Pra você guardei o amor
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Os dias passavam rapidamente e transformavam-se em semanas. O outono estava indo embora derrubando as folhas e amarelando o chão das ruas deixando-as escorregadias. Os primeiros indícios do inverno já podiam ser vistos e sentidos. Botas e casacos já dominavam as calçadas e as vitrines das lojas.
Conforme o tempo passava a amizade e afinidade entre Regina e Emma só aumentava, adoravam dividir o apartamento e uma já integrava a rotina da outra. Funcionavam bem juntas.
Emma havia aprendido sobre os humores de Regina. O sorriso de canto de boca quando estava contrariada, mas não conseguia não rir das palhaçadas da loira, o ato de morder o lábio inferior enquanto as mãos pousavam nas têmporas quando estava pensativa e os olhos completamente negros quando estava realmente chateada. Nesses nublosos dias Emma apenas estava lá, sem dizer nada, sem pedir nada, só estava lá e Regina sabia e apreciava isso.
De outro lado, Regina ainda se pegava maravilhada com o quanto que Emma conseguia lhe surpreender. Era como se em uma só pessoa ela fosse cem ao mesmo tempo. E todas as Emma’s que viviam nela se encaixavam em Regina como as peças de um quebra cabeça perfeito. A morena gostava da percepção da amiga para seus humores, como ela sabia quando precisava desesperadamente de rir, ou como quando ela simplesmente precisava da presença dela ali, sem falas, sem brincadeiras e sem risos. Somente sua presença. Aprendeu também sobre as reações da loira. Quando mordia os lábios, Regina sabia que era a sua timidez falando e a morena implicava com ela só para poder ver seu rubor. Era uma graça ver Emma corar.
Ambas dividiam todas as contas, Emma fazia questão disso, era orgulhosa e honesta a um ponto quase doentio e apesar de pagarem uma gentil moça para proceder com a limpeza do apartamento ao menos uma vez por semana Regina tinha quase certeza que a loira quando se cansava de estudar, ou precisava de alguma distração, ela mesma limpava o lugar, minuciosamente, pois a morena nunca encontrava uma poeira se quer. Já perguntou isso para Emma, mas ela desconversou.
Era estranho para ambas o quanto se preocupavam uma com a outra. Se Regina demorava muito a chegar Emma já ficava preocupada sabendo que o dia não deveria ter sido fácil. Se Regina chegasse em casa antes da loira não tirava os olhos da janela. Era enlouquecedor para a morena a insistência de Emma em andar a pé. Ela não estava mais em sua cidade pequena e quando a porta finalmente abria ela soltava o ar sendo surpreendida pelo fato dele ter estado preso sem ela ao menos perceber.
Hoje era um dia desses em que Regina estava com o ar preso em seus pulmões. Era sexta-feira e decidira sair cedo do escritório para aproveitar à tarde com Emma já que ela não tinha aula até tarde e tinham que fazer umas compras que estavam adiando desde a semana anterior. A geladeira já parecia um filme de faroeste gelado. Isso estava enlouquecendo Emma, mas os horários de ambas ainda não haviam coincidido.
Havia chegado em casa perto das três da tarde e o apartamento estava silencioso demais, a mesa do café ainda estava posta já que as duas levantaram tarde e nem dera tempo de limpar. Regina achou estranho, mas talvez a loira tenha ficado com um de seus amigos já que sabia que a morena não estaria em casa.
Regina já tivera a oportunidade de conhecê-los, e se Emma não fosse por si só, tão peculiar ela não acreditaria na composição daquele grupo. Tinha aquele convencido do Neal que dava em cima de Emma descaradamente e Regina não gostava dele nem um pouco, ela não dava nem um pingo de bola para ele, mas isso não significava que Regina tinha menos ciúme. Ana parecia uma princesa de contos de fadas que realmente vivia com a irmã má, até Regina havia se assustado com a figura pálida e cheia de tatuagens que é a irmã de Ana quando se encontraram em um supermercado. Ela não dormiria debaixo do mesmo teto que aquela criatura. Tinha Mulan, que Regina julgava a mais séria e sensata do grupo, um pouco parecida com ela talvez, além de ser a super protetora de todos.
