Power Rangers: Esquadrão Z
45 Soltando a Fera (Parte 1)
Notas iniciais

Aquela visita surpreendente se mantinha indigesta tanto quanto as circunstâncias que teriam motivado o afastamento dos dois amigos de faculdade que dividiram um projeto visionário e dito ser impossível por questões éticas e técnicas pela comunidade científica que administrava a universidade. Dickerson fitava seu velho companheiro Ray que parecia lhe fazer um convite para bebericar o vinho.
— Sabe como eu sou, não é, Thomas? Odeio beber sozinho. Venha, se sirva aqui, você continua com bom gosto pra vinhos europeus.
— Certas coisas nunca mudam mesmo. — retrucou Dickerson ainda processando o fato não tirando os olhos do amigo, o observando atento — Ray, eu não sei... o que dizer, você aparece assim de repente como se...
— Como se eu tivesse ressurgido do além? Meu caro velho amigo, pode confirmar que eu sobrevivi aquele naufrágio terrível. — disse Ray deixando a taça na mesa e se aproximando do mentor dos Rangers. Ergueu de leve a mão direita para ele — Vamos trazer de volta aqueles velhos tempos? De preferência, sem ressentimentos.
Dickerson refletiu sobre retribuir o gesto olhando relutante para a mão do amigo de longa data. O explorador sentira um nó apertar sufocante na garganta, comprimindo os lábios até dar o toque amigável na mão de Ray puxando-o para um abraço com tapinhas nas costas.
— Pensei que tivesse morrido naquele navio. Quando eu soube... pensei em cada palavra que dissemos um ao outro antes dessa maldita viagem que eu tanto avisei pra você não ir.
Ambos voltaram a se entreolhar.
— Não, eu não vim com a intenção de recordar o passado sombrio, muito menos lavar a roupa suja. — disse Ray o encarando fixamente ao toca-lo no ombro — Vim rever meu melhor amigo. Vim acertar as coisas de uma vez por todas entre nós. Não quer mesmo uma rodada? — propôs a bebida compartilhada novamente.
— Eu estou bem, a propósito a garrafa é toda sua. Considere um presente de retorno.
— Obrigado. E esses jovens que trouxe com você? — indagou Ray voltando a atenção aos Rangers, tomando um gole — Novos talentos da ciência?
O desconforto em apresentar seus pupilos veio ao explorador como um arrepio na barriga.
— Ahn... Eles... É, acertou, eles são alunos do meu curso de talentos notáveis e promissores nas ciências biológicas. Todos com notas excelentes, dignas para ingressar no MIT como as nossas. Estão aqui porque estou os preparando pra um simpósio amanhã.
— Sério? Talvez a juventude dessa época seja mais evoluída do que quando desapareci.
Tim cochichou no ouvido de Damian:
— Queria saber mentir tão bem assim.
— Acredite, você sabe sim. — rebateu o Ranger Preto com sorrisinho.
— Eu sou o Austin, prazer. — apresentou-se o Ranger Vermelho, apertando a mão de Ray.
— Sou a Zoe, muito prazer. — disse a Ranger Rosa também dando aperto de mão.
— Meu nome é Jessie. — falou a Ranger Amarela acenando meio tímida — Com todo o respeito, o Sr. Dickerson também tem bom gosto pra amigos, se é que me entende.
Ray sorrira de cabeça meio baixo dando uma risadinha parecendo corar de vergonha.
— Fico lisonjeado, não sou cortejado com muita frequência.
— Aí, sou o Timothy, mas minha galera aqui me chama de Tim. — disse o Ranger Azul dando um soquinho na mão fechada de Ray — Se é amigo do Sr. Dickerson, é meu amigo também. — deu uma piscadela com um joinha para o cientista.
— E eu sou o Damian. Sr. Dickerson falou de você uma vez a nós, revelou que eram membros fundadores de uma fraternidade que combatia a caça ilegal de animais silvestres. — declarou Damian, simpático ao seu modo.
— Haha, bem lembrado, a proeminente fraternidade Amigos da Fauna, diga-se de passagem um nome que sempre julguei inofensivo e simples demais, deveríamos nos nomear de forma mais intimidadora, mas o teimoso aqui não me escutou e registrou o título antes de termos outra discussão. — recordou Ray bem-humorado, terminando a taça.
— Não era apenas um nome que faria nos impor às organizações ilegais de taxidermia, mas nossa atuação firme contra as ações danosas ao meio ambiente. — justificou Dickerson.
— E ele continua com sua ótima retórica professoral. Veja como o destino é engraçado, hoje você é um professor de uma masterclass de ciências. — disse Ray com certo orgulho por Dickerson — Perdi anos de vida naquela ilha isolada, mas nunca perdi minha admiração por quem você é, Thomas, nem nossas piores discordâncias me cegaram quanto a isso.
— Ficou preso numa ilha deserta? — indagou Austin.
— E viveu lá tipo aquele cara do filme que transforma uma bola de vôlei num companheiro? — perguntou Tim, entusiasmado em ouvir.
— Sim, naufraguei numa ilha localizada na região que chamam de... Triângulo da Caveira. — revelara Ray olhando-os com firmeza — Já ouviram falar?
Os Rangers entreolharam-se desconfiados.
— Err... Sim, nós cinco temos ideia de onde fica. — respondeu Austin.
— Mas não tive nenhum amigo com formato de bola por lá, infelizmente. — falou o cientista arrancando risadas de Jessie e Zoe.
— Então você foi parar numa ilha que havia sumido literalmente do mapa? — questionou Dickerson, o olhar semicerrado.
— Tem muitos fatos a serem revelados, poderia narrar tudo, detalhe por detalhe, se eu tivesse a noite inteira. Mas ainda tenho tempo de colocar o papo em dia com meu camarada aqui.
— Crianças, será que poderiam nos dar licença? Ray e eu temos muito o que conversar a sós, afinal não foram 15 dias de afastamento. — pediu o mentor olhando um tanto sério para Ray — Theron vai acompanha-los até os quartos.
— Sem problema, Sr. Dickerson. — disse Austin que foi andando — Ray, gostei de te conhecer. — os Rangers também mostraram-se satisfeitos.
— Eu igualmente, jovenzinhos. Tenham uma boa noite. — disse Ray, sua cortesia bem expressada.
— Venham por aqui. — disse Theron a fim de guia-los pela escada numa curta espiral. Os Rangers foram subindo. Tim ficou dando olhadelas discretas para Ray.
— Ei, Tim, não fica olhando desse jeito. — repreendeu Jessie em tom baixo — Temos que deixa-los a vontade, eles devem ter muita coisa pra esclarecer.
— Eu sei, só tô com um pulga atrás da orelha sobre o que ele falou do Triângulo da Caveira.
— Que mal lhe pergunte, Theron, mas... Existe algo mal resolvido entre o Ray e o Sr. Dickerson? — indagou Damian.
