Notas iniciais
Sinopse do capítulo: Flint se vê numa situação conflituosa ao rever seus antigos colegas de escola com os quais formava um grupo de valentões. Zoe se oferece em ajudar, mas é sequestrada por uma versão bad boy de Flint após ele ser vítima de um monstro que separa seu Yin e Yang. Tenha uma ótima leitura (e que o poder o proteja)!

Naquela tarde agitada de sexta-feira, o dojo fervilhava de emoção com o campeonato de karatê reunindo exclusivamente os mais bem avaliados competidores nas classificações iniciais, valendo como prêmio tentador a ascensão a uma nova faixa. Pais e responsáveis dos karatecas vibravam em torcida fervorosa.

Na arquibancada, os Rangers faziam barulho, mas a tensão crescia: os finalistas eram Owen e Mason. Após o intervalo de quinze minutos, o árbitro mandava ambos subirem a plataforma nos lados opostos.

— E que comece a nossa grande final! — bradou o juiz, orgulhoso da energia da plateia — Chegamos ao clímax do campeonato que decidirá qual o melhor lutador do novo grupo de potenciais juniores!

Enquanto os dois se encaravam no ringue, o resto do time se dividia.

— Agora ferrou, não sei pra qual dos dois torcer. — murmurou Tim olhando nervoso para a arena.

— E aí, Austin? — indagou Damian.

— Vocês não precisam da minha opinião, pessoal. Mas se ela importa tanto assim, eu digo que vou pelo Owen. — falara o líder — OK, levanta a mão quem torce de verdade pelo Owen.

Zoe, Tim e Damian se entreolharam-se, logo voltando-se a Austin com suas mãos direitas levemente erguidas. Jessie também participou dos entreolhares e até sinalizaria sua escolha, mas hesitou.

— Jessie? — indagou Austin.

— Ahn, eu... Sabem o que é...

— A Jessie não quer torcer contra o príncipe encantado dela, hahaha. — disse Tim em tom de ironia.

— Não é isso! — irritou-se Jessie — Só acho que o Flint ficaria mal sendo o único a torcer pelo melhor amigo.

— Olha ele aí vindo com nossas pipocas. — disse Tim esfregando as mãos — Em cima da hora hein.

— Já decidiram? Já que somos seis, então é três para cada lado.— falara o Ranger Marrom entregando os saquinhos de pipoca aos heróis e logo depois sentado perto de Jessie, a esquerda dela — O que acham? — levou uma porção de pipoca a boca.

Austin e os demais soavam desconfortáveis.

— Ahn, Flint... Até seria justo fazer assim, só que...

— A gente apostou no Owen porque ele treina há mais tempo. — disparou Tim — Pronto, falei a verdade. Não se chateia, OK? O Mason é super-talentoso também, mas...

— A gente quer dizer vocês quatro. — protestou Jessie que voltou-se a Flint — Eu resolvi torcer pelo Mason porque me senti mal de você ficar sozinho nessa.

Flint explodiu:

— Apoiam o Owen só por alguns meses de treino? E você, Jessie, só preferiu torcer pelo Mason por pena de mim? Tá de sacanagem...

O sino tocou. Mason atacou com chutes, mas Owen desviava e defendia-se com as mãos, logo revidando num giro com um chute certeiro no peito que derrubou-o. O juiz apitou o primeiro ponto.

— Isso não quer dizer nada! — criticou Flint, a irritação crescente.

— Na verdade, a experiência do Owen é mais notória se comparada a do Mason. — analisou Damian.

— Não pedi análise de especialista, beleza? — rebateu o Ranger Marrom.

— Cara, por que você não relaxa e só curte a luta como todo mundo? — aconselhou Tim.

— Eu não vou relaxar e muito menos curtir a droga dessa luta! — disse Flint jogando seu saco de pipocas no chão ao levantar.

Owen vinha se mostrando cada vez mais efetivo ao longo do combate, tendo derrubado Mason mais duas vezes entre os sets.

— Desculpa, Flint, mas... — disse Jessie expressando desconforto — Minha torcida agora vai pro Owen, por mais que o Mason...

— O Mason não é nada para vocês!

— Flint, você tá muito estressado, toma essa água pra esfriar a cabeça. — disse Austin oferecendo uma garrafinha d'água que Flint pegara com rudeza.

— É, maninho, não dá chilique porque o gorilão tá esmagando o morceguinho. — provocou Tim.

Flint sentiu a ira subir como a bile queimando no estômago e fuzilou o Ranger Azul com um olhar colérico, impulsivamente jogando um pouco da água em Tim, depois arremessando a garrafa no rosto dele.

— Flint, para com isso! — reprovou Zoe se enervando.

— Ei, essa doeu! — reclamou Tim pressionando o ponto atingido.

Rosnando de raiva, Flint virou as costas e caminhou para sair do dojo.

— Tim, tá tudo bem? Machucou? — perguntou Zoe, preocupada.

— Foi uma pancada e tanto. — disse Jessie.

— Deixa, eu tô de boa. — resmungou o Ranger Azul — Que cara mais estourado, era só brincadeira!

— No grau de estresse dele, ele não levaria na esportiva. — pontuou Damian.

— Vou atrás dele. — determinou Zoe.

— Traz ele de volta, Zoe. — incentivou Austin — — Pra não ter que pedir desculpas pro Mason também.

A Ranger Rosa tomara rumo até a saída do dojo enquanto os demais concentravam-se no que restava de tempo para o desfecho do embate.

Flint seguia pela calçada chutando pedras, ainda consumido pela fúria. Zoe o encontrou a poucos metros do dojo, ainda com os punhos cerrados.

— Eles não reconhecem o valor do Mason porque é novato assim como eu.

— Está enganado, Flint. — disse Zoe, alcançando-o. Se colocou diante dele, barrando o caminho.

— Sai da frente, Zoe, já não tenho cabeça pra ouvir bronca dos meus pais, quanto menos de amigos.

— E é por ser sua amiga que vim te ajudar a enxergar o problema não por fora.

— Quem manda aquele palhaço falar asneira pra diminuir o Mason?

— A piada do Tim não foi o problema, mas como você reagiu. Não sabe controlar a sua raiva. Mas entenda que não foi o que pareceu, sabemos do potencial do Mason tanto quanto você.

— Se você tá dizendo, então por que não apostou nele? — rebateu Flint com rispidez que assustou Zoe — Opa, ahn... Foi mal, eu ainda tô de cabeça quente.

— Esse é o seu pior defeito, Flint, você tá sempre de cabeça quente! Tem que aprender a se controlar ou vai acabar afastando as pessoas.

— Se restar só o Mason do meu lado, pra mim tá ótimo. É o único que entende porque eu sou assim. — disse Flint que voltou a andar passando por Zoe.

Porém, a Ranger Rosa o segurou pelo braço.

— Você tinha razão, talvez a experiência do Owen não signifique a vitória pra ele numa luta como aquela.

— Isso é você fingindo me perdoar pra me arrastar de volta pra lá, não é?

— Seria bom você dar o braço a torcer. Podia ter ignorado, o Tim não fala por todos nós.

