Pra sempre
1 único
Era certo que passávamos mais tempo no convés observando as estrelas e falando sobre o futuro, ouvindo o farfalhar das velas e as ondas batendo no casco. Muitas vezes o cozinheiro fazia uma boa janta que logo dava em festa, era divertido ver o capitão, Usopp, Chopper e Franky fazendo baboseiras com os hashis, assim como também ouvir a música sair do violino de Brook e até que não doía ver Sanji chamar Robin pra dançar, porque Robin já sabia de nossa história e só eu tinha noção disso. Quanto a Nami… ela ficava ocupada demais competindo comigo na bebida, talvez Sanji sentisse ciúmes dela.
E quando não era no convés, era na cozinha que discutíamos nossos planos, quanto tempo teríamos que ficar na ilha e quem desceria. Foi lá que Usopp notou que Brook não tinha sombra, também foi lá que Usopp disse que seria o imediato e que houve a briga entre ele e Luffy. Estou falando muito de Usopp, mas foi nesse espaço que beijei Sanji pela primeira vez. E é de Sanji de quem eu quero falar.
Contudo, preciso antes falar de outro cômodo igualmente movimentado, mas mais conturbado por não ter um ar fresco como o convés e menos organizado que a cozinha impecável de Sanji. Estou falando do quarto dos meninos.
Não é segredo para ninguém que dos meninos só Sanji toma banho todo dia naquele navio, então era natural que o quarto não cheirasse muito bem, mas ainda assim ficávamos horas reunidos, porque a conversa era tão gostosa quanto a do convés e a da cozinha. Ainda tínhamos mais liberdade pelas meninas não estarem por perto, então às vezes fazíamos um campeonato de quem peidava mais fedido e Luffy sempre vencia.
Ficávamos muito íntimos, nossos braços tocavam o do colega ao lado, a gente falava gritando, rodeando os ombros pra rirmos juntos da cara do outro, isso tudo só para falar das experiências que tivemos na ilha que acabamos de deixar. Parecíamos todos irmãos e talvez por isso só a perspicácia de Robin notou que os toques e os olhares que eu dava para Sanji eram diferentes dos demais.
As coisas com Sanji começaram devagar. Quando o conheci, eu o achei fraco por ter largado o seu sonho porque não era real o suficiente. No entanto, quando estávamos no mar depois de sairmos da ilha natal de Nami, Usopp me disse que Sanji ficou preocupado com a minha cirurgia no peito. Naquele momento lembrei de como ele se jogou no mar pra tirar Luffy de lá, entendi que ele não dava valor a sua vida quando era preciso se arriscar.
Queria salvar todo mundo, mas sabe-se que esse tipo de pessoa acaba não salvando ninguém, porque precisa da ajuda de todos.
Eu sempre estou avisando e ele ressuscita o caso em Thriller Bark para dizer que sou igual, talvez sejamos mesmo, mas me dói a ideia de que um dia ele faça uma loucura para me salvar.
Uma noite fez muito frio e tivemos que dividir nossos cobertores por estarmos em falta. Eu acabei dormindo ao lado dele e de madrugada notei que ele ainda estava acordado. Nós tínhamos acabado de nos reagrupar e talvez por isso ele chorava discretamente para nem eu notar. Eu o embrulhei nos meus braços morrendo de saudades, pensando que ele continuava sendo muito gentil e babaca, não mudou nada, e ele relaxou como se fosse um bebê. Isso fez eu ter certeza que se for preciso, ele se sacrificaria por mim, e caí no sono entendendo que aquilo era muito sério. Queria que fosse ainda só um alívio, mas era pra sempre.
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