Praedestinatum Em Busca Do Sonho.
6 As coisas irão ficar interessantes_Tom
Notas iniciais
Glossário:
Fraternista: fraternidade.
Interfectorem: Assassino.
Graças ao Mestre*: uma expressão, como: Graças a Deus.
Exercitus: Exército.
Elementorum Origo: Origem elementar.
Tutela: Protetor.
Patriam Ventosa: País do vento.
Somnium Vastator: Destruidor de sonhos.
Oiii. Faz tempo, nesse capítulo existe várias revelações, mas mais mistérios a serem descobertos. Espero que gostem, boa leitura.
capítulo dedicado a Kushina-sama. Obrigada por postar o capitulo, é muito bom saber que ainda tenho vc como o meu braço direito
Capítulo 5: As coisas irão ficar interessantes_ Tom
[Pov Tom]
Ainda me pergunto em cada dia o motivo de permitir estar naquela prova.
Olhei para a causadora de toda esta confusão, Clarice, que estava deitada, dormindo profundamente depois de cumprir teimosamente o seu horário de vigia.
Aquela garota nunca esteve tão teimosa quanto naquela última semana, assim como também mais temperamental, ou melhor, “rebelde”; sim, era assim que ela estava agindo. Como uma adolescente rebelde que sempre teve de tudo de bom e do melhor e que acha que ainda não é o suficiente.
Já faz quantas estações que a conheço? Cinco ou seis... Um pouco mais que um ano comparado com o antigo calendário fraternista; e nunca! Jamais! Clarice agia daquele jeito, ela sempre foi à princesinha do papai, que agia de acordo com as ordens remetidas a ela assim como eu as minhas.
E tão de repente, ela cisma em mudar seu destino... Pelo o que? Em busca de que? Ela não percebe que sua vida já era perfeita e que mudar um destino – que eu acredito nunca poder ser mudado – só trará mais problemas, que seriam desnecessários, por um destino que uma hora ou outra irá terminar do mesmo jeito? A única coisa que Clarice irá conquistar em sua busca será um caminho maior, mas que de uma maneira ou de outra terminará com o mesmo fim.
Tola garota... Quando ela irá perceber que algo que já está predestinado jamais mudará?
E eu? Fiz o que? A acompanhei ainda mais tolamente.
O pai dela vai nos matar quando perceber que ela sumiu, coisa que já deve ter percebido; e quando descobrir onde fomos parar... Estarei ferrado, certeza. Já Clarice, recebera os piores castigos que já recebera.
Deveria tê-la aprisionado e a carregado de volta ao palacete logo que percebi o que ela pretendia, mas não pude fazer isso... E agora, quando sermos encontrados pelo seu pai – E seremos – Vamos arcar com as consequências. Droga! Sabia que deveria tê-la carregado de volta para casa, mesmo ela me odiando pelo restante de sua vida.
Fui acordar Clarice, logo que o dia já havia amanhecido e quase todos os garotos já estavam de pé; Fernando teimava em não levantar, mesmo sendo cutucado incessantemente por Lucas.
Clarice, em seu modo meigo, também ronronava negando se erguer, ainda distante de mais em seu momento de sono, sem se lembrar onde e como estava.
Sabia que aqueles últimos três dias ela fizera esforços físico que jamais tenha feito em toda a sua vida. Tendo o modo de vida que teve, duvido até mesmo imaginar ela algum dia ter corrido, mesmo quando criança; admito que me impressionei com seu desempenho e empenho, parece que ela desta vez não vai admitir que tudo seja dado para si de graça...
É como se parecesse que ela esta em busca de um reconhecimento, mas a questão é: De quem?
E agora ela teima em querer treinar! Saber se defender e lutar! Só existe uma palavra para definir está situação: A-B-S-U-R-D-A! Agora eu teimo em afirmar que Clarice perdeu todo o juízo que já possuiu! E olha que até uma semana atrás ela tinha muito!
Agora ela está mais cansada do que normalmente esteja, e tudo culpa do quê? Desse maldito treino até tarde da noite. Culpa de quem? Deste Fernando malandro!
Moleque intrometido, egoísta e atrevido! Odeio quando se mete em assuntos que não lhe dizem respeito, odeio quando pensa apenas em seu próprio umbigo, mas odeio ainda mais quando comenta coisas que não deveria e observa Clarice. Quem ele pensa que é ao tratá-la desse jeito?
Ele acha o que? Que ela é uma menina igual às outras que ele já deve ter conhecido pela rua? Era só o que me faltava! Agora ter que vigiá-la de um malandro com lábia por ser... Ingênua.
Estarei com os olhos bem abertos quando eles estiverem próximos. Fernando não vai me enganar.