— Que passado sombrio foi esse que eles não querem discutir? — quis saber Zoe.
— São velhas feridas de um tempo que eles dariam qualquer coisa pra reviverem. — informou o mordomo subindo em ritmo estável os degraus — As lembranças são bem amargas.
— Mas o que exatamente aconteceu? — indagou Austin.
— Há exatos 15 anos... Meu mestre e Ray eram uma dupla de cientistas potenciais na Universidade da Alameda dos Anjos. Eu não conheço a história em pormenores, mas sei que ambos tinham o sonho de um projeto alavancar de vez suas carreiras, os colocaria nos holofotes mais brilhantes da comunidade científica. Envolvia cruzamento de DNA de espécies ameaçadas de extinção.
Após terminarem de subir a escada, se direcionaram para um corredor de várias portas.
— Tudo estava seguindo em direção ao sucesso até que Ray se deslumbrou com a possibilidade de reconhecimento mundial e sugeriu uma alteração de última hora no projeto que na visão dele tornaria o trabalho mais revolucionário.
— Daí eles brigaram e decidiram acabar com a amizade por terem objetivos diferentes. — disse Austin imaginando como teria ocorrido.
— A relação deles não foi prejudicada pela ambição em si de Ray. — disse Theron os olhando com seriedade por cima do ombro — Mas pelo que Ray escolheu fazer com ela.
— E o que ele fez? — perguntou Jessie.
— Ray pretendia usar de uma cobaia humana na intenção de aprimorar o experimento. Dickerson ficou transtornado só de ele mencionar a ideia.
— Pelo que entendi, ele tentou ferir o código de ética da universidade pela mais pura ganância. — disse Damian.
— Ele não tentou. — corrigiu Theron — Ele realizou.
— Caramba, eu agora não tô mais achando ele tão legal, retiro tudo o que eu falei lá embaixo. — disse Tim, apreensivo com a história.
— O desastre só não foi maior porque meu mestre acionou amigos da Intercorp para conter a criatura dizendo ser um controle de zoonose. Eles travaram uma guerra que foi levada aos tribunais, Ray o acusava de danos morais e materiais. Felizmente, a causa foi ganha para meu mestre. Ray pagou sua dívida, mas insistiu no projeto obsessivamente. Embarcou num navio que o levaria até uma ilha onde um espécime supostamente alienígena foi encontrado e queria aplica-lo a sua tese de polimerização biológica de DNA.
— Por isso o Sr. Dickerson queria tanto que ele não viajasse, sabia do perigo que havia no Triângulo da Caveira — falou Zoe.
— Mesmo com a desavença, ele tentou impedi-lo de cometer um erro. — reforçou Damian.
— E onde está essa criatura que veio desse experimento com humanos? — questionou Austin.
Theron parou de caminhar, mostrando a porta de um quarto de hóspedes arrumado.
— Ray obteve a custódia do monstro que parece a quimera da mitologia grega e o trancafiou numa cela situada num depósito que, segundo ele, transformou em laboratório pouco depois de voltar da ilha fazendo uma compra milionária pelo local.
— Ele te disse há quanto tempo mais ou menos ele voltou? — perguntou Austin.
— Há dois meses.
— E só agora ele vem atrás do Sr. Dickerson?! — reagiu Jessie com suspeita — Gente, não sei vocês, mas pra mim ele tá tramando algo.
— Seja o que for, não podemos nos envolver já que é um problema pessoal do Sr. Dickerson. — definiu Austin.
— Aqui estão seus quartos de hóspedes, esse a minha esquerda são dos rapazes e as garotas ficarão neste a minha direita. — dissera Theron elegantemente, abrindo as portas.
— Valeu, Theron. — agradeceu Austin indo entrar — Meninas, nos vemos amanhã.
— Até amanhã, rapazes. — disse Zoe.
— Só não sei se vou conseguir dormir pensando no horror que o Ray fez pra ter sucesso como cientista. — disse Jessie — Por que sempre os caras bonitos são os malvados?
— Quem vê cara não vê coração, amiga. — aconselhou Zoe.
— Oh, que lindinho, a Jessie tá apaixonada pelo amigo maluco do Sr. Dickerson! Oohhh! — disse Tim fazendo gracinha ao simular um beijo com abraço, gerando risadas nos demais, exceto Theron que achava graça muito discretamente.
— Ah, parem, vão dormir! Eu aprendi a lição, nem toda flor bonita tem um perfume agradável.
Enquanto os heróis se acomodavam, Dickerson e Ray tentavam reatar o vínculo estremecido.
— Tem viajado muito pras suas atividades recreativas? — perguntou Ray sentando-se na poltrona após se servir de mais vinho.
— Tenho conciliado bem minha vida tripla de professor, explorador e esportista. Podíamos pular em bungee-jump, nós... tínhamos planejado isso naquela época. — contou Dickerson sentado no sofá grande frente a ele.
Ray mostrou-se indisposto em tocar no assunto que forçava a reprise ruim da ruptura, virando a cara em desconforto.
— Ahn, está bem... Você não quer debater sobre o passado, eu entendo. Também me arrependo de trazer aquilo tudo pra ser resolvido na frente de um juiz. E você? Do que se arrepende?
Ray colocara a taça na mesinha de centro.
— De absolutamente nada, Thomas. Não passa um dia que eu me torture pelo que fiz, tudo que eu sacrifiquei pra nos levar direto ao topo.
— E pra quem falou que não queria tocar na ferida... — falou o mentor levantando-se.
— Você que entrou no mérito. — acusou Ray também levantando.
— Tudo bem, eu me satisfiz com o reencontro. Já pode ir embora, está ficando tarde.
— Não sem uma resposta sua.
— Resposta pra quê, Ray? — indagou Dickerson se aproximando devagar — O que você ainda quer de mim?
— Sua parceria. — respondeu Ray serenamente — Como nos velhos tempos.
No quarto, os garotos se aprontavam para dormir vestindo seus pijamas.
— Podíamos fazer uma festa do pijama ou uma guerra de travesseiros! — falou Tim pulando na cama.
— Cara, para com isso aí, não é uma cama elástica, vai quebrar. — disse Damian deixando seus óculos no criado-mudo, depois se olhando no espelho. Austin voltava do banheiro após escovar os dentes.
— Tem uma coisa sobre o Ray que tá me intrigando demais. — comentou o líder. Tim até parou de pular, seu semblante alegre dando lugar a uma tensão.
— Deixa eu adivinhar: a temporada que ele passou na ilha dos horrores. — palpitou o Ranger Azul.
— Não, ele ter esperado dois meses pra rever o Sr. Dickerson. — o líder veio até os amigos — Que tipo de amigo volta assim?
