Pra você guardei o amor
21 Capítulo 21
Notas iniciais
O tempo é uma coisa engraçada. Na voz do poeta quando se vê, já são seis horas, quando se vê, já é sexta-feira, quando se vê, já é natal. Quando se vê, já terminou o ano, quando se vê passaram 50 anos! Sim, o tempo passa. O tempo também é responsável pelo humor das pessoas. Ah, ele está bravo porque esperou na fila por muito tempo. Ela está rindo assim porque passou um tempo com seu namorado. Para os sonhadores o tempo também é saudosista, ah naquele tempo.
Mas tão velho quanto o próprio tempo é quando o usamos como desculpa para quando não queremos fazer alguma coisa; desculpe-me, estou sem tempo. Emma conhecia essa bem, já que a estava usando com frequência nos últimos dias. Fingia estar sempre atrasada para não ter que conversar com Regina no café da manhã. Na empresa se afundava em pilhas e mais pilhas de papel fingindo uma contração além do normal. Em casa à noite dava graças a Deus quando Regina saía.
Mas ela sabia que não poderia escapar para sempre, por mais esforço que fizesse. O universo nem sempre conspira ao nosso favor, principalmente quando você tem uma amiga que chama Ruby e essa mesma amiga conta para sua outra amiga o que não deve, que no caso era que Emma não teria aula essa sexta de tarde. Ah o tempo, uma hora outra ele volta para te cobrar suas dívidas.
Enquanto a loira cortava os legumes depois de temperar e preparar a carne ela deixou seus pensamentos fluírem. Desde que descobrira sobre a opção sexual de Regina o interior de Emma parecia um campo de batalha. Mesmo agora, enquanto ela cortava os legumes para o jantar que serviria para a namorada da morena, sim, a loira definitivamente iria conhecer Kathryn, e mais, faria ela mesma o jantar. Parte de Emma queria picotar esses legumes com toda força possível fazendo o pior serviço do mundo só de raiva, mas outra parte dela que é consideravelmente grande queria fazer tudo diligentemente, com perfeição, numa espécie muda de competição.
A faca fazia o serviço enquanto Emma respirava profundamente. Ela não poderia demonstrar o quanto isso a afetava. Ela não queria demonstrar, como ela não queria estar apaixonada por Regina por três simples razões. Primeiro, ela não era gay. Segundo, ela nunca poderia ser gay. Ela já era a diferente, a adotada, se fosse também gay sua família jamais a aceitaria. E terceiro, mas não menos importante, Regina não estava apaixonada por ela.
Inconvenientemente um sentimento tomou conta do peito da loira. Pela primeira vez ela desejou que Regina tivesse mentido para ela.
Emma largou a faca e apoiou as mãos na bancada enquanto fechava os olhos e balançava a cabeça para espantar esses sentimentos. Ela não era gay. Ela não podia ser gay. Regina não a amava. Passou a repetir isso para si mesma baixinho, somente sussurrando até que todos os poros de seu corpo absorvessem as palavras. Então respirou fundo, levantou a cabeça, colocou um sorriso no rosto e passou a terminar o jantar.
Regina apareceu na cozinha segundos depois de seu perfume.
—Obrigada por fazer o jantar Emma, as coisas na empresa hoje estavam uma loucura.
—Ok. – Respondeu enquanto enfiava a forma com a carne no forno e girava os botões. Retirou o avental e o pendurou antes de se virar.
—Posso ajudar em algo? – Perguntou amorena que vestia um vestido mais solto e mais confortável, saltos baixos, e claro, cabelos impecavelmente arrumados por sob o ombro e seu costumeiro batom vermelho.
—Se puder colocar a mesa enquanto tomo banho. – Disse desviando o olhar da morena tentando não pensar muito em quanto ela estava linda.
—Claro. – Respondeu.
Emma foi para seu quarto, tomou seu banho e passou um tempo considerável pensando no que ia vestir. Optou pelo seu inseparável jeans e uma camiseta que deixava todo seu braço a mostra. Voltou para a cozinha um tempo depois e encontrou Regina colocando a garrafa de vinho aberta no balde gelo para descansar, passou direto por ela indo checar o forno.
_Você acha que virão quantas pessoas Emma? – Perguntou Regina rindo recebendo um olhar confuso da loira. – Você colocou três garrafas de vinho para gelar, sem falar nas cervejas. – Emma apenas deu de ombros olhando o relógio. Estava na hora da visita chegar.
