulhar nadinha se ouvisse eu falar assim com alguém, que bom que a primeira coisa que perdemos pela falta de contato é a educação.
Tom me passou a mochila, coloquei nas costas, constatei que estava mais pesada do que eu havia imaginado. Como pouquíssima água, frutas e ervas poderiam pesar tanto?
A medida do possível, eu também ia ajudando Clarice, não estava me sentindo o líder daquele time, mas muito mais o pai.
– Por que está fazendo isso? — Perguntou Tom, desconfiado demais de mim, enquanto Clarice não prestava atenção.
– Porque não dará certo se não tiver todos ao meio dia daqui sete dias naquele maldito quadrado.
Mas mesmo com aquela resposta o moreno não parava de me encarar desconfiado, namorados são um saco!
Chegamos a mais um lugar plaino, aproveitei e dei um longo suspiro. Clarice deu pelo menos uns três do meu.
– Aonde Fernando foi parar?
– Bem aqui, Tom. – Admito que nós três demos um pulo para trás pelo susto. De aonde aquele neguinho tinha saído? — Vocês demoraram! Já estão quase totalmente assados aqueles coelhos, agora cadê a mochila? Preciso de ervas para ontem — Ele sempre era acelerado assim?
Ele pegou a mochila de mim e eu voltei a sentir as minhas costas. Isso era tão bom. Seguindo-o pelo olhar, vi que naquela área plaina tinha uma pequena gruta, um bom lugar para passar a noite, protegido e bem afastado. Olhei para o céu e todo o sol já estava escondido atrás das colinas, no céu continha ainda um pouco dos raios alaranjados; pelo visto tínhamos chego na hora certa, e realmente parecia estarmos em um lugar seguro e alto, talvez de manha desse para analisar melhor a área em volta de nós, e com muita, mais muita sorte, visualizaríamos o nosso time caçado, fazer o que? É bom sonhar.
Ao entrarmos na gruta, vi que Fernando havia feito uma fogueira rodeada de pedras, depois de colocar o tempero improvisado de simples ervas, afinal coelho sem nenhum tempero é simplesmente horrível.
– A onde você colocou a pele? — Perguntei atento vendo que ele já havia tirado e que somente a carne presa em estacas de madeira eram assadas.
– Já enterrei para que o cheiro não atraia nada, inclusive animais. — Respondeu Fernando, que colocou uma enorme pedra em cima da fogueira, parecendo que até funcionava como uma espécie de tampa. – Isso evita muita saída da fumaça e até adianta assar. – Ele me respondeu percebendo que eu estava atento a cada coisa que ele fazia.
– C-como você sabe... De tudo isso? — Perguntou sem jeito Clarice, que já estava sentada no chão e bebia um pouco de água, com Tom já ao seu lado.
– A vida, garota. Eu sou órfão e sempre tive que me virar sozinho, eu já sou até um Messor no requisito de achar algum lugar seguro e comida fácil. Não são todos que possuem uma vida de princesinha. – Percebi o olhar acusador de Fernando para Clarice, que se retraiu culpada, e imediatamente Tom estava pronto par protegê-la de tudo que pudesse.
Touché! Sabia que não era o único que achava que ela era uma mimada!
A fogueira não clareava quase nada, pelo fato de ter tantas pedras ao seu redor e uma enorme por cima. Muita fumaça saia pelos vãos, ficando primeiramente dentro daquela pequena gruta para depois ir para fora. Sei que aquela era a maneira mais certa para assar algo no anoitecer, mas confesso que me sentia sufocado. A sorte que realmente não demorou a assar aqueles coelhos.
– Vou manter a fogueira acesa só até comermos, depois vamos ter que apagar.
– Nada vai ficar aceso durante a vigia?
– Não. E talvez pelo fato das pedras ainda estarem quentes isso causa aproximação de animais, é muito comum deixar fogueiras acesas à noite e ao acordar perceber que tem uma cobra ao lado. É bom estarmos sempre muito alertas.
Sabia que Fernando estava certo, mas assim como Clarice eu não me sentia totalmente a vontade no escuro, principalmente sendo caçado.
