Notas iniciais
Sinopse do capítulo: Zoe conhece um menino de rua que assalta um vendedor de bolinhos, tornando-se amiga dele, mas logo tendo que protegê-lo de um caçador de recompensas disposto a capturá-lo por ele ser o remanescente de uma raça alienígena que acreditava-se estar extinta. Tenha uma ótima leitura (e que o poder te proteja)!

Uma corrida persecutória no espaço não era raro de ocorrer, mesmo em tempos mais pacíficos entre grandes potências planetárias. Aquela, em particular, envolvia apenas duas naves cruzando o sistema solar. A predadora disparava continuamente lasers azuis contra a presa rápida e escorregadia que transportava o objeto de cobiça do caçador. Um menino de aspecto humano que era aparentemente o último exemplar de sua raça.

Vivia uma turbulenta fuga com seu guardião chamado Hoddrus, um patrulheiro intergalático a serviço de uma polícia espacial que tinha sujeitos como o perseguidor implacável na lista dos mais procurados do universo. A nave deles sofreu um dano agravante nos propulsores e o caçador aumentava sua margem de acerto.

— Prys, sente e coloque os cintos! Iremos cair! — avisou Hoddrus com sua voz abafada por trás do capacete preto de grande visor que ocultava a face inteira. Perdeu o manejo dos controles, a nave atravessando a atmosfera da Terra. Logo, caíram numa floresta densa no meio de uma noite enluarada.

Ambos saíam, a nave salpicando faíscas na traseira.

— Pra onde vamos, Hoddrus? Eu tô com medo! — disse o menino de roupas velhas e rasgadas sobre as costas do guardião — Não deixa ele nos pegar, você fez uma promessa!

Hoddrus parou fazendo ele descer e virou-se frente à ele.

— Escute, a única promessa que fiz foi mantê-lo vivo e seguro pelo tempo que me fosse possível. Não posso fugir quando não há mais onde se esconder. Mas você sim. — disse o policial que ligou um bracelete eletrônico e o aproximou a boca — Atualizando relatório: fizemos uma aterrissagem de emergência após sermos atingidos. Propulsores severamente avariados. Teremos de seguir de pé neste planeta que não aparenta ser hostil à primeira vista. — a mensagem foi interrompida após o pouso da nave do caçador nas proximidades — Killvox permanece em nosso encalço, acabou de aterrissar. O cromatoniano segue ileso e sadio. Mais detalhes em breve. — encerrou a comunicação — Assim espero. Vamos, nem devíamos ter parado.

No entanto, a fuga não durara tantos metros e um tiro de advertência acertando uma árvore os fez parar.

— Ele encurtou a distância. Mas a partir de agora, isso deve me visualizar como alvo. Você foge sem olhar para trás.

— Não, Hoddrus... Não me deixa sozinho, por favor! — disse Prys o abraçando aos prantos — Preciso de você, eu nem conheço esse mundo!

— Mas vai conhecer... e se adaptar. Porque a sobrevivência não é um dom apenas de quem o mais forte. Você é um cosmopolita deste planeta, Prys, não quero que se envergonhe disso. Agora vá, meu amigo.

Prys engoliu o choro e correra deixando lágrimas para trás. Killvox se aproximou ameaçadoramente atirando lasers contra Hoddrus que se esquivou rolando de lado, logo sacando uma haste de metal que revelou ser um bastão de duas pontas cilíndricas.

— Pra onde mandou a criança?

— Se a liberdade for um lugar, então este planeta será o refúgio de Prys!

— E o seu túmulo! — disse Killvox que avançou dando chutes que eram habilmente defendidos por Hoddrus com seu bastão. Porém, o mercenário o desarmou chutando o bastão para o alto e depois no peito de Hoddrus, o fazendo bater forte contra uma árvore e cair — Teve que abandona-lo por ser fraco demais em mantê-lo a salvo. Você não faz nem eu considerar usar minha espada!

Ainda caído, Hoddrus virou e atacou de surpresa com tiros de laser numa pista. Os disparos danificaram um dispositivo no pulso esquerdo de Killvox, além de atingi-lo no torso e nas pernas com estourou de faíscas.

— Miserável... — disse ele olhando o aparelho faiscando com raios. Pegou uma pistola com a qual disparou uma rede de captura, prendendo-o. Hoddrus foi arrastado e imediatamente posto de volta à sua nave.

— O que pretende fazer? Por que minha nave e não a sua?

— A minha, obviamente, precisa ficar intacta até que eu complete minha missão. Nada me impedirá de encontra-lo, Hoddrus! Nada!

Grudou um explosivo esférico do tamanho de uma laranja na fuselagem da nave e fechou o canopi, aprisionando o algoz. A contagem regressiva influenciava um bipe cujo ritmo acelerava conforme se aproximava da detonação. Killvox fora andando tranquilamente enquanto a nave de Hoddrus explodia atrás dele, a caçada tornando-se ainda mais motivadora de sua incansável disciplina.

***

A manhã do dia seguinte havia iniciado menos conturbada para Prys. O garoto alienígena perambulava pelas ruas da Alameda dos Anjos encarando com certo assombro os costumes e convenções terráqueas. Lembranças do que passou ao lado de Hoddrus o faziam assumir que nenhum perigo daquele estranho mundo novo se compararia ao encalço de Killvox. Ao atravessar uma rua cujo sinal estava aberto, recuou amedrontado quando os carros freiavam bruscamente chegando a cair.

— Sai da frente, ô moleque! Quer ser amassado? — repreendeu um motorista de caminhão colocando o corpo para fora da janela do veículo. Prys olhava boquiaberto a confusão que criava, tapando os ouvidos pela cacofonia de buzinas. O menino correra gritando de pavor.

Se encaminhou para uma área menos barulhenta, correndo pela calçada, ainda atemorizado com o mundo à sua volta. Vira uma barraca de bolinhos do outro lado a alguns metros e escondeu-se atrás de árvore.

— De nada, voltem sempre, crianças. — disse o vendedor, um homem de meia-idade com um espesso bigode preto, para um grupo de garotas que comprara uma cesta de bolinhos.

A fome latejava no estômago de Prys com o som do revirar das suas entranhas. O garoto passou a língua entre os dentes visualizando os bolinhos numa caixa atrás do vendedor. Quando ele menos percebeu, a caixa já não estava mais ali. Ao dar-se conta, se afligiu procurando ao redor interno da barraca. Logo viu um garoto maltrapilho e descalço correndo e levando sua mercadoria.

— Pega ladrão! Volte já aqui, seu pestinha! — disse ele que disparou atrás de Prys o mais depressa que aguentava — Meus bolinhos!

Prys acelerou mais a corrida dando constantes olhadelas para trás. Dobrou a esquina, mas acabou esbarrando em alguém e caindo de bunda no chão, o que fez alguns bolinhos saírem da caixa.

