Matheus está no trabalho, como sempre não tinha muita coisa para fazer então ele encarava a tela do computador, na dúvida se assistia qual de suas histórias favoritas: Liga da Justiça, um grupo de super heróis que viaja no tempo para impedir crimes, Billy Quest, a história de um garoto que viajou para o futuro e agora quer voltar pra casa e Dr. Who, sua série favorita.

A sala onde Matheus trabalhava era um tanto pequena, tinha duas mesas logo na porta, para trás, havia duas salas, uma para o deputado que era a maior e outra para o seu assessor Jairo, que era menor, mais ainda assim maior que o corredor que ficava Matheus e Carol, a outra assistente do escritório.

— Ainda vendo essas histórinhas, Matheus? — pergunta Carol se aproximando da mesa dele.

— O que mais que vou fazer? Não tem muito o que fazer aqui né…

— Você já viu aquele programa “Donas de Casa usando seus Dons”? É muito bom, tem uma mulher que lava a louça com a mente!

— Não é muito a minha praia… mas agora já pensou viajar no tempo? Quanta coisa você não pode fazer?

— Ouvi dizer que tinha um cara na Alemanha que viajava no tempo.

— Era mentira, já foi comprovado que ele usou photoshop pra mexer nas fotos, ninguém nunca teve esse dom.

— E pra que você iria querer voltar no tempo? Ir para o futuro, até tudo bem, mas voltar no tempo? O passado só tem velharia e coisa ultrapassada.

— Seria uma tentação, poder consertar seus erros… mas não importa, isso não existe, só nas histórias.

— Deixa eu te contar a história que eu estou vivendo!

— Ah, Carol, não começa…

— Matheus, você não entende, ele tá louco por mim, disse que vai largar a esposa!

— E você acredita?

— Eu não ligo, enquanto os presentes continuarem vindo, é irrelevante. Mas que ele tá todo pra cima de mim ele tá. Me deu esse anel, me comprou um celular novo e você não sabe qual foi a última que ele me contou?

— Hm...

— Ele mudou a senha dele, agora é peitos, cintura e quadril.

— Você já me disse...

— 94 de busto, 81 de cintura e 103 de quadril — dizem os dois juntos enquanto ela aponta para as partes do seu corpo.

— Você sabe que está trabalhando aqui só por causa desse seu caso com o Jairo né?

— E o que tem?

— Daqui um tempo, Carol, ele cansa e vai atrás de outra.

— Pode até ser que sim, mas se eu não estivesse aqui, teria que estar ralando em um outro lugar, ou fazendo faculdade, nem pensar. Nem todo mundo pode ter a vida ganha que nem você

— Vida ganha como?

— Matheus, você tá aqui por causa da sua condição, sempre dão um jeito de colocar um de vocês aqui, não que você não faça seu trabalho, mas você sabe como são as coisas...

— Sempre dão um jeito? Carol, só tem eu e o carinha do xerox de inapto aqui. O que eu sei é que eu sou muito mais que isso, eu ralo tanto quanto qualquer um aqui até mais do que alguns.

— Alguns quem, Matheus? Você tá falando de mim?

Nesse momento a porta do escritório se abre e nela entra o assessor Jairo, ele parece estar com pressa.

— Senhor. — chama Matheus. — Podemos conversar?

— Marcos, eu não tenho tempo agora.

— Serei rápido, senhor, por favor.

— Ok, entra. — diz Jairo abrindo a porta, quando Matheus passa, Jairo manda um beijo para Carol que retribui, ele deve pensar que Matheus não viu, mas obviamente ele viu.

— O que você quer, garoto? — diz o assessor sentando na sua cadeira.

— Então, eu sinto que posso fazer mais do que faço aqui. Quer dizer, as vezes não deixam nem levar os cafés.

— É que você é um inapto...

— Sim, mas isso faz eu não ter nenhum dom, não eu não aguentar uma xicara de café, o Juan que trabalha aqui do lado tem o poder de se teletransportar para os lugares onde ele já cagou, é tão burro quanto uma porta e ainda assim ele tá quase sendo efetivado.

— Garoto, você não gosta de dinheiro? Você tá ganhando grana só pra ficar sentado vendo as suas histórinhas no computador. Fique feliz com isso. Olha o Ricardo quer tentar a presidência, ter você aqui é bom para a campanha, faz parecer que ele se importa com gente como você e é bom pra você também que tira uns trocados. Você deveria estar feliz com essa oportunidade.

— Eu estou feliz, mas é que — Matheus é interrompido.

— Tá, olha... se você quer mais trabalho, eu posso te dar um, mas não conta pra ninguém, viu?