— Pode implorar de joelhos, mas não volto pra lá. Tô pouco me lixando pro resultado dessa luta idiota.

O Ranger Marrom dera as costas e prosseguiu.

— O Mason vai ficar super chateado. É isso que você quer? Decepcionar seu melhor amigo?

Flint a olhara com austeridade por cima do ombro.

— Me deixa em paz. — tornou a caminhar, deixando Zoe para trás o encarando com balançar lento de cabeça para os lados.

— Se continuar dominado pela raiva, você nunca estará em paz. — lamentou a Ranger Rosa que logo virou para retornar ao dojo.

Flint chegou ao condomínio onde dizia viver temporariamente. Subiu alguns lances de escada, mas não se direcionou a sua morada. Alcançou o terraço do prédio, se direcionando ao parapeito.

— Eles não conseguem entender que eu sou feito de duas metades: o cara legal, parceiro da galera, e o cara durão, esquentado que arruma briga fácil.

Baixou a cabeça, sentindo o peso na consciência pelo que fizera no dojo.

— Peraí... Droga, então essa é a sensação... O Tim só tava zoando e eu... Grrr, eu me odeio.

Sua audição captou vozes alteradas vindas de um beco molhado, onde delinquentes agrediam brutalmente um garoto indefeso.

Num ímpeto justiceiro que não o permitiu ficar assistindo aquela cena lamentável de longe como se estivesse num camarote, Flint desceu velozmente as escadas como um treino de parkour até chegar ao local. Quatro valentões cercavam três vítimas.

O líder pressionava o garoto contra a parede, humilhando-o ao enfiar pães embolorados em suas calças.

— Você vai voltar pra sua casinha com as calças cheias como se tivesse se borrado todo, seu verme. — disse o chefe da gangue que atendia pelo nome de Grim, um garoto moreno de cabelo castanho meio espetado e olhar mal encarado usando uma jaqueta preta sem a manga esquerda.

Flint surgiu em um salto, derrubando Grim com um chute no rosto. Os comparsas se reuniram depressa em torno dele, ajudando-o

— A pancadaria acabou! Chega dessa baixaria de bater em quem não sabe revidar! — declarou Flint em tom autoritário. Voltou-se ao garoto surrado — Aí, cê tá legal? Se manda, eu cuido deles.

Flint ficara em posição combativa, esperando represália.

— O que foi? Estão com medinho de enfrentar... Epa, peraí...

Ao encarar os comparsas de Grim — Jerome, Draco e Oliver -, Flint paralisou.

— E-eu conheço vocês...

— Também conhecemos você. — Grim levantou sorrindo — O bom e velho Flint continua batendo forte como fazíamos nos velhos tempos.

— Grim?! Jerome, Draco, Oliver... — disse Flint meio surpreso — Eu nunca imaginei que fosse reencontrar vocês um dia.

— Sabe que nem a gente também? — disse o líder da gangue aproximando-se de Flint com seu andar marrento — Você caiu fora pra nunca mais voltar, lembra? Mas olha como o mundo gira. Você aqui de novo na nossa frente. Não ganho um abraço?

Flint recuou por instinto enquanto Grim se aproximava.

— Sai fora, não sou mais aquele de antigamente.

— Calma aí, parceiro, é só um reencontro entre amigos do passado.

— Se tem uma coisa que não somos é parceiros. Muito menos amigos. — retrucou Flint — Vocês continuam os mesmos fracassados, eu sinto pena só de olhar.

Grim sacou um canivete para limpar as unhas, provocando:

— Qual é, Flint, renegar seu passado sujo conosco? Isso é bem ingrato da sua parte.

— Então eu devia ser grato por me meterem naquela roubada onde quase fui apanhado pelos tiras?

— Certas coisas nunca mudam. E tenho a impressão de que você não mudou tanto assim. — disse Grim rodeando-o com andar lento — Uma vez Cobra Rex, sempre um Cobra Rex.

— E também não mudaram esse nome ridículo. Desiste, Grim, tá perdendo seu tempo. — Flint manteve-se firme — Nenhum de vocês vai me convencer a voltar a ser aquele cara mau.

— Já que você não quer despertar o valentão que ainda mora aí dentro de você, vou fazer a moda antiga.

— Vai, me fala aí como você quer me forçar a voltar.

— Andamos te observando com sua nova turma, principalmente você com aquele seu novo melhor amigo... Como é mesmo o nome dele?

— Pode esquecer, vocês não vão tocar num fio de cabelo do Mason nem de ninguém do meu grupo, falou?

Grim se inclinou para revelar sua intenção maligna:

— Calminha aí, eu tava pensando em fazer uma reforma naquela espelunca que vocês vão pra tomar um suquinho e comer sanduíche de borracha.

— A Cantina do Earl... Grim, não vou deixar...

— Não vai deixar a menos que faça o que eu disser.

— Você não tem mais poder sobre mim! — disse Flint que o empurrou forte. Grim se manteve de pé sorrindo com cinismo odioso.

Os demais fizeram menção de se mover contra Flint, mas Grim sinalizou com a mão.

— Relaxem, rapazes, tá tudo numa boa.

— Não tá nada numa boa. Vocês querem incendiar a cantina como já fizeram com outros lugares!

— Como você fez junto de nós, não se esqueça. — disse Grim, enfático — Tem um jeitinho de impedir que isso aconteça ainda nessa noite. Você só tem até às dez pra nos trazer uma garota.

— Uma garota?! De qual tipo?

— Da nossa idade, de preferência. Meiga e bonitinha. Nosso grupo tá precisando de um rostinho feminino. Se nos trouxer ela antes do tempo esgotar, você tá oficialmente fora do grupo.

— Tá falando sério mesmo? Trago a donzela pra vocês e... eu tô realmente fora?

— Te dou minha palavra.

— Eu topo essa. Conheço alguém que se encaixa. Alguém bem próximo.

— Pois tá combinado. Nosso esconderijo é aquele de sempre. Mas não esquece: até às dez dessa noite. Passou disso, aquela fábrica de fritura vai amanhecer... fritada.

O líder da gangue e os comparsas saíram dando risadas maldosas. Flint ficou a observa-los com semblante sisudo. O peso que antes lhe atormentava na consciência passou a afetar seu coração.

— Foi mal, Zoe. Mas vai ter que ser assim. — sacou o celular e acessou a lista de contatos, vendo a imagem de Zoe e o número dela.

Enquanto isso, na Cantina do Earl, o clima era oposto. Earl servia uma apetitosa fornada de panquecas carameladas aos Rangers.

— Vocês chegaram ao fim do arco-íris e aqui está o pote de ouro, heheheh.

— Ei, Tim, não mete a mão hein. — Mason o barrou — A primeira panqueca tem que ser retirada pelo vencedor da luta.

— Que... fui eu, hahah. — Owen recebeu aplausos de Austin, Jessie e Zoe, pegando a panqueca e experimentando— Caramba, Earl... Isso aqui tá maravilhoso.

— Receita nova na área, galerinha. Parabéns pela vitória também. — felicitou Earl o tocando no ombro.

