Pra onde quer que eu vá...
1 Corinne
Notas iniciais

Eu tinha amado um homem que achava conhecer. Agora estava casada com outro, que não fazia questão de correr atrás de mim de vez em quando. Não que meu marido não ligasse para mim, ele apenas sabia que não era o amor da minha vida e se ressentia por isso.
Eu sempre tive tudo o que quis, porque o dinheiro é capaz de comprar tudo, inclusive pessoas. E o dinheiro é sim, capaz de proporcionar a felicidade, pois a felicidade de muitas pessoas se resume a levar uma vida estável, confortável, tranquila e é isso o que o dinheiro nos dá. Mas nesse momento, eu apenas me sinto vazia. Pois o dinheiro me proporcionou o melhor hospital, os melhores médicos, o melhor atendimento e nada disso foi capaz de salvar a vida do bebê que eu nem sabia estar carregando em meu ventre. Foram tantos anos almejando este momento e ele simplesmente se foi, tão de repente quanto veio.
Meu marido chora em algum canto do lado de fora, vejo as silhuetas escuras dos meus pais encurvados nas cadeiras da sala de espera particular. A médica preferiu falar com Remy primeiro, e no momento em que ouvi o som de coisas quebrando, sabia que algo estava errado. Ele não veio até mim desde então. Recebi a notícia sozinha, ainda deitada na cama fria, recebendo medicação na veia. Não chorei, aliás, minha única reação foi não ter reação alguma. Não era indiferença, era vazio, uma solidão tão grande que tomou conta do meu corpo. Nada mais tinha importância, tudo o que fiz da minha vida até aquele momento haviam perdido o sentido.
...
Os dias passaram, a casa estava sombria e vazia. Remy passou a se dedicar dia e noite ao trabalho. Eu evitava todos, inclusive os empregados, sempre me trancando e as vezes até dormindo em outros cômodos que não fossem a suíte principal. Meus pais moravam longe, o que era um alívio. Meu pai as vezes tentava me ligar, mas sempre era atendido por outras pessoas, pois abri mão do contato social com quem quer que fosse. Tinham tentado me forçar a uma terapia, mas eu enxotei a psicóloga aos berros e arremessando objetos em sua direção, fazendo com que não tivesse vontade de voltar apesar da oferta generosa para sua conta bancária.
Quando eu percebi, haviam se passado 3 meses e meu estado era deplorável. Minha pele passara de sedosa para seca e levemente descascada. Meus cabelos haviam crescido e perderam o brilho. Eu estava mais magra também, pois me alimentava mal. Meu rosto era a pior parte, eu adquirira olheiras, parecia ter envelhecido a cada dia, estava pálida, os lábios num tom opaco. Minhas unhas também não se encontravam em bom estado. Tudo em mim tinha perdido a forma. Depois de tanto tempo, eu finalmente me olhei no espelho e não gostei do que vi. Aquela não era eu.
Coloquei a banheira pra encher enquanto pedia aos empregados para ligaram pra uma equipe de massagistas, cabeleireiros, manicures e tudo o mais que pudesse melhorar o meu estado. Também mandei que preparassem uma refeição completa para o almoço e que abrissem as cortinas de todos os cômodos, que melhorassem o ar da casa o máximo que pudessem, colocando flores frescas e tudo o mais que ajudasse a colorir o ambiente novamente. Eu estava cansada de viver daquele jeito.
Mergulhei na água quente da banheira e senti um prazer que há tempos não sentia. Eu era jovem, 28 anos para ser exata, ainda tinha uma vida toda pela frente, uma conta bancária milionária, os contatos certos e principalmente, a vontade. Talvez um dia, eu viesse a formar uma família, mas não vivendo assim. Peguei uma esponja e comecei a esfregar minha pele suavemente, a equipe certamente cuidaria de coisas como a minha depilação, então eu não precisava me preocupar.