— Nossa, desculpa! — disse Zoe, preocupada — Se machucou?

O vendedor veio e sorriu de canto ao se deparar com o furtador.

— Aí está você, seu ladrãozinho! Pode ir me devolvendo os bolinhos que você surrupiou!

Prys levantou pegando a caixa e se escondendo atrás de Zoe.

— Não deixa ele me pegar, por favor!

— Você roubou esses bolinhos?

— Eu não tinha essa coisa que vocês terráqueos chamam de dinheiro!

O vendedor se aproximava enfezado.

— Não é desculpa pra roubar o que não é seu, garoto! Ande, me devolva os bolinhos! Se quiser um, terá que pagar. Eu não tô brincando.

Zoe se encontrou dividida entre forçar a devolução dos bolinhos ou inspirar compreensão no vendedor quanto ao estado do garoto. O íntimo de seu coração a fez decidir.

— Senhor, olha pra ele. É apenas um menino de rua desorientado, deve estar faminto. Eu te peço, por favor, que permita ele comer todos esses bolinhos.

— Eu já perdi muito material por trombadinhas iguais a esse. — retrucou o vendedor, inflexível.

— Mas o senhor pode fabricar mais desses bolinhos, ceder alguns pra uma criança tão pobre não vai leva-lo a falência. Por favor.

O homem olhou sério e de queixo erguido para o garoto, avaliando a decisão.

— Está certo, pode ficar. Mas não quero ver você de novo perto da minha barraca, ouviu bem? — advertiu, logo virando as costas e indo embora.

— Obrigado, achei que fosse me entregar, ele fala de um jeito parecido com o Killvox. — disse Prys fazendo Zoe franzir a testa.

— De quem tá falando? Quem é Killvox? Olha, não importa. — disse ela que apanhou um bolinho do chão e o limpou delicadamente — Aqui. Mas nunca mais pense em roubar de novo, entendeu? — olhara no relógio — Caramba, vou me atrasar. Tenho que ir. Fica bem, tá bom?

— Não! — disse Prys que a puxou pela mochila. Zoe o encarou contrariada e cruzou seu olhar confuso com o choroso dele — Eu não quero mais ser abandonado, não outra vez! Me leva com você, eu te imploro! Não quero ficar sozinho!

— Você foi abandonado? Mas quem faria isso com você? Foram seus pais?

— Não, o meu guardião, Hoddrus! Ele se sacrificou pra me salvar lutando com o Killvox! — relatou Prys, as lágrimas transbordando.

Um alerta acendeu na mente de Zoe com aqueles nomes tão peculiares.

— Como se chama?

— Meu nome é Prys. Sou o último da minha raça, o Hoddrus tentou me proteger por causa disso. Mas ele se foi e eu fiquei solitário sem saber pra onde ir nem como viver.

— Então... Você veio de outro planeta?

— Cromathos. Mas todo meu povo foi extinto, eu fui o único que restou. — informou Prys com semblante triste e olhar carente — O Killvox tá me caçando pra fazer a mesma coisa com meus irmãos mais velhos.

A Ranger Rosa captou um detalhe no centro da testa de Prys, estreitando os olhos. Ela se inclinou e afastou as mechas de cabelo encaracolado, descobrindo uma pedra de brilho multicolorido, mas numa cor predominante, no caso o roxo que representava o medo.

— É linda. — fez menção de tocar.

Porém, Prys recuou abruptamente, a encarando com raiva. A pedra alterou sua cor para vermelho vivo.

— Não! Não vou deixar pegar o meu orb!

— Mas eu não quis pega-lo, só disse que achei lindo. Tá tudo bem, Prys, eu não vou te fazer mal. Agora diz: quem é esse tal de Killvox?

— É um caçador malvado que trabalha pra reis e monarcas poderosos fazendo serviços pra quem pagar o preço mais alto. Ele acha que meu orb é precioso e quer arrancar de mim.

— E ele já está aqui na Terra?

— Sim, Hoddrus e eu pousamos aqui depois que ele vinha nos perseguindo pelo espaço. Nossa nave foi danificada, mas... Hoddrus precisou me deixar seguir sozinho. Sinto saudades dele.

A complacência de Zoe se acentuou ao extremo quando ela o fitou com emoção comovida.

— Prys, se você confiar em mim, juro que a missão do Hoddrus passará a ser minha. — disse ela estendendo a mão direita à ele — Amigos?

Prys olhou para a mão dela, esboçando um fraco sorriso.

— Amigos. — disse ele dando a sua mão, apertando a dela e balançando levemente.

— Eu me chamo Zoe. Vem comigo, tô indo pra um lugar onde vai estar seguro. — disse ela caminhando de mãos dadas com ele — Meus amigos e eu vamos resolver sua situação.

***

Na Angel Grove Middle School, Jessie esperava pela melhor amiga encostada num armário, conferindo de instante a instante no relógio do celular. Olhou para sua esquerda, aliviando-se ao ver Zoe finalmente chegando.

— Meu Deus, que demora mais estranha foi essa, garota? Sabe como me dá nos nervos quando você se atrasa assim.

— Tá tudo ótimo, eu não vim de ônibus porque minha mãe tá em dívida com o motorista.

— Não, mesmo quando você não vem de busão amarelo não chega nem perto do atraso de hoje. Sabe o que isso significa? Aconteceu alguma coisa fora do comum. Me conta.

— Eu encontrei esse menino, ele... — disse Zoe não vendo sinal de Prys por perto — Ah não, cadê ele? Tava bem aqui do meu lado! Prys! — olhou em volta.

— Prys? Que tipo de pais batizam uma criança com esse nome? — questionou Jessie franzindo a testa.

— Do tipo... alienígena. — respondeu Zoe que foi atrás do garoto.

— Peraí, você adotou um garoto extraterrestre?! — queria saber Jessie, acompanhando-a.

Zoe o encontrara perto da sala do diretor Brewster olhando um cartaz sobre normas escolares e atividades extracurriculares.

— A linguagem do povo terráqueo é bem simples pra um planeta que se diz tão avançado. — falou comendo um último bolinho.

— Eu ouvi isso. — disse Zoe parando bem próxima a ele com as mãos na cintura.

— Desculpe, não quis ofender. Você é a melhor nativa desse planeta que encontrei até agora.

— E vai se encantar por mais quatro. Olha, você saiu de perto de mim e fiquei preocupada. Não faz mais isso, OK?

— OK? Como assim?

— É uma expressão que quer dizer "tudo bem". — disse Jessie parando ao direita de Zoe — Sou a Jessie, melhor amiga da sua mãe adotiva.