Clarice levantou esgotada. Mas acredito que quando se lembrou de tudo que passou e de seus objetivos, rapidamente ela tentou ficar o mais entusiasmada possível para a continuação da prova. Realmente parecia que ela gostaria muito de se tornar uma interfectorem.
Ela me cumprimentou e foi fazer a sua higiene matinal. Lucas ainda tentava acordar Fernando, que com muita resistência conseguiu, ganhando milhões de palavrões de Fernando pelo feito.
Não demorou muito para partirmos, a discussão de Fernando com Lucas sobre carregá-lo foi desta vez mais rápida. Clarice foi averiguar a ferida de Fernando, avisou que ainda não estava completamente curada, mas melhor.
Fernando desta vez não foi carregado pelo loirinho, ficando extremamente feliz. Clarice pareceu achar graça pela felicidade de Fernando. Ah esses dois...!
Estávamos em uma planície, a grama estava alta, seca e dura, tendo assim aquela cor bege sem brilho, sem água. Enquanto corríamos e pisávamos nela, parecia que cacos de vidros eram estilhaçados. A vegetação era amena e rasteira, cheia de herbáceas secas.
Percebi que Lucas olhava frequentemente para trás, desconfiado, será que finalmente alguém havia percebido?! Mas ele continuou calado, como se ainda não tivesse certeza. Pelo menos alguém finalmente desconfiava.
Continuamos a correr e correr, aumentando a velocidade, agindo de acordo com as coordenadas de Fernando.
Ok, eu admito. O garoto até que é bonzinho, sem nenhum treinamento e por ser novo até que controla bem o seu elemento natural, afinal, usá-lo pelo quarto dia seguido e não estando em perfeitas condições físicas não é para qualquer um; achei que era muito difícil achar participantes que queiram se tornar um interfectorem que controlem, mesmo que pouco, o elemento natural.
Aquela era uma manha quente, olhei para o céu e vi que não havia nenhuma nuvem, talvez, demoraria dias para chover novamente e o sol ardia sobre nós.
Entre todos os três, Fernando era o que parecia mais cansado, logicamente pela dor na perna e pelo uso excessivo de elemento natural; Clarice vinha logo depois, sei que estou surpreso pelo desempenho dela, mas ela nunca havia treinado ou exercitado seu condicionamento físico, tudo isso deve ser muito difícil a ela; já Lucas, apesar de cansado de toda essa maratona, ainda estava bem “inteiro”, sempre atento a tudo, inclusive meu olhar, me encarando tão sério quanto eu, com aqueles olhos da cor prateada esbranquiçada, sim, isso mesmo, P-R-A-T-E-A-D-A, será que Clarice também se deu conta de que tribo ele veio? Talvez, afinal, isso é um assunto proibido e poucos sabem da verdade; preciso tomar cuidado com este também, ele é muito misterioso e pode oferecer perigo a Clarice se descobrir quem ela realmente é, mas paramos de nos encarar quando Fernando informou:
– Nosso time caçado parou de correr, estão parados. Se continuarmos com esse ritmo, com certeza os alcançaremos antes de escurecer.
– Finalmente. – Afirmou Lucas que trocou olhares cúmplices a Fernando, já se sentindo vitoriosos.
Corremos e corremos, até o sol começar a se pôr e Fernando diminuiu sua velocidade e informou:
– É melhor nos aproximarmos cautelosamente. – Acompanhávamos Fernando em sua velocidade, que começou a andar silenciosamente. – Eles estão a 400 metros a nossa frente, mas nessa planície seremos facilmente localizados a metros de distância.
Andamos por mais 250 metros, depois Lucas deu a idéia de nos arrastarmos sobre a grama seca e alta, nos aproximando silenciosamente do time 53 para atacarmos de surpresa e capturá-los.
Enquanto nos arrastávamos sobre a grama podia sentir ela arranhando meu rosto, aquilo era insuportável, fora à coceira que provocava na pele exposta do corpo.
Fernando era quem nos guiava, quase emparelhado com Lucas, ao seu lado direito ainda um pouco para trás estava eu, já Clarice permaneceu atrás de mim depois do olhar sério que lhe lancei com o que eu também lhe avisava para não sair de perto de mim.
Quando mais próximos nos tornávamos do time 53 mais cautelosos tentávamos ser, percebi que Lucas lançou um olhar sério para Fernando como se pedisse que dessa vez ele não fizesse barulho e chamasse a atenção do time inimigo, e Fernando respondia também com o olhar que dessa vez não faria aquela burrada. Porque ele realmente foi muito burro em colocar esse time em uma luta desnecessária há dois dias atrás, sem contar que foi ele que saiu mais prejudicado na luta anterior com o corte na coxa.
Finalmente conseguimos ver com mais precisão o time inimigo, os integrantes estavam sentados conversando sobre algo que naquela distância não passava de murmúrio para nós.