Uma hora depois e a sala de estar havia se tornado um pequeno spa. Os empregados iam de um lado pro outro, melhorando o ambiente. A luz dourada do sol novamente iluminando tudo de um jeito elegante. Eu estava relaxando, enquanto vários profissionais trabalhavam para melhorar minha aparência. Meu cabelo ganhou um corte novo, que lhe conferiu um ar mais leve, as mechas negras brilhando como antes. Meu corpo massageado e hidratado me proporcionava uma sensação gostosa. Aos poucos eu ia voltando ao meu perfil e não podia estar mais satisfeita.
-Rebeca. -chamei uma das empregadas que passavam por ali.
-Sim, sra. Roux? -respondeu, se aproximando.
-Onde está meu marido?
-O sr. Roux foi para a empresa, ele saiu antes das 7 horas.
-Obrigada, Rebeca. Pode ir.
Não me incomodo com o comportamento de Remy. Mesmo antes de tudo isso acontecer já eramos distante o suficiente para só nos encontrarmos quando nossa agenda avisava que tínhamos algum evento importante. É claro que tudo foi diferente nos dois primeiros anos de casamento, naquela época eu não via que Remy nunca passará de um homem atencioso para mim, ele era um rosto bonito, com um nome importante e um vantajoso contrato pré-nupcial. Logo ficou evidente de que nada disso teria um futuro duradouro, principalmente quando eu tentei reatar com um antigo amor, foi quando Remy desistiu de uma vez por todas da relação e só continuamos casados por capricho.
O resto do dia passou rapidamente, o cordeiro assado pro almoço despertou uma fome que eu desconhecia. Depois tentei colocar minha vida em dia, atualizar compromissos, responder tudo o que estava acumulado, ligar o celular e descobrir o que estava acontecendo no resto do mundo. Remy apareceu no meu escritório em algum momento da noite e ficou me observando por breves minutos, parado na porta, então foi embora. Mais tarde, deitei na cama e dormi satisfeita comigo mesma.
No dia seguinte acordei animada, me arrumei, mesmo não estando com roupas da moda e desci pra tomar café. Os empregados tinham preparado um banquete. Me sentei e apreciei aquela maravilha, por estar mais magra, podia me dar ao luxo de não seguir a dieta. Remy apareceu rapidamente, tomou uma xícara de café puro e engoliu um pedaço de bolo, correndo pro carro em seguida. Eu fiquei por alguns minutos mais, planejando meu dia. Decidi fazer compras eu mesma, pra espairecer e esticar um pouco as pernas.
Acabei almoçando com meu pai e encontrei algumas conhecidas. Tudo tão comum quanto antes. A noite haveria um jantar importante e tive que ligar pra secretaria de Remy para confirmar nossa presença. Estava indo em direção ao carro quando um grupo de crianças passou, elas estavam empolgadas e arrastavam uma mulher que julguei ser a mãe, falando sem parar sobre uma roda-gigante, brinquedos e outras coisas mais. As observei o bastante para identificar que estavam indo para o parque de diversões instalado mais adiante. Inconscientemente me aproximei o bastante para olhar o parque, com meus saltos sujando de terra. Não ousei me aproximar mais, aquele lugar não era pra mim, que deveria estar em casa, me arrumando pro jantar.
Me virei para ir embora no momento em que alguém vinha na minha direção. Quase cai para trás, mas braços fortes me seguraram. Levemente irritada levantei minha cabeça para reclamar, mas fiquei paralisada com os olhos que me encaravam. Por um momento quase achei que fosse ele, mas descartei essa hipótese assim que olhei mais atentamente. O tom de azul era o mesmo, entretanto, eles não escondiam uma escuridão por trás, não, aqueles olhos continham um brilho quase infantil. Percebi ainda estar ancorada a ele e o empurrei para que me soltasse.
-Já vai, assim tão rápido?
Sua voz tem um tom de divertimento, enquanto sua boca se curva levemente para cima no canto. O encaro novamente, a irritação voltando.
-Você devia olhar por onde anda. -sibilo. Ele agora sorri abertamente.
-Ah, mas eu estava olhando perfeitamente. -responde audacioso.
-Trombar nas pessoas e quase derrubá-las não é educado. -retruco.
-As vezes é a única forma de chamar a atenção delas.