— Sabem o que também aconteceu há dois meses? Meu reencontro com a Loah. — disse Tim, recordando-se da princesa de Aquathlan.
— Ocasião na qual conhecemos a tal ilha amaldiçoada e fora do espaço tempo. — relembrou Damian sentando perto de Tim na lateral da cama — E também é válido lembrar que o Capitão Vessel mencionou que havia um cientista preso naquela ilha com eles.
— E que transformou ele e toda a tripulação do SS Hydra, o navio que o Vessel comandava. — completou Austin — Então quer dizer que... — sentou na lateral de sua cama diante dos amigos — Ray talvez seja esse cientista.
— Talvez não, é ele. — afirmou Damian.
— Depois que a Loah usou a caveira pra quebrar a maldição, a ilha voltou pro mapa e pra realidade. — rememorou Tim.
— Dando a chance pro Ray escapar. — disse Austin — Temos que avisar ao Sr. Dickerson, esse cara com certeza não voltou pra se desculpar.
O trio se assustou com o grito abrupto de Jessie e Zoe e levantaram estremecidos.
— São as meninas! O que será que houve? — disse Austin, alerta.
As duas invadiram o quarto correndo e fechando a porta num baque.
— Ei, garotas, o que foi? — perguntou Austin vindo até elas que tremiam agoniadas.
— Parece que viram fantasma. — falou Damian.
— O fantasma de quem já morou nessa mansão antes do Sr. Dickerson? — especulou Tim.
— Não, é que... — disse Zoe mal conseguindo exprimir — Jessie, diz você, tô muito assustada.
— Tinha... Tinha uma... aranha peluda no teto! — disse Jessie sentido os pelos eriçarem e se sacudindo — Ai, que horror!
— Calma, estão seguras aqui. — assegurou Austin — Podem dormir conosco, tem colchonetes no armário.
— Por que não chamaram o Theron? — indagou Damian.
— Ele tá lá embaixo e não queremos incomodar o Sr. Dickerson que ainda tá conversando com o Ray. — dissera Zoe.
— Ah, eu queria ser uma mosca só pra ouvir o que eles tanto falam. — desejou Tim, sonhador.
Damian tivera uma ideia a ser concretizada naquele instante. O jovem gênio fora até sua mochila da qual retirou uma espécie de estetoscópio.
— Damian, concorda quando digo que festa do pijama é mais divertido que brincar de médico, né? — falara Tim, estranhando.
— Não é um brinquedo. — disse ele indo até a parede, os demais o seguindo — É um captador de sons a um alcance de no mínimo 10 quilômetros. Com ele podemos ouvir vozes através de superfícies sólidas não importa de que tipo. — colocou as olivas nos ouvidos e depois colou o diafragma à parede.
— Consegue ouvir o que o Sr. Dickerson e o Ray estão falando? — perguntou Austin, curioso.
— Perfeitamente. — respondeu Damian, atento — Os ânimos parecem bem exaltados.
Na sala, Dickerson andava de um lado para o outro, impaciente com a insistência de Ray.
— Não, mil vezes não, Ray! O projeto Chimerax não pode ser reaberto.
— Thomas, eu fiz uma grande besteira em não ter pedido uma segunda opinião e acabei indo pelos meus instintos fazendo tudo sozinho!
— Então é esse o seu arrependimento?
— Não, me arrependo só de uma coisa: em não ter conseguido dois dos três ovos com embriões alienígenas que estão numa selva no Canadá, foram descobertos há pouco tempo e já registrei minha posse legal. O primeiro estava naquela ilha e o trouxe comigo.
— E o que te impede de repetir o fracasso daquela experiência hedionda sozinho?
— Nada, pra ser sincero, mas estando com você eu me sinto mais seguro de que vamos finalmente acertar onde falhamos. — disse Ray tocando-o nos ombros.
— Tire suas mãos de mim. — rejeitou Dickerson, afastando as mãos do cientista com rudeza e virou as costas com as mãos na cintura — Não vou cair na tentação de ajudar a criar um organismo sintetizado de várias espécies sem consentimento federal.
— O fracasso foi devido a utilizar um embrião combinado a um genoma humano. E se a taxa de sucesso der um salto quântico quando três embriões se combinam a genomas animais? Isolando a matriz celular alienígena para que apenas sustente a polimerização. O que acha?
Damian escutava e torcia pelo contrário.
— Não, não aceita essa proposta, isso pode ser um erro.
— O que o Ray tá pedindo pro Sr. Dickerson? — perguntou Zoe.
— Em linhas gerais, ele... tá forçando o Sr. Dickerson a ajuda-lo a recriar o experimento, mas usando três ovos alienígenas. Ele também propõe uma viagem ao Canadá pra achar os outros dois ovos.
Dickerson voltou-se ao velho amigo o fitando. Ray prosseguiu:
— A mãe desses filhotes está lá, por isso ninguém nunca se atreveu a pega-los. Você pode ser meu fiel escudeiro, como éramos antes. Eu acredito, Thomas. Por favor, acredite também. A tecnologia evoluiu séculos em décadas, podemos triunfar juntos dessa vez. Tenho a licença, posso fazer funcionar.
O explorador fizera que sim com a cabeça devagar, ainda que hesitante.
— OK, eu vou com você. Depois decido se participo ou não da experiência, seja lá o que estiver pretendendo fazer.
— Ótimo, Thomas, eu sabia que ouviria a voz da razão, esse é você. — disse Ray sorrindo com satisfação — Partimos amanhã bem cedo no meu jato particular. Foi um prazer revê-lo.
— Gostaria de poder dizer o mesmo.
O cientista regressado o encarou sério com traços de tristeza na feição, logo indo à porta para sair. Damian retirou o captador da parede e dos ouvidos, virando-se aos amigos.
— E aí, o que eles disseram? — indagou Jessie.
— O Ray já foi. Só que... o Sr. Dickerson aceitou a proposta. Viajarão amanhã cedo.
A informação causou profundo temor nos Rangers.
— Agora é serio: tô com um pressentimento bem ruim. — disse Austin.
***
Na manhã seguinte, os Rangers preparavam-se para um passeio anunciado de última hora após terminarem a primeira refeição do dia na mesa farta de Dickerson.
— Passeio no zoológico não é entediante, Tim. — disse Zoe vindo com os amigos da sala de jantar para a de estar — Parque de diversões sempre acaba enjoando muito fácil.
— Eu não ia sugerir parque de diversão, mas sei lá... Um fliperama, uma praia, um cineminha... Zoológico é tipo museu, ficar só olhando e observando nada que você não possa tocar.
— Já sabemos quem de nós iria infringir a regra de não alimentar os animais. — implicou Damian a direita do parceiro.
— Fala logo que quer uma viagem com tudo pago pra Disneylândia, é bem mais honesto. — disse Jessie com ares de riso.
— Tirou as palavras da minha boca. — disse Tim que soltou um brusco arroto — Opa, foi mal.