Fernando pegou a carne assada e colocou em cima de uma pedra começando a cortar melhor a carne com uma das facas que a garota trouxera, enquanto Clarice dividia as frutas que pegamos e também deixou uma garrafa de água para fora da mochila de um litro, que já havia sido um pouco bebida pela mesma. Sabia que seriamos muito bem alimentados, isso era muito bom para o primeiro dia, mas se passou um dia inteiro e não tínhamos feito quase nada. Amanha precisávamos ter alguma pista de pelo menos a direção certa para encontrar o time 53, aquele campus da prova e da propriedade do exercitus era enorme, kilometros de extensão. E achar algo naquele lugar era como achar uma agulha em um palheiro.
Em silêncio começamos a comer e aproveitar os poucos momentos da fogueira, não só a iluminação, mas também do calor que ela transmitia. Á noite chegava e junto dela o frio, onde nenhum de nós tinham vestimentas necessárias para um.
– Vamos aproveitar e definir a vigilância...
– Eu quero começar. – Rapidamente disse Clarice, que estava sendo abraçada por Tom, que percebia que ela tremia de frio.
– Então sou depois.
– Certo, então depois do Tom sou eu, pode ser o último Fernando?
– Claro, só preciso dormir um pouco, meu humor fica péssimo quando não durmo nada. – Sabia que ele estava agindo um pouco diferente desde que os conhecemos.
– Cada um acorda o próximo da vigia, eu vou lá fora ver se tem algo errado, depois podem apagar essa fogueira. Se durante as nossas vigias algo der errado, acorde todos os integrantes do time... E na hora vemos o que fazemos.
Eles concordaram comigo em silêncio e me observaram sair da gruta. Lá fora estava quieto de mais, e ainda muito escuro, olhei para o chão e vi que tinha levemente marcas de passos, eram os nossos, e passei meu pé em cima, o desfazendo. Durante o percurso tentava ao máximo apagar qualquer passo que via.
Não dava para ver muita coisa lá fora que estava longe de mim. Mas aquela colina tinha sido um bom lugar escolhido, não fomos seguidos na ida, isso eu tenho certeza; e se tivéssemos sidos observados, à noite seria impossível escalar aquela colina. Suspirei tenso e dei uma última olhada, nada parecia fora do comum. Retornei para dentro da gruta e já vi que Fernando estava deitado no chão, um pouco encolhido, e não duvidava nada que já dormia.
Clarice e Tom me encaravam seriamente. Eu afirmava com a cabeça como se dissesse que está tudo bem lá fora, Tom foi quem apagou logo depois a fogueira, tinha algo bom, afinal, não aguentava mais fumaça naquela gruta, meus olhos já até ardiam.
Deitei-me e dormi mais rápido que imaginei, e assim como pensei, Tom não permitiu que ela vigiasse sozinha. Em alguns momentos até ouvia pedidos dele para ela ir dormir e que ele cuidaria de tudo, apesar de Clarice continuar a negar, não sei como aquilo terminou, pois como já disse eu dormi. Mas duvido muito que Clarice tenha permitido dormir mais cedo, mesmo se estivesse tão cansada quanto eu imaginava, ela parecia ética demais para isso. E tenho certeza que ficou brava com ele por não deixá-la fazer seu trabalho sozinha.
Ao adormecer, depois de alguns momentos devo ter começado a sonhar, só que mais uma vez era lembrando meu passado. Agradeci por não ser algo ruim, tudo que eu menos precisava naquele dia era de um pesadelo. Era muito mais uma memória banal.
O dia era bem claro, principalmente o céu, eu estava olhando para ele entediado, e rolava na grama fresca por causa disso. Olhei para o lado e sabia que haveria uma criança, e ela estava lá, com os braços cruzados e com os cabelos ondulados escuros presos; talvez mais entediada do que eu. Encarei seus olhos negros, a menina não me encarava, sempre achei aquela cor estranha na época, por ser incomum.
– Por que seus olhos são tão escuros? Eu nunca vi alguém com essa cor!
A menina olhou para baixo, e séria me encarou. Ainda de braços cruzados ela deu de ombros, talvez nem ela mesma soubesse.
– Não sou como você, senhor. – Apesar de ainda ser uma criança tinha uma voz feminina forte.