-Bom, com licença. -peço, contornando seu corpo.
-É realmente uma pena. -ele diz, me fazendo parar. -Você deveria entrar, é divertido.
-Entrar no parque? -pergunto chocada, ele assente. Cruzo os braços. -Você já olhou pra mim? -pergunto, então ele me olha de cima a baixo. Reviro os olhos. -Ótimo, agora que já conferiu, percebe que isso aqui não é lugar pra alguém como eu.
-Pelo contrário. -me desafia. -Um parque é o lugar perfeito pra qualquer tipo de pessoa. Tenho que admitir que a sua roupa não é das mais indicadas, mas quem se importa? Aposto que você pode comprar milhares iguais a essa. A questão é, se você veio até aqui, porque não entra?
O encaro, finalmente reparando em sua aparência. Seus cabelos castanhos ondulados tocam os ombros largos, seu corpo definido envolto numa camisa polo vermelha e uma calça jeans de lavagem escura, seus pés estão calçados numa bota masculina. Apesar das roupas, não há dúvidas de que é um homem de negócios, do tipo que não ouve um não com frequência. Conheço bem o tipo.
-Não que seja da sua conta, mas eu tenho um evento importante para ir. -respondo finalmente.
-Um jantar de negócios? -questiona, também reconhecendo meu perfil.
-Exatamente. -confirmo. Ele coloca as mãos nos bolsos.
-Bom, não posso fazer nada então, espero que se divirta. -responde. Assinto, lhe dando as costas e saindo o mais rápido que meus saltos permitem.
Além de estar atrasada, ainda fiquei perdendo tempo com um desconhecido audacioso. Finalmente entro no carro e volto para casa, onde encontro Remy recostado no sofá já de smolking e com um copo de whisky. Ele me encara, erguendo as sobrancelhas, mas apenas o ignoro e corro para o quarto. O vestido que eu comprara mais cedo havia sido preparado conforme minhas instruções para que eu pudesse usá-lo esta noite. Tomei um banho apressado e me arrumei, me juntando a Remy na sala de estar uma hora e meia depois.
Não nos dirigimos uma palavra o caminho todo. O local estava cercado de paparazzi, então fingimos ser o casal que não somos. Adentramos o salão cheio, sendo parados a cada passo por vários conhecidos enquanto íamos em direção aos nossos lugares. O jantar não demorou a ser servido, pois havíamos chegado em cima da hora. Não demorei a perceber que havia feito a escolha errada, tinha saído de um quase luto ontem e não estava mais preparada pra lidar com a monotonia que acompanha esses eventos. Quando os discursos começaram eu estava impaciente, se ao menos pudéssemos ir logo para as danças... Outra decepção. Remy se levantou, indo conversar com possíveis investidores, me deixando sozinha.
Decidida, me levantei ruidosamente, indo rumo a saída, desviando indiscretamente de quem viesse em minha direção. A chuva de flashes me recebeu um tanto surpresa. O motorista demorou a chegar, e fiquei tentada a pedir um táxi, mas não era uma boa ideia. Uma vez no carro, pedi ao motorista que fosse imediatamente ao local em que me levara mais cedo. Novamente parada, agora não apenas meus saltos sujariam com a terra, mas a barra do vestido também. Encarei a entrada do parque, ainda sem saber o que fazer, ergui a cabeça e fui em frente. Ignorei os olhares de espanto e procurei um rosto conhecido na multidão, estava desistindo quando esbarrei em alguém e braços fortes me seguraram.
-Ei, vai com calma. -falou o homem. Então levantei a cabeça e vi a surpresa estampar seu rosto. -Ora, precisamos parar de nos encontrar assim. -brincou, com um sorriso presunçoso.
-Então, onde está a diversão que você garantiu mais cedo? -desafio, ele ri. Então me analisa, erguendo as sobrancelhas.
-Você já viu como está vestida? -pergunta, usando minhas palavras anteriores contra mim. Reviro os olhos.
-Como você mesmo disse, posso comprar outros milhares deste. -retruco.