Três eram negros e apenas um branco com longos cabelos negros que estavam presos em uma trança. Todos obviamente mais velhos que nós, deviam ter de 25 a 30 anos.
Continuamos a nos aproximar o mais cuidadosos possíveis, se fossemos descobertos tudo daria errado.
O sol estava se pondo entre as colinas, logo ia anoitecer, e por isso percebi a aflição de Lucas aumentar, acho que ele não sabia definir se era melhor atacá-los durante a noite, enquanto dormiam e alguém ficava de vigia, ou agora no claro onde a iluminação ajudava em qualquer ataque, e eu sabia que ele ainda estava desconfiado sobre o que tinha percebido quando começamos a correr naquele dia, sabia que era melhor atacar enquanto estivesse claro.
– Vamos esperar até à noite, não é? – Fernando perguntou sussurrando para Lucas.
Um negro ergueu-se do tronco de árvore caído que antes estava sentado e caminhou para o leste, talvez para pegar algum alimento, pois naquela mesma região iniciavam-se herbáceas mais bem desenvolvidas e assim árvores de médio porte, obviamente aquele integrante iria a busca de água ou alimentos.
– Não... – Murmurou Lucas finalmente encarando um dos integrantes se afastar – Não estou com um bom pressentimento – E virou a cabeça para trás, encarando a mim e Clarice – É melhor atacarmos enquanto ainda é claro.
Sabia que Lucas tomara a decisão certa, Clarice por perceber que fiquei calado sabia que eu concordava com a ordem, por isso também não discordou, enquanto Fernando apesar de girar os olhos discordantes não teimou desta vez com o líder.
– Vamos começar por aquele que está sozinho, eu vou atrás dele...
– Não, eu que vou Lucas. Relaxa, não farei besteira desta vez.
Fernando não esperou por uma resposta, ainda silenciosamente se arrastou na direção leste, cuidadosamente.
– Vê se não demora muito – Murmurou Lucas tão baixo que tive duvida que até mesmo Fernando, que estava relativamente ainda próximo de nós, conseguiu ouvir.
Aproximei-me de Lucas, que permanecia parado e analisava a distância o time 53. Olhei para Clarice, ordenando:
– Não saia de perto de mim.
– Eu sei. – Resmungou Clarice.
Voltei-me para Lucas, que estava sério e pensativo. Ele realmente raciocinava no que seria melhor para o time não se machucar, aquela era uma atitude tão incomum; e por um momento voltei a me perguntar se a escolha do líder foi aleatória para o Messor. Porque se Lucas naturalmente pensasse daquele jeito, ele seria um líder nato. Mas como o Messor sabia disso?
– Vamos esperar o Fernando voltar? – Perguntei.
– Não sei. – Respondeu hesitante – Se eles perceberem que o colega está demorando de mais irão atrás dele e então teremos que agir. Vamos esperar para saber o que fazer.
Não respondi, mas não concordava com ele, quanto mais esperássemos mais tempo se passava e assim se aproximava o anoitecer. Para capturá-los precisávamos de um plano, e Lucas não tinha um, achava que capturá-los seria tão simples que apenas uma luta mano-a-mano seria o suficiente? Ainda é tão inexperiente.
Continuamos a nos aproximar sorrateiramente, até que ficássemos em uma distância que pudéssemos ver claramente seus rostos, mas continuamos em silêncio, agora, se nos mexêssemos constantemente pela grama com certeza eles perceberiam.
Olhei Lucas que estava sério e pensativo de mais, ele não deu nenhuma ordem, apenas esperou. Esperou de mais.
– Ei! Aquele idiota está demorando muito! Tenho certeza que deve ter se perdido. – Resmungou um integrante do time 53, um negro com longas trancinhas que eram presas entre elas.
Ele se ergueu, pronto para ir a busca do companheiro. E assim, bem de repente, Lucas também se levantou, chamando a atenção dos três integrantes do time inimigo para si.
– Avisa antes – Murmurei me erguendo e encarando furioso Lucas, sabia que Clarice me acompanhava.
– Agi impulsivamente – Respondeu com um sorriso amarelo, mas não tirou os olhos de nossos inimigos, dando alguns passos para frente tentando diminuir a grande distância que ainda tínhamos deles.
– Espero que Fernando esteja bem – Murmurou Clarice enquanto nos aproximávamos do time 53.
– Eu espero que esse time não nos de mais problemas que o outro. – Lucas afirmou a nossa frente. E eu concordava com ele, dessa vez Clarice não iria se meter em nenhuma luta.
– Qual de vocês é o líder? Eu quero este para mim. – Informou o branco com longos cabelos escuros presos em uma longa trança.