— Eu não adotei ele, eu só... — disse Zoe que interrompeu-se ao ver a seriedade de carência no olhar de Prys — Bem... Pode-se dizer que sim. Mas não como uma mãe e sim como...

— Uma irmã. — completou Prys sorrindo.

— É, é isso... Sou sua irmã mais velha.

— Os irmãos mais velhos têm o dever de proteger os mais novos. É o que você fará por mim, né, Zoe?

Austin, Tim e Damian se avinhazavam curiosos.

— E aí, garotas? Como foi ontem nas fotos do anuário? — perguntou Austin.

— Nem te conto. Melhor esperar até o intervalo. — disse Jessie.

— História longa e dramática. — adicionou Zoe.

— E esse pivete aí? — indagou Tim — Ô, mocinho, o ensino primário fica lá do outro lado da cidade.

— Deixa de ser implicante, é nítido que ele não é uma criança com condições mínimas de escolaridade básica. — apontou Damian.

— Quem é você, amiguinho? — perguntou Austin expressando simpatia — Onde você mora?

— Na rua? — especulou Tim dando de ombros.

— Não, eu vivia em Cromathos, meu planeta-natal. — respondeu Prys terminando de comer o bolinho.

— Adoro quando uma criança menor é tão sincera. — comentou Jessie achando fofo o jeito de Prys.

— Peraí, ele é um E.T?! — disse Tim, surpreso.

— Por que o espanto? Interagimos com alienígenas quase todos os dias. — disse Damian.

— Mas nunca como esse menino. Sinto que tem algo esquisito nele. — disse Tim botando a mão no queixo e estreitando os olhos em suspeita.

— É o meu orb. — disse Prys mostrando a pedra que estava em cor branca.

— Nossa, ele tem uma pedra preciosa no meio da testa! — apontara Tim com indiscrição.

— Não, fica longe de mim, ele é meu! — disse Prys se afastando assustado.

— Prys, calma, são meus amigos! — tranquilizou Zoe — Ninguém além do Killvox quer roubar o seu orb, eu garanto.

— Killvox? Cromathos? Será que dá pra uma de vocês duas explicar o que tá acontecendo? — dizia Austin, impaciente de curiosidade.

— A Zoe sabe de tudo. — disse Jessie. A Ranger Rosa sorriu de nervoso para os amigos tocando nos ombros de Prys atrás dela.

Logo mais, Brewster se via diante do garoto cromatoniano acompanhado dos Rangers, o diretor com os olhos fixos nele batendo de leve os dedos indicadores um no outro perto dos lábios com os cotovelos apoiados sobre a mesa.

— Hum... Talvez eu entre em contato com um centro de adoção.

— Quer dizer um orfanato? — indagou Zoe — Diretor, ele precisa ser mantido em segurança aqui no colégio somente por hoje.

— A Zoe decidiu dar abrigo pra ele na casa dela. — disse Jessie — Temporariamente, é claro.

Prys a olhou com tensão, levando Zoe a chuta-la levemente na canela.

— Er... Ele ficará na casa da Zoe caso os pais dela decidam adota-lo. — corrigiu a Ranger Amarela, a fala rápida.

— E eles com certeza farão isso. — enfatizou Zoe, esperançosa — Prys é um menino adorável, a riqueza dele vem da sua pureza, eu sinto.

— Certo, se for o caso de seus pais, Zoe, optarem pela adoção definitiva, eu presto esse favor fazendo companhia a ele até o fim do turno. — atendera Brewster, compreensivo.

— Valeu, diretor, ficamos tão gratos quanto a Zoe e o Prys pela ajuda. — declarou Austin. O diretor apertou o botão do sinal na parede atrás de si. O som ressoou na escola inteira.

— Hora de irem para a sala, apressem-se.

Os Rangers saíam da sala, mas Prys pegara no braço de Zoe a parando.

— Me promete que vai me buscar depois da aula, Zoe.

— Mas é claro que eu prometo. — assegurou ela afagando os cabelos dele — Se depender de mim, você nunca mais estará sozinho.

A Ranger Rosa enfim saíra, fechando a porta. O diretor mostrou a cadeira para Prys.

— Fique à vontade, rapazinho. Não tenha medo.

O menino sentara-se um tanto retraído.

— Vamos lá, Prys... É exatamente esse o seu nome?

— Sim, senhor.

— Ahn... Me conte sua história de vida aqui na cidade, depois será a minha vez.

— Não posso.

— E por que não?

— Porque eu não sei mentir. — respondera Prys fazendo Brewster levantar uma sobrancelha, intrigado.

***

Na sala central da nave de Lokknon, imperava uma atmosfera angustiante de pressa e impaciência. Barooma se desdobrava nos reparos do bio-modelador, mas Lokknon demandava excelência e tempo otimizado.

— Mais rápido. — ordenava ele andando de um lado para o outro — Mais rápido, Barooma! Por acaso, está surdo?

— Mestre, não há como prosseguir acima do meu ritmo!

— Talvez pra uma tartaruga sim. — provocou Aracna que lia uma revista de ciências.

— Vocês dois! Em vez de ficarem relaxados e ociosos, deviam elaborar artimanhas potenciais de acabar com os Power Pirralhos!

Mudok estava frente ao painel de controle do visualizador multifocal aperfeiçoando o monitoramento.

— Já cuidei de ampliar nosso alcance visual. — disse o androide que passava imagens de pontos aleatórios da Alemeda dos Anjos — Espere um minuto. — voltou três imagens após detectar uma presença singular — Bem que nossos sensores captaram invasões de objetos não-identificados.

— Ué, quem é esse? — indagou Aracna — E por que tá aí parado em cima desse prédio?

— Este só pode ser... Killvox. — reconheceu Mudok — Um dos mercenários e caçadores de recompensas mais intimados e procurados do universo. Atualmente, ocupa a terceira posição.

— Lembro de vê-lo em cartazes espalhados em cidadelas da galáxia Manzor. — disse Lokknon, um interesse brotando — E se eu o fizesse se associar a mim?

— Mestre, indivíduos como ele não firmam alianças fixas. Se é o que o senhor imagina conseguir dele. — apontou Mudok.

— Sei muito bem como ele se comporta. E já que está de passagem na Terra, não posso deixar de aproveitar a chance desse dia não passar em branco.

— Já que ele não faz nada de graça... O que iremos propor? — questionou Aracna levantando e juntando-se a Mudok.

— A quantia mais irrecusável. — afirmou Lokknon, entusiasmado.

— Mas mestre, nunca foi de seu feitio negociar com mercenários da estirpe dele! Pra mim ele é tipo mais sujo do qual se pode esperar a pior das traições! — alertava Barooma.

— Calado, Barooma! Com um preço tentador, ele se curvará a mim como um súdito leal.