— Sim, por favor!

Jairo joga algo para Matheus, era um objeto pequeno, plástico e com um botão de cadeado no meio.

— Essa é a chave do meu carro novo, ele está na minha vaga obviamente, dá uma encerada nele pra mim. Com todo cuidado, viu? Sei que você é capaz de muito mais do que pensam de você e vai tirar isso de letra essa tarefa tão importante, não se esqueça de desativar o alarme antes de encerrar hein? Não te dei a chave a toa. — completa Jairo dando uma piscadela para Matheus

Matheus sai da sala e nota uma pessoa diferente dentro da sala, falando com Carol. Era uma moça, ela parece triste e preocupada, era oriental, seu cabelo era curto com mechas azuis, usava uma blusa de manga comprida com listras roxas por baixo de uma camiseta e um short jeans.

— Eu sou Daiyu Zhou e eu preciso falar com meu pai, ele trabalha para a Fundação.

— Bem, aqui não temos esse tipo de contato, acredito que você deva falar com eles diretamente.

— É que acho que houve algum engano, ele sumiu faz 3 dias e não tive notícias mais. Não sei se ele está trabalhando de mais ou o que.

— Qual o nome dele? — Matheus teve um pressentimento que algo estranho estava acontecendo.

— Syaoran Zhou.

— Aqui está o endereço e o telefone da Fundação. — diz Carol entregando um papel para a menina. — Agora pode ir.

Matheus observa tudo a distância, as pessoas sempre vinham aqui para pedir ajuda.

— Pensando em mulher né? — pergunta Carol.

— Oi?

— Hmmmm — diz Carol com uma cara de malícia. — Uma namorada?

— Não... Nem de longe. Mas já estou preparando isso faz tempo. Preciso falar pra ela que a amo.

— Nossa... e como ela é?

Matheus hesita por um instante, olha para a moça como se a analisasse por um instante.

— Bem, a Vic é...

— Vic? — interrompe Carol.

— Sim, Victoria. Ela é inteligente, não só naquele sentido de escola, sabe? Mas num sentido de quem realmente sabe pensar rápido, ela é decidida e sabe bem o que quer, o humor dela é meio ácido mas nada que não dê pra suportar.

— E você pretende conquistá-la falando isso pra ela? Eu também seria ácida com você...

— Ela vai dizer que sim. Não posso seguir em frente sem ela.

— Isso! Esse é um caminho bem melhor pra se declarar.

Matheus concorda rindo baixinho.

— Mas você é um inapto. Acha que ela vai querer alguma coisa ainda assim? Tem gente que nem quer falar com vocês né.

— Ela usa preto— responde Matheus sorrindo.

— Você tem certeza que ela usa preto? Não era sei lá, um cinza bem escuro?

— Cinza bem escuro, Carol?

— Ué, sei lá, quem usaria preto? É uma cor tão... estranha.

— Quem não se importa com essas coisas, quem acredita que somos todos iguais, basicamente quem não é babaca.

— Não, concordo, não tem essa coisa de inapto ser inferior a todos nós, tanto que eu te trato você que nem gente normal e somos amigos né? Mas agora usar preto? Não bateram num cara uma vez na rua porque ele tava de preto?

— É só uma cor, Carolina!

— Aí! Vamo mudar de assunto! Esse assunto é muito chato e me dá dor de cabeça só de pensar. Você viu o que o ASSESSOR comprou?

— Esse assunto me dá dor de cabeça... — Carol o ignora.

— Nossa, é muito chique. Ele conseguiu um carro que criaram um troço dentro, não sei como funciona direito, só sei que é um carro que dentro tem uma casa!

— Uma dimensão de bolso no caso, eu já ouvi falar disso, é bem caro pra mandar alguém que tem esse poder fazer uma. Só prova que deve estar rolando algum desvio pra ele conseguir pagar algo assim...

— Quem liga? Enquanto eu puder continuar esbanjando disso tudo.

— Porque você segue me contando essas coisas? Não é como se eu fosse ficar com inveja desse seu caso com o Jairo. — diz Matheus rindo.

— Não quero que você fique com inveja, até porque acho que ele não é gay, bissexual no caso né, porque ele tá caidinho por mim.

— Você já pensou que ele pode ter outras amantes assim como você?

— Olha então que pena delas, porque ele tá gastando bastante comigo, não deve estar sobrando muita coisa pras outras — responde a moça gargalhando.

O expediente termina e Matheus sai ansioso, poderia agora se encontrar com Vic e pôr seu plano em prática. Ele já estava esperando por isso a bastante tempo e finalmente iria poder começar a colocar tudo em ação.