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8 Capítulo 7 - Encoxadas do destino


Notas iniciais
Capítulo dedicado à Leithold (Mi), que me fez essa capa linda, e me animou muito. Agradeço os comentários. Fico feliz por terem gostado tanto do capítulo anterior, e espero que esse as agrade também. Boa leitura!

Melanie PDV

Observando um Dobrev irritado, eu era capaz de compreender bem o significado dos questionáveis números 13 repetidos que estampavam a porta daquele quarto: Azar em dobro.

O Samuel fora extremamente gentil e legal comigo. Só havia um quarto livre, e ele me colocou nesse quarto. Conversamos um pouco, e ele contou-me que era amigo de longa data de meu pai, e que aquilo era um prazer. Só que não era qualquer quarto, era a suíte imperial. Achei uma loucura, mas ele disse que isso não traria nenhum prejuízo. Fiquei receosa ainda assim, mas ele afirmou que há tempos ninguém se hospedava ali, e era o único. Eu me sentia num filme da Disney, brincando com as bolhas e relaxando. Mas como qualquer sinônimo de felicidade na minha vida atrai azar, e sinônimo de azar atrai mais ainda, o Arthur havia se registrado no quarto. Eu estava vivendo mais um sonho de uma fã, mas o destino esqueceu-se que eu não queria. Como não havia me traumatizado o suficiente, o destino colocou o Dobrev, me encoxando, achando que eu era uma prostituta. É isso o que o destino faz com você: coloca os seus traumas para te encoxarem, faz você se sentir uma prostituta, e nem te paga.

Eu não estava pronta para essa maldita surpresa. Mas o que mais me surpreendia agora, era eu mesma. Claro que no início eu tomei um grande susto, mas as palavras que eu professava pós-susto não condiziam em nada com as que eu dizia há um tempo atrás. Eu ainda podia sentir a descarga elétrica do choque no meu corpo mesmo dando respostas indiferentes. Durante os primeiros minutos, ele foi extremamente arrogante, e eu extremamente despreocupada, o que parecia o irritar mais. Seus insultos eram tão repetitivos, que algumas vezes me deixavam entediada. E, quando ele prometeu que me faria sair daquele quarto, eu aceitei aquele desafio, como um bom humorista aceita uma boa piada. Porque estava sendo como se ele atirasse balas a todo instante, eu as visse atravessar meu corpo, como num filme de ação, e continuar andando, atirando também.

Depois de me encarar com raiva e repulsa, como se isso fosse mudar algo, ele resolveu ir para o banheiro, tomar um banho. Até que fim