— Melhor prêmio extra que eu já recebi e que tenho a honra de compartilhar com meu adversário e com os meus amigos.

— Vocês dois deram o maior show de combate. — acrescentou Austin.

— Vocês foram nota mil, camaradas! — completou Tim, de boca cheia.

Earl estranhou a ausência de um integrante.

— Aí, cadê o carrancudo que só veste marrom?

— O Flint tá com alguns probleminhas meio chatos de resolver, mas já convidamos ele. — explicou Jessie — Daqui a pouquinho ele aparece.

— OK, aproveitem a beça. Se precisarem de qualquer coisa, só chamar, beleza?

— Beleza, Earl, valeu por essa fornada fantástica. — respondeu Austin.

Após o cozinheiro se afastar, a instabilidade de Flint virou a pauta na mesa.

— Mason, me desculpa não ter conseguido trazer o Flint de volta pra ver a luta até o final. — lamentava Zoe.

— Não esquenta com isso, Zoe, aquele cabeça dura não volta atrás por nada desse mundo quando tá decidido. — respondeu Mason.

— O ideal é que você tenham uma conversa bem séria. — aconselhou Austin.

— Vão por mim: ele vai aparecer aqui agindo como se nada tivesse acontecido. A raiva dele é passageira que nem chuva no verão. — garantiu Mason.

— Mas sem pedir desculpas? — indagou Jessie.

— Ahn... É, isso vocês não podem mesmo esperar. A raiva passa, mas o orgulho próprio fica. Esse é o meu amigão. — concluiu Mason, embora pensativo.

Enquanto isso, na nave, Lokknon assistia ao replay da briga dos Rangers.

— É um bálsamo pro meu bem-estar ver esses fedelhos em plena desavença, hahahah.

— Momozinho, troca de canal, já enjoei desse. — pediu Enckantess sentada no chão frente ao imperador em seu trono.

— Ah, eu adoraria atender seu desejo, minha cara estrela mística, mas se eu pudesse veria essa cena em cem ou mil vezes ao longo do dia. — disse o Imperador.

Enckantess levantou-se zangada:

— Lokknon, você não tá se portando como um rei amoroso por sua rainha. Pedi pra mudar o canal.

— Em que mundo isso é pedir? Você tá agindo como se fosse a mãe do mestre. — criticou Aracna.

— Engano seu, Aracna. É uma solicitação a favor do afeto que temos um pelo outro. Isso inclui satisfazer as vontades sendo recíproco. — rebateu a bruxinha.

— Enckantess, minha fada deslumbrante, é claro que mudo de canal se estava incomodando.

Lokknon mudou para Flint no terraço.

— O Ranger Marrom parece viver uma crise interna! — apontou Barooma.

— Coitadinho, ele tá tão perturbado... — debochou Aracna.

— É como se ele estivesse em dúvida sobre quem ele quer ser de verdade. — disse Enckantess — Momozinho, posso me disfarçar de terapeuta pra pegá-lo numa armadilha?

— O mestre é quem arquiteta os planos estratégicos, essa prerrogativa nunca deixará de ser dele. — opôs-se Mudok.

— O que eu falei sobre satisfazer as vontades de modo recíproco? Lokknon, amorzinho, não escuta ele, me deixa ser útil num plano hoje.

— Hum, posso permitir que você nomeie um monstro por hoje. — concedeu Lokknon.

— O quê? Mas mestre... — reclamou Aracna.

— Mas nada, Aracna! Fique onde está e não venha retaliar contra minha amada esposa. Hoje ela tem esse papel.

— Mas só isso? Eu bem que gostaria de ser mais ativa, você me entende. — disse Enckantess, acariciando o rosto dele.

— Oh, minha dama mística, eu me preocupo com sua segurança. O Ranger Marrom é bastante forte e pode ferir sua delicada pele. — disse Lokknon, beijando a mão dela.

— Oh, se é por esse motivo, então aceito.

— Mas antes disso, ele fará um pequeno trabalho em relação ao Ranger Marrom. Vamos aproveitar que ele está tão atormentado e separar as metades de seu perfil para deixar os Rangers perdidos. — decretou Lokknon.

— Existe um conceito da filosofia terráquea afirmando que todas as coisas são regidas por duas forças opostas que se complementam! — disse o cientista.

— Acho que sei do que está falando, Baroominha. É um símbolo com uma metade preta e outra branca. Se me permite... É claro que permite, chega pra lá. — disse a bruxinha assumindo o painel.

— Que liberdade é essa? Barooma, você não deixa ninguém mexer no seu computador. — sibilou Aracna.

— Se eu não deixar, o mestre me punirá por destrato com sua rainha!

— Correto, Barooma. Gosto de ver que a presença de Enckantess não alterou sua consciência de subordinação. — aprovou Lokknon.

— Aqui está, pode transferir os dados pra máquina. — disse Enckantess.

— Obrigado, Enckantess! Agora transferindo os dados sobre o simbolismo de dualidade e lâminas mortais! Pronto! — o cientista fora até o bio-modelador — Que venha com muita saúde! — baixou a alavanca.

A máquina piscou suas luzes relampejando por toda a sala enquanto exalava fumaça de vapor como névoa. A porta da cabine abriu-se, dela saindo um monstro trajando vestes de guerreiro chinês e carregando uma espada embainhada

— Mestre Lokknon, tenho sua benção para iniciar uma operação! — disse a face preta.

— Mas devemos fazer isso com extrema cautela para não errar o alvo. — disse a face branca.

— É impressão minha ou ele fala com duas vozes diferentes? — indagou Aracna.

— É como duas personalidades habitando o mesmo corpo. — confirmou Mudok.

— Complementares tal qual yin e yang! — ressaltou Barooma.

— Ah, mas que legal. Acho que vou chamá-lo de...

— Mutenthos! — disse Enckantess que fizera a boca de Aracna desaparecer completamente — Eu quem fiquei com a tarefa de batizar o monstro de hoje, esqueceu?

A princesa aracnídea, desesperada, voltou-se a Lokknon com olhar de súplica, o imperador mostrando-se despreocupado.

— Foi merecido, Aracna, hahahah. Você foi brilhante, minha dama mística!

Aracna saiu bufando e Enckantess concluiu:

— Pena que eu exagerei um tiquinho. Era só pra calar a boca dela, não fazer desaparecer, hehehe. Enfim, você é o queridinho do meu imperador pra dar uma lição nos Rangers, portanto não o desaponte... Taoyinyang, esse é seu nome.

— Esplêndido! — disse a face branca.

— Me digam quem será o primeiro alvo! — pediu a preta.

— Este garoto, o Ranger Marrom! — Barooma mostrou Flint no monitor — Ele está distraído, abertamente vulnerável!

Na rua, Flint telefonava para Zoe. A Ranger Rosa vira o número, mas hesitou em atender.

— É o Flint.

— Atende, diz que o Mason saiu daqui pra ir atrás dele. — sugeriu Jessie.

— Tá bem, eu só espero que essa conversa não se transforme em outra discussão — Zoe logo atendeu — O que você quer, Flint?

— Já saíram do dojo?