E tinha um ser chamado Ruby. A primeira vez que Regina pôs os olhos naquela criatura não conseguiu imaginar como aquilo poderia estar fazendo mestrado. Parecia que a única coisa em que Ruby poderia ter se graduado era na faculdade de como desapontar seus pais com a rebeldia e a vadiagem, mas segundo Emma ela era extremamente inteligente e Regina resolveu acreditar, já que Emma não possuía o hábito de mentir.
Regina havia passado boa parte da tarde controlando o impulso de ligar para qualquer um deles para saber de Emma, até arriscou umas chamadas para a loira, mas a ligação caiu de tanto tocar.
Quando já eram quase oito horas da noite Regina mandou a sanidade para o inferno, foi até o quarto de Emma e procurou em suas coisas o telefone de algum deles, por fim achou o de Mulan e discou apavorada, sua mente já pensando em mil probabilidades de onde ela poderia estar. Um desfecho pior que o outro.
—Alô. – A oriental disse do outro lado da linha.
—Oi Mulan, é Regina amiga da Emma, tudo bem? – Regina falava apressada, apesar da cordialidade só queria chegar direto ao ponto.
—Tudo bem Regina, você parece preocupada. – Regina suspirou, sabia que gostava dessa garota.
—É a Emma, ela ainda não chegou em casa. Não mandou nenhuma mensagem e nem atende as minhas ligações. Ela está com você, ou você sabe se ela está com algum amigo de voes? — Sua voz, geralmente rouca, já estava um pouco estridente.
—Não Regina. Meu pai foi me buscar hoje na universidade e acabamos dando carona para Emma, mas ela insistiu para deixá-la em uma confeitaria há umas duas quadras do prédio de vocês para comprar bolinhos de maçã, que segundo ela você iria adorar. Meu pai até tentou argumentar contra, mas sabe como ela é teimosa. – Regina suspirou. Ela sabia. – Regina, você ainda está aí?
—Sim Mulan, estou.
—O que vai fazer? Precisa de ajuda?
—Ligue para os amigos de vocês – ela disse – que eu vou começar a fazer o que já deveria estar fazendo.
—Que seria?
—Ligar para todos os hospitais da cidade, e rezar para que ela esteja bem.
—-**-
Emma realmente não vira a hora passar. Quando o pai de Mulan a deixara na porta da confeitaria Emma entrou e comprou alguns bolinhos de maçã que havia visto na vitrine. Regina amava maçã. Quando voltava para casa passou em frente a uma construção simples que nunca havia reparado pelo caminho que já fazia há três meses. Seu coração parecia acelerado e ela sentia uma imensa vontade de entrar. Um nó se formou em sua garganta quando olhou a pequena placa com letras colorida que dizia “lar de crianças Madre Tereza”.
Ela não pensou. Seus pés pareciam ter vida própria. Ela subiu as escadas abriu a pequena porta e a noviça a olhou por trás da mesa de carvalho já gasta.
—Pois não senhorita? – Perguntou com certa dúvida se Emma estava no lugar certo.
—Olá. – ela disse incerta e a mulher esperou – desculpe eu realmente não sei porque entrei aqui. Me bateu uma vontade e quando eu vi já estava aqui dentro, parece loucura eu sei, mas não há outra explicação. –Emma corou. Estava tagarelando. A freira sorriu gentilmente para ela.
—Existem coisas senhorita... – A olhou com cara de interrogação.
—Emma.
—Existem coisas senhorita Emma que não tem explicação. Somos um lar que cuida crianças abandonadas pelas suas famílias e crianças sempre despertam uma ternura na gente que não somos capazes de explicar. Às vezes essa ternura ultrapassa os muros de concreto e atinge pessoas como você que entram aqui sem realmente entender o porquê.
Emma refletia as palavras da mulher a sua frente e a resposta a pergunta que tinha pensado em fazer veio antes mesmo dela a expor em palavras.
