Pra que Decidir?
5 Descoberta.
Notas iniciais
O Juiz líder, aquele nomeado ‘Caos’, caminhava pelos enormes corredores das galerias subterrâneas que abrigavam os demais juizes, além dele mesmo, logicamente.
Procurava seu protegido, aquele que futuramente seria seu substituto, quando estivesse farto de tomar decisões idiotas sobre destinos de pessoas idiotas da terra ali em cima. Se iriam morrer, porque se intrometer no que seria parte de seu destino? Infelizmente fora criado para ser juiz do Caos, era parte de seu destino mesmo.
Caos, era aficionado por destino, tudo o que tinha relação com a linha da vida. Tinha uma obsessão por toda e qualquer coisa que pudesse modificá-lo, atrasando-o ou adiantando-o. Sabia que era uma das autoridades máximas com relação a este assunto, entretanto, mesmo assim queria mais, queria controlar o destino de todos, esta era sua maior obsessão.
Ser Deus por assim dizer.
Haviam juízes de todas as raças, o próprio Caos e seu sucessor, eram de uma raça estranha, bizarra talvez.
Não tinham melanina alguma na pele e não eram sequer rosados, afinal seu sangue era negro.
Não existiam juízas, aquelas que eram escolhidas para serem sucessoras, eram transformadas em homens logo após seus sete anos. Ninguém sabia o porque... Talvez por ser uma tradição a ser cumprida, ou talvez por a preferência de quase todos os juízes ser por criaturas do sexo masculino.
Aquele era horário de descanso, Caos caminhava pelos corredores escuros e quentes, sua armadura dourada cintilava, absorvendo o ar quente do local e jorrando para fora dos poros de ouro ar frio, o que causava em torno do décimo terceiro juiz uma aura maravilhosa de ar fresco, agradável.
E apesar de ser horário de repouso, o que o homem de cabelos platinados e longos ouvia, eram gemidos, dos mais diversos tipos. Ouvia os juizes de gêmeos(sim, eram dois, os únicos juizes que sempre pensavam igual e equivaliam a um só) juntos com o juiz de virgem... As vozes eram até bastante nítidas.
Ouvia também alguns outros gemidos, mais contidos, vindos provavelmente do de sagitário...
Inspirou profundamente, tirando seu monóculo e limpando-o.
Seu objetivo era encontrar Saülo, seu futuro sucessor, um garoto de aparentes cinco anos cujos cabelos eram verdes e os olhos cor-de-rosa, num tom chamativo, evidente.
Dentre todos os juizes, Caos era o único que não dava a mínima importância para o coito, entretanto, ali no meio de todos, ele só teria respeito se mostrasse poder ter a todos, quando quisesse.
Seu plano fora bastante simples, ao adotar Saülo como sucessor(o rapazinho de cabelos verdes na verdade tinha dezesseis anos), Caos anunciara que tinha um caso com ele, oficial. A verdade fora que ele nunca sequer tocou intimamente o garoto, mas como este também era fogoso, criou-lhe uma coisinha... Bastante útil. Assunto para expor em outra ocasião.
Encontrou uma porta dourada, sobre ela estava a palavra ‘PRIVATE’, marcada em letras vermelhas. Caos não se fez de rogado, abriu a porta, trancando-a após entrar, vendo um menininho de aparentes oito anos deitado na cama.
Este era extremamente pálido, tanto quanto o próprio Caos, os olhos eram de uma tonalidade rara, cor-de-rosa intenso, chamativo, eram olhos grandes que contrastavam com seus cabelos esverdeados, curtinhos e adornados por uma franja comportada.
O pequenino estava despido, coberto até a cintura por um lençol fino, branco tal qual neve de reinos gelados.
Em uma de suas mãos, jazia um boneco igualmente branco, todo feito de pano, com cabelos de lã da cor de canela, os olhos de botões negros e nada agradáveis a visão.
Para humanos comuns, aquele brinquedo seria semelhante a bonecos usados em cerimônias ritualísticas da umbanda ou tradições deste mesmo gênero.