– Você realmente sempre vai estar ao meu lado?
– Pelo menos até que seu pai ache necessário, senhor.
– Não me chame de senhor! — Me sentei na grama e cruzei os braços, fazendo uma expressão tão séria quanto à dela. — Quantas vezes eu vou ter que repetir? Meu nome é Lucas! L-U-C-A-S! Meu pai realmente deve estar louco! Duvido que você consiga fazer o que ele quer, tem a minha idade e ainda é uma garota!
– Na verdade, sou quase um ano mais nova que o senhor, tenho sete anos. – Disse simplesmente a menina, que ainda com os braços cruzados voltou a olhar para o céu. Ela tentava me ignorar e ainda percebia o leve tom que queria me contrariar.
Voltei a me deitar na grama aborrecido, meu pai só poderia estar louco! Só podia!
Mas acordei sendo cutucado. Abri meus olhos pesados e sonolentos, parecia que tinha dormido poucos minutos e não horas como deveriam ter sido.
– É a sua vez — Murmurou Tom que para a minha surpresa, não parecia estar cansado; mas ele se retirou depois de me acordar e foi se deitar próximo de Clarice.
Mesmo relutante eu me levantei, não me importava de continuar a dormir naquele chão frio e duro, mas precisa ficar acordado, o problema era continuar com o tédio. Sempre olhava para a saída da gruta, que era levemente iluminada pelas luzes das estrelas, o céu realmente estava mais escuro do que quando eu fui dormir.
Com todo aquele tédio, relembrei-me de meu sonho, sorri nostálgico, não sabia que tinha ainda uma memória tão antiga. E por causa disso tentei me recordar da conversa com meu pai, quando ele me avisou sobre ela, mas não me lembrava, não conseguia.
Tenho medo de admitir que talvez não me recorde muito bem dele, só faz três anos, mas mesmo assim, parece que aos poucos eu me esqueço de sua expressão, cheiro e até o tom de voz, assim como a de mamãe.
Sentado, abracei meus joelhos com força, e a dor agonizante voltou a dar pontadas em meu coração.
É difícil admitir o que havia acontecido, agora, eu era o último integrante; e um Interfectorem era o melhor jeito de me vingar deles, por tudo que fizeram com meu país.
Encarei friamente aquelas estrelas, sabia que um dia teria a minha vingança. Ah se eu teria!
Perdi-me em meus pensamentos passados e sentindo o sabor da vingança que nem havia acontecido. Fechando-me mais uma vez em meu mundo esquecendo completamente de tudo ao meu redor.
Quando percebi o dia começou a amanhecer, me xinguei um pouco por não ter acordado Fernando e ter me distraído tanto, se alguém nos seguissem aquilo era um grande problema e eu como líder nunca poderia dar esse exemplo. Fui acordar meus companheiros para partirmos, Fernando me questionou aborrecido por não tê-lo acordado, mas eu respondia honestamente e sem dar muita importância, afinal, realmente quando percebi o dia já havia amanhecido.
Rapidamente arrumamos as coisas e estávamos prontos para sair de lá e caçar.
Agora iria começar o segundo dia.
Continua...
Notas finais
Oiii! Há quanto tempo, não é?
Bem, sei que esse começo é mais calminho e tudo mais, mas ele é muito importante para definir este mundo e as características desses quatro personagens, que serão revelados pouco a pouco.
Para mim a real historia realmente será bem mais emocionante após a prova, mas antes preciso mostrar como tudo começou.
Obrigada pelos LINDOS COMENTÁRIOS! Sabem, é muito difícil escrever uma historia original, e me surpreendo com meus leitores fieis, muiiiito obrigada a todos vcs, que sempre me apóiam. Espero que o próximo capítulo não demore a aparecer tanto quanto esse, pois quanto mais rápido sairmos dessa fase inicial mais interessante se tornará a história. Vcs que conhecem as minhas obras sabem que os primeiros capítulos sempre são mais chatos que os últimos :D.
Há! E obrigada pela recomendação Kushina! Espero que traga novos leitores. FICO muito FELIZ QUE ESTEJA GOSTANDO
Esperando por comentários e recomendações [se possível]
Bjs a todos e até o próximo capitulo!
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