— Ainda bem que você não fez isso na mesa. — falou Austin — Senão era capaz do Theron nos dar aulinhas de etiqueta super-refinadas.
O mordomo veio logo em seguida descendo a escada tendo ouvido seu nome mencionado.
— Não seria de todo ruim instruir jovens sadios como vocês a se portarem adequadamente à mesa. Excelente ideia, Sr. Jones.
— Ahn, Theron, você... ouviu a gente falando? Nossa, é que parece meio distante daqui lá pra cima. — falou Austin, desconcertado.
— Minha audição tem um apuro especial, meus jovens. Ouço até os passos sorrateiros da Bernadette no meu quarto.
— Quem é Bernadette? — indagou Tim — Sua namorada? Ah vai, Theron, conta aí.
— Negativo, se trata da minha aranha exótica de estimação. — disse o mordomo mostrando um pote contendo a tão temida aranha que aterrorizou Jessie e Zoe. As duas gritaram se abraçando na hora que cravaram os olhos no aracnídeo preto com listras laranjas.
— Então a aranha que invadiu nosso quarto é sua?! — disse Jessie, trêmula.
— Como deixou ela escapar? — indagou Zoe, o nervosismo na voz.
— Dia sim, dia não, eu a deixo sair para sentir-se livre pela casa. — revelou Theron contemplando o seu pet — Não há o que temer, ela é excepcionalmente inofensiva, sua picada não introduz nenhum tipo de veneno. Não é, gracinha? — falou dando petelecos no pote.
— Inofensiva ou não, ela é feia o bastante pra me fazer ter pesadelos a noite toda. — disse Jessie recuando.
— O Tim gosta de aranhas, acho que ele até quer fazer um carinho nela. — brincou Austin.
— Eu adoro animais, mas não vamos exagerar, hehehe. — contornou o Ranger Azul — Deixa ela aí mesmo na casinha dela.
— Eu estava indo solta-la no jardim para o passeio matinal. — disse Theron, a campainha logo tocando. O mordomo fora atender — E falando em passeio, sairemos daqui há pouco ao zoológico. — colocou o pote na poltrona.
— Ele colocou a Bernadette na poltrona. — falou Jessie, temerosa — Imagina se ela sai e...
A visita era de Ray com bagagem pronta para a viagem ao Canadá, o cientista vindo com uma mochila cheia e robusta nas costas.
— Sr. Foster, bom dia. Meu mestre virá em breve, está se aprontando. Aguarde-o. — disse Theron o deixando entrar, logo saindo para pegar o pote com a aranha e sair pelos fundos.
— Olá, como estão os prodígios da ciência do meu genial melhor amigo? Dormiram bem? — indagou Ray se aproximando simpático.
— Sim... Como bebês. — falou Austin um tanto frio e sério.
— Que tralha toda é essa? Vai viajar com o Sr. Dickerson? — indagou Tim.
Dickerson veio pela escada carregando sua mochila com certo peso.
— Sim, crianças. Decidimos correr atrás do tempo perdido pra atualizar nosso vínculo. — disse o explorador aproximando-se.
— Pois é, vamos fazer um bungee-jump histórico pra marcar nossas vidas. — declarou Ray — Meu jato está pronto lá no galpão. Podemos ir?
— Ahn... Ray, será que dá pra você esperar um instante lá fora pra eu conversar em particular com meus alunos?
— Como quiser. — disse Ray que logo andara para sair — Mas seja rápido, nossa conquista urge, meu amigo. — saíra, enfim.
— Mas que fingido. — soltou Jessie espontaneamente, logo se retraindo — Ops, desculpe, eu...
— Tudo bem, agora quero saber: o quanto vocês ouviram? — questionou Dkckerson de braços cruzados.
— O suficiente pra te alertar a não entregar sua confiança de bandeja pro Ray. — respondeu Damian — Sabia do meu captador de voz, né?
— Sim, sabia, você me mostrou semana passada. Eu preciso deixar bem claro que isso não significa uma reaproximação definitiva com o Ray, muito menos que vou ajuda-lo nesse projeto porque, claro, estou com medo de tudo falhar novamente, mas dessa vez comigo sendo responsável.
— Então porque aceitou essa viagem se não quer ajuda-lo na experiência? — indagou Zoe — Ele não pode te obrigar.
— Ray e eu somos amigos desde o colegial, nos conectamos bastante ao longo da estrada até a universidade, nem minha decepção com ele pode apagar o que construímos.
— O senhor tá confuso se quer ou não voltar a ser amigo dele, certo? — perguntou Austin.
— Eu ainda não sei se ele quer reconquistar minha amizade ou... a minha utilidade. De minha parte, quero acreditar que ele é um homem mudado, que aprendeu a não se deixar mais levar pelo ego e o poder. A chance de confirmar isso ou não, eu tenho com essa viagem.
— Se o senhor coloca alguma fé de que o Ray voltou diferente, então nós também faremos. — disse Austin — Certo, pessoal? — relutantemente os demais acenaram.
— Tenho que ir, vejo vocês mais tarde. E obedeçam ao Theron no zoológico. — disse Dickerson virando as costas e andando — Já avisei a Karen, qualquer emergência ela entra em contato. Ah, e chamem o Owen pra se juntar ao passeio e ficar logo disponível.
— Pode deixar. — disse Austin, o mentor logo fechado a porta — Droga, como pude esquecer do Owen?
— Liguei pra ele um montão de vezes e nada. — disse Zoe — Hoje é dia de treino no dojo.
— Mas sabemos muito bem que o motivo dele não ter passado a noite conosco foi o pai careta e superprotetor dele. — comentou Jessie com indignação — Zoe, tenta de novo depois.
Theron vinha trajado com roupas de explorador com direito ao típico chapéu em cuia.
— Estou pronto, jovens. Irão assim mesmo?
— Theron, vamos a um zoológico, não a um safari. — disse Damian.
— É, não precisa se sentir como se estivesse na África. — falou Austin quase rindo.
— Mas será uma experiência tecnicamente imersiva, eu presumo. — disse o mordomo aproximando-se — Mestre já foi?
— Sim, acabou de sair. — disse Austin — E esperamos que ele não se arrependa disso.
Na Central de Comando, Karen voltava do banheiro e sentou rápido na cadeira giratória, teclando depressa no painel ao fazer uma pesquisa no banco de dados quanto ao nome Ray Foster.
— Se for quem penso que é... Não, não pode ser ele. — disse ela, nervosa. A ficha que surgiu primeiro com as palavras-chave que digitou a assombrou com um arrepio na espinha. Boquiaberta ao ver a foto de Ray, deixou as costas caírem no encosto da cadeira — Tinha que ser justo ele?
