Pra você guardei o amor
17 Capítulo 17
Notas iniciais
—Tire esse pé de cima de minha mesa Zelena. – Regina sibilou quando a ruiva cruzou suas pernas para o alto e apoiou os pés na mesa da morena.
—Eu não. Do que adianta ser amiga da chefa se eu não posso ter certas liberdades? – encolheu os ombros fazendo Emma rir e Regina balançar a cabeça conformada. Zelena olhou para a morena e franziu o cenho – sério que você não vai me empurrar, me lançar um olhar mortal e nem fazer um bico do tamanho do universo?
—Qual o sentido de eu fazer isso tudo se o seu pé vai continuar estacionado na minha mesa? – Perguntou com sua voz rouca dando de ombros fazendo Zelena se levantar e em um pulo estar atrás da cadeira de Regina com as mãos em seu pescoço.
—Quem é você e o que fez com minha amiga? – Disse dramaticamente fazendo Emma gargalhar e bater palmas para sua performance. Regina bateu nas mãos de Zelena que a soltou e voltou para a posição em que estava.
—Dramática. – Regina implicou.
—Realista querida. Não sei quem é você. Em outras épocas Emma, ela teria ficado furiosa. – Regina rolou os olhos – Aquele recepcionista que o diga.
—Que recepcionista? – Quis saber Emma.
—Você não estava aqui loirinha, mas Regina deu uma daquelas no garoto, aquele meio rechonchudo que atende lá na frente, o novato.
—Não foi nada disso Emma. O menino estava comendo uma rosquinha açucarada e grudenta em plena recepção enquanto atendia uma pessoa. Eu o chamei em minha sala e o pedi que isso não se repetisse mais. – Balançou os ombros como se isso na tivesse importância.
—Emma, é sério. – A loira virou para a ruiva – O menino está até mais magro depois que Regina falou com ele. Acho que ele parou de comer de vez! – As três explodiram em deliciosas gargalhadas que perduraram até um pouco mais que o fôlego delas.
Quando o silêncio voltou a reinar na sala Regina retirou um caderno de couro de dentro de uma gaveta e depositou em cima da mesa chamando a atenção das outras duas.
—Essa é a hora que você chora, fala que somos suas melhores amigas e lê seu diário para a gente? – Zelena perguntou recebendo um olhar mortal de Regina – Há! Eu sabia que a antiga Regina ainda estava por aí. – Disse apontando para a morena que rolava os olhos.
—Queria mostrar o livro de contas que a contabilidade deixou comigo ontem. – Suas duas mãos estavam em cima da capa do livro antes de abri-lo, Emma reconheceu o contrato social com sua assinatura nas primeiras páginas – essas folhas são das primeiras semanas, veem esse vermelho escrito aqui? – as outras duas balançaram a cabeça afirmando – nossos lucros foram mais baixos que nossos gastos, o que já era o esperado. – ela virou a página – janeiro como podem ver conseguimos equilibrar as contas – virou a página novamente – fevereiro foi nossa primeira margem de lucro – dizia isso com um sorriso.
—E que lucro hem! – Disse Zelena impressionada fazendo Emma chegar mais perto para ver e fazer uma cara surpresa.
—E como podem observar – virou mais uma folha – as coisas estão só começando a melhorar. – Zelena e Emma arregalaram os olhos para os números.
—Uau, acho que nem sei contar esses zeros aí. – disse Emma realmente impressionada analisando o caderno. – Cara, eu sou de humanas. – As outras duas riram.
—Eu estou com a loirinha Regina, Uau! – A morena sorriu.
—Eu tenho que agradecer muito a vocês duas. – Seus olhos marejaram – sem vocês eu não estaria fazendo nada disso. – Segurou a mão de cada uma sorrindo.
—Eu não disse que era a hora dela chorar e dizer que somos as melhores loirinha? – Zelena não deu tempo para ninguém falar – Merecemos comemorar o que acham?
Quando a noite caiu sobre Boston a pequena comemoração teria gente suficiente para uma festa de arromba. Zelena havia escolhido um bar com música ao vivo para se encontrarem. Deixaria Roland com a babá e carregaria Robin com ela. Regina não tinha mais ninguém para quem quisesse ligar e fez com que Emma chamasse seu grupo de amigos que com o tempo já eram amigos da morena também.