—Hey. – Regina se aproximou dela – está acontecendo alguma coisa? – Emma foi salva pelo barulho da campainha. – A morena continuou com a mão no braço da loira sem se mexer.
—Não vai atender? – A loira perguntou.
—Me ocorreu agora se eu fiz a coisa certa trazendo Kathryn a nossa casa, eu nem te perguntei antes. Ela deu a ideia e eu acatei. – Riu sem graça.
—Bem, ela já está aqui e só temos três opções, ou eu vou lá e digo que ela errou de endereço, ou nós duas vamos lá dizendo que a cozinha pegou fogo e não podemos ficar aqui, ou você vai lá abre a porta para ela, a convida para entrar como uma pessoa educada faria. – Emma disse em tom neutro a olhando calmamente.
—Opção três. – Regina disse assentindo.
—Opção três. – Emma respondeu observando a morena ir em direção à porta virando o rosto para não ver o cumprimento que as duas trocariam. Fingia fazer algo muito importante enquanto Regina e ela conversavam e rumou para o hall de entrada quando percebeu que não poderia mais disfarçar.
Kathryn era uma mulher linda, Emma tinha que confessar. Loira, olhos claros, vestia um vestido justo azul Royal e saltos altos que fizeram com que Emma se sentisse uma garotinha tola em sua roupa confortável.
— Kathryn – Regina disse – Essa é a Emma. Emma essa é a Kathryn.
—Olá. – Disse estendendo a mão para a visita oferecendo um sorriso educado. Kathryn ignorou a mão de Emma e a puxou para um abraço.
—Então você é a famosa Emma!! – Dizia enquanto apertava uma loira meio relutante em seus braços.
—Emma sim, o famosa é por sua conta. — Respondeu se soltando. – Nós vamos ficar de pé paradas aqui ou vamos sentar na sala? – Regina riu.
—Vamos. – Disse andando sendo seguida pela namorada que colocou a mão em sua cintura.
— Kathryn, você gostaria de beber algo? Vinho, cerveja, água? – Emma questionou louca para sair dali.
—Uma taça de vinho seria ótimo. – Emma assentiu.
—Não vai perguntar para mim? – Perguntou Regina se fingindo de magoada enquanto Emma se dirigia a cozinha.
—Ha claro — respondeu sem virar – você quer muito ou pouco vinho em sua taça? – Kathryn acabou gargalhando da cara de contrariada de Regina.
—Ela é ótima. – Ouviu a mulher dizer.
Emma pegou duas taças que já estavam separadas, sem pressa alguma despejou o vinho nelas. Abriu a geladeira pegou uma Long Neck abrindo com a própria mão dando duas goladas longas antes de voltar para a sala. Entregou as taças de vinho as duas mulheres e se sentou no sofá oposto.
—Vocês tem um apartamento muito aconchegante. – Emma olhava para a mulher, o sorriso terno nunca deixando seus lábios. — Você não é daqui, não é Emma?
—Brasileira. – Respondeu.
—Sério? Adoro o Brasil!
—Já esteve lá? – Perguntou.
—Não. – Emma arqueou a sobrancelha. – Está aqui há quanto tempo?
—Quase dois anos.
—Vocês já se conheciam antes?
—Não.
A mulher continuou com o interrogatório por mais alguns minutos e Emma respondia sucintamente. Para quem já tinha ouvido tanto de Emma ela parecia saber pouca coisa da loira.
—Então você é estudante aqui? – Kathryn continuava.
—Sim, estou terminando meu mestrado.
—Nossa que legal. Ainda bem que você trabalha para Regina, porque aí dá para você manter as coisas né?! – Foi a vez da morena arquear as sobrancelhas revisando mentalmente todas suas conversas com a namorada para procurar quando ela tinha dado a entender que Emma trabalhava para ela.
—Minha bolsa é integral. – Emma respondeu seca. Uma veia começando a pulsar em sua testa.
—Sim, eu entendo. Mas você trabalha para a Regina, certo? Porque não tem como manter um apartamento sem trabalhar! – A mulher insistiu.
—Minha bolsa é integral. – Emma repetiu – Eu literalmente ganho para estudar. – Completou e Regina pôde a ver apertar a garrafa de cerveja mais do que o necessário e decidiu intervir antes que Emma explodisse, esse era um assunto sensível para ela e sua namorada parecia não perceber além de ficar fazendo suposições.