-Rá. -exclama. Ele volta a analisar meu vestido, então do nada me puxa pra um canto, quase me fazendo perder o equilíbrio por causa dos saltos. Ele me faz subir em um piso elevado de concreto e se ajoelha ao meu lado.
-O que você pensa que está fazendo? -pergunto chocada. Ele não responde, puxa o tecido do vestido que cobrem minhas pernas torce e faz um nó lateral na altura das minhas coxas.
-Pronto, assim é melhor. -diz, admirando seu trabalho, enquanto eu o olho atônita.
-Isso é ridículo!
Ele me ignora e volta a me puxar. Andar sobre a terra requer extremo cuidado, mas meu companheiro não parece se importar com isso.
-Ei, não sei se você se lembra, mas eu estou de salto! -reclamo. Ele se vira pra me observar com seus olhos azuis intensos.
-Você deveria tirá-los. -diz, simplesmente. Gargalho. -Isso ou então quebramos o salto e você fica com algo parecido com sapatos árabes.
-Não precisamos de nada disso, é só você ir mais devagar. -falo. Ele revira os olhos e volta a andar, mas dessa vez mais contido.
Paramos numa fila que concluo ser da pequena montanha-russa. Aguardamos alguns minutos até chegar nossa vez, então a realidade recai sobre mim.
-Isso é completamente absurdo, você pode ser um psicopata e eu pareço sofrer de problemas mentais neste momento. -solto, ele ri.
-Quer dizer que você é louca? -questiona divertido.
-Bem, isso é realmente uma loucura. -digo.
-Eu não posso dizer que não sou um psicopata, pois isso seria o que um psicopata diria. Então, você vai ter que arriscar. -fala, me fazendo rir.
-Minha nossa! -exclamo. Então o encaro. -Sua sorte que eu decidi me arriscar por completo está noite. -pisco.
Antes que ele possa me responder chega nossa vez, ele tira dois tickets do bolso e entrega pro atendente. Entramos num dos carrinhos e esperamos até que todos sejam preenchidos.
-Caso você seja um serial killer, você possui algum nome "artístico" ou usa o de batismo? -provoco.
-Essa é uma maneira interessante de perguntar meu nome, ninguém tinha tentado essa antes, vou até anotar. -zomba.
A trava de segurança desce, nos avisando que em segundos estaremos chacoalhando de um lado pro outro em alta velocidade e gritando como loucos. Sinto meu coração acelerar em antecipação. Não sou capaz de me lembrar a última vez que fiz algo assim, acho que nunca, afinal, eu era a filha perfeita, educada para conseguir um bom casamento e ser exatamente tudo o que meu marido necessitar. Mas, ao mesmo tempo, eu fui criada para fazer valer minha vontade, porque eu era uma Wright e quando nós falamos, o mundo para pra ouvir.
A sensação de estar caindo me atingiu e não pude evitar o grito que se instalou em minha garganta. Ao meu lado, o desconhecido audacioso ria da minha reação. Tentei me controlar respirando fundo, mas era uma novidade grande demais pra assimilar tão rápido.
Minhas pernas estavam bambas e meu corpo pesado quando os carrinhos estacionaram. Precisei de ajuda para me levantar, ainda atordoada.
-Adam. -falou. O encarei sem entender. -Meu nome é Adam, Adam Mitchell.
-Corinne, Le Roux.
Eu tenho certeza de já ter ouvido falar no sobrenome Mitchell, mas não me lembro muito bem agora. Me encosto na grade próxima a nós, tentando me recuperar.
-Le Roux, hein. -comenta, dou de ombros. Não é educado, mas eu apenas não tenho nada mais para dizer. -Então, pronta pro próximo?
O encaro surpresa, seus olhos estão brilhando em divertimento.
-Podemos esperar mais uns minutinhos? -pergunto esperançosa.
-A gente espera na fila. -responde, agarrando minha mão e me puxando pra outra direção.
O próximo era o barco viking, o que foi mais tranquilo, mas não o bastante para acalmar meus nervos em êxtase. Comecei a rir sem motivo aparente, enquanto o barco parecia que iria voar e todos gritavam empolgados.