Quando Emma e Regina chegaram Ruby já estava lá, acompanhada obviamente, mas dessa vez por uma menina, bem como Zelena e Robin. Foi só o tempo de sentar para Ana entrar no bar arrastando sua irmã atrás de si. Elsa se mostrou uma pessoa interessante no final das contas, principalmente quando dava patadas em Neal que insistia em cortejá-la, sem perceber que a moça lançava olhares discretos na direção de Ruby. O rapaz não tinha mesmo sorte. Todos já estavam meio altos quando Mulan resolveu dar o ar da graça trazendo consigo seu noivo que finalmente todos puderam conhecer.
A noite continuava leve e regada a rodadas de cerveja que até Regina aderiu depois de suas doses de cidra de maçã. A conversa era divertida e as gargalhadas eram constantes. Um pouco depois das onze horas da noite Zelena e Robin foram embora, os outros continuaram a comemoração que ninguém já lembrava mais pelo que era. Já passava das três da manhã quando eles resolveram voltar para suas casas já que ninguém podia mais beber uma gota de álcool.
Ana, sua irmã e a ficante de Ruby iriam para direções completamente opostas às dos outros, portanto se separaram na porta do bar mesmo, jurando que se encontrariam novamente para mais uma noite dessas. O noivo de Mulan que ninguém conseguiu pronunciar o nome direito morava pelas redondezas e a pé mesmo foi para seu apartamento nem lembrando de convidar a noiva para subir que também não se importou com isso. Todos só queriam uma coisa, cama. E para dormir.
As quatro mulheres restantes caminhavam juntas pela calçada antes de chamarem um taxi, rindo uma da outra que mal se aguentavam de pé. Então Regina travou. Ruby e Mulan quase bateram nela e Emma acompanhou o olhar da morena para ver que o mesmo estava fixo em dois homens que saiam de um bar poucos metros a frente.
Um aparentava ser bem mais velho e mal podia se fixar em suas pernas e praguejava contra o outro, consideravelmente mais novo que tentava lhe ajudar. A loira não sabia o porquê, mas um frio percorreu sua espinha ao notar como Regina ficara tensa. Mas sua ignorância sobre a situação não durou muito tempo, infelizmente. Quando o senhor virou na direção delas, o olhar que lhes lançou expressou muitas coisas que Emma não conseguiu acompanhar.
_Ora, ora, ora. – Ele começou a se mover na direção delas cambaleando sendo seguido pelo outro que tentava o impedir e estava visivelmente apavorado e olhava fixo para Regina – Se não é a minha adorada filhinha e sua namoradinha loira e o resto da trupe de lésbicas. – Sua voz era embolada. – Olha Marcos, é por isso que o mundo não vai para frente. Elas se unem e não deixam um macho de verdade tomar as rédeas da situação. – Falava quase cuspindo chegando bem em frente delas.
_Por favor senhor Mills, vamos embora. –Tentava puxar o braço dele.
_Não. Tenho que falar com Regina. – Virou para elas de novo – Você acha que vai conseguir roubar meus clientes? Você não passa de uma vagabunda de quinta classe que é novidade no mercado, quando os clientes perceberem a desqualificada que você é vão voltar correndo para mim... – Emma que estava paralisada de choque conseguiu com um esforço enorme colocar as palavras para fora de sua garganta.
_Quem o senhor pensa que é para ficar falando com ela assim? – Na falta de frase melhor saiu essa mesmo, mas Emma sabia quem ele era e sua raiva pelo pai de Regina aumentou consideravelmente.
_Ha! A namorada vadia resolveu se pronunciar para defender o macho alfa! Aproveite enquanto você pode o dinheiro da sua namoradinha querida, porque eu vou destruí-la e jogá-la na miséria. – O homem já gritava chamando a atenção dos poucos transeuntes que se aventuravam na madrugada.
_Vamos embora. – Tentou intervir Ruby.
—Ha! É sua namorada também Regina? Você precisa de tantas para te proteger? – Ele ria sarcasticamente.