***
Ao passarem da entrada do zoológico, os Rangers se alegraram ao verem Owen já presente por ali em meio a multidão acenando para eles com a mão e correndo. O Ranger Verde estava com suas vestes habituais (camisa verde de sudoku e bermuda marrom) trazendo sua inseparável câmera fotográfica.
— Galera, eu vim! Haha, e vocês pensando que eu iria perder essa aventura!
— Owen, a Zoe ligou pra você até dizer chega só pra te convidar a passar o fim de semana com a gente lá na casa do Sr. Dickerson. — disse Austin se aproximando com os amigos e Theron.
— Meu pai contratou um professor particular só pra me manter longe dos perigos noturnos. Mas ele me liberou hoje além de que meu treino foi cancelado pois meu instrutor sofreu um acidente em casa.
— Melhoras pro seu instrutor. — disse Jessie — E desde quando é permitido fotografar os animais?
— Li o folheto das normas todinho. Acho que trocaram de administrador. — respondeu Owen que olhara para Theron — E quem é o guia?
— Prazer em conhece-lo, Sr. Barnes. Sou Theron, criado de Thomas L. Dickerson. — estendeu a mão direita, Owen a apertando.
— Nossa, nem imaginava que o Sr. Dickerson tinha um mordomo. A propósito onde que ele tá? Pensei que também viria.
— No caminho a gente explica. — disse Austin mostrando-se preocupado — Vamos nessa, pessoal, e fiquem atentos a qualquer sinal de vocês sabem quem cujo nome começa com L.
Paralelamente, o jato de Ray sobrevoava as fronteira entre EUA e Canadá pela zona florestal. A dupla estava prestes a saltar, ambos equipados seguramente para o pulo. Ray dera sua mão direita a Dickerson com menciona positivo de cabeça. O mentor sorriu fechado e segurou.
— No três! — disse Dickerson — Um!
— Dois!
— Três! — falaram em uníssono, logo saltando daquela desafiante altura, o vento soprando forte na pele. Ambos cortaram a corda para destravar o paraquedas. Riam juntos após pousarem como sentiam saudades de fazer.
— E tem quem ache impossível pular de bungee-jump num avião em pleno ar. — disse Dickerson removendo os óculos protetores.
— Precisamos fazer essas loucuras mais vezes, hahahah! — disse Ray livrando-se dos paraquedas — Bem, sigamos a rota. — conferiu no mapa digital no seu celular — Fica a noroeste, três quilômetros de onde estamos.
— Arma tranquilizante engatilhada. — falou Dickerson destravando uma pistola com dardos.
— Isso aí derruba uma mamãe-tigre alienígena de 150 toneladas?
— Até a baleia mais pesada da Terra. Mas como sabe disso? Alguém foi lá e pediu pra ela subir numa balança?
— É só uma estimativa, na verdade não espero lidar com um Godzilla. — disse Ray dando início a caminhada.
— Por que esses ovos vem demorando tanto a eclodir?
— O ciclo de desenvolvimento dos embriões dessa espécie é longo, deve levar mais alguns anos pra finalizar. Se estiverem bem formados...
— Você quer fazer isso ainda hoje, não é? — perguntou Dickerson ao lado o fitando sério.
— Com ou sem sua ajuda. — disse Ray, determinado — Ainda não decidiu?
— Vamos focar nessa missão, por ora. — desconversou Dickerson, incomodado.
Lokknon surpreendia a Mudok e Barooma ao estar assistindo aos dois cenários simultaneamente no visualizador multifocal, aparentando indecisão sobre em qual interferir.
— Mestre, o senhor me parece nervoso, não acha que... — disse Mudok com curiosidade.
— Quieto, eu estou ponderando sobre qual evento arruinar. Dickerson miserável, criou duas situações que me colocassem em dúvida!
— Mestre, se minha opinião for válida, não acha que essa busca de Dickerson com seu amigo cientista por esses tais ovos alienígenas para criar um ser híbrido não seja mais interessante? — questionou Barooma.
— Ou podemos atacar ambos os locais, mas priorizando a missão de Dickerson. — idealizou Mudok.
— Exato! Mudok, você clareou minha mente sobre o caminho certo a seguir. Portanto, você irá até lá e se encarregará do que estiver guardando esses embriões. — disse Lokknon empolgando-se.
— Mas se quisermos nos aproveitar disso para atingir os Rangers, sugiro usar meu soro mutagênico! — acrescentou Barooma.
— Mas os ovos, segundo eles, não eclodiram ainda. — contrariou Mudok.
— Não será necessário esperar o nascimento dos filhotes, basta derramar o soro nesses ovos e todas as propriedades da composição serão instantaneamente absorvidas pelos embriões!
— Estamos na trilha perfeita pra um plano inédito e potencialmente eficaz! Não sei porque perdi tanto tempo tentando me decidir se posso atacar os dois lugares ao mesmo tempo! — disse Lokknon, logo batendo sua mão direita fechada no botão do braço do trono, acionando o teleporte dos Psycho-Bots em ambos o locais.
Os robôs surgiram no zoológico como um exército relativamente grande, muitos deles atirando a esmo com seis detonadores que causavam explosões de faíscas a assustaram os visitantes que corriam aos gritos.
— Acabou a diversão! — disse Austin vendo os soldados dispersos para tumultuar o local.
— Lokknon não tem mais o que fazer da vida? Só fica de bunda colada no trono assistindo as nossas vidas! — disse Owen em posição para agir.
— Nessa de observar a vida alheia, juro pra você que ele não ganha da minha vizinha! — falou Tim.
— Pessoal, temos que avisar as pessoas no outro lado, depressa! — disse Austin que disparou a correr.
— Theron, procura um lugar seguro, rápido! — recomendou Jessie, logo seguindo os amigos.
— Si-sim, claro... — disse o mordomo, ataranrado, olhando para todas as direções — Mas onde especificamente?
Os Rangers chegaram com alarde à outra parte do zoológico, essa um tanto mais lotada.
— Fujam daqui, depressa! — alarmou Austin — Lokknon está atacando o zoológico!
A aparição dos robôs hostis levou os Rangers a avançarem a luta, socando, chutando e derrubando cada um dos que se aproximassem. Paralelamente, o outro grupo de Psycho-Bots surgia na floresta canadense interrompendo o trajeto de Dickerson e Ray que ficaram costa a costa.
— Me diz que são amigos seus e vieram nos escoltar. — falou Ray.
— Pra você parece que vieram guardar nossas vidas pra enfrentar a mamãe alien?
— Olha, quando planejei nossa aventura juntos, minha nostalgia não imaginou robôs assassinos vindos do nada.
— Eles são do espaço, pertencem a Lokknon, um imperador intergalático que atualmente ameaça a Terra. Ray, vá logo até a caverna, eu cuido deles! — pediu Dickerson posicionado.
— Dá conta sozinho? Não tá meio fora de forma?