— Mas se ele está na Terra, provavelmente não é fazendo turismo. — atentou Mudok — Melhor eu me certificar.

Mudok teletransportou-se até onde o caçador estava mexendo no dispositivo avariado.

— Jamais irei perdoa-lo por isso, Hoddrus! Jamais!

— Guarde essa ira para extravasar com oponentes mais dignos. — disse Mudok alguns metros atrás dele. Reativo, Killvox virou-se sacando e mirando uma pistola. O androide ergueu os braços em diplomacia — Estamos na mesma trincheira.

— Pois me convença.

— Vim em nome do imperador Lokknon lhe fazer uma oferta. Este sistema estelar é o último que sobra desta galáxia para ser dominado. O planeta mais contemplado é este por ser o único habitável. No entanto, cinco guerreiros impertinentes dificultam finalizar o propósito do meu mestre dia após dia. Todos os conhecem como Power Rangers.

— E espera que eu ceda sem um valor estabelecido?

— Bom, eu sou apenas um intermediário. Se quiser me acompanhar...

— Lamento, mas não. — disse Killvox virando de costas — Uma missão de cada vez, é o meu protocolo. É contraproducente servir a dois senhores.

— Mesmo se houver um preço mais vistoso? Podemos facilitar sua missão. Cedo ou tarde, os Rangers podem se cruzar com seus objetivos.

Atento, Killvox foi voltando-se aos poucos para Mudok num ar de interesse.

— Feito. Leve-me ate seu imperador.

— Basta tocar na minha mão.

O mercenário fizera-o um tanto relutante e cético. Ambos se teleportaram à nave de Lokknon que o recebeu com um largo sorriso.

— É ele? — indagou Killvox.

— O próprio. — respondeu Mudok elegantemente apresentando-o.

— Seja bem-vindo, Killvox. Prometo não tomar muito do seu tempo negociando os termos do nosso acordo.

— Ressalto que estou numa operação de encomenda. Só haverá um acordo se me garantir uma recompensa acima do que meu atual contratante estimou.

— Cinco mil cosmus, o que acha?

Killvox precisou de um instante para ponderar andando devagar.

— Quanto vale esta nave?

— Bilhões de cosmus, senão mais. É esse o seu preço ideal? Se tiver êxito na sua missão e roubar as células de morfagem dos Power Rangers, ela será toda sua para sair desbravando novos mundos.

— O mestre ensandeceu!? — se alarmou Mudok — É uma herança incalculável de família!

— Não pode estar apostando tanto assim que ele vença os Rangers! — manifestou-se Aracna.

— Eu dizimei toda uma raça, fui o único caçador ativo a conquistar tal feito. E liquidei com vários guerreiros, o último sendo um patrulheiro que atuava como guardião do cromatoniano remanescente. É dele que estou a caça, mas... sem meu emissor de frequência não posso alcança-lo.

— Deixe-me ver. — pediu Mudok, examinando o bracelete — Para que serve exatamente?

— Os cromatonianos possuem uma joia incrustada na testa, um orb de caráter místico que os faz carregar uma terrível maldição lançada numa época de guerra em Cromathos. Como são altamente sensíveis a sons agudos, o meu emissor é o item-chave para captura-lo.

— Se me permite, posso conserta-lo. — disse Mudok.

— Isso levará a um custo adicional.

— Não há problema, Mudok fará um excelente reparo. — assegurou Lokknon.

— E bem mais ágil diferente de outros. — implicou Mudok ao passar por Barooma.

— Se me trouxer este orb, o pagarei com esta nave que poderá vender pelo que ela realmente vale tranquilamente. — prometeu Lokknon — Nosso trato está firmado.

— É uma joia extremamente requisitada e bem precificada no mercado clandestino intergalático. — destacou Killvox.

— Killvox, eu sou Aracna, prazer. Como somos amigos agora, você bem que poderia me mostrar seu rosto. Não custa nada, vai.

— Confundir aliança com amizade é de uma estupidez deprimente. — disse Killvox saindo de perto dela.

— Bleh, mas que chato. — retrucou Aracna mostrando a língua.

— Parece que temos algo em comum. — disse Lokknon, satisfeito, sentando no trono confiante do desempenho do caçador.

***

Durante o intervalo, Zoe estava absorta em pensamentos espetando devagar com o garfo sua salada de legumes que ainda não colocara na boca. Os amigos não ignoraram o olhar distante e meio triste da Ranger Rosa.

— Zoe, o que é que foi? — indagou Austin servido de bolinhas empanadas — Você adora toda essa porção de legumes e não costuma ficar com essa cara quando é o dia da salada.

— Ainda mais por ser a única corajosa de devorar essa gororoba. — disse Tim não olhando para a iguaria com o mesmo apetite que lhe fazia preferir um prato cheio de chili.

— É o Prys, ele não sai da minha cabeça. Eu vejo tanta dor naquele rosto carente, ele me contou da história da extinção de sua raça. Quanto mais ele falava, mais meus olhos inundavam.

— Nossa, ele deve ter sofrido horrores, principalmente agora sendo caçado por um bandido que quer arrancar dele aquela pedra. — comentou Jessie também sentida pelo garoto.

— O que será que aquela joia na testa dele faz? — indagou Tim com a boca cheia.

— Eu não sei, mas o orb, segundo ele, representa a essência espiritual materializada do povo de Cromathos. — informou Zoe finalmente garfando forte um legume e comendo.

— Vocês notaram que no momento em que o Tim apontou pro orb quando Prys mostrou, a pedra mudou drasticamente de cor? — analisou Damian.

— Pois é, também percebi, de repente ficou roxa. — disse Jessie.

— Ele me disse que o orb muda de cor de acordo com as emoções dele. — revelou Zoe — Nessa hora ele sentiu medo e insegurança, daí o roxo indica esses sentimentos. Quando eu decidi leva-lo comigo, estava amarela, o que significa felicidade.

— Será que há alguma implicação gravemente séria se o orb for removido? — perguntou Damian.

— Ele não sabe dizer, afinal é muito criança, não teve tempo de aprender toda a cultura de seu povo até o dia mais triste da vida dele. — falou Zoe compadecida do fardo do menino.

— Coitado, ele é novo demais pra suportar esse peso todo de ser o último do seu planeta. — disse Austin que olhou compassivo para Zoe — Sabemos o quanto se apegou a ele, Zoe. É por isso mesmo que não vamos deixar esse Killvox roubar o orb.

Enquanto isso, Killvox retornava à Terra com o emissor de frequência devidamente consertado. Parou no terraço de um edifício bem na beirada.

— Eu não posso adiar mais o término dessa missão! Prepare-se, fedelho, porque agora não há mais reduto onde eu não possa encontra-lo! — disse o caçador apertando botões o bracelete — Ativar frequência de sonar!