— Estamos no Earl comemorando a vitória do... Mason. — mentiu ela, nervosa — Ele acabou de sair atrás de você pra te trazer pra cá.

— Escuta, eu preciso que a gente se veja a sós, uma conversa em particular.

— Já tivemos uma conversa em particular e não acabou muito bem.

— Dessa vez eu quero te pedir um favor, mas você precisa vir me encontrar.

— Tudo bem, eu... eu vou sim. Me diz onde você tá.

— No parque ecológico. Quero te mostrar uma coisa, fiquei sabendo... de um retiro pra pessoas que tem dificuldade de controlar as emoções e seria uma boa você me acompanhar.

Taoyinyang apareceu em teleporte sobre a sacada de ferro perto de escada de emergência de um prédio.

— Ali está minha primeira cobaia de teste! — disse a face yang. — Chamando a alabarda duplicadora. — falou a yin.

A arma com sua vigorosa lâmina surgiu nas mãos dele. Mirou-a em Flint que estava de costas e já havia encerrado a ligação.

— Então gira, gira, gira... E lá vai! — desferiu um corte vertical de cor vermelha que recaiu sobre Flint como um raio, atravessando pelo meio.

As contrapartes se esclareceram com o dissipar da aura e logo se entreolharam. A reação não poderia ser diferente de um arquejo de surpresa com dedos apontados um ao outro.

— Hahaha, foi um primoroso sucesso esse teste! — disse yang. — Eles estão olhando, fugir seria uma boa opção antes que nos ataquem. — sugeriu yin.

— Você aí, seu mascarado desgraçado! — gritou o malvado — Vou subir até aí e te quebrar inteirinho na porrada, tá me ouvindo?

— Ei, cara, fica frio! — disse o benigno — Violência nunca é a saída pra resolver problemas.

— Me solta! Larga do meu pé se não quiser tomar uma bifa no meio da cara! — o malvado o empurrou, derrubando-o.

— Saibam que jamais voltarão a ser um só. Tirem um aprendizado disso e convivam em paz. — disse Taoyinyang, a metade branca.

O monstro fugira em teleporte, irritando o Flint malvado que agarrou seu eu benigno pela camisa.

— Viu aí, seu otário? Por sua causa, ele escapou.

— Somos a mesma pessoa, certo? Se me ferir, você se fere também.

— Pior que você tem razão, seu trouxa. Grrr, vou ter que dividir tudo com meu lado mais fraco!

— Não precisamos viver uma mesma vida, tá legal? Mas se quiser alguma coisa emprestada...

— Tipo o quê, idiota? Não vai me dizer que é a Zoe.

— Por favor, não me machuca! Eu te prometo deixar ficar mais tempo com a Zoe, o Mason e todos os outros.

— Quer saber de uma coisa? Eu não preciso de amigos como aqueles panacas, não preciso de ninguém! Posso ser um Power Ranger Marrom sozinho, melhor que todos eles juntos.

— Tudo bem se quiser ser o único Ranger Marrom, mas uma coisa eu não posso permitir que faça: levar Zoe pro esconderijo do Grim e sua gangue. Isso não.

— Ah, e quem vai me impedir? É você? Te enxerga! Você é minha metade mais fraca.

— Ser justo e bom não é fraqueza. Temos que proteger os inocentes, isso inclui a Zoe também.

— Você é retardado por acaso? Fizemos um acordo com o Grim! Não tem como voltar atrás!

— Verdade... — disse o benigno, expressando tensão elevada ao pensar.

— Mas não farei isso porque tô preocupado com o Earl. Eu só...

— A parte do Grim nesse acordo era nos desligar dos Cobra Rex. Nós queremos a mesma coisa, não é? Vamos dar um abraço de irmãos?

— Não, sai fora, não rela em mim! — virou as costas pensando no seu objetivo — Vai procurar o que fazer e não me enche o saco!

O Flint Malvado se lançou na caminhada para encontrar Zoe no parque ecológico.

— Eu tenho que avisar aos outros, a Zoe tá correndo grande perigo. — disse o benigno, correndo para o Earl.

No parque, Zoe estava sentada numa pedra mexendo no celular aguardando Flint. A contraparte maligna vinha por trás, mas parou ao observa-la enquanto tirava seu celular do bolso

— Aí, Grim, já avistei a sereia. Só falta ela morder a isca.

— Me chama pra um encontro e não aparece. Se passar mais dez minutos...

— Não iria me deixar plantado sem saber que você foi embora antes de eu chegar, né? — apareceu ele, aproximando-se.

— Ah, enfim apareceu. Eu pensava que você já estava aqui me esperando.

— Tive um contratempo, mas me livrei dele... por enquanto. OK, vou te mostrar onde fica o retiro social, vem comigo.

A Ranger Rosa o acompanhou de boa-fé ao falso local, mas, a medida que avançavam, o trajeto pela reserva florestal a fazia desconfiar cada vez mais.

— Que tipo de retiro para apoio psicológico fica no meio de uma floresta?

— Não sabia que o contato com a natureza ajuda a relaxar a mente?

— Sendo assim, acredito. Flint, o Mason tava te procurando...

— Agora não é hora pra falar do Mason! Não puxa mais esse papinho comigo!

— É melhor que estejamos no caminho certo pra esse retiro porque você tá precisando e urgente.

Porém, dois dos Cobra Rex pularam de árvores e pousaram perto de Zoe, agarrando-a pelos braços.

— Me larguem! Quem são vocês? Flint, me ajuda, faz alguma coisa!

O malvado Flint se limitou a cruzar os braços e fita-la com um semblante tranquilo.

— A minha parte já tá feita. Acabou.

— O quê? O que significa isso, Flint?

— Que você é a mais nova integrante dos Cobra Rex. — disse Grim vindo com Draco, um membro de cabelo meio ruivo espetado — Seja bem-vinda.

— Você me levou pra uma armadilha... Por quê?

— O Flint tava afim de sair do nosso grupo. Já que ele foi competente em trazer uma donzela como você... — Grim tocou o rosto dela.

— Não encosta, fica longe de mim!

— Sabe, Grim, mudei de ideia: quero continuar participando da gangue. Tinha razão, não posso fugir do meu passado.

— Imagina o Mason e os outros vendo isso...

— Não dou a mínima pro que eles pensam, nem pro que você tá pensando de mim agora.

Zoe derramava lágrimas de cabeça baixa

— Mandou bem, velho amigo. Bem-vindo de volta a sua família da rua, hahah.

Ambos bateram as mãos em sinal de cumplicidade. Flint expressava um sorriso de canto diabólico vendo Zoe ser conduzida à força até a casa abandonada. Paralelamente, o Flint benigno chegou ao Earl.

— Flint?! A Zoe foi te encontrar no parque ecológico. — disse Jessie.

— Houve um desencontro e você veio aqui atrás dela? — perguntou Damian.

— Se eu tivesse a encontrado, teria vindo com ela até aqui.

— Mas você não levaria ela pra conhecer o tal retiro social? — indagou Austin.

— Não existe retiro nenhum!

— Calma aí, você tá muito tenso. Quer um suquinho pra se acalmar? — disse Owen.