— Não mudou nada mesmo, continua fazendo piadas nos momentos mais inapropriados. Estão aqui pra nos atrasar, Lokknon nos observa, é óbvio que ele deseja os ovos. Anda, sai daqui, não se preocupe comigo!
— Se você diz... — disse Ray que avançou dando um salto acrobático girando verticalmente sobre os robôs para ultrapassa-los, algo que impressionou a Dickerson.
— Nossa... — mas logo após Ray correr a rumo a caverna, os robôs iniciaram sua luta contra Dickerson que defendia-se dos golpes e passou a desferir chutes e socos em qualquer um que viesse de quaisquer direções.
Ray corria mais do que suas pernas suportariam, desviando de árvores quase que em zigue-zague. Avistou a caverna e acelerou. Ao adentrar, ligou uma lanterna, seus passos pisando em poças d'água, chegando rapidamente a parte central do abrigo rochoso.
— Os ovos... Ainda estão no ninho, mas... Onde foi parar a mãe? — passou o facho da lanterna a procura de algum sinal da presença da genitora até que deparou-se com um corpo alienígena largado um pouco mais adiante — Essa deve ser... Sim, sem dúvidas é a mamãe alien. Quem teria dado cabo dela sem pegar os ovos?
Um par de olhos Vermelhos surgiu na escuridão atrás dele.
— Certamente algo muito mais forte que qualquer predador dessa floresta. — disse Mudok, sua voz o fazendo virar-se apontando a lanterna para o androide.
— Quem é você? Espera aí... Você se parece com aqueles robôs que de um olho só. É o papaizinho deles?
— De certa forma, sim. Vim em nome de Lokknon lhe fazer uma oferta irrecusável.
— Lokknon... Se esse cara for tão influente e ameaçador pro Dickerson ter me avisado com tanta seriedade eu não vou recusar.
— A influência dele é mais do que sua compreensão diminuta pode raciocinar. Meu mestre é uma entidade suprema, nada está acima dele. Sei que cobiça esses ovos para uma experiência clandestina.
— Falei que tinha uma licença... Mas omiti que é não válida. — disse Ray refletindo o peso da sua mentira.
— Hum, mas saiba que Dickerson em contrapartida também omitiu fatos a você. — disse Mudok o circundando devagar.
— Verdade? Se bem que... eu sempre desconfiei que ele guardava segredinhos sobre a vida que ele teve antes da faculdade enquanto eu prestava serviço militar. O que ele esconde?
— Ele não é nenhum professor de curso sobre ciências, mas sim um engenheiro tecnológico a serviço de uma organização espacial chamada Intercorp.
— E aqueles pirralhos que se hospedaram na casa dele? — indagou Ray voltando-se a Mudok.
— É um grupo de guerreiros heroicos que ele treina chamados de... Power Rangers. Eles combatem as tropas de meu mestre.
A mente de Ray fervilhava com as revelações.
— Dickerson... Ele sempre me surpreende. — deu uma risadinha — O que tem a me oferecer?
Mudok foi até os ovos, logo mostrando um frasco contendo o líquido mutagênico de cor azul turquesa cintilante, o qual derramou sobre os embriões.
— O que está fazendo? — perguntou Ray com alarme.
— Este composto mutagênico fará com que sua experiência seja um completo sucesso.
— Por que eu acreditaria em alguém que se declara inimigo de um amigo meu?
— Por que chamaria alguém que oculta segredos de amigo? — a indagação levou Ray a pensar, o cientista deixando criar uma certa antipatia pelo companheiro de fraternidade — É pegar ou largar. Fique com os ovos ou levarei eu mesmo ao mestre para que ele faça o que bem entender com eles.
— Feito. — disse Ray, decidido — Devotei minha vida a esse projeto, nem Dickerson ou seus pequenos guerreiros irão me deter agora.
Dickerson seguia combatendo os Psycho-Bots, num dado momento saltando em giro vertical para escapar de un tiro descer que explodiu faíscas. O mentor agachado dera uma rasteira num robô e ao levantar rápido girou chutando outro que estava atrás. Mais um veio golpea-lo, porém foi agarrado pelo braço que segurava a arma sendo forçado a atirar em outros três que caíram explodindo faíscas.
— Hora de finalizar o jogo ao estilo Dickerson. — disse ele jogando o robô que manipulou contra uma árvore má que bateu se despedaçando. Sacou uma pistola quando o resto dos robôs o cercava. Ao disparar, o laser azul seguiu uma trajetória como uma linha de costura, atravessando de um robô para outro, levando-os imediatamente a explodirem-se quebrantados.
Ray retornava da caverna com os ovos tendo visto o amigo derrotar os soldados. Dickerson guardou a pistola rapidamente.
— Tô vendo que eu estava errado sobre você. Continua com todo o gás.
— E tô vendo que foi bem-sucedido. Como sobreviveu a mãe dos filhotes? Ou ela não é a fera que pensávamos?
— Por alguma razão misteriosa, ela não estava lá. Achei apenas os ovos largados no ninho. — disse Ray mostrando os achados dentro da mochila — Vamos dar o fora daqui. — a fechou.
— Ray, espera. — pediu Dickerson — Eu pensei bem e...
— E? — disse Ray com expectativa.
— Se você me garantir com total exatidão que a taxa de sucesso seja maior que a anterior, eu te dou meu número de telefone atual.
— Isso é um sim pra parceria?
— Encare como uma pré-adesão. Vai na frente, eu vou ligar pra uma amiga minha, o nome dela é Karen. Eu te alcanço depois.
— Karen... Bonito nome ela tem. Me lembra alguém do passado. Ela trabalha com você como sua assistente no curso?
— Basicamente. — respondeu Dickerson vagamente. Ray logo fora andando enquanto o parceiro telefonava para a tecnóloga que dirigia seu carro.
O celular de Karen tocara na bolsa no banco do carona quando ela rumava a um local específico. Atendera a chamada.
— Alô, Dickerson, como anda a missão quase impossível?
— Conseguimos. Digo, o Ray conseguiu. Lokknon mandou Psycho-Bots pra pegar os ovos e tive que dar cobertura pro Ray. Como estão os Rangers? Nenhum problema?
— Ahn... Eu não sei bem ao certo...
— Como não sabe? Karen, você não tá na Central de Comando ou o quê?
— Agora não posso falar, te encontro mais tarde. — falou ela, desligando bruscamente. Estacionou o carro frente a um prédio de dois andares de janelas pretas — É, cheguei. — disse ao sair. Se encaminhou a porta que se descobriu aberta — Que sorte estranha. — adentrou e seguiu explorando o interior daquele rede laboratorial científica cruzando um corredor meio escuro — Laboratório C-18... Cadê? C-18, C-18...