—Emma, a carne no forno. – Regina disse um pouco nervosa olhando para a amiga sugestivamente e por mais que Emma estivesse se controlando com todo o seu ser não conseguiu esconder a decepção ao perceber que a morena não iria se quer defendê-la.
—Claro, a carne. – Deu mais um de seus sorrisos ensaiados e levantou. Foi para a cozinha pegou mais uma cerveja, abriu e tomou alguns goles antes de olhar o forno. A carne estava no ponto. Retirou colocando na mesa. Arrumou os acompanhamentos e chamou as mulheres.
Emma agradeceu que todas estavam de boca cheia e não podiam falar. Mastigava lentamente a comida e não deixava a boca ficar vazia. As poucas vezes que olhava para frente pegava Kathryn com a mão em algum lugar de Regina o que a fazia perder o apetite ao mesmo tempo em que tentava enfiar mais comida por sua boca.
—Eu trabalho com meu pai desde os meus dezoito anos. Sou filha única e tenho muito apreço por aquela empresa. – Ela dizia na mesa enquanto Emma mastigava e somente fazia sinais com a cabeça.
Depois de comerem voltaram para a sala Emma foi salva por seu Skype que começou a berrar no notebook aberto em algum lugar.
—Desculpem, mas é de casa. Pode ter acontecido alguma coisa. – Colocou sua melhor cara de preocupada.
—Vai lá. – Regina disse.
—Foi um prazer te conhecer Kathryn.
—O prazer foi meu. – Ela sorria.
Emma correu pegar o computador atendendo a chamada de vídeo vendo sua prima aparecer sorridente na tela e rumou para seu quarto quase chorando de alívio. A conversa com a prima teria sido bem rápida se Emma não tivesse inventado tanto assunto de repente. Combinaram a ida de sua família em sua formatura, falaram de todos os outros membros da família, perguntou tudo que ela podia lembrar-se de perguntar sempre deixando o som um pouco mais alto para que pudesse ser ouvido na sala.
Quando a loira desligou a chamada porque definitivamente não tinham mais nenhum assunto e voltou para a sala as outras duas mulheres estavam se despedindo na porta com um beijo. A loira acenou para Emma que sorriu e acenou de volta rumando para a cozinha para começar a arrumar. Regina chegou segundos depois, e como Emma não teceu nenhum comentário a morena começou a ajuda-la silenciosamente.
—A comida ficou ótima Emma. – A morena disse enquanto guardava algumas coisas.
—É. Eu sei. – Emma respondeu limpando a mesa.
—Desculpe pelo que Kathryn disse a respeito de você trabalhar para mim. Eu não sei como ela pensou nisso, eu nunca disse nada do tipo. – Regina dizia de cabeça baixa.
—É. Eu sei disso também.
—Emma... – Regina começou a falar mais foi interrompida pela loira.
—Sério Regina, tudo bem. Eu sei que você não disse nada disso. Eu sei que meus trajes eram muito diferente dos de vocês. Eu sei que eu não ando de marca da cabeça aos pés. Eu sei que eu sou uma estudante. Eu sei de onde sua namorada poderia ter imaginado isso. – Emma disse tranquilamente sem alterar seu tom de voz. Ela estava se esforçando muito para não descontar em Regina sua frustração.
—Ainda assim você está triste. – Regina completou.
—Sim, estou. – Disse rolando os olhos pela morena apontar o obvio.
—Por quê?
—Porque ao invés de dizer que não trabalho para você, você me lembrou da carne no forno como seu eu fosse uma criança irresponsável. – Emma ajustou a última cadeira e virou para sair da cozinha. – Boa noite Regina.
Nos outros dias que se passaram Emma continuou evitando Regina discretamente. Saiu com o casal mais duas vezes, mas uma vez também acompanhada de Zelena, outra vez acompanhada com Ruby que também teve que se submeter ao longo questionário da loira, e não economizou em repostas ásperas.
Emma não podia negar, estava cogitando seriamente voltar para casa ao invés de continuar com o doutorado. Por mais que ela dissesse a si mesma que ela e Regina não tinham chance alguma devido a todas as imposições que tinha colocado em sua mente, seu coração não se cansava de se quebrar em mil pedacinhos cada vez que as duas namoradas trocavam um beijo ou um carinho se refazendo só para se quebrar novamente instantes de depois.
Emma controlava as lágrimas para mantê-las por trás de seus olhos enquanto estava sentada no chão ouvindo Mathhew uma adorável criança de dez anos contar a história do Peter Pan para seus amigos no orfanato. Henry jazia em seu colo com a cabecinha encostada em seu peito, Sophia desenhava mais adiante e outras dez crianças estavam por perto curtindo a performance do garoto.