“—Tens que ser mais rápido, imbecil, ou achas que uma outra pessoa qualquer teria sido breve e aberto a porta gentilmente? Achas que não ouvi teus gemidos altos? Controla-te!” – Falou com a voz grave, dirigindo-se ao pequenino. “—Ao menos aprende a fechar esta maldita porta com as chaves.”
“—Perdão, meu mestre…” – Soou a voz infante, que aos poucos tornava-se mais juvenil.
O corpinho pequeno se expandia, formando e mostrando no fim das contas um rapaz de aparentes quatorze ou quinze anos, com os olhos cor-de-rosa e as madeixas de um verde bastante visível.
Encolheu-se sob o lençol, jogando o boneco no chão.
Aquele brinquedo aos poucos tonava-se maior, adquirindo características humanas, a boca costurada continuava costurada, os olhos ainda eram de botão, entretanto, a pele era humana, o corpo inteiro.
Tinha a aparência de um homem de cerca de dezenove anos.
“—Saülo e Toynako…” – Dirigia-se respectivamente para o rapaz de cabelos verdes e o boneco. “—Vistam-se, teremos uma reunião importante.”
xXx
Acordara mais uma vez com aquele mau pressentimento, os dois olhos azuis vasculhavam aquele quarto procurando por ambos, lobisomem e vampiro, Shirou e Mett respectivamente.
Não viu nenhum dos dois, anteriormente havia gritado para estes que não faria escolha alguma, lembrava como se fosse no dia anterior… Na verdade… Fora na noite anterior.
Ambos ficaram pressionando-lhe irritantemente, dizendo que o tempo que ele tinha chegara ao fim, Kanon recebera somente um mês para tomar sua escolha, seu acidente estava marcado para o dia 13 do mês de Dezembro. Uma sexta feira.
O garoto de cabelos acastanhados sabia que morreria atropelado por um caminhão, que provavelmente passaria por cima de sua cabeça, deixando seu corpo irreconhecível. Entretanto não sabia o horário de seu acidente.
Seu coração se apertou, não escolhera nenhuma das duas raças porque seu sonho era virar alquimista, até já começara seus estudos, acreditava que sendo alquimista viveria eternamente, não precisaria virar vampiro, muito menos lobisomem.
O problema é que o conselho de juízes te dá somente duas escolhas.
E se você não escolhe nenhuma delas…
Você morre.
O rapazinho de cabelos castanhos levantou-se e tomou um longo banho, vestindo seu uniforme completamente branco e saindo de casa, preocupado.
Aquele dia na escola fora bastante produtivo, certo que Kanon estava assustadíssimo com qualquer barulho e que na hora da saída da escola ele se despediu de todos os seus amigos. Não contara a ninguém sobre a sua morte premeditada pelo destino.
O caminho até sua casa fora simples, o garoto não demorou muito até chegar a seu bairro. Sorriu, se talvez ficasse trancado em casa, poderia fugir do destino.
Ledo engano.
Olhou para os lados antes de atravessar a rua, ao longe ouviu barulhos de disparos, se assustou e atravessou, por pouco não sendo atropelado por uma moto que vinha em alta velocidade. Colocou as mãos no peito assustado.
“—Esta… Foi por muito pouco…” – Por ínfimos milésimos de segundos achou que estaria a salvo, até que ouviu um barulho ensurdecedor, seguido por um clarão semelhante ao de um farol.
Não entendeu porque, pois estava sobre a calçada.
Acordou após um apito contínuo que inundava seus ouvidos, várias vozes apareceram para deixa-lo confuso.
“—Funcionou!”
“—Apliquem soro, os batimentos foram recuperados mas precisamos de mais soro e sangue.”
“—Vai precisar amputar, estão necrosados…”
“—Não há outro procedimento?”
“--. . . Não.”
“—Amputem.”
Kanon ouviu quatro impactos seguidos, com um intervalo de mais de meia hora entre um e outro. Não conseguia sentir nada, muito menos ver, mas sabia que havia algo de muito errado.
Acordou só sete dias apís as cirurgias que foram realizadas com sucesso.
“—O que aconteceu comigo…?” – Repetiu pela trigésima vez para sua mãe, que não parava de chorar um momento sequer.
