Pow!

1 Capítulo 1: Vou te Surrar


Gabriel era mais um garoto comum, de dezessete anos, que frequentava o ensino médio: cabelos negros e lisos, cortados na forma de uma bacia; altura média e magro, muito magro; vestia roupas largas, desproporcionais para seu corpo, e usava um óculos enorme, daqueles redondos, que pareciam ser feitos do fundo de uma garrafa de cerveja. Era o popular “nerd”, ignorado por praticamente todos do colégio. E logo também será ignorado por este narrador, uma vez que não é o protagonista desta história.

Um protagonista deve ser alto, forte e bonito, feito o Michael, que entrou nesta história quando passava pelo corredor do colégio, com vários outros alunos ao seu redor. De arrepiados cabelos louros, com um olhar invocado, e muito brigão, tinha a admiração (leia-se puxa-sacos) de praticamente todos. Naquela manhã de clima fresco de Fevereiro, aquele corredor, cheio de armários de metal colados as paredes, encontrava-se lotado de alunos, mas, claro, todos saíram da frente de Michael e de seu grupo, temendo levar uma surra. Gabriel não fez isso. Até que Gabriel faria, isso se não enxergasse tão mal.

– Sai da frente, seu merdinha! – resmungou Michael.

Não precisou muito esforço para arremessar o nerd ao chão, apenas num simples empurrão em seu ombro. Michael não participava de nenhum clube de luta oficial, mas lutava. Era um lutador de rua e tinha até uma gangue (aqueles ao seu redor); Gabriel por sua vez era o mestre dos combates em arena e de briga de rua – no vídeo game. Com esta imensa diferença, o nerd sentiu muita dor na queda, além de derrubar sobre si a pilha de pesados livros de matemática que carregava.

Apesar disso, o menino não chorou, embora se segurasse ao máximo para não fazê-lo. Não por causa da dor, mas sim em razão da humilhação. A turminha de Michael passou ao seu lado encarando-o e gargalhando. O viam como um lixo. Um dos únicos que pensava de forma diferente era Kevin, aquele que vivia concentrado em seu videogame portátil, que logo naquele momento vinha caminhando sem prestar atenção. Tropeçou em Gabriel e caiu por cima dele, e isso sim fez o garoto chorar, de dor: Kevin era baixo, mas gordo, muito gordo; e seus cabelos eram... Eram... Castanhos! Tão bagunçados que não dava sequer para descrevê-los. Eram curtos, no entanto.

Ninguém riu desta vez, já que estavam focados demais em observar Michael, agora bem mais a frente, de mãos dadas com Anna, sua namorada, lembrada por todos apenas como “A Gostosa”: tinha a altura ideal para uma mulher, magra e com curvas de virar a cabeça de qualquer garoto; seus cabelos eram louros, compridos e lisos. Era daquele tipo de aluna que usava uma saia bem curta, deixando suas coxas brancas à mostra.

Do outro lado de onde a dupla nerd se encontrava, Beatriz jazia encostada no armário, de braços cruzados. Era do tipo de garota que ninguém prestava atenção, nem para fazer amizade nem para zoar. Também, vestia roupas bem diferente dos padrões das outras garotas dali: calça negra e camisa branca do colégio. Era branca, o oposto de seus longos e lisos cabelos, negros como as sombras. Seria bonita, isso se não fossem os seus olhos também escuros, grandes, mas cheios de olheiras – dormia pouco, vivia acordada até de madrugada lendo livros de fantasia. Ela lembrava um zumbi quando encarada de perto.

– Idiotas! – murmurou.

Via Gabriel e Kevin como idiotas. Não por serem desajeitados ou nerds, mas sim pelo fato de serem humilhados em publico e sequer reagir, diferente dela, que já frequentava seu terceiro colégio só no ensino médio – fora expulsa das outras duas por causa a brigas.

Porém, deixemos estes de lado e voltemos ao personagem principal desta história. Michael era convencido e se achava o dono do mundo, não dava a mínima para ninguém, exceto sua namorada. Ele era apaixonado por ela (e quem não era?). Jamais admitiria perdê-la, mas, para sua infelicidade, isso aconteceu naquele mesmo dia, ali mesmo.

– Hã? Quem é você? – disse sério, franzino a testa.

Um rapaz careca, alto e musculoso, aparecera em sua frente. Junto a ele, outros dois, com o físico bem parecido, porém, ambos negros, um de black power e o outro também careca.

– Ele e os outros dois são os alunos novos. Foram transferidos ontem. – Anna cochichou em seu ouvido, fazendo o trabalho deste narrador de apresentar os personagens.

– Ah, novatos. – Michael suspirou, assumindo o semblante de desdém. – Pelo visto não conhecem as “regras” daqui. Vejam bem...