— Eu não tô com raiva, eu tô desesperado. A Zoe tá em apuros.

— Não tá dando pra te entender, cara. Primeiro você diz que não achou a Zoe, agora fala que ela tá em apuros. — disse Tim.

— Tim, me perdoa. — disse o Flint benigno indo até o Ranger Azul chegando a se ajoelhar diante dele — Eu te imploro, me perdoa pelo que eu fiz com você no dojo.

— Cara, levanta. Tá todo mundo olhando pra gente, parece até pedido de casamento. — disse Tim, nervoso ao olhar em volta — Eu nem sou de guardar mágoa. Aquela minha piada te ofendeu, eu me toquei. Me desculpa, tá legal?

— Sério? Você é um bom garoto, Tim. Prometo que aquilo nunca mais vai se repetir. A nossa amizade é mais forte do que qualquer diferença.

— Pra uma demonstração de arrependimento, isso foi um tanto exagerado. — aferiu Damian.

— Tem alguma coisa muito estranha com ele. — sussurrou Austin.

— É, ele continua intenso, mas... sendo um cara legal. Legal até demais. — disse Jessie.

Mason reaparecia. Ao avistar o amigo, o Ranger Roxo acelerou os passos, ansioso.

— Cara, rodei o bairro inteiro te procurando.

— Mason, quero que me perdoe por ter virado as costas pra você durante a luta. Por favor, me perdoe.

— Qual é, que foi que te deu? Você não é de pedir desculpas assim. Aliás, você nunca pede desculpas por nada.

— Você mudou rápido demais pra alguém tão cabeça dura. — disse Jessie.

— Acontece que é o seguinte, amigos: eu sou somente uma parte do meu eu... É meio difícil de explicar...

Os comunicadores tocaram. No esconderijo dos Cobra Rex, Zoe era amarrada numa coluna de madeira pelos pulsos.

— Que som é esse? É algum tipo de alarme? — Grim olhou a pulseira dela — Esse relógio aqui... O que é?

— Um relógio, não tá vendo? — rebateu Zoe.

Grim apertou o rosto dela com uma mão, intimidando-a. Flint malvado saía discreto até ser notado por Jerome.

— Ei, Flint, tá indo pra onde?

— Peraí, o alarme tá vindo dele também. — notou Draco.

Flint bufou sem obrigação de dar satisfações, logo indo à porta.

— Volta aqui, me explica esse negócio! — gritou Grim.

— Me deixa! — rebateu Flint, batendo a porta.

No lado de fora, em meio a mata, Flint Yang hesitou por uns segundos atender a chamada.

— Droga... — apertou o botão para atender e ouvia as informações que Dickerson repassava aos demais.

No corredor perto da entrada da cantina, os heróis escutavam atentos:

— Rangers, Lokknon enviou um guerreiro da China antiga que anda partindo as pessoas ao meio.

— Nossa, que violento. — disse Jessie.

— Quero dizer mais exatamente... dividir os lados bom e mau. Ele usa uma alabarda mágica, inspirado no conceito de bem e mau da filosofia chinesa.

— Como o Yin e Yang do xintoísmo. — citou Damian.

— Exato. Ele já fez algumas vítimas e a primeira foi ninguém menos que... Flint.

— Se isso for uma missão Ranger onde eu tenho que resolver na base da violência... não contem comigo, me desculpem. — disse o Flint benigno, saindo.

— Flint, espera aí. — chamou Austin — Ah, não vai dar pra convencer ele. Por ser a metade boa, ele acha que lutar não é o melhor método.

— E cadê a metade ruim? — quis saber Jessie.

Karen informou:

— O Flint valentão está na reserva florestal. Zoe foi raptada até lá, acredito que esses garotos sejam antigos parceiros de Flint. Tomem cuidado, eles não são o que parecem.

— Ah não, os Cobra Rex. Esses desgraçados devem ter forçado o Flint a levar Zoe. — disse Mason.

— E provavelmente antes dele ser dividido em cara bom e cara mau. — reforçou Damian.

— O encontro era cilada?! Caramba, e agora? — disse Tim.

— Salvamos a Zoe ou encaramos o monstro? — questionou Owen.

— Vamos nos dividir em duas frentes. Deixa que eu e o Mason resgatamos a Zoe, Austin. Pelo aviso da Karen, esses caras são mais perigosos do que valentões comuns. — sugeriu Jessie.

— Vocês estarão em maior número contra esse monstrengo divisor. — disse Mason.

— Pra mim tá ótimo, boa sorte pra vocês. — disse Austin.

Brock e Stuart, pouco tempo antes, também haviam sido afetados. As metades boas da dupla de valentões passaram correndo por eles, fazendo-os disfarçarem. Em seguida, vieram as metades malvadas perseguindo-os.

— Vocês viram dois panacas parecidos conosco entrando aqui? — perguntou Brock.

— Ahn, sim... Eles foram pra lá. — disse Austin.

A dupla correra retomando a incansável perseguição.

— Isso é sério mesmo? Brock e Stuart tem dois lados? — perguntou Tim.

— Eu jurava que eles só tinham um. — disse Owen.

— Isso até me dá esperança de que eles virem gente decente um dia. — comentou Jessie.

— Ao menos reconhecem que são panacas. — brincou Mason.

— Beleza, pessoal, vamos nessa. — disse Austin sacando sua célula e morfador — É hora de morfar!

— Touro Ônix!

— Tubarão Cobalto!

— Morcego Púrpura!

— Gorila Esmeralda!

— Águia Flavescente!

— Leão Escarlate!

Na área florestal, Flint Yang sacava o morfador e a célula num rompante de empolgação.

— Hora de morfar! Urso Pardo!

Grim, seguido dos comparsas, havia saído do casebre para tirar a limpo a história do alarme suspeito e acabaram se deparando com Flint em plena morfagem. Protegeram os olhos da luz marrom e ficaram embasbacados.

— Hoje nada me segura! — disse Flint, prestes a teleportar.

— Flint! — chamou Grim, fazendo-o virar — Você é um Power Ranger?!

— Por que não nos contou? — cobrava Jerome, insatisfeito.

— OK, vocês me pegaram! — disse Flint num gesto como quem diz "fazer o quê, né?" — Mas tenho mais o que fazer!

— Então vai perder o rito de passagem da sua donzela. — disse Grim.

— Espera... Aquela tatuagem de cobra que não sai nunca?!

— Essa mesmo, Flint. — afirmou Grim com expressão malévola — Você a tem até hoje no seu braço.

— Receber essa tatuagem doeu muito! A Zoe é uma menininha chorona, a pele dela é frágil que nem de bebê!

— E daí? É a tradição do grupo. Ela vai ganhar a marca sentindo dor ou não. Um Cobra Rex não tem piedade!

— Deixem ela de fora! Só garotos são fortes o bastante pra ganharem a marca!

— Ih, parece que o Flint tá apaixonadinho pela princesa. — debochou Draco.

— Não tô, não! Nem ligo pra ela, mas também não concordo que forcem ela a ter a marca!

— Seu espírito de Cobra Rex não foi totalmente recuperado. — disse Grim — Rapazes, que tal ensinarmos a ele do jeito prático?