-Você está tendo uma crise de loucura neste momento? -grita Adam, ao meu lado.
-Talvez! -grito de volta.
Dessa vez Adam ri junto comigo. Quando saímos do barco as pessoas nos encaram sem entender, estamos fazendo um escândalo de tanto que rimos.
-Para, minha barriga está doendo. -peço, sem folego.
-Mas foi você que começou. -protesta.
Paramos um pouco pra respirar e eu me sinto tão bem. Meu corpo está um pouco dolorido por causa dos acentos duros e movimentos bruscos, mas a sensação é incrível.
-Droga, não quero ir embora daqui nunca mais. -falo.
-É muito bom, né?
-Isso é viciante!
Adam me encara maravilhado.
-Você nem parece mais aquela mulher medrosa de mais cedo, virou uma criança. -analisa.
-Ei, eu não sou medrosa. -reclamo.
-Eu quero ir no carrinho de bate-bate, mas você não vai conseguir dirigir com esse salto. -diz. Ergo uma sobrancelha.
-É um desafio?
-Não, meu Deus, de jeito nenhum, é um fato! -responde rindo.
Olho ao redor procurando o tal brinquedo. O encontro com uma pequena fila e caminho decida até lá.
-Onde é que você está indo com esse rebolado? -pergunta. Decido ignorá-lo e ele vem até mim. -Você tá com uma cara de que vai matar alguém, quem é o serial killer agora? Devo correr?
Reviro os olhos e continuo meu objetivo. A fila começa a andar no momento em que chegamos perto. Adam me olha em dúvida, eu apenas dou um sorriso cínico. O atendente me olha de cima abaixo incrédulo.
-A senhora tem certeza de que quer ir nesse brinquedo? -pergunta preocupado. Adam da um sorriso vitorioso. Mas eu abro um sorriso maior ainda, jogando charme pro atendente.
-Pode apostar que eu vou. -respondo, os deixando para trás e indo até um carrinho desocupado.
Adam corre até mim, mas eu já estou com o cinto de segurança, devidamente acomodada no assento e os dedos agarrados no volante. Ele balança a cabeça descrente e vai em busca do próprio carro. Dois minutos depois uma buzina soa e todos viram alegres barbeiros. Eu piso no acelerador e viro o volante pra direita, em busca do carro de Adam. A confusão que se forma me impede de ter uma visão clara de sua localização. Batem em mim, mas eu não dou importância a ninguém ali, meu objetivo é Adam e apenas ele.
Um movimento a esquerda me chama atenção, um carro vindo em linha reta na minha direção. No momento em que haverá uma colisão eu piso na ré, fazendo com que o carro de Adam passe reto e bata na borracha em volta da pista, então viro levemente meu carro em sua direção e bato em sua traseira.
-Merda! -xinga. Gargalho.
O bate-bate se torna uma perseguição. Algumas pessoas entram no meio, tornando tudo mais divertido. O riso é constante, sei que vou sair daqui com as marcas do cinto por causa dos trancos violentos e não me importo, deixo pra me preocupar com isso amanhã. Estou fugindo de Adam quando a buzina soa novamente e os carrinhos morrem. Todos protestamos, mas acabamos saindo.
-Ok, estou impressionado. -admite Adam, sorrio.
-Eu sou uma mulher empoderada, querido, eu faço e aconteço. -digo, erguendo o rosto, mas ele apenas revira os olhos.
-Aonde mais você quer ir? -pergunta. Seu olhar recai sobre meus ombros e ele se assusta com as marcas vermelhas deixadas pelo cinto. -Meu Deus, parece que te bateram.
Ignoro sua observação e volto a olhar o parque. Até que vejo uma barraquinha de tiro ao alvo.
-Bem ali. -indico.
-Vamos ver quais são seus dons. Mas sinceramente, espero que você não dirija de salto no dia a dia. -fala, indo em direção as barracas. O acompanho, ansiosa, nunca atirei na vida.