—O senhor não passa de um sem educação, sem noção, e eu não tenho palavras suficientes para descrever o quão desagradável você é. Você não merece a filha incrível que têm. Você não sabe o que esta falando. Está só ofendido porque perdeu sua melhor funcionária e não consegue admitir que era Regina que segurava aquela empresa nas costas.
—Escuta aqui sua lésbica fudida – tentou dar um passo na direção de Emma, mas foi finalmente impedido por Regina.
—O senhor não se atreva a chegar perto dela. – Disse ameaçadoramente para o pai.
—Ora, está apaixonada mesmo defendendo ela assim. – Ele riu – Você costumava ser mais vadia. Amarrou ela de vez hem. – Olhou para Emma – Parabéns.
O olhar de raiva que Emma lançou para aquele homem não conseguiu esconder o terror que estava passando dentro dela. Ela não sabia do que ele estava falando na maior parte do tempo. Ela não sabia porque ele teimava em chamar ela de lésbica e vagabunda. O homem a fitou curioso e então seu rosto se iluminou e ele soltou uma sonora gargalhada.
—Você não é a namorada dela. Você não tem ideia de que ela é lésbica. Você mora com uma mulher que não sabe nem quem ela é!! – Emma olhou para Regina que tinha os olhos marejados e a devolvera um olhar apavorado e a loira sabia que o que o homem dissera era verdade. A morena mentira para ela mais uma vez. Ela não conseguiu esconder a decepção. Foi como se todo o álcool tivesse saído dela por seus poros e ela estivesse completamente alerta. A situação não passou despercebida pelo pai de Regina que gargalhou. – Ganhei minha noite. É triste ser apunhalado pelas costas né? – Olhava para Emma – Vamos Marcos. Não temos mais nada para fazer aqui.
Os dois homens saíram e entraram em um carro mais a frente. As quatro mulheres estavam paradas no meio da calçada sem saber realmente como proceder. Emma parecia em um mundo paralelo, a mão parada a meio caminho do ombro de Regina que poderia a qualquer momento desabar. Ruby olhava de uma para a outra se perguntando qual deveria socorrer primeiro. Felizmente Mulan era uma mulher sensata.
—Vocês querem que nós acompanhemos vocês? — Disse a chinesa fazendo sinal para um dos tradicionais taxis amarelos que imediatamente parou perto da calçada. Mulan empurrou Emma para dentro assim como fez com Regina e sentou atrás com elas, deixando Ruby sentar na frente. Quando o carro parou na frente do prédio fez a coisa inversa e as tirou do carro colocando dentro do saguão.
—Nós vamos daqui. – Disse Emma fazendo uma relutante Mulan voltar. As duas subiram em silêncio pelo elevador, as lágrimas desciam pelas bochechas de Regina sem parar. Quando a loira fechou a porta do apartamento e encostou-se a ela com os pensamentos a mil Regina começou a soluçar caindo em um choro compulsivo e desesperado. Como que em um movimento automático os braços de Emma a circundaram e ela pousou no peito da amiga agarrando sua camiseta enquanto se desfazia em lágrimas. Ficaram assim por um tempo que pareceu longo demais para a sanidade das duas.
—Em, — tentou dizer Regina quando parou de soluçar e conseguiu respirar fundo para por o som para fora de sua garganta. Emma apenas soltou Regina de seus braços antes de negar com a cabeça em um pedido silencioso para que ela se calasse.
—Vai tomar um banho Regina, eu vou fazer um chá de camomila para você e pegar algum outro remédio relaxante para você dormir. – Sua voz não tinha emoção nenhuma e isso caiu em Regina como as lamas de um barranco que cedeu em uma enxurrada fazendo seu estômago parar no pé e seu fôlego agarrar em sua garganta. Emma não olhara para ela quando se virou para a cozinha. Não tendo outra opção a morena se virou para o quarto caminhando a passos lentos. Sua mão cobria sua boca, mas não foi capaz de segurar o soluço que saiu de sua garganta e escapou por seus dedos.
Emma agarrou a bancada quando escutou o choro baixo que Regina tentava controlar. Ela queria arremessar as coisas no chão. Estava com muita raiva e por muitos motivos. Estava com muita raiva pela humilhação que o pai de Regina a fez passar. Com raiva das palavras grosseiras com que tratou a filha dele e amiga dela, ela queria ter matado aquele homem com suas próprias mãos e estava assustada com esse pensamento, mas também com raiva dela mesma por nutri-los.