Girou um botão com números de medições de onda em volta. O aparelho logo reproduziu um som agudo de alcance amplo. Na diretoria, Prys interrompeu sua conversa com Brewster ao escutar o zumbido metálico atravessando seus canais auditivos. Bruscamente, levantou da cadeira sentindo uma forte cefaleia.

— Aaaaaah!!! Não, não, não... Nããããooo! Tá doendo muito! Para! Aaaaaaaahhh!

Desesperado, Brewster tentou ampara-lo.

— Mas o que está havendo com você? É uma dor de cabeça que está sentindo? Vou levá-lo a enfermaria!

— Saia daqui, fuja! — gritava Prys cambaleando com as mãos na cabeça. A joia na testa emitiu um brilho vermelho com uma aura negra envolvendo o garoto. Brewster recuou com os olhos arregalados tamanho seu choque.

— Meu Deus! O que você é, menino?

Prys não ouvia mais nada a não ser a onda sonora cortando seus tímpanos. Seu corpo passara por uma metamorfose absurda que fizera Brewster desmaiar de pavor. Prys virara um ser monstruoso de olhos esbugalhados que saiu da sala destruindo a porta agressivamente.

O rastreador de Killvox apitava fornecendo a localização exata.

— Perfeito. A noroeste daqui. Você é meu! — disse ele que arrancou seu manto pardo o lançando ao vento. Foi pulando de prédio em prédio em grande velocidade.

No colégio, Prys invadia o refeitório com estardalhaço, gerando pânico coletivo imediato. Os Rangers se levantaram alarmados em meio a gritaria e correria vendo a criatura descontroladamente revirar mesas e cadeiras.

Os comunicadores tocaram.

— Por aqui, pessoal! Vem, vem! — disse Austin. O grupo se dirigiu a um ponto reservado perto da cozinha — Na escuta, Sr. Dickerson!

— Captamos uma assinatura diferente, Rangers. Não se deixem enganar, esse monstro que ataca a escola nesse momento não veio do Lokknon. — avisou Dickerson de pé ao lado de Karen na Central de Comando frente ao painel.

— Será o Killvox? — especulou Jessie.

— Ah não, o Prys! — disse Zoe — Preciso ver ele!

— Fica calma, Zoe, ele tá bem. — disse Austin — Sr. Dickerson, tomaremos todos os cuidados. A gente não tem tempo pra explicar agora, mas tá rolando um lance além do Lokknon hoje.

— Caramba, ele tá doidão! — disse Tim olhando o monstro jogar as mesas violentamente.

— Vamos atrair esse monstro surtado pra fora. Já! — determinou Austin que correu seguido pelos demais para fora do refeitório que se via vazio de alunos pois grande parte fugiu. O monstro os viu saírem correndo e os perseguiu soltando grunhidos roucos.

Os Rangers esconderam-se do outro lado. Austin deu uma espiada rápida vendo a criatura sair procurando destruir mais coisas.

— O chamariz funcionou. — disse o líder se colocando entre os amigos e sacando a célula e o morfador — Prontos? Hora de morfar!

— Touro Ônix!

— Tubarão Cobalto!

— Arraia Rósea!

— Águia Flavescente!

— Leão Escarlate!

Os heróis saltaram, logo bloqueando o caminho do monstro invasor ao pousarem firmes.

— Calminha aí, esquentadinho, não pensa que vai colocar esse lugar inteiro abaixo. Vai ter que passar por nós! — disse Austin.

O monstro liberou um profuso gás verde que exalava um cheiro ocre e repulsivo.

— Que futum desgraçado é esse? — indagou Tim — Nem minhas meias cheiram tão mal assim!

— Dá pra ver que ele não é de uma raça evoluída! — disse Jessie afastando-se com aversão — Não tem hábito de escovar os dentes!

— Galera, atenção! Mirem as pistolas Z, não deixem esse fedor desorientar vocês!

Os cinco sacaram as pistolas, logo disparando uma chuva de lasers que atordoaram-o, causando estouros de faíscas ao redor dele. Austin saltou o chutando contra um carro, mas o monstro revidou lançando das mãos estacas pontiagudas no líder que foi atingido no corpo e derrubado.

— Eu pego ele! — disse Jessie — Garras raptoras! — partiu contra ele ao invocar as armas, voando baixo após um salto. Desferiu golpes velozes com suas garras, mas que ele defendia com as suas sem se intimidar. Disparou um brilho elétrico de seus olhos que atingiu Jessie à queima-roupa, a lançando longe. Damian e Tim invocaram suas armas e avançaram.

— Jessie! — disse Zoe indo ajuda-la.

— Eu tô bem, pode deixar. — disse a Ranger Amarela com marcas chamuscadas na roupa — Pra um monstro sem cérebro, ele é bem forte.

— Avisa pro Austin e os outros que eu fui procurar o Prys. — disse Zoe que saiu correndo de volta à escola.

— Pra onde ela tá indo? — indagou Austin levantando.

— Foi ver como está o Prys! — avisou Jessie se pondo ao lado dele.

A criatura parou os chutes de Tim e Damian com as duas mãos em ambos os lados sem esforço e os empurrou fortemente. Girou como um pião lançando mais estacas.

— Cuidado! — disse Austin se abaixando e esquivando com Jessie, as estacas explodindo faíscas no chão. Tim e Damian recebiam os ataques sofrendo com os altos estouros enquanto caíam em pleno ar.

Zoe chegava ao corredor principal atrás da sala do diretor. Porém, a aparição de Aracna barrando o caminho a deixou vacilante.

— Vai a algum lugar especial, rosinha?

— Sai da frente, Aracna! Hoje eu não tô de bom-humor pra pegar leve com você.

— Chama isso de ameaça? Vinda de você? Me poupe. — disse Aracna que avançou com chutes esquivados pela Ranger Rosa.

— Não quero lutar com você! — disse Zoe saltando para o lado num giro vertical. Ligou o bebedouro e fez a água esguichar contra ela.

— O que tá fazendo? Eu hidratei meu cabelo hoje! — disse ela levando água em jato na face. A princesa aracnídea logo disparou um raio da mão, acertando a parede, mas Zoe esquivou rolando e passou a lutar num ferrenho duelo de chutes.

— Ferrão de Arraia! — invocou sua arma, atacando como uma espadachim.

Killvox enfim chegava aterrissando no chão, logo sacando uma pistola a laser e disparando contra o monstro repetidas vezes. Os tiros foram tão impactantes que culminaram numa explosão intensa que tirou a criatura do chão.

Os Rangers se reuniram, encarando o caçador.

— E agora? Quem será esse daí? — perguntou Tim.

— Killvox, o mercenário pródigo! — disse ele mirando a pistola capturadora — Desapareçam da minha vista, tenho um troféu a conquistar!