Enfim achara a porta correta, abrindo-a cuidadosamente. Cravou os olhos no computador ligado e caminhou até a mesa, sentando-se para bisbilhotar dados arquivados por Ray. Encontrou um diário digital e clicou, lendo atenciosamente e se embasbacando.
— O Dickerson em hipótese nenhuma deve ajuda-lo nisso... Meu Deus, preciso fazer alguma coisa. — afligiu-se com as mãos na cabeça — Já sei... É uma loucura, mas... É o único jeito de fazer isso acabar antes de começar. Não sem antes, claro, copiar esses arquivos. — instalou um pen-drive para extrair os dados como prova.
Os Rangers prosseguiam no embate aos Psycho-Bots em suas formas civis. Tim subiu na borda da piscina das focas chutando dois robôs nos dois lados. Outro veio ataca-lo diretamente com socos fazendo-o ficar a ponto de cair na água, mas o Ranger Azul o chutou na barriga após ficar na defensiva e o jogou na piscina. Quando quase iria cair, foi salvo por Austin que o agarrou pela gola da jaqueta.
— Te peguei! Essa foi por um triz hein, haha!
— Ainda bem que é você, cara, e não a Zoe ou o Owen! — disse Tim, grato. As focas pareciam aplaudir a ação do líder — Parece que elas gostaram de você, hahaha.
Porém, tiros de laser explodiram faíscas em torno deles, mais Psycho-Bots avançando.
— Vem, os outros estão logo ali! — disse Austin correndo segundo de Tim, ambos atacados por mais disparos. O time reunira-se perto de um food truck parado frente ao espaço de gorilas e chimpanzés — Algum sinal do Theron?
— Nadinha, acho que ele se perdeu! — disse Zoe, preocupada.
— Esses palhaços de lata estão tomando conta do zoológico todo! — reclamou Jessie.
— Quanto mais derrubamos, mais aparecem, nada fora do padrão. — disse Damian.
— Isso só exige uma medida drástica. — disse Owen — Não é, Austin?
— É nisso que tô pensando. — falou Austin com sorriso autoconfiante, logo sacando sua célula e morfador, os demais também o fazendo — Lokknon terá que se esforçar mais do que nunca pra estragar nosso fim de semana. Estão prontos? É hora de morfar!
— Touro Ônix!
— Tubarão Cobalto!
— Gorila Esmeralda!
— Arraia Rósea!
— Águia Flavescente!
— Leão Escarlate!
Os heróis saltaram para retomar a luta, batendo em mais dos robôs e transformando o zoológico num palco de luta onde os animais eram espectadores atentos. Enquanto isso, Karen cobria o laboratório de gasolina após pegar um galão num armário. Pegou um isqueiro que acendeu, jogando-o sobre a mesa e o computador que salpicou faíscas quando as chamas brotaram e se espalharam, fazendo-a se afastar.
— OK, primeira etapa cumprida. — disse ela, tensa ao sair da sala às pressas. Contudo, o alarme de incêndio disparou, causando uma chuva em todos os interiores do prédio — É isso o que acontece quando Karen age por impulso!
Uma cela que continha uma fera rosnando feito um leão acabou sendo destrancada como uma ação automática devido ao alarme. A criatura escapou correndo assim que a porta gradeada abriu-se. Ao chegar no corredor onde Karen estava, soltou um rugido que a preencheu de medo profundo.
— Que cão de guarda mais peculiar! — disse ela que seguiu o instinto de autopreservação de correr sem olhar para trás. Porém, tropeçou no chão molhado e caiu de frente — É o meu fim! — cobriu a cabeça esperando ser devorada pela fera descontrolada, mas a mesma pulou sobre ela como um obstáculo — Hã? Mas... O quê? — ergueu a cabeça vendo a criatura destruir o vidro de uma janela ao pular — Acho que ele deve ser vegano. — virou-se de barriga para cima suspirando aliviada.
No zoológico, os heróis esforçavam-se dobrado para liquidar com todo o exército de Psycho-Bots alternando com os golpes físicos e as pistolas Z. Mas para a surpresa deles, a quimera fugitiva do laboratório aparecera no zoológico, mais precisamente sobre uma jaula de leões.
— Que bicho feio é aquele? — indagou Tim, derrubando um robô num golpe de judô.
— Uma quimera... É uma quimera, como no mito grego! — apontou Damian.
— Será que é a coisa que o Ray usou como cobaia na experiência? — questionou Zoe.
O monstro híbrido inflou o peito para soltar um rugido tão estrondoso que atordoou os Rangers que queriam tapar os ouvidos e dispersou os Psycho-Bots. A potência do rugido chegou a danificar trancas de jaulas e desorientavam animais em espaços mais livres como girafas, elefantes, zebras e primatas diversos, uma cacofonia de berros.
A manada heterogênea se rebelou incontrolável, uma vastidão dos animais correndo para fora do zoológico e causando danos estruturais.
— Eita, a bicharada endoidou! — falara Tim.
A quimera desceu da jaula e ameaçou avançar contra os heróis. Austin fizera contato aproximando o pulso esquerdo a boca do capacete, os Rangers recuando devagar.
— Karen, problema em dose dupla!
Dickerson e Ray retornavam da viagem dando boas risadas como os bons amigos que viam se tornar, redescobrindo o elo fraternal. Porém, a aparição-surpresa de Karen esfriou a atmosfera.
— Mas... Karen, o que faz aqui? Então o carro ali estacionado no gramado onde é proibido é seu?
— Desculpa por isso, mas eu tenho que te avisar do perigo que estamos correndo. — disse ela trocando olhares afiados e sérios com Ray.
— Ray, essa é a Karen, minha assistente. Karen, esse é o Ray, meu parceiro na faculdade. Eu nunca te contei dele...
— Por uma boa razão, acredito.
— Tudo bem, Thomas. — disse Ray não tirando os olhos da tecnóloga — Nos conhecemos de outros carnavais. — o cientista se moveu passando pelos sofás — Não é, meu topázio?
— Não me chama assim, você não tem o direito de achar que ainda tem alguma intimidade comigo depois do que fez.
— Esperem, o que tá havendo aqui? Já se conheciam desde aquela época?
Karen baixou a cabeça e expirou.
— Nós... tivemos uma relação por baixo dos panos...
— Ah, já entendi. — falou Dickerson voltando-se a Ray — Nas horas vagas, você namorava a colega que eu tinha acabado de conhecer na faculdade e nunca me contou.
— Não, não pensem que tenho ciúmes, vocês dois parecem formar uma dupla bem dinâmica.
— Dickerson, Austin me contatou: houve uma rebelião de animais no zoológico por causa da criatura que escapou do laboratório que ele comanda!
— E que certamente você invadiu sem autorização. Isso explica porque está encharcada, ativou o alarme de incêndio, exatamente o que destrava a cela de Chimerax. — revelou Ray com sorriso cínico.