Os quatro delinquentes revelaram suas autênticas formas alienígenas com auras verdes sombrias. Revelaram aparências monstruosas que remetiam a serpentes.

— Está surpreso, Flint? Não era o único que tinha segredos! — dissera Grim.

— Então vocês não passam de monstros alienígenas !? Eu sempre percebi que tinha algo bem esquisito! Podem cair dentro, vou descer o sarrafo!

Grim investiu primeiro com suas garras, Flint desviando em esquivas e pulos até dar um chute potente. Draco e Jerome vieram por trás invisíveis. Grim e Oliver atacaram com bolas de gosma explosivas.

— Mangual Rompante! — Flint invocou sua arma, logo lançando a esfera, prendendo o corpo de Oliver com a corrente e jogando-o contra uma árvore.

Zoe afrouxava as amarras com esforço, conseguindo livrar primeiro sua mão direita passando por baixo da corda. A Ranger Rosa contatou a Central de Comando:

— Já me libertei. Aproveitei a deixa quando todos eles saíram pra ir atrás do Flint.

— Mas agora é ele quem precisa ser salvo. — avisou Karen.

— A gangue de delinquentes é na verdade um grupo de criminosos alienígenas do planeta Reptassis-22. — informava Dickerson — Estão foragidos há anos.

— Nossa... — disse Zoe, perplexa — Está bem, vou indo agora. — encerrou o contato e sacou sua célula e morfador — Hora de morfar! Arraia Rósea!

Após derrubar Grim novamente, Flint foi agarrado por Draco e Oliver.

— Ei, me soltem! Vão se arrepender disso, vou fazer picadinho de vocês!

Grim aproximou-se com uma garra retrátil:

— Vai sentir o gostinho do meu veneno mortal!

— Me... larguem! — disse Flint, fazendo força — Por que... não consigo usar toda minha força?

— Ter sido dividido em dois significa que o poder Ranger se dividiu pela metade também. — explicou Karen pelo comunicador.

Grim se preparava para cravar a garra quando Zoe veio num salto vertical, invocando o Ferrão de Arraia e cortando a garra de Grim ao meio.

— Não! Minha habilidade final já era! — lamentou Grim.

— Zoe! Cai fora daqui, não preciso da sua ajuda! — gritou Flint.

— Ah, precisa sim, senhor! — ela lançou cortes de luz rosa, acertando Draco e Oliver e libertando Flint — Pode me agradecer mais tarde!

— Sem chance! Eu podia ter saído dessa sozinho, mas você tinha que se meter!

Oliver avançou atacando com os punhos e Zoe esquivava até girar num pulo e desferir um corte diagonal do ferrão que explodiu faíscas no peito do Cobra Rex que recuou cambaleante. Flint veio até ela segurando pelo braço.

— Para com isso, não se mete onde não foi chamada!

— Por que tá me tratando assim mesmo depois de salvar sua vida?

— Tem um lance muito doido que aconteceu comigo antes de te levar pra cá... Ah, que besteira tô fazendo! Pra quê tenho que me explicar? Foge daqui, dou conta deles!

— Sozinho não! — confrontou Zoe com raiva.

A fala da Ranger Rosa se provou certeira com a chegada de Jessie e Mason em saltos acrobáticos, ambos disparando lasers das pistolas Z. A dupla pousou em combate fisico contra os Cobra Rex. Grim rugiu furioso avançando, mas o Ranger Roxo virou-se e invocou seu emissor ultrassônico, logo disparando as ondas vibratórias.

— Bater em retirada! Agora! — ordenou Grim.

Os demais se juntaram ao líder na fuga covarde.

— Isso aí, corram feito um bando de gazelas! — disse Mason.

— Por que interferiram? Essa batalha era somente minha! — protestou Flint.

— Flint, vamos unir você com sua outra metade assim que derrotarmos o monstro. — disse Jessie.

— Eu não quero voltar a ser um só! E se tem um Ranger que vai dar a maior surra naquele meio-a-meio será eu! — disse Flint, teleportando-se.

— Essa parte malvada é o lado cabeça quente que não muda de ideia. — afirmou Mason.

Austin e os outros barraram Taoyinyang numa ampla rua da zona norte.

— Aqui é o fim da linha pra você! — bradou Austin.

— Chega de dividir o mundo em preto e branco! — disse Tim.

— Chegaram os Power-Purgantes pra atrasar meus planos! — disse a face Yang do monstro.

— Não acham que tudo ficaria mais simples se esse mundo não tivesse tantos tons de cinza? — argumentou a metade Yin.

— Mas é isso que dá a beleza da coisa toda, sacou? — disse Tim.

— Você pretende criar uma sociedade feita por pessoas unidimensionais! — acusou Damian.

— E isso não vamos permitir! Rangers, preparem-se! — falara Austin.

— Então se darão muito mal tentando me impedir! — disse a face Yang.

O monstro derrubou os Rangers como uma puxada de tapete com sua alabarda produzindo uma onda vibrante no solo.

Damian levantou-se e avançou.

— Alabarda Basteh! — a arma de domador lendário surgiu — Vamos nivelar esse combate!

Colidiu lâminas contra Taoyinyang em golpes firmes e faiscantes. Num corte vertical do Ranger Preto, Taoyinyang fora ágil com o cabo da arma sendo apenas empurrado a poucos metros.

— Deslizamento! — Damian invocara o elemento terra no lançamento de rochas.

Cruzando a espada e a alabarda energizadas, o monstro disparou raios preto e branco, mandando Damian, com explosões de faíscas em volta, contra uma van.

— Isso foi jogo sujo! — disse Owen saltando com seu Martelo Cryog.

Taoyinyang defendeu-se com a lâmina da alabarda, mas o poder congelante se estendeu até a ponta do cabo. Porém, a alabarda se encheu de raios vermelhos, descongelando, o monstro logo desferindo um corte horizontal em Owen que foi mandado ao chão meio longe.

— Espada Ignnus! — Austin invocou a arma.

— Barbatanas-Navalha! — Tim corria ao lado dele.

A dupla investiu simultaneamente quando Taoyinyang fizera um bloqueio com as lâminas, logo canalizando energia em raios que explodiram faíscas.

O monstro lançou um corte diagonal no cabo da alabarda, liberando descargas elétricas preta e branca que causaram explosões de fogo, fazendo os Rangers voarem.

— O que acharam da minha técnica hein? Hahahah, vocês perderam, agora acabou! — disseram as metades Yin e Yang.

O Flint malvado surgiu num salto, pousando entre o monstro e os Rangers.

— Eles perderam, só que eu vou continuar de pé até o final!

— Ora, se não é o fedelho que dividi primeiro! — disse a face Yang.

— Será impossível me derrotar sem sua outra metade. — completou o Yin.

— Não preciso daquele molenga pra te fazer virar presunto! — rugiu o Flint Malvado.

— Flint, espera... — tentou Austin.

— Não se metam ou vai sobrar pra vocês também!

— Melhor não questionarmos essa advertência. — falou Damian.