Lucas deu um passo à frente, encarando seriamente os olhos claros de seu inimigo, sendo também analisado.
– Oras, há quanto tempo que não vejo alguém com essa cor de olhos – Informou sorridente seu inimigo estralando os dedos – Você deve ser um mestiço da tribo... – Foi interrompido pelo próprio Lucas, sabia que não era o único que desconfiava das origens dele.
– Pare de tanta ladainha e venha lutar de uma vez! – E imediatamente ele avançou em seu inimigo. Pelo visto ele não gosta de falar sobre o passado.
Percebendo o que o “meu” líder avançou sobre o deles, os dois negros se prepararão para lutar contra Lucas também, por isso tive que avançar também e cuidar dos dois.
– Fique aí Clarice! E não é para sair de maneira nenhuma! – Estando com todos os inimigos era mais seguro Clarice ficar afastada, e desta vez estaria mais atento na luta de Lucas, para que o inimigo dele não ofereça perigo a ela.
O negro de olhos azuis tirou uma longa espada de dentro de sua bainha enquanto o que tinha o penteado de black power prendia grossas correntes em seus punhos, deixando as pontas livres. Por que eles não lutam sem armas? Seria bem mais simples...
O de black power começou a girar as pontas soltas da corrente, aumentando a velocidade ao máximo que ele conseguia, e avançou, junto com seu companheiro com a espada erguida. Correram em minha direção gritando.
Olhei rapidamente para Lucas que já trocava socos e chutes com seu inimigo; sortudo, o inimigo dele não tinha armas.
O negro com a espada foi o primeiro a me atacar, tentando me cortar na vertical de cima para baixo, sem dificuldades me desviei indo para o lado; mas fiquei mais atento com a investida do negro de black power, as correntes giravam circularmente, o bom que consegui, sem dificuldades, calcular seu diâmetro e assim a área que poderia ser atingida por elas, me desviando de todos os ataques, mesmo se os dois atacassem juntos. Afinal, eles não eram nada, acho que com apenas nove anos já acabaria com os dois em poucos minutos. Aff! O que eu vim fazer nessa prova mesmo?
Em reflexo olhei para a direita, no inicio de floresta que Fernando havia entrado minutos à trás, havia observado um vulto. Droga!
CLARICE!
Para não perder tempo fiz com que a corrente se chocasse em meu braço esquerdo deixando-o ainda firme. A corrente começou a se enrolar em meu braço com a velocidade, rapidamente a segurei na palma da mão e puxei meu inimigo, onde o recebi com um soco de direita em seu rosto, e apesar de não usar nem um quarto da minha força, sabia que ele ficaria pelo menos um dia desacordado. Ainda, em frações de segundos, com o braço direito, fiz movimentos circulares com a corrente que eu permanecia a segurar, assim comecei a girar o corpo desacordado. Fiz com que este corpo se chocasse com o cara da espada, que voltava a me atacar, com a velocidade o peso do corpo desacordado se tornou maior fez com que o choque dos corpos mais brusco. Larguei a corrente. Nem observei a queda deles, girei os calcanhares e corri até Clarice, me assustando por já ver uma forma humana atrás dela.
Ah não!
– Atrás de você! CUIDADO CLARICE! – Senti minha respiração prender ao ver a forma humana tentar jogar algo posicionado atrás dela.
Ela mal teve tempo de interpretar minhas ágeis palavras, apenas ainda tinha seus olhos da cor verde mais claros que já pude ver esbugalhados; assustada pelo meu grito.
Eu sempre estava preocupada de mais com ela, e mesmo a minha visão tão atenta a dela, meu corpo não estava tão próximo para salvá-la.
Foi tudo tão rápido, que mesmo no entardecer, parecia que era o horário mais tardio da noite, onde a penumbra escondia os movimentos ágeis realizados perto dela.
Tudo que consegui acompanhar foi alguém, além de mim, correr até ela. Está pessoa, vinha em direção da pequena floresta de herbáceas, que estava mais próximo do que eu sobre Clarice. Ele se jogou sobre ela, fazendo com que a coisa que seria jogada nela, não a acertasse, e sim a ele. Tudo que eu pude ouvir foi o grito assustado de Clarice. Já a pessoa que a tentou capturar desaparecer do mesmo modo que apareceu, de repente.
– Clarice! Você esta bem? – Rapidamente já havia chego perto dela, que estava caída no chão, assustada de mais. Droga! Por que sempre que saiu de perto dela algo acontece?!
– Fernando... – Sussurrou muito chocada, olhando frequentemente para o lugar que antes estava – Levaram o Fernando... Ele tentou... – Suas palavras desapareceram de acordo com as palavras ditas mais angustiantes – Ele tentou me salvar. O levaram, Tom!