— Se quiser, pode entrar e conhecer as crianças. Elas realmente se animam com visitas. – Ela sempre exibia um sorriso terno.
Emma apenas assentiu e deixou ser guiada pela mulher que parecia ser da mesma idade que ela. Deixou-a em um átrio tendo que voltar para a recepção. O lugar estava estranhamente silencioso. A direita Emma pode ver uma capela e sentiu vontade de ir lá, mas antes que pudesse se mover sua atenção foi chamada por uma senhora, bem mais velha em seu hábito cinza.
—Olá querida. Boa tarde.
—Boa tarde senhora. A moça lá na frente disse que eu poderia entrar para ver as crianças. Mas aqui está tão silencioso que quase duvido que há alguma criança aqui. – Respondeu sem graça.
_Oh querida, esse silencio já vai acabar. As irmãs foram acordar as crianças menores e os mais velhos estão terminando suas lições de casa. E aí isso aqui enche de vida. – Ela dizia com um sorriso maior a cada palavra. – A propósito, sou a Madre Cecília.
—Sou Emma. – Apertaram as mão — Quantas crianças cuidam aqui? – Perguntou Emma.
—Temos 35 ao total. – Emma ficou impressionada – Só podemos permanecer com eles até os 18 anos. Daqui alguns meses teremos que dar adeus a seis deles, duas meninas e três meninos que já têm dezessete anos. Eles trabalham na parte da tarde. Fora eles temos vinte e oito crianças com idades entre três e doze anos e estranhamente temos um bebê de oito meses.
—Nossa. – ela realmente estava impressionada – por que é estranho ter um bebê? – Quis saber Emma.
—Porque os bebês entram e saem rapidamente. As pessoas querem adotar eles. E as crianças mais velhas vão ficando. Nem todas tem sorte de encontrar uma família que as aceite. – Emma sentiu um calafrio. Ela tivera sorte – Mas esse em especial, ainda não encontrou uma família. Ele só aceita o colo das Irmãs e da “amiguinha” Sophia, uma criança de seis anos que não desgruda dele, tão tímida e arisca quanto ele. Qualquer um que chega perto dele ele chora desesperadamente. Irmã Maria diz que com ele vai ser diferente, não serão pais que os escolherão, mas ele que os escolherá.
Emma sorriu e de repente tomou um susto com a gritaria que se iniciou. Madre Cecília começou a rir dela e o pátio começou a ficar cheio de carinhas de todas as idades que entravam correndo. Apareceram outras irmãs que traziam as crianças menores. Era como se no meio do inverno, naquele lugar estivesse entrando na primavera.
—Agora acredita que temos crianças aqui? – Madre Cecília perguntou rindo.
—Céus, como acredito. – Emma também rira.
—Madre, posso ver esse bebê depois? – Ela perguntou meio de supetão, segunda atitude tomada naquele dia que não entendia. Tinha muitas crianças ali, mas Emma só conseguia pensar no bebê e em Sophia.
—Claro. – A Madre falaria mais alguma coisa, mas foi interrompida por uma das irmãs que a chamava. Quando Emma virou para o lado viu vários pares de olhos curiosos a encarando.
—Você é adulta. – Disse uma criança que aparentava ter uns seis anos de idade.
—Sim, eu sou. – Emma respondeu.
—Aqui não moram adultos. Só as irmãs. Um garoto mais velho disse.
—Mas eu não vim morar – ela riu – só passar um tempo com vocês.
—Você veio brincar de esconde-esconde com a gente? – Uma menina perguntou com os olhos brilhando em excitação.
—Ué, por que não? – Ela respondeu já colocando sua bolsa em um banco próximo.
—Não sabia que adultos sabiam brincar.
—Vou contar um segredo para vocês. – As crianças menores chegaram mais perto de Emma que se abaixou para contar o segredo – sou uma criança disfarçada de adulto. –Ela disse baixinho e fez um sinal para que eles ficassem em silêncio. As crianças riam e os mais velhos também se divertiam com a ingenuidade das crianças.
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