“—N-Nada… Meu filho…” – Estava sentada numa cadeira ao lado do leito.
O rapazinho recebera permissão especial para ter visitas, mesmo estando interno na UTI.
Sua mãe estava abalada ao extremo, esta recebera a notícia de que todos os procedimentos possíveis foram feitos, mas mesmo assim o rapazinho não sobreviveria muito. Ela estava desolada. Saiu do quarto por já estar irritando seu filho com tanto choro, dando lugar para Shirou e Mett, que foram visitar aquele que acompanhavam.
“—Uh!?!” – O vampiro de longos cabelos loiros estremeceu ao ver o estado do menino.
“—K-Kanon…?”—Shirou estava incrédulo. Que destino cruel, porque não o matara ao invés de fazer isso?
O estado do rapazinho era lastimável, cada braço seu teve que ser amputado na altura dos cotovelos, anteriormente estavam necrosados por causa do acidente com o caminhão do roubo, que invadira a calçada e acertara o menino em cheio. As pernas haviam sido igualmente amputadas na altura dos joelhos, também necrose agora nas partes que foram tiradas fora.
Seu olho esquerdo fora perfurado por um dos ferros do caminhão, metade de sua cabeça estava enfaixada. Além do mais(ele estava nu, não poderia usar nada por enquanto, apesar de sua intimidade estar coberta por um lençol), haviam inúmeros ferros por seu corpo, tinha várias fraturas nas costelas, um marca-passo para o coração e aparelhos que faziam seus rins e intestinos funcionarem.
Ele tomava sangue e soro pela veia principal do pescoço, não havia mais nenhum outro lugar para colocar aquele catete.
Os médicos se surpreenderam por ele ainda estar vivo, realmente aquele menino tivera muita sorte por estar vivo.
Ou azar, talvez.
“—Porque todo este espanto? Eu não morri.” – Sorriu-lhes, fazendo ambos, vampiro e lobisomen sentirem um aperto terrível no peito.
“—Não viu como está, viu?” – Mett quem perguntou, arrumando os óculo circulares de lentes grossas.
“—Não, porque?”
Ele suspirou, tirando o celular do bolso, tirou uma foto do garoto e sentou ao lado dele, mostrando-lhe a imagem. Shirou estava encostado na parede, mexendo em seus cabelos longos e alaranjados, triste pelo garotinho.
Kanon fechou o olho ao ver a imagem, suspirando pesadamente para em seguida começar a rir. Era um sorriso feliz, bem humorado, uma risada sonora. Imediatamente fez o lobo e o vampiro olharem para si.
“—Que ótimo!!! Eu achava que estava pior!!!”
xXx
“—E foi isso que aconteceu.” – Falou o garoto de olhos azuis, alerta por perceber uma movimentação na cozinha, seus ouvidos eram muito bons.
“-- . . .”—Diogo estava pasmo, perguntava-se como alguém conseguiria sorrir mesmo após tudo aquilo.
Ele não sabia, mas a cerca de dois anos atrás, Shirou e Mett se fizeram esta mesma pergunta, e apesar da falta de escolha do rapazinho aspirante a alquimista, ele fez o coração do vampiro loiro e naquela época juiz de Libra se acalentar.
Mett trocou a vida de Juiz para poder vir para a terra, decaindo de nível e perdendo muitos de seus poderes em troca de poder amar seu Kanon, aquele que protegeria enquanto estivesse vivo.
“—Bobo”—Kanon riu, olhando para a porta da cozinha, de onde saíam Mett e Dante, conversando amigavelmente.
Logicamente era tudo fachada, Dante era aspirante a juiz, não se deixaria abalar por alguém que trocara todo o poder de decisão do destino para morar com um reles humano à beira da morte.
“—E então, conversaram muito?”—Perguntou o ex-juiz, sério, indo sentar-se ao lado de seu amante.
“—Sim, conversamos sobre mim, na verdade.” – Retrucou kanon, sorrindo doce como quase sempre.
O ruivo ainda estava pasmo, sentiu Dante sentar-se ao seu lado e não deu a mínima importância para tal fato.