– Está tudo bem Clarice, tudo vai ficar bem. – Me agachei tentando ajudá-la a se levantar, mas assim que a toquei senti uma enorme dor de cabeça. Tão aguda e avassaladora que não consegui suprimir um gemido de dor, mas não deu tempo nem de ouvir as palavras preocupadas de Clarice, tudo ficou preto.
Então eu vi...
Uma jovem de longos cabelos negros, que cobria todas suas costas, estava abraçando um homem pelo menos uns 10 centímetros maior que ela, onde suas mãos pousavam em volta do pescoço negro dele. Seus lábios cálidos se tocavam em um beijo sôfrego, que apenas terminou, pelo homem se afastar, mesmo relutante.
Piscou os olhos aturdida a dona de olhos da cor verde extremamente claro; assim como o dono de olhos das cores azuis médios com uma tonalidade arroxeada. Ele abriu e fechou a boca diversas vezes, mas nada disse.
Sim, era ele. Fernando, alguns anos mais velho. Seus cabelos continuavam curtos, quase raspados. Ele estava mais alto, tendo também expressões faciais mais sérias, contornos mais retos e definidos. Usava uma calça preta comum sem nenhum rasgo ou surrada, diferente da atual. Assim como uma camiseta, que era sem mangas, onde seus músculos bem definidos estavam à mostra. Ele estava mais velho, mais amadurecido.
– Você não deveria ter feito isso, Clarice. – E pela primeira vez ouvi-o dizer algo seriamente, um tom duro e até mesmo ignorante. Sua voz havia se tornado bem mais grave do que agora.
Ela ergueu o rosto, onde levemente as bochechas estavam coradas. Mas tinha uma expressão tão séria quanto ele, mesmo com os olhos marejados. Clarice não usava as roupas atuais, e sim algo mais curto, mas não vulgar, ela jamais usaria uma roupa assim. Apenas que realçava mais suas curvas bem definidas e femininas.
– Eu não posso mais esconder. Eu te amo, Fernando.
– Clarice... – Ele parou quando encarou os olhos marejados e percebi que escolheu as palavras com cuidado, talvez com medo de machucá-la ainda mais – Eu te amo, mais não do jeito...
– Que eu quero, não é? – Ela completou suas palavras e mordeu o lábio inferior, como se fosse uma tentativa de estagnar a vontade de chorar, mesmo seu queixo vibrando. – “Sou a mascote do velho time, a irmãzinha que precisa ser sempre salva” — Imediatamente tentou cortar o contato visual, mas dessa vez foi Fernando que não permitiu, segurando seu rosto.
– Que precisava ser salva. Não mais, não percebe o tão forte que se tornou? – E sorriu, aquele antigo e tão presente sorriso dele – Já fez tantas coisas que eu não duvido que logo terá histórias sobre a “A princesa da terra”. Não precisa mais provar nada a ninguém, está me escutando bem Clarice? N-i-n-g-u-é-m, inclusive você mesma. Você não é mais a adolescente rebelde à procura de liberdade que conheci. Você cresceu, se tornou forte, inteligente e muito menos inocente. Agora você conhece o mundo e o mundo te conhece e respeita. Isso não é o suficiente, minha pequena?
Mas parece que ouvir o modo que Fernando a chamou só a decepcionou mais ainda, ficando irritada.
– Não para você.
Clarice se afastou em um movimento brusco, enquanto Fernando suspirou pesadamente e colocou uma das mãos na cabeça em um ato desesperado.
– O que você faz aqui? Por que Fernando!? Por que me trouxe para cá!?
– Está na hora de você voltar para casa, já a metemos em confusões para o restante da sua vida. Já aprendeu tudo que tinha que aprender. Mas não pode participar desta guerra.
– Eu não me importo.
– Mas nós nos importamos. E agora, você precisa voltar, seus pais precisam de você, seu pai precisa. – Informou cada vez mais sério, deixando Clarice desconfortável. Ele sabia que tinha que escolher as palavras certas para não machucá-la ainda mais, parecia que a conhecia tão bem quanto eu. E ele se importava, e muito. — Tom era muito mais necessário à viagem com Verônica do que eu. E nós dois sabemos que ele é cabeça dura de mais para deixá-la fazer sozinha uma viagem tão distante. Lucas jamais poderia lhe acompanhar, e então aqui estou eu.
– Achei que se importava comigo.
– E ME IMPORTO! Mas não posso ser o que quer. Não pertencemos ao mesmo mundo.
– Não precisa arranjar desculpas para dizer que não gosta de mim.
– Não quero te machucar, Clarice. Não quero destruir tudo que já passamos juntos, foram tantas coisas...