Estava com raiva pela cara de escárnio que ele fizera ao perceber que Emma não sabia sobre um ponto muito importante da vida da pessoa com quem mora junto há mais de um ano, como se ela fosse uma completa idiota. E estava com mais raiva ainda por ele estar coberto de razão. Ela era uma idiota por nunca, se quer, ter percebido. Tão certo quanto o amanhã que se levanta, Emma estava fervendo de raiva e isso era ruim.
Mas o que realmente estava fazendo com que Emma achasse que iria morrer ou quem sabe ficar maluca de vez era saber que Regina havia mentido para ela. Mais uma vez! E céus, Regina ser gay era uma coisa e tanto. Ela escondeu da amiga quem ela era. Era a personalidade dela, era, era, era...
Os pensamentos corriam pela mente de Emma em uma velocidade tão surpreendente que parecia que seu cérebro estava participando de uma meia maratona e ela começara a arfar.
De repente colocar a água fervente na xícara era uma tarefa que exigia demais da loira e ela parou lutando contra sua própria respiração. Desejou que estivesse ainda sentindo o torpor da bebida para aliviá-la de sua mente traiçoeira. Despejou o liquido, colocou o sachê na água, pegou dois comprimidos e partiu para o quarto de Regina. Considerou se pegava uma xícara para ela também, mas depois resolveu que ela precisava de algo mais forte.
Quando bateu na porta do quarto da mulher só pôde ouvi-la murmurar para que entrasse porque era alta madrugada e o silencio era mortal. Regina vestia um pijama de seda preto e encontrava-se no centro de sua cama, as pernas recolhidas envoltas por seus braços que faziam com que elas se encostassem aos seios da morena. Sua cabeça apoiava em seus joelhos e pelo balançar das costas Emma sabia que ela estava chorando.
Colocou a bandeja em um criado mudo e a chamou. A morena levantou relutante a cabeça e tentou olhar a loira nos olhos, mas ela desviava. Entregou-lhe os dois comprimidos que ela colocou na boca e tomou um gole de uma água que a outra lhe entregou. O silencio passeava entre elas como uma vendedora de loja de departamento oferecendo cartão fidelidade. Inconveniente.
_Emma. – Regina tentou depois que engoliu o remédio. A loira a olhou pela primeira vez desde que estavam de pé na calçada.
_Não. – Emma a cortou. – Por favor. Se eu conversar com você agora eu vou falar coisas das quais eu vou me arrepender. Coisas que vão te magoar e me magoar. – Regina abaixou a cabeça assentindo e Emma segurou a vontade de abraçá-la forte. – Se quiser te faço companhia até dormir, mas não posso conversar com você agora.
Regina negou. Não queria que Emma ficasse com ela por algum tipo de obrigação. O remédio faria efeito a qualquer momento, e foi o que aconteceu. Ela dormiu, mas o sono não durara mais que um par e meio de horas. Sua cabeça latejava devido ao álcool, e jurou que nunca mais beberia cerveja novamente.
Levantou de sua cama e foi lavar o rosto. Passava das sete e meia da manhã quando saiu de seu quarto passando pela porta aberta do de Emma. Ótimo, a loira não o fechara. Espiou dentro dele e o encontrou vazio. Vendo a cama arrumada perfeitamente Regina só pôde supor que ou a loira saiu e a arrumou significando que ela estava melhor do que a morena imaginara, por que quem que está muito irritado lembra-se de arrumar a cama antes de sair? Ou, na pior das hipóteses a loira nem tinha dormido. Na maré de sorte em que Regina se encontrava nas últimas horas a segunda opção era a mais provável.
Caminhou até a cozinha passando pela sala e reparando na garrafa de whisky aberta em cima da mesa de centro, pegou a garrafa e fechou, as almofadas do sofá estavam amassadas indicando que a loira estivera por ali. Regina guardou o Whisky e levou o copo sujo para a cozinha e seu coração pulou duas batidas quando em cima da bancada pousava o cordão de Emma que era igual ao seu e que não tiravam desde a noite de Natal.
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