— Se você é o Killvox, então... — disse Austin olhando para o monstro — Quem é ele?

— Acreditem ou não, é apenas uma criança ingênua e fraca na pele de uma fera irracional. — disse Killvox.

— Esse é o Prys?! — disse Jessie.

— Mas como isso é possível? — questionou Damian.

— Tudo de que preciso é retirar esta joia da cabeça dele. É devido a ela que ele fica sujeito ao meu sonar e se transforma nesta criatura abominável. Agora saiam do caminho!

— Nem pensar! — disse Austin realizando posição de barreira com os demais — Perto do Prys você não chega um metro!

— Preferem do jeito difícil, então? Não admito ser interceptado por crianças petulantes! — disparou Killvox que lançou granadas de uma arma.

— Barreira Z! — bradaram os Rangers em uníssono criando o escudo multicolorido a partir do símbolo da equipe no peito de Austin compartilhando energia ao tocá-lo. As bombas ricochetearam, explodindo atrás dos heróis.

— Ele fugiu! — disse Damian — Não há sinal dele.

— Power Rangers malditos! Não acredito que fedelhos como vocês me obriguem a usar isto! — disse Killvox aproximando e sacando sua espada com dentes — Preparem-se para sofrer!

No corredor, Zoe quebrara uma unha de Aracna num golpe do ferrão.

— Não! Você destruiu minha bela unha! — lamentou, olhando aflita para o estrago — Na próxima vai ser o seu ferrão!

Teleportou-se de volta à Lokknon. O comunicador de Zoe tocara.

— Na escuta! Como estão aí?

— Levando uma surra... do Killvox! – reportou Austin.

— Zoe, vem rápido! — clamou Jessie.

— Tô indo depressa! Aguentem firme!

A Ranger Rosa tomou a rota em retorno ao estacionamento do colégio. Killvox manifestava toda sua habilidade combativa contra os Rangers usando de sua espada. Aplicou um chute em Austin no ar que produziu uma onda vibratória no impacto. Depois, voltando ao chão, desferiu um corte faiscante da espada que derrubou Tim, Damian e Jessie de uma só vez.

— Quem destruirei primeiro? Hum, talvez a amarela, odeio essa cor! — disse Killvox brandindo a espada que se energizou. Baixou a arma contra Jessie, mas Zoe viera num salto protegendo a amiga com o ferrão de arraia colidindo com os dentes da espada e dispersando raios.

— Vou te ensinar a nunca mais machucar meus amigos! — disse Zoe impondo força bruta ao erguer o ferrão contra a espada, o empurrando. A Ranger Rosa dera um chute no tórax do caçador, o repelindo para um pouco longe.

— Ótimo, Zoe, mandou super bem! — disse Jessie tocando os ombros dela.

— Minha caçada não terminou aqui! — disse Killvox que fugira em teleporte.

— Mas é um covarde mesmo. — disse Austin — Zoe, por que demorou?

— A Aracna apareceu puxando briga e não tive escolha. Gente, onde tá aquele monstro? Por um momento achei que fosse ele o Killvox.

Os Rangers silenciaram, entristecidos.

— Não, Zoe, ele... Ele, na verdade, era o Prys. — disse Jessie.

— O quê? — falou Zoe reagindo com abalo. Prys voltara correndo na forma humana — Prys! — o abraçou agachada.

— Me desculpem... Eu juro que quando viro aquela coisa não é quem eu sou de verdade!

— Nós sabemos, Prys. — disse Zoe o acariciando — Tá tudo bem... Vai ficar tudo bem.

***

Na manhã seguinte de sábado, os Rangers foram cooptados pela prefeitura a participarem da feira de cidadania na qual foram dispostos trailers para emissões de documentos, bem como consultas médicas gratuitas e shows de animadores infantis com brincadeiras diversas. Os heróis entregavam panfletos em vários pontos da área do evento situado na vasta praça do centro da cidade. Prys também viera com Zoe, tendo ganhado sapatos novos que ela mesma comprou.

O garoto estava numa mesa com quatro assentos desenhando com outras crianças — logicamente usando a bandana vermelho que escondia o orb. Zoe se reuniu com os amigos antes da próxima rodada de panfletagem.

— Meu coração não para de se derreter em ver isso. — disse a Ranger Rosa observando Prys se entretendo — Acho que ele até fez amigos novos ali.

— Eu não duvido, Zoe. — disse Austin contente pelo menino — Se tirarmos o Killvox do jogo, o Prys terá uma ótima vida se adaptando até encontrar um lar definitivo.

Prys veio até eles com um sorriso de orelha a orelha trazendo uma folha rabiscada.

— Zoe, olha o desenho que eu fiz agorinha! — disse ele mostrando sua arte aos Rangers. A Ranger Rosa pegou o papel e os demais conferiram — Gostaram?

— Se gostamos? Nós amamos, Prys. — disse Zoe admirada assim como os demais com o talento do garoto. A arte exibia os Rangers morfados com Zoe no centro colocando ele sobre suas costas e nuca.

— Você tem um dote artístico notório. — elogiou Damian.

— Tá lindo, Prys. Você é um amor. — disse Jessie que dera um beijinho na testa dele coberta por uma bandana vermelha para ocultar o orb.

— Guarda pra colar na parede do seu quarto. — sugeriu Austin.

— Só acho que devia ter me deixado um pouco mais alto. — disse Tim. Os outros o zoaram pela crítica com vaias e risadas — Calma gente, eu achei o desenho irado, mas só mudaria isso aí.

Na nave de Lokknon, permeava um clima de estranhamento e desconfiança gerado por Killvox.

— O que o faz pensar que vou engana-lo de um modo tão rasteiro? — indagava Lokknon.

— Você não especificou o valor desta nave. — disse Killvox — Exijo saber antes de voltar pra esse planeta tedioso e tentar novamente.

— Ela vale... — disse Lokknon se aproximando bastante dele até ficar a centímetros de distância — ... exatos 30 bilhões de cosmus. Você estará feito pelo resto de sua miserável vida se vendê-la por esse mesmo preço.

— E quanto a você? Vai subjugar os terráqueos no alto do vácuo do espaço?

— Meus pais tinham uma extensa frota de naves. Só preciso retornar ao meu planeta de origem e me apropriar de uma nova, está tudo lá. — esclareceu Lokknon voltando ao trono — Se quiser capturar o garoto hoje, terá que confrontar seu orgulho.

— Não faça rodeios. Como espera que eu cumpra minha missão sem falhas?

Aracna se aproximou suavemente dele, encostando.

— Aceitando uma ajudinha. Adivinha de quem.

— Estou pagando pelos meus pecados... — lamentou Killvox pondo a mão na cabeça.