– Não se preocupe – Ela se voltou para ele, secando uma das lágrimas teimosas que escorregou pela sua face de expressões sérias. Ficou com os braços cruzados e o encarou um pouco distante. – Não vai destruir, você não tem culpa de meus sentimentos. Eu só... Não posso mais continuar a enganar você e a... Mim mesma. Não posso fingir que está tudo bem, não posso mais esconder ficar magoada ou irritada quando você está com outra!
– E não precisa. – Respondeu rapidamente – Não mais. Está de volta a sua casa, a sua terra natal. Não precisa mais sair daqui. Não precisamos mais nos ver, se isso te machuca. – Percebi uma ligeira hesitação, principalmente em suas últimas palavras, mais que Clarice nunca teria reparado preocupada de mais com a dor em seu coração que era dilacerado. – Se eu ficar próximo de você irei te machucar, já fiz isso por tempo mais que suficiente.
– Você sempre soube. – Ela não perguntava, afirmava, com os olhos cada vez mais marejados e encarando decepcionada Fernando, que permaneceu calado, assim como também se condenava. – Você está certo, Fernando. Não podemos mais nos ver – Terminou dizendo com a voz esganiçada. De costas a ele correu em direção dos enormes muros, sem nem ao menos se despedir.
Por isso ela não viu a expressão de dor que ele fez, assim como as gotículas de sangue que escorriam de seu punho que havia se cortado pela enorme força que Fernando exercia nele. Muito menos o estranho brilho que apareceu em seus olhos.
– Pertencemos a mundos diferentes, minha Clarice. – Sussurrou para si mesmo, como se quisesse se convencer de suas próprias palavras.
Tudo que ele fez, foi permitir observar ela correr de volta a sua terra natal. A visão se tornou turva novamente, onde a cor escura se fundia com as expressões de Fernando e aos poucos todas as formas do cenário se desmanchassem.
– TOM! TOM! – Alguém me chamava em um tom de voz estridente, mesmo que no começo parecesse baixo e oco. Aos poucos os sons se tornaram mais reconhecíveis, assim como os timbres de voz.
– Ele vai ficar bem?
Senti minha cabeça estalar, em uma dor tão aguda que mais uma vez não consegui reprimir o gemido de dor. Abriu os olhos com dificuldade, as imagens não eram nítidas, apenas uma presença de cores sem formas; senti todo o meu corpo dolorido, de uma forma tão aguda que sentia os músculos de meu corpo em fadiga e trêmulos.
– Ah! Você recordou a consciência! Graças ao Mestre*!!! – Nem precisava estar enxergando perfeitamente para saber que Clarice quase chorava de preocupação.
– Mas o que aconteceu!? – A pergunta exclamada de Lucas só fez com que eu ganhasse uma pontada forte na cabeça, um dor insuportável. Fechei os olhos marejados, aquela dor acabava comigo.
– Não grite, Lucas. – Pediu suplicando em um sussurro Clarice. – Você teve uma visão do futuro, não é? – Sabia que ela devia ter perguntado a mim, afinal, não era ao Lucas que ela perguntava aquilo. Sim, eu sabia sobre todos os segredos dela, tudo de seu passado, mas ela também me conhecia tão bem quanto eu a ela. – Afinal, só pode ser do futuro, porque eu não vi nada.
– O que você quer dizer? – Lucas que ouvia as palavras de Clarice atentamente estava confuso e curioso.
Mas Clarice permaneceu em silêncio, sabia que não tinha o direito de dizer tantas coisas a Lucas relacionada a mim, algo assim, tão intimo meu. Se ele deveria saber da verdade, tinha que ser por mim mesmo.
Abri novamente meus olhos, as imagens ainda eram turvas e apenas com a presença de cores; lentamente se tornou mais identificável. Eu estava sentado apoiado em algo, Clarice com certeza. Ao meu lado estava Lucas, abaixado também, pelo seu semblante, preocupado.
– Eu tenho visões, sempre tive. – Percebi que Clarice exclamou, surpresa de mais por eu contar isto para alguém “desconhecido”, mas depois do que vi e tirar minhas próprias conclusões era impossível não confiar nele. – Não é algo que possa controlar, apenas acontece quando toco na pessoa. Eu vejo tanto passado quanto futuro, mas quando é sobre o passado, a pessoa que toquei acompanhara o que eu vi...
– E deixa uma dor de cabeça terrível – Clarice completou. Ah! Sim, a dor de cabeça era terrível mesmo! Como eu sabia bem disto e ela também, pelo fato de sempre estarmos próximos ela era quase sempre era a minha cobaia.
– Mas quando é algo futuro, eu sou o único que vejo. – Murmurei colocando as mãos nas temporadas da cabeça. Sentia cada pulsação de sangue circulando em minha cabeça, onde eu rezava para que meu coração chegasse até a bater mais lentamente para que doesse menos.