— Esse aí é o pitbull. — observou Tim — Mas cadê o Chiuahua?

O Flint benigno caminhava apreensivo pela estrada.

— Aquele inconsequente morfou e acabei morfando também! Mas eu não quero entrar numa briga com aquele cara, ele deve ser muito forte e...

Os Cobra Rex o interceptaram no caminho de fuga.

— Olha que sorte a nossa! — disse Grim.

— Grim, eu não quero lutar com você... Com nenhum de vocês, se afastem! — implorou o Flint benigno.

— Virou a chave agora, foi? Tá amarelando por que? — perguntou Jerome.

— Esse marrom combina com você. Porque tá se borrando todo de medo da gente! — completou Draco entre risadas.

— Galera, vamos resolver numa boa, por favor.

— Oh, que bonitinho, ele virou diplomata. Pra cima dele! — ordenou Grim.

Os Cobra Rex avançaram, não medindo impacto dos golpes.

— Estão fazendo dele um saco de pancadas. — Karen afligiu-se.

— Não por muito tempo. — disse Dickerson que apertou o botão de teleporte remoto.

— Desapareceu! Como esse miserável fez isso? — rosnou Grim — Mas não importa, hoje a noite vamos transformar aquela cantina num monte de cinzas!

Na zona norte, Taoyinyang e o Flint malvado trocaram golpes poderosos, a alabarda nefasta contra ao mangual rompante. O Flint benigno foi teleportado para o local.

— Fui salvo, ainda bem!

— Você veio me atrapalhar, né? — reclamou o malvado.

— Fique à vontade, não vou te obrigar a parar essa luta, por mais errado que eu ache!

— Certamente não quer mais pertencer a esse grupo, pensa ser autossuficiente como Ranger. — disse a face Yin.

— Autossuficiente... É, isso aí, eu não sirvo pra trabalhar em equipe!

— Não escuta ele! — clamava o Flint indo até o gêmeo que o retribuiu com um ataque do mangual.

Os demais foram ajudá-lo a levantar.

Mason chegara saltando para interceptar Flint Yang.

— O seu real parceiro tá aqui pra te impedir de fazer uma tremenda burrada!

— Mason, é muita falta de noção você me desafiar. Vou te dar só uma chance pra sair da minha frente.

— Prefiro perder essa chance do que perder meu melhor amigo! — Mason avançou impetuoso.

Jessie e Zoe estavam na Central de Comando após chamado de Dickerson que vinha até com dois artefatos similares a anéis.

— Vão ajudar a unir as metades do Flint? — perguntou Zoe.

— A princípio, os criei para gerar fusões entre o time, mas acabei engavetando. — explicou o cientista.

— Imagine, por exemplo, você, Jessie, se fundindo com Tim. — disse Karen — Teríamos um Ranger Verde com o dobro de poder base. Mas o que temos pela célula de morfagem já está de ótimo tamanho.

— Bem, meninas, ouçam com atenção como vocês irão proceder. — Dickerson se preparou para explicar.

O duelo de Mason e Flint Yang prosseguia corpo a corpo em golpes eficazes.

— Enquanto eles lutam, vamos cuidar de você! — disse Austin apontando para Taoyinyang.

— Já disse que ele é meu! — insistiu Flint Yang que se distraiu e foi derrubado por uma rasteira de Mason.

— Ele só tem metade da força de quando éramos um só. — disse Flint Yin.

Jessie surgia e correu até o Flint benigno no campo de batalha.

— E podem voltar a ser um. — ela colocou o anel no braço direito dele.

Enquanto isso, Mason usou seu emissor ultrassônico para atordoar o Flint malvado. Zoe apareceu em teleporte e aproveitou a brecha, agarrando-o por trás.

— Zoe?! Tá fazendo o quê? Me solta!

— Vim te salvar outra vez! De você mesmo! — ela encaixou o segundo anel no braço esquerdo dele.

Dickerson acionou a função dos polimerizadores cujos orbs azuis acenderam. Uma força magnética arrastou os dois corpos um contra o outro, a colisão gerando uma luz intensa. Em segundos, a fusão se completou.

— Voltei a ser um, uhuuu! — celebrou Flint, conferindo o próprio corpo.

— Até porque dois já incomodavam pra caramba. — brincou Mason, aproximando-se — E aí, como se sente?

— Único, como deve ser.

Taoyinyang, em sua face sombria, não se deu por vencido com a reunificação do Ranger Marrom:

— Pensam que só por que ele voltou a ser um único indivíduo isso me impede de dividi-lo outra vez? Estavam redondamente enganados! — bradou o monstro, girando a alabarda — Então gira, gira, gira e...

Flint foi mais rápido. Lançou a esfera do mangual, prendendo a arma e o pescoço de Taoyinyang que sentia-se estrangulado.

— Solte-me, por favor! — implorou a metade Yin.

— Sou bacana com quem é comigo! E babaca... também! Tipo agora com você! — retrucou Flint que puxara com força a corrente, fazendo o monstro ser lançado ao ar rodopiando até cair.

— Não queria ser solto? Tá aí, hahaha! — zombou Mason.

— Bota pra moer, Flint! — disse Tim em torcida.

— Arrasa, você consegue! — incentivou Zoe.

— Valeu, galera, vocês são feras! — Flint voltou-se ao monstro, girando a esfera do mangual — Hora de receber o seu troco, meio-a-meio!

— E pode dar esse troco em grande estilo, Flint. — Dickerson contatava — Pois você acaba de desbloquear seu Colete Zoomorph bem como o seu Modo Fúria Animal. Aproveite a chance com toda a sua garra.

— Opa, veio em boa hora! — celebrou Flint — Colete Zoomorph! — a proteção corporal surgira antes dele correr na direção de Taoyinyang — Modo Fúria Animal, ativar!

A luz marrom o preencheu, as partes de armadura do power-up tomando o lugar do traje base. Ele desviou dos raios preto e branco de Taoyinyang com um salto mortal e acertou um chute potente por trás da cabeça do guerreiro, fazendo-o cair de frente.

— Não admito ser humilhado por um fedelho tão insolente!

— Se ainda quer me dividir, desiste! — rebateu Flint — Lança-Cravejadas, disparar!

A esfera disparada de seu braço e ligada aa uma corda de titânio dividiu-se em cinco, massacrando-o como numa sequência de socos. O monstro recuava devagar, aturdido pelo ataque.

— Te prepara que o bicho vai pegar pro teu couro! — o robusto taco com espinhos fixado às suas costas se desprendeu indo direto a sua mão direita.

O Ranger Marrom avançou valente. Taoyinyang se lançou a luta com braveza, largando sua alabarda, a colisão de forças resultando num ferrenho duelo corporal.

Sacou sua espada contra a qual Flint se defendeu de um golpe com o taco, as faíscas salpicando.

— Ele vem com uma surpresinha! — disse Flint, o taco mostrando ter partes giratórias onde haviam os espinhos, destruindo a espada como se picotasse papel.

— Minha refinada espada! — lamentou Taoyinyang, a face branca, vendo a lâmina reduzida.