Na feira, Prys seguia um gatinho querendo pega-lo para adotar. Porém, sua atenção foi chamada por alguém entre arbustos na floresta do parque ecológico. Ele olhou de testa franzida para a mulher de óculos escuros e roupas elegantes.

— Iuhuuu! Vem aqui, garotinho. Sou uma mulher podre de rica que quer te dar um presentinho.

— Quem é você? — perguntou andando até ela.

A mulher não passava de Aracna disfarçada, o chamando com vigoroso gesto de mão.

— O que você quer me dar?

— Pegue minha mão e descobrirá rapidinho.

O garoto pensou um pouquinho, deixando-se influenciar pela cortesia e fino trato da mulher. Deu sua mão direita à dela e entrou no arbusto. Porém, do outro lado, tivera sua boca tapada enquanto era carregado por ela, sua voz abafada tentando gritar por socorro.

Após se distanciar seguramente, o jogou diante de Killvox que atirou sua rede de captura.

— Ei, me tirem daqui! Você me enganou!

— Ah, jura? — disse Aracna que se desfez do disfarce não passando de projeções — Pelo visto, os pais de Cromathos nunca diziam pros filhos não confiarem em estranhos. Hahahaha.

— Você vem comigo. — disse Killvox pegando-o como um objeto — Eu não vou agradecer por algo que eu poderia facilmente ter feito sozinho.

— OK, OK, nada de discussão. Vamos logo arrastar esse moleque daqui. — disse Aracna que se teletransportou com o caçador. De volta a nave, Killvox prendera Prys pelos pulsos e pernas na cadeira de tortura de Lokknon.

— Que comece a extração. — disse Killvox com o instrumento em mãos.

Mudok veio de sua sala para reportar algo.

— Mestre, me dê um minuto de sua atenção, por favor. Tenho algo urgente a informar.

— Agora não, Mudok! Estou prestes a me enriquecer de uma fonte de poder inestimável. — retrucou Lokknon, ansioso.

— É acerca disso que quero falar...

Prys se movia agitado, mas de repente sua fala ficou estranhamente repetitiva e enrolada.

— Não vai... Não vai... Não vai... pegar minha joia... pe-pe-pegar... mi-minha joia...

— Tem alguma coisa errada... — suspeitou Aracna — Parece até um robô defeituoso.

Logo, a figura de Prys se revelou um holograma que estava instável e tremido. O clone desapareceu por completo.

— Não! Nãããooo! — dizia Killvox, furioso — E quando achei que estava tão perto... Aqueles Rangers se verão com a minha espada!

Killvox se teleportou retornando à Terra. Lokknon se deixou largar no trono, abismado.

— Fui tapeado por aqueles pirralhos coloridos. Mas admito que foi um excelente estratagema contra Killvox.

— Mestre, me dê atenção, por favor. — insistiu Mudok.

— Mas o que é que você tem de tão alarmante pra me contar, Mudok? Estou com dor de cabeça, quero meu remédio!

— E vai precisar muito dele porque... eu acabei de conferir o valor de mercado do orb cromatoniano.

Enquanto isso, Zoe mandava o real Prys sair de baixo de uma mesa coberta.

— Vem, Prys, pode sair. O perigo passou.

O garoto saíra, sorrindo para a amiga. Os demais vieram até eles, batendo suas mãos em celebração pelo sucesso do plano.

— O otário do Killvox deve ter ficado com uma cara de tacho! — disse Tim rindo à beça.

— Com certeza, haha! — disse Austin — Se não fosse pelo Sr. Dickerson e seu cérebro genial, aquele maluco teria saído do planeta feliz da vida. Acabamos com a festa dele, galera.

— Fora esses tampões que a Karen emprestou. — disse Zoe — Prys, agora vamos ficar juntinhos de você até o final da feira.

Voltando a Terra, Killvox preparou o sonar, oculto entre arbustos vendo a multidão.

— É um lugar e circunstância adequados para estimular um ataque da fera. — disse o mercenário girando o botão do emissor até o grau máximo.

Prys estava diante de um papagaio num estande de animais quando Zoe virou-se e o viu sem os tampões.

— Prys, vem aqui! — disse ela o puxando pelo braço — Não devia ter saído de perto e nem tirado os tampões!

— Mas aquele animal fala e não dá pra ouvir com essas coisas.

— Mas é pro seu próprio bem que fique usando.

— Assim não dá pra se divertir! — reclamou ele jogando no chão os tampões e fora andando — Quero ir pra casa.

De repente, o som agudo voltou a atravessar os ouvidos do garoto que travou com expressão assustada. Gritou para cima se ajoelhando pela dor que o orb causava durante a transformação. A joia brilhava vermelho com a aura negra.

Os Rangers correram alarmados.

— O que tá havendo com ele? — perguntou Austin.

— Vejam, o orb está brilhando! — apontou Damian.

— É a transformação! — disse Zoe, chocada — Ele tá ouvindo o som horrível!

— O Killvox tá por aqui! Mas o Prys não estava com os tampões? — disse Austin.

— Ele tirou... — disse Zoe que apanhou os tampões — Ainda posso salva-lo! — mas Jessie a parou — Me larga, tenho que impedir!

— Talvez seja tarde demais. — disse a Ranger Amarela, o semblante de lamentação.

Um bom número de pessoas cercou Prys crendo à primeira vista que ele estaria passando mal, porém logo se deram conta da metamorfose e se dispersaram apavorados. O garoto retornava à aparência da criatura monstruosa, quebrando mesas e estandes.

— Aqui, pessoal, vem! — chamou Austin. Os Rangers ficaram escondidos atrás de um trailer — Vamos fazer com que o Killvox nunca mais pise na Terra. — sacaram as células e morfadores — Prontos? É hora de morfar!

Killvox caminhava rumo à Prys em meio ao alarido e vozerio, vários papéis e copos descartáveis voando no chão com o vento. O caçador retirou sua pistola de laser e mirou no descontrolado monstro que destroçava uma escultura de isopor grunhindo alto e selvagem.

Mas os Rangers saltaram e imediatamente bloquearam o trajeto do caçador.

— Os Power Rangers não deixarão um garoto inocente ser sequestrado! Desista, Killvox! — bradou Austin.

— A essa altura eu apenas me importo em levar o orb! Se não vão sair, eu os atravesso! — disse ele sacando sua espada e avançando. Os heróis o fizeram também, logo atacando-o com chutes e socos em simultâneo com esquivas dos golpes da espada ameaçadora — Eu não sou como Lokknon que perde pra meras crianças! — desferiu um chute forte em Tim que o lançou contra barris de lata e um corte da espada em Jessie e Damian os derrubando de uma só vez.

— Ele disse Lokknon!? — surpreendeu-se Austin.