Ainda aturdido de mais, olhei rapidamente ao nosso redor. Não estávamos mais no campo aberto de grama alta da planície, e sim naquela pequena floresta de herbáceas. Onde não muito afastados, estavam quatro homens amarrados, a corda eu me lembrei que era a que Clarice tinha ainda guardado dentro de sua mochila, bem útil para prender nosso time capturado.
– Todos estão desacordados. – Alertou Lucas – Viemos para cá para saber o que aconteceu com o cara que Fernando lutou, estava no chão desmaiado. Mas não demorara muito para que algum deles recorde a consciência.
Um silêncio reinou incomodo, abri meus olhos com dificuldade pela dor ainda de cabeça e finalmente perguntei:
– Fernando realmente foi levado?
– Sim. – Lucas permaneceu um tempo em silêncio e se ergueu desconfortável – Hoje de manha eu havia percebido que tinha algo errado, não sei desde quando ou por quem, mas estávamos sendo seguidos. Provavelmente o time que nos caça.
– Sim. – Olhei para cima e agradeci pelo fato do sol já ter se escondido atrás das colinas e houvesse menos claridade, porque se não, a minha dor de cabeça estaria pior. – Estamos sendo seguidos desde a luta perto do lago. Foi lá que eles nos localizaram e nos seguiram.
– Então você já sabia faz tempo! – Exclamou Clarice ao meu lado, fazendo com que eu imediatamente fechasse meus olhos de dor de cabeça. Ela precisava gritar?
– E você não disse nada porque não quer se envolver nessa prova, não é? – Perguntou tranquilamente Lucas. Não era apenas eu que fiquei surpreso com suas palavras, Clarice também. O que ele realmente sabia sobre mim? Pior, o que ele sabia sobre Clarice? – Tudo bem Tom, não vou te julgar, você não quer e nem precisa se tornar um interfectorem, já trabalha para o exercitus...
Nem permite ele terminar de falar ou liguei para a minha dor de cabeça e fadiga muscular. Apenas avancei, tão rápido que quando percebi já o havia derrubado e o segurava em um golpe que paralisava todo o seu corpo, com a cabeça no chão, Lucas teve dificuldade para dizer:
– Ei relaxa! Não vou contar para ninguém sobre seu segredo!
– Tom! Não machuca ele! – Gritou ao mesmo tempo Clarice.
– O que mais você sabe?! – E o pressionei ainda mais sobre o chão, torcendo também um de seus braços quase o quebrando – O QUE MAIS!
– CALMA CARA! Eu te falo, mas me larga!
– LARGA ELE TOM!
Aquela gritaria estava me deixando nos nervos. O larguei sim, relutante, mas Clarice me lançava um olhar tão sério que eu por um momento reconheci a Clarice da visão, a mais séria e madura.
Fique próximo e na frente dela para garantir proteção se Lucas a ameaçasse de alguma forma. Ele se sentou no chão, mexendo no braço que eu quase quebrei.
Olhei para o time 53 capturado e averiguei se eles realmente estavam desmaiados, porque se não estivessem e ouvissem aquela conversa, talvez, Clarice estivesse mais exposta ao perigo. Mas eles estavam.
– O que mais você sabe? – Perguntei novamente com o maxilar travado, eu só não exclamava porque a minha cabeça realmente pulsava de dor.
– Pode ficar tranquilo – Disse Lucas ainda flexionando o braço dolorido – Eu não ofereço perigo a Clarice, nunca faria nada a uma pessoa do elementorum origo. E não me olhem desse jeito. É tão obvio, é só olhar para os olhos dela!
– O que mais você sabe?! – Exigi encarando-o cada vez mais sério. Quantas vezes eu teria que repetir essa pergunta? Encarei-o e averiguei a cor de seus olhos que eram prateados em um tom esbranquiçado! Não era possível!
– Eu vi a tatuagem de vocês – Murmurou sério, olhando para nossos braços. Como?! Não... Ele não pode saber o significado das tatuagens. Poderia? – Quando Clarice está em perigo, à tatuagem aparece em ambos, no braço, como um tipo de aviso a você, Tom. Você é uma tutela. Criado apenas para cuidar de uma pessoa, no seu caso, Clarice.
– C-como você sabe... Disso? – Clarice estava mais surpresa do que eu – Isso é um segredo que apenas um elementorum origo sabe, isso não quer dizer que todos tenham. Como é possível você também saber?
– Porque ele também é um, não é Lucas? – Era tão obvio Lucas pertencer a um elementorum origo quanto Clarice, por isso seus olhos possuem a cor prateada! – Achei que todos os habitantes de Patriam Ventosa foram mortos pelos Somnium Vastator. Os primeiros a serem mortos foram os mais próximos do Líder do Vento, portanto, os elementorum origo de Patriam Ventosa. Você deveria estar morto.