“—A propósito, criança. Veio aqui para que eu lhe falasse sobre os alquimistas, não é verdade?”
“—Ah, sim…” – Caiu em si, balançando a cabeça.
A história alquímica era longa o suficiente para preencher centenas de folhas, e assim como Mett não contou tudo a Dante, não contarei tudo a vocês, leitores, por ter certeza de que a leitura ficaria cansativa, principalmente se você é aspirante a vampiro ou alguma outra raça.
Portante, ao meu ver é melhor pularmos esta parte chata e tediante e passarmos até os ‘finalmentes’.
Diogo já estava aponto de dormir ao ouvir falar tanto sobre alquimistas famosos e o que eles faziam, era um assunto chato, por assim dizer, seus olhos pesavam e já era quase sete horas da noite quando Kanon levantou-se e foi arrumar um bom jantar para os quatro ali.
“--. . . Depois dele apareceram muitos outros alquimistas que…”
“—Hmahahamdnfgnm…” – Ressonava Dante. Este dormira após duas horas de conversa.
“—…Mas o que você precisa saber... São as partes mais importantes do estudo alquímico, que deixei para o final.” – Fala com o mesmo aspecto sério.
“Porque demônios este cara não falou primeiro a parte importante?”— Pensou. Já estava irritado mas resolveu se recompor. Arrumou-se naquele sofá. “—Sim…”
“—Após anos de estudo, um alquimista se forma, ele finalmente recebe dos treze juizes a permissão para se tornar alquimista, neste momento, sofre uma metamorfose.”
“Hm… Dante falou algo sobre a metamorfose…”
“—Ela consiste na perda de todos os dentes e pelos do aspirante, e por um período indeterminado ele sofre uma espécie de troca de pele.”
“--Quer dizer como nas cobras?” – Perguntou assustado. Pelos e dentes?!!
“—É pior. O aspirante a alquimista é para sempre privado de sua masculinidade.”
Aquilo foi um choque para Diogo. Não entendera, como assim privado de sua masculinidade? Mas Abel era um homem apesar de parecer uma garota, ele não poderia ter ocultado um detalhe assim tão importante de si.
Discretamente, o ruivo tirou a aliança que ganhara de Abel de seu dedo mínimo e colocou no fundo do bolso da calça. Estava triste, e porque não decepcionado com o alquimista. Mas de repente surgiu-lhe uma dúvida relacionada a Kanon.
Esperou o garoto voltar da cozinha para esclarecer-se.
“—Kanon, você está ciente de que vai perder sua masculinidade e mesmo assim quer se tornar alquimista?!” – Arregalou os olhos para o rapaz.
“--. . . “ – Ficou sem graça e meio corado durante alguns segundos, vacilando na hora de responder. “—Eu não preciso… Do… Meu…” – E calou-se.
Mett abraçou o aspirante a alquimista com uma certa força e naquele momento Diogo entendeu o que ele queria dizer.
“—Ahhhh tá.”
Passaram mais algum tempo conversando, agora sobre variadas coisas, o ruivo estava cheio de ouvir falar de alquimistas. Jantaram junto com Kanon e Mett, e quando foram sair da casa daquele casal no mínimo ‘estranho’, já passavam de nove da noite.
“—Agora vou para casa, perdi aula hoje, mas amanhã tenho que acordar cedo!”
Surpreendeu-se ao ver Dante pegando com força em seu braço, levando-o por uma cadeia de outras ruas estreitas, arregalou os olhos verdes ao se ver diante de uma rua toda iluminada, nesta, a música era bastante audível, muitas pessoas caminhavam por toda parte, entrando nas boates, nas casas de prostituição e casas de jogos.
Para um adolescente como Diogo, aquele lugar era quase… O paraíso.
Apesar de ele estar ainda um pouco receoso.
“—Porque me trouxe aqui, Dante?”
“—Como é ingênuo… Dê adeus a tudo que você sabe sorte o mundo, esqueça o que sente, hoje você vai se divertir nas mãos de boas meninas.”
E foi com o coração palpitando que Dante e Diogo entraram em uma daquelas casas de prostituição, coloridas, iluminadas, com bebida e música suficiente para quem pudesse pagar.
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