— Ferrão de Arraia! — disse Zoe que foi atacando num duelo feroz. As armas colidiram e Killvox as fez baixarem faiscantes até o chão. Zoe tentava resistir à força descomunal do caçador. Killvox subitamente ergueu sua lâmina com a dela e a cortou com a espada, por fim chutando-a no peito fortemente.

— Zoe! — disse Austin — Detonador Max! — invocou a pistola vermelha e disparou várias vezes. Killvox saltou escapando das explosões de faíscas, ultrapassando os heróis para correr até Prys.

O mercenário atirou com sua pistola no monstro que sentia os disparos explodirem no corpo. Porém, a criatura se reorientou e cuspiu uma gosma verde que prendera os braços de Killvox e o derrubou.

— Criatura desprezível! — xingou tentando arduamente se libertar, mas sua força era inútil — Que resistente...

Os Rangers se aproximaram e foram rapidamente atacados por Prys que os derrubava fácil com sua fúria desmedida. Contudo, hesitou diante de Zoe.

— Prys, calma, sou eu! A Zoe... Sua irmãzinha, lembra?

O monstro baixou a mão gradualmente, aparentando acalmar-se.

— Pode não ver meu rosto... mas sei que minha voz reconhece! — disse a Ranger Rosa, emotiva.

A fera de olhos quase saltando fora das órbitas parecia mais dócil. Zoe iria toca-lo carinhosamente.

— Não tenha medo, não vou te machucar.

— Inacreditável. Como ela o domesticou? — questionava Killvox que acionou um dispositivo de laser no bracelete para romper a gosma.

A voz de Prys fora ouvida. O garoto recompôs sua racionalidade, ao menos por um tempo.

— Zoe, você precisa tocar no meu orb pra que eu volte ao normal!

Os Rangers reagiram com esperança.

— Nossa, ele tá falando!? — disse Tim — A Zoe fez ele ter controle do próprio corpo!

— Ele recobrou a razão pela conexão com ela. — afirmou Damian.

Porém, antes que Zoe tocasse os dedos no orb, um disparo de laser atingiu em cheio a pedra explodindo faíscas e afastando a Ranger. Pedaços queimados do orb caíam ao chão.

— Não! — disse Zoe com abalo — Quem fez isso?

— Eu! — dissera Mudok a alguns metros com uma pistola — Killvox, tenho uma péssima notícia!

— Desgraçado! Vocês me traíram! Eu deveria ter pensado mil vezes antes de aceitar o maldito trato!

— Então ele tava mesmo trabalhando com o Lokknon. — disse Austin.

— Se o orb tivesse sido removido enquanto ele estivesse na forma original, a maldição seria quebrada! — esclareceu o caçador.

— Killvox, me escute! — pediu Mudok — A pedra não possui nenhum valor, eu verifiquei na tabela pelo meu computador! As joias dos cromatonianos é contrabandeada para servir de ornamento em palácios! Era pra esse fim que seu contratante queria provavelmente!

— Mas... não pode ser! Aquele miserável só queria mesmo enfeitar seu trono...

— Zoe, eu não quero viver nesse corpo pra sempre! — dizia Prys em tom choroso — Não quero que me veja desse jeito!

— Prys, nós acharemos um meio...

— Não existe nada que me salve! — disse Prys cuja fúria animal ameaçava reassumir o controle — Depressa, você tem que me cortar! Eu não vou continuar resistindo...

— A selvageria dele está prestes a domina-lo novamente e em definitivo! — avisou Killvox — Eu faria o que ele pede.

— Você sim, mas eu não! — redarguiu ela, brava. Os Rangers vinham apoia-la naquela difícil hora — Não vou desistir de você, Prys... — caiu em choro.

— Zoe, como sua amiga, te digo pra atender esse pedido. — disse Jessie, comovida — Não tem saída. Acaba logo com o sofrimento dele.

— O Killvox dessa vez pode estar certo. — disse Damian — Se o Prys sucumbir a fúria, talvez nada o traga de volta... nem mesmo você.

— Você é forte, Zoe. — disse Austin — Mais do que pode imaginar.

— Estamos do seu lado pro que der e vier. — disse Tim.

Zoe cerrou o punho direito, a cabeça baixa.

— Você cuidou tão bem de mim, eu não mereço o que fez... e nem o que Hoddrus fez.

— Mereceu sim, Prys. Aprendi muito com você nesse tempo que passamos como irmãos. Mas já que não há opção... — disse Zoe que dera um grito ao saltar e baixar o ferrão de arraia sobre Prys num corte vertical de luz rosa, brutal e fatal.

O monstro cambaleou para trás envolto de raios rosa. Seu corpo foi se esfarelando em pó a partir dos pés.

— Se eu encontrar o Hoddrus... vou contar pra ele do quanto nos divertimos juntos. Adeus, Zoe. Eu te amo... — disse Prys que logo se fora, suas cinzas levadas pela brisa.

Killvox enfim soltara-se e digitou um código no bracelete chamando por sua nave que aterrissou.

— Mas que perda de tempo. — disse ao correr e adentrar nela, logo partindo ao espaço. Mudok se teletransportou de volta à nave de Lokknon sem nenhum remorso.

Zoe, amparada por Jessie e os garotos, ajoelhou-se devastada e chorando. A bandana de Prys veio arrastada com vento e a pegou.

— Prys, onde quer que esteja, não esqueça de mim. — disse apertando a bandana e olhando para o céu azul lembrando do melhor irmão mais novo que nunca tivera.

***

Na manhã de domingo, Zoe estava no quintal de sua casa terminando o túmulo em homenagem a Prys.

— Filha, visitas. — disse a mãe dela trazendo os Rangers. Jessie trouxe flores para o memorial.

— Gente, vocês vieram mesmo.

— Não íamos deixar você se despedir sozinha do Prys. — disse Austin.

— Precisa da nossa amizade pra te fazer se sentir bem. — disse Tim.

— Eu já havia me despedido naquela hora, mas... a dor não foi embora.

— É por isso que se dá o último adeus no funeral. — destacou Jessie compadecida da amiga. Deixou às flores sob a cruz de madeira com o nome de Prys talhado — Acho que fica mais fácil de aceitar com o tempo.

— É até estranho... Só o conheci por pouco mais de um dia, mas sinto como se tivesse perdido alguém familiar de muitos anos. Dói tanto. Ele era só um menino.

— Creio que o encontro de vocês foi escrito pelo destino. — disse Damian a abraçando de lado — Como irmãos de alma.

— Que nem nós cinco. — disse Jessie a abraçando do outro lado e inclinando sua cabeça ao ombro dela. Zoe emocionara-se com um sorriso triste, os olhos lacrimejando ao fitar a bandana de Prys amarrada no túmulo.

O desenho de Prys tinha sido pregado na parede do quarto de Zoe com o nome dele assinado.

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