– Sim... – Ele me encarou, mas por um momento parecia que ele não me enxergava, apenas se lembrava, com tristeza, de seu passado – Eu deveria estar, mas não estou, sou o único e último sobrevivente de Patriam Ventosa.
Percebi que algo o incomodava, talvez ele soubesse mais sobre Clarice e eu, talvez não. Mas algo me dizia que Lucas não era perigoso, não oferecia perigo a mim ou Clarice. Com a visão que tive, parecia que nosso encontro não duraria até essa prova, parecia que ficaria unida por algumas várias luas.
– Você guarda o nosso segredo e nós guardamos o seu. – Propus no final, querendo tirá-lo daquele transe, onde ele estava mergulhado em uma onda de tristeza e se lembrava de se passado. Eu não tinha o direito de lhe trazer memórias melancólicas.
– Certo, é melhor não tocarmos nesse assunto de novo. – Lucas concordou, voltando a se levantar e batendo nas vestes sujas de terra seca.
– E o que faremos por Fernando? Ele foi capturado! – Rapidamente Clarice mudou de assunto, aquele dia estava longe de terminar nossos problemas.
– Precisamos ir resgatá-lo, não passaremos da prova se o time não estiver completo – suspirei cansado concordando com as palavras de Lucas, afinal, ele salvou Clarice.
– Eu vou atrás dele. E vocês dois irão carregar aqueles quatro na direção do local demarcado de entrega. Os alcançarei antes que percebam.
– Achei que não ia se envolver com a prova.
– E não iria, Clarice. Mas ele te salvou, não é? Devo uma a ele.
A encarei, que sorriu para mim e me abraçou com força. Não sabia definir se ela estava feliz por saber que eu ia resgatá-lo ou pelo meu envolvimento na prova, talvez os dois. Será que já estava apaixonada pelo Fernando? Não... Clarice é inocente, mas nem tanto. Ela precisa ter muito mais convívio com alguém para começar a sentir isto, pelo visto, terei mais convivência com Fernando do que eu possa um dia ter imaginado.
Enquanto também abraçava Clarice, olhei na direção de Lucas, que nos observa, e então disse:
– Se eu não soubesse de seu segredo, com certeza diria para que todos nós fossemos resgatar Fernando, mas eu sei, e por isso também sei que se Clarice e eu formos, iremos te atrapalhar.
Eu e Clarice nos afastamos e então lhe respondi, ainda lhe encarando:
– Cuida dela, está bem. Estarei de volta antes que perceba.
– Eu sei.
Olhei para Clarice que tinha em seu rosto uma expressão preocupada:
– Traga Fernando de volta, mas cuidado, eles estarão em quatro e você é apenas um.
Sorri para ela e coloquei a minha mão sobre sua cabeça, como eu sempre fiz.
– Vê se relaxa, é sempre você que atrai confusão.
Não demorou muito para eu partir. Sabia para onde tinha que ir. Eu nunca perderia a presença de alguém que fiquei próximo por quatro dias, sentia a presença de Fernando a kilometros de distância, mas nada que uma boa corridinha, em uma velocidade bem mais rápida que eu estava fazendo não resolva.
Olhei para o céu que começava a escurecer, o sol já havia se recolhido, e a minha caçada seria noturna. Do jeito que eu mais gosto.
Quase me esqueci da minha dor de cabeça, ela continuava presente, mas não tão forte quanto antes. E isso me relembrou a visão que eu tive. Quando será que aquilo vai acontecer...? Um ou dois anos à frente de acordo com o calendário fraternista? É, talvez.
Por algum motivo parece que Lucas e Fernando farão companhia a mim e Clarice por um bom tempo.
A questão é: por que?
Pelo vistos as coisas irão ficar interessantes.
Continua...
Notas finais
foto: Tom
Juro que tentei atualizar o mais rápido possível, gostaria muito de conseguir postar um capitulo por semana, mas é muito difícil escrever uma fic original.
Primeiramente espero que tenham gostado, eu acho que ficou muito bom.
Muitos mistérios ainda precisam ser desvendados, primeiramente o passado de cada um, e então as coisas ficam mais claras.
Sei que devem estar muito confusos nas palavras novas que sempre estão em itálico, mas seus significados serão desvendados logo, principalmente por Fernando, afinal, de todos é o único que não conhece a linguagem antiga, e assim mostrarei para vocês e deixarei mais claro o passado de cada personagem.
Bem, espero que tenham gostado, até a próxima!
ESPERANDO VÁRIOS REVIWES, AQUELES ENOOOORMES QUE EU TANTO AMO :D
se possiveis, recomendações.
Bjs nessa
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