— Pretendia destruir tudo aquilo pra te impedir. Olhei no banco de dados, o laboratório passou pro seu nome há dois meses.
— Desde que eu saí daquela ilha maldita, recomeçar minha carreira acadêmica era minha missão de vida norteada pelo objetivo de continuar de onde parei.
— Nem devia ter começado! — disse Dickerson, irritado — Que outros segredos você tem debaixo do tapete como sujeira, Ray? Um eu já sei: foi você quem fez experiências na tripulação do SS Hydra que estava presa na ilha.
— Esse não foi tá difícil. Lá eu era rei temido e odiado. Thomas, eu precisei fazer tudo aquilo em nome da ciência.
— A sua ciência e a minha não são equivalentes! Não uso vidas humanas pra avançar no campo científico por status e fama.
— Eu teria tido a honra de dividir esse crédito com você, Dickerson. Você até daria um ótimo padrinho de casamento. — disse Ray que deu uma piscadela para Karen — Estou sendo hipócrita, mas e daí? Sua mentira foi maior. Chimerax precisa de mim agora.
— Daqui você não sai com esses ovos. — disse Dickerson dando passos adiante.
— Tem certeza? — disse Ray sacando uma arma de fogo e apontando-a ao ex-colega.
— Não teria essa coragem... — falou Dickerson sem intimidar-se.
— Quer pagar pra ver? Em você, nela ou nos dois, não importa. Eu fui um tremendo idiota de ter vindo aqui pedir pra voltamos a ser como antes, quase implorar pela sua amizade.
— Você nunca entendeu os princípios de uma amizade, Ray. Karen, você tem que sair, dê apoio aos Rangers.
Dickerson foi tirando as alças da mochila nas costas aos poucos.
— Você pode ir levando os troféus pra casa, mas não sem antes revelar o que realmente aconteceu naquela caverna.
— Quer saber como foi moleza pegar esses embriões? Alguém que fez por mim o que você não teria feito: liquidar com a mamãe alien e deixar a barra limpa.
— Quem fez isso, Ray? Quem te ajudou?
Ray fizera alguns segundos de suspense dando sua risadinha debochada.
— Um empregadinho desse tal de Lokknon que gentilmente banhou os ovos com uma substância que ele disse potencializar a chance de sucesso do experimento. Se eh confio nele? Nem um pouco. Mas por que não arriscar?
Dickerson bufou furioso e subitamente jogou a mochila contra Ray, logo agarrando o braço direito dele, o que fez a arma atirar acertando um vaso. Ray socou forte, mas Dickerson revidou desferindo um chute na barriga e em seguida para ficar atrás dele efetuando uma chave de braço.
— Não tá mesmo fora de forma, Thomas! — disse Ray, o rosto vermelho pela força do aperto no pescoço — Mas no fim eu... sempre... venço!
Ray dera un impulso para trás, derrubando ele e Dickerson que bateu fortemente as costas na mesinha de centro que se despedaçou. Fragilizado pela dor, a força de Dickerson reduziu-se, dando liberdade a Ray que reergueu-se e foi direto à sua mochila.
— Acho que deixou cair seu relógio! — disse Ray mostrando a pulseira que havia pego na queda
— Dickerson! — Karen ajudara-o a levantar.
— Meu teleportador... Ray, me devolva isso!
— Como sabe pra que isso serve? — questionou Karen com indicação ao cientista.
— Acha que eu vim descobrir tecnologia de teleporte ontem? Sendo Dickerson filiado a uma corporação espacial, não seria nada estranho ele possuir uma engenhoca portátil que facilote as coisas. Dessa vez você foi imbecil, podia ter economizado combustível do meu jato. — disse Ray colocando sua mochila nas costas — Nos vemos em Paris quando eu ganhar o Nobel de ciências. Au revoir. — apertou o botão de teleporte, desaparecendo.
— Ray, não! — disse Dickerson que foi segurado por Karen.
— O que acha que pode acontecer agora?
— A essa altura, devemos esperar que o pior cenário vire realidade.
No zoológico, os Rangers lidavam pacientes com a quimera rosnando feroz e salivando sua baba pegajosa.
— Se tentarmos fugir pra controlar a situação dos animais, os adestradores do zoológico vão vir e colocaremos gente inocente em perigo! — a avaliou Austin.
— Nssse caso, só restaria uma solução pra sairmos desse impasse. — falou Damian — Destruirmos essa aberração.
— Me parte o coração dizer isso, mas... é o único modo de evitar que as coisas piorem. — concordou Zoe.
— Se assim querem, eu me presto a abater essa fera! — disse Owen se pondo a frente — Macro-Detonador! — invocou o canhão que surgiu sobre seu ombro direito — Alvo travado na mira!
— Não! — gritara Ray vindo correndo. A quimera virou o rosto, reconhecendo seu tutor — Não ousem acabar com ele na minha presença!
— Ray! Veio salvar seu mascote, mas é tarde demais! — retrucou Austin — Sabemos quem você é de verdade e não deixaremos esse plano de cientista louco ir até o fim!
— Nunca é tarde para alguém realizar o milagre da ciência! Eu estou aqui e o farei gloriosamente! — disse o cientista se agachado e abrindo a mochila, deixando saírem os ovos que foram movendo-se como bolas de sinuca — Venha, Chimerax, o lanche do dia está servido.
A criatura correu como um cão vindo comer petiscos jogados. Devorou os ovos um por um sem mastigar tanto. Ray fitava num misto de excitação e ansiedade, seu sorriso maníaco se alargando.
— Aqueles são os embriões de que o Theron nos falou! — apontou Zoe.
— Isso é a experiência maligna dele? Alimentar o bichão? — perguntou Tim.
— Owen, se ainda tivermos tempo de destruí-lo, a hora é agora! — incitou Austin.
— Beleza, aí vai o tiro certeiro! — disse Owen morando a arma. Theron reapareceu escondido num caminhão, observando tudo.
— Isso não é nada bom. — encarou, preocupado — Nada bom mesmo.
Uma luz alaranjada emanou com raios da quimera, uma reação da ingestão dos ovos.
— Preparar, apontar... Fogo! — o tiro do Macro-Detonador foi disparado, atingindo a quimera com uma explosão de fogo.
— E aí? Ele virou churrasquinho? — indagou Tim tentando ver entre fumaça pela qual foi se esclarecendo uma figura bípede caminhando. Braço esquerdo de crocodilo, braço esquerdo referente a um hipopótamo, os pés de águia os os ovos alienígenas como orbs sendo um fixo a barriga e os outros dois presos nas pontas das partes compridas da juba nos lados. Os ameaçadores olhos brancos de Chimerax fitaram os heróis que se posicionaram para o combate árduo que se aproximava.
— É, pessoal, parece que o bicho vai pegar de verdade... pra nós. — disse Austin em preparação para a luta.
CONTINUA...
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