Com arma em mãos eu separo as pernas e me posiciono, pra quem olhar deve ser uma cena cômica. Uma mulher adulta de salto alto, vestido amarrado segurando uma arma de plástico no meio de um parque. Adam está recostado na barraca, aguardando meu tiro e esperando pra rir da minha performance. Miro o alvo e respiro fundo, no fundo minha vontade é rir descontroladamente, essa noite está completamente fora dos trilhos. Aperto o gatilho confiante, mas erro meu alvo por alguns centímetros. Adam ri e pega outra arma.
-Vou te mostrar como é que se faz. -diz convencido.
Então sou obrigada a vê-lo ganhar um urso de pelúcia gigante. Ele o ergue como se fosse um troféu e eu apenas balanço a cabeça.
-Você é um metido. -resmungo. Ele dá o panda para uma menininha perto de nós que grita empolgada e mostra o presente pra mãe, então passa um braço por cima dos meus ombros.
-Não se pode ser bom em tudo, linda. -diz sabiamente.
...
Horas depois estou vendo o sol nascer do alto da roda gigante. Deixamos esse brinquedo por último por ser o mais tranquilo e demos a sorte de pegarmos um momento desse, é realmente encantador. Ao longo da noite Adam e eu nos conhecemos um pouco mais enquanto íamos de brinquedo em brinquedo. Optei por andar descalça, mas Adam resolveu me carregar nas costas por todo lado. Tudo o que aconteceu foi muito mais do que eu poderia imaginar, não me arrependi de ter fugido daquele maldito jantar e do meu pseudomarido.
A roda volta a descer e sabemos que é o momento final, o parque vai fechar e temos que voltar pra realidade. Saímos da cabine e Adam me tira do chão pela última vez, caminhando até a saída. Aterrizo meus pés no chão e volto a calçar meus sapatos de salto, aproveitando para desfazer o nó improvisado na saia do vestido.
-A noite foi maravilhosa. -começo a me despedir, mas seu olhar penetrante me cala.
Ficamos nos encarando por alguns segundos. Então Adam bufa e passa a mão pelos cabelos.
-Não precisa ser um adeus. -fala, parecendo triste. Não respondo. -Se seu marido se importa-se o mínimo, teria vindo atrás de você.
-Aposto que meu marido acha que eu apenas resolvi dormir em outro quarto esta noite. -respondo.
-Se você se importa-se, não teria passado a noite com um desconhecido. Ou melhor, nem teria me dado bola quando te provoquei na primeira vez.
-Adam, você foi uma companhia melhor do que eu poderia querer e essa noite... Nossa, foi simplesmente única. Mas temos que encarar a realidade, não somos pessoas comuns que podem viver contos de fadas.
-Não quero viver nenhum conto de fadas, apenas não quero fingir que nada aconteceu. -retruca irritado. Suspiro.
-Você sabe quem eu sou. Nesse momento, simplesmente não posso ir com você. Preciso resolver minha vida, talvez pedir o maldito divórcio, enfim, cuidar de mim e minhas pendências, deixei as coisas de lado por tempo demais e agora preciso correr atrás e descobrir o que quero, seja lá o que for. -explico, ele assente. Ele compreende, por tudo o que conversamos esta noite.
-Você é uma mulher incrível e tem o direito de fazer o que quiser da sua vida. -fala, então sorri. -Viva Corinne, faça tudo o que queria e não fez, descubra coisas novas como ontem, divirta-se e acima de tudo, ache seu lugar no mundo. Eu sei quem você é e daqui a um ano estarei de ligando, se você já tiver achado seu caminho, voltamos a este parque, se ele ainda existir e decidiremos o que fazer, se até lá você não tiver se resolvido, eu, pelo menos, espero que esteja feliz. Até lá, não entrarei em contato.
-É um incentivo para que eu ajeite logo as coisas? -pergunto sorrindo. Ele retribui.
-Espero que sim. Por enquanto, adeus Corinne Le Roux.
...
Caminho sem rumo. O beijo dado por Adam ainda aquece minha testa e me motiva a fazer coisas que eu deveria ter feito antes. Não estou com pressa, mas sim empolgada. Há dois dias minha vida deu um giro de 360 graus e eu simplesmente preciso aprender sobre a nova Corinne.
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