Pegara a alabarda como por telecinesia. Flint seguiu atacando com o taco em golpes brutos enquanto Taoyinyang se restringia a defesa com a lâmina e o cabo, as faíscas cuspindo.

O Ranger Marrom pulara com o taco energizando para um golpe por cima. O ataque impactante foi realizado com maestria e brutalidade, destruindo o cabo da alabarda na ação defensiva de Taoyinyang.

— Não me restou mais nada! — lamentou o monstro.

— Só te restou chorar! Hora da jogada final! — Flint mandou o inimigo para o alto com um golpe do taco por baixo — Vamos ver se ainda sou bom no beisebol! — destravou a arma secreta, uma bola de ferro marrom por baixo do antebraço esquerdo que foi para sua mão.

Ele lançou ao alto, liberando os espinhos retráteis, e rebateu com o taco com as partes giratórias energizadas. A esfera atravessou a barriga de Taoyinyang, que explodiu em chamas enquanto Flint, virando de costas, fazia sua pose de vitória.

Os heróis, eufóricos, correram até o Ranger Marrom para parabeniza-lo.

— Arrebentou como um jogador que faz aquele home run de respeito! — disse Tim.

— Já pode seguir até carreira de rebatedor, haha! — falou Austin que bateu sua mão direita na dele.

— Ele tá enferrujado com o beisebol. — entregou Mason.

— Olha, isso aqui me empolgou a voltar hein, hahahaha! — admitiu Flint.

***

No início da noite, os oito Rangers foram à cantina do Earl para uma pequena operação de segurança com o consentimento de seus pais. Mas ao chegarem no espaço cujas mesas e cadeiras estavam em pilhas, viram uma cena que não acreditavam ser real.

— Um, dois, um, dois, um, dois! — dizia Earl com autoridade para Brock e Stuart que enceravam o chão — Isso, movimentos circulares bem fluidos! Quero ver esse chão brilhando tanto que dê pra ver até meu reflexo! Vamos, vamos, nada de preguiça!

— Earl, o que é que tá rolando? — indagou Austin — Brock e Stuart viraram seus faxineiros?

— Só por hoje, galerinha. É a punição pra quem me deve mais de cinquenta dólares em lanches. — disse o cozinheiro aproximando-se deles — Ué, por que essas carinhas de surpresa?

— É que nunca vimos você tão... ahn... — disse Tim sem saber qual termo usar.

— Enérgico. — citou Zoe.

— Mandão. — disse Jessie com sorriso nervoso.

— Até nós aqui ficamos meio intimidados. — falara Damian.

— Acho que a palavra correta é... intenso. — dissera Flint — Tipo eu às vezes.

— Com às vezes ele quer dizer sempre. — disse Mason levando os outros a rirem.

— Earl, viemos pra ficar de guarda na Cantina devido a um perigo de incêndio. — disse Owen.

— Perigo de incêndio? Mas por que?

Austin relatou:

— Ficamos sabendo que uma gangue de delinquentes ameaçou incendiar a cantina hoje a noite, então, por precaução, decidimos ficar de vigia até as dez, o horário que eles marcaram.

— Ah, vocês tem um instinto protetor que nem os Power Rangers. O que seria de mim sem meus clientes favoritos, né? Olha, lá em cima tem um playground com uma laje que dá uma vista bem boa pra flagrar esses meliantes. Fiquem a vontade. Pega aí a chave, Austin.

— Beleza, conosco a cantina fica super-segura, pode acreditar. — disse Austin recebendo a chave do estabelecimento.

— Earl, volta pra sua versão casca-grossa porque aqueles dois começaram a relaxar só foi você virar as costas. — denunciou Owen apontando.

— Ouviram eu mandar vocês pararem? Continuem, seus preguiçosos! Cada polegada encerada é um centavo que me pagam!

— A gente tava só fazendo uma pausa, isso aqui é muito exaustivo. — disse Stuart.

— Não reclama, mané! Quer ficar a noite toda aqui? Vai, se mexe! — apressou Brock.

Os Rangers saíram dali aos risos contidos. Já no playground no andar de cima, a turma divertia-se com os entretenimentos disponíveis. Austin, Owen e Jessie na mesa de pebolim enquanto Damian, Mason e Tim desfrutavam da sinuca. Flint era o único que se negara ao lazer, preferindo um instante introspectivo na laje.

— É meio estranho você dispensar tanta coisa legal pra ficar aqui sozinho. — disse Zoe vindo até ele.

— Alguém tem que vigiar, né?

— Ainda são sete horas, temos tempo de sobra. Mas sei que você não veio ficar aqui por causa da ameaça dos seus antigos parceiros.

— Você quer que eu confesse, então tá certo. — disse Flint virando-se para ela — Eu tô me sentindo um lixo de amigo. A gente comemorou a vitória contra o monstro meio-a-meio lá, mas... eu tava me sentindo em dívida, eu tava... me sentindo culpado. É esmagador.

— Mas você já se desculpou. Digo, uma parte de você.

— A que vocês teriam gostado bem mais.

— Sabe, ter nossas qualidades e defeitos em uma só alma é aquilo que nos torna mais completos.

— Hum, ela sabe ser profunda. — brincou ele com sorriso de canto — Mas você tem razão. Eu iria odiar se só tivesse uma metade do Mason, não importa se fosse a boa ou a ruim.

— Ahn, tenho uma confissão a fazer: eu menti.

— Sobre o quê?

— De quem venceu a luta no torneio de juniores. — revelou Zoe expressando desconforto — Foi o Owen, não o Mason.

— OK, eu já tava sentindo pela sua voz no telefone. Você não é tão boa em mentir quanto sou bom em fingir que acredito.

Zoe dera uma risadinha meiga e logo reparou que Flint segurava um colar de Yin e Yang.

— De quem é esse colar? É pra mim?

— Era da minha irmã mais nova. Seria meu presente de aniversário, mas... ela desapareceu na festa de renovação de votos do casamento dos nossos pais.

— Nossa, Flint... Eu sinto muito. — Zoe expressou compaixão pura no olhar entristecido.

— Onde quer que ela esteja, espero que esteja feliz. Todo esse lance de lado bom e lado mau me fez lembrar desse colar e... — disse Flint que quebrou o pingente pela metade, oferecendo a metade do Yin para Zoe — .... de fazer o que eu teria feito a ela naquele dia.

— Flint... Esse é um gesto bem carinhoso da sua parte. Obrigada. — a Ranger Rosa aceitara o presente de bom grado como um tesouro.

— Duas metades contrárias de um todo. — disse Flint pondo o colar — Eu e você.

Ambos passaram a olhar para o céu noturno lindamente estrelado. Zoe reparou no nome gravado no verso da metade Yin do pingente.

— Stella. Lindo nome ela tinha.

— Aquela estrela... tá brilhando mais forte que todas as outras.

— Talvez seja ela. — disse Zoe com emoção comovida no tom — Que brilha assim toda vez que te vê.

Flint sorriu fechado e sereno para ela e baixou a cabeça olhando sua metade do pingente, recebendo um afago nas costas. A estrela distinta estava cintilante como um ponto celeste de destaque, piscando seu brilho enternecedor.

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