O orfanato tornara-se seu refúgio. Um lugar seguro para pensar e relaxar enquanto fazia uma boa ação. Era um dos últimos sábados quentes, o verão estava indo e o outono estava chegando e os ventos começavam a ficar mais frios.
Emma encostou a bochecha na cabecinha de Henry enquanto tentava aliviar sua mente. No dia anterior havia descoberto que sua passagem estava marcada para uma semana antes de sua formatura, tentara remarcar, mas sem sucesso. Ela perderia sua passagem. Foi tirada de seus devaneios quando ouviu o pequeno se manifestar.
—Gina. – Ele disse abrindo um sorriso. Emma acompanhou o olhar do garoto para ver a morena chegando com sua namorada em seu encalço, teve que usar todo seu autocontrole para não revirar os olhos. Esse era um dos últimos lugares que Emma encontrava a paz. Pelo visto não mais.
Quando ela chegou perto cumprimentando Emma e pegando Henry em seu colo que Sophia reparou nela levantando rapidamente se jogando nas pernas de Regina.
—Tia Rê!!! Que saudade, por que ficou tanto tempo sem vir aqui? – A pequena ia falando sem desgrudar das pernas dela enquanto a mulher acarinhava seus cabelos devolvendo Henry para Emma que já levantara.
—Hey pequena, tia Regina está trabalhando tanto. – Disse se abaixando para abraçar a menina a pegando no colo. – Foi aí que Sophia reparou na outra visitante.
—Oi Sophia. – Disse Kathryn abrindo o maior sorriso do mundo fazendo a pequena esconder a cabeça no pescoço de Regina.
—Fala com ela Soph. – Disse Regina.
—Quem é ela? – Perguntou baixinho ainda com a cabeça no ombro da morena.
— Kathryn é minha namorada. – Regina respondeu sorrindo e foi pega de surpresa quando Sophia se empurrou de seu colo exigindo ir para o chão.
—Ela é o que? – Perguntou com as lágrimas já beirando seus olhinhos verdes.
—Sou namorada da tia Regina bebê. – Kathryn se aproximou tentando encostar na menina que gritou.
—Não. Não pode. – As lágrimas já rolavam por suas bochechas. – Não encosta em mim.
—Sophia, o que foi? – Perguntou Regina dando um passo à frente para tentar falar com a garota, mas ela deu mais dois para trás.
—Não fala comigo. Eu te odeio. Você estragou tudo. Tudo! Eu odeio você. – A menina gritava chamando atenção de todas as crianças que observavam o desenrolar da cena com certa curiosidade e espanto.
Sophia recolheu seus desenhos do chão e saiu correndo deixando todos os adultos atônitos. Regina foi a primeira a ir atrás tendo realmente que correr para não perder de vista a pequena. Madre Cecília pegou Henry do colo de Emma pedindo silenciosamente que ela fosse atrás. Quando Kathryn pensou em se mover a Madre segurou seu braço a impedindo.
—Pode deixar que elas resolvem. Sophia é um pouco arisca com pessoas novas. – Pediu gentilmente a Madre.
Quando Regina encontrou Sophia a criança estava em uma sala e rabiscava ferozmente os papéis, um atrás do outro.
—Sophia, fala comigo, o que foi que aconteceu? – Regina caminhava hesitante para a garota.
—Sai daqui eu não quero ver você mais. Você estragou tudo. – Ela gritava e chorava ao mesmo tempo.
—Regina — Emma havia chegado ofegante – deixa que eu converso com ela. Ambas morenas a olhavam com os olhos cheios de lágrimas e Sophia correu para Emma pulando em seu colo quase jogando a mulher no chão.
—Me tira daqui tia Emy, eu não quero mais falar com ela, eu odeio ela. – O final da frase sendo abafado por seu choro compulsivo. Emma pediu desculpas a Regina com o olhar e saiu da sala com a criança no colo deixando uma mulher arrasada e a beira do choro para trás. Porém antes de tomar seu rumo Regina olhou para as folhas que Sophia tanto rabiscava e não conteve o soluço ao perceber que a menina desenhara em várias folhas quatro pessoas que pôde distinguir em um único desenho que não estava rabiscado, era Emma, Regina, Henry e a própria Sophia. Todos sorriam. A morena passou todas as folhas e percebeu que em todas elas seu personagem estava rabiscado.
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