– Escute aqui! – respondeu o careca.

Aquilo realmente surpreendeu todos ao redor do louro. Nunca ninguém o havia interrompido, nem mesmo Anna.

– Quem você pensa que é para...

– Sou Cristian, e estou formando uma gangue.

Outra vez. O rapaz já se encontrava vermelho e inchado como um sapo, de raiva.

– Gangue? – Franziu a sobrancelha.

– Isso aí! – respondeu Cristian. – Quero ter uma turminha para botar moral neste colégio. Fiquei sabendo que você era o maioral aqui. Então vim chamá-lo para ser meu “amigo”. E aí?

Com exceção do trio novato, todos caíram na gargalhada, ridicularizando os rapazes.

– Ai, ai. – Michael respirou fundo. – Bom, sai da minha frente agora se não quiser levar uma surra, ô, carequinha!

– Hum. – Murmurou Cristian. – Já que você não quer se aliar a mim, vou esmurrá-lo e ficar com os seus amigos.

– Tá certo! – O louro sorriu, empolgado.

No mesmo instante todos se afastaram, deixando o espaço livre para ele e para o careca. Michael, que usava uma jaqueta preta, de couro, por cima da camisa do colégio, a retirou e a jogou nas mãos de Anna. Já o outro se manteve da mesma forma, com o seu uniforme escolar completo (camisa branca e calça negra), assim como os demais – com a diferença que as suas eram agarradas ao seu corpo.

Em vez do popular grito escolar de “briga, briga, briga” o som ouvido fora de “Michael, Michael, Michael”. Tinham certeza de que o louro venceria. Ele era o melhor, já havia batido em todos os valentões que apareceram naqueles quase três anos de ensino médio.

Ele era realmente habilidoso, já calculara exatamente em que ponto acertaria o oponente, e por ser rápido, não pensou duas vezes em mover-se em sua direção, usando sua ginga para poder se esquivar de uma possível tentativa de golpe por parte de Cristian. Ela não veio, o careca fora esperto, e quanto Michael acreditou que lhe acertaria um pontapé na altura da cintura, do lado direito, o rapaz foi veloz e socou a sua canela com a canhota.

O seu berro de dor fora ouvido por todo o corredor. Até Beatriz, que ajudava Gabriel e Kevin a se levantar, levou um susto. Ouvir aquilo foi um baque para todos, ainda mais ver o valentão da escola caído no chão, rolando para os lados, revelando o tamanho de sua dor.

– Vai Michael, se levanta! – disse Anna, ainda arrepiada.

– Para de brincar, Michael! – ordenou um de seus amigos.

– E-eu... Não consigo! – respondeu.

Tinha dificuldade até para falar. Só conseguia mesmo rolar segurando sua perna ferida.

– Michael... Perdeu! – gritaram.

– Em um só golpe! – um rapaz completou.

– Ainda não acabou... – disse Cristian.

Agachou-se ao lado do rapaz machucado e o agarrou pelos cabelos, no rumo da nuca. Virou sua cabeça, apontando seu rosto para a direção do chão, e o bateu. O bateu contra o chão não só uma, nem duas, tampouco três, mas sim quatro vezes. Pancadas fortes que fizeram o sangue de Michael encharcar o piso branco. Seu rosto ficou horrível, digno das mais belas maquiagens de filmes de terror.

Depois dos ataques, Cristian se ergueu e voltou para o lado de seus companheiros. Ninguém ousou se aproximar de Michael.

– Bom, está acabado. – disse o careca. – Agora me digam: quem de vocês quer vir para o meu lado? E quais querem continuar com esse louro e brigar comigo?

Todos engoliram seco no primeiro momento, todavia, ninguém além de Anna ousou ficar daquele lado. Migraram todos, posicionado-se atrás de Cristian e de seus amigos negros.

– Você pode ficar com ele, guria. – disse Cristian a Anna. – Eu não bato em mulheres.

Sofrendo de dor, ainda assim Michael observava com atenção, mesmo que com apenas um olho (o outro não podia nem ser aberto), e lá do chão sofreu o pior dos golpes.

– Ficar com ele? Você é bobo? – ela resmungou.

E antes que ele pudesse responder, Anna tacou-lhe um beijo na boca. Aquilo não impressionou ninguém que a conhecia realmente, apenas Michael, que viu as lágrimas de humilhação escorrerem por sua face acabada.

– Eu vou com você! – disse ela, abraçando-o de lado, não sem antes atirar a jaqueta no chão, como se tivesse nojo de um dia tê-la segurado.

Depois, saíram caminhando, deixando o ferido para trás, sozinho. Ninguém ousou ajudá-lo, ninguém se humilharia a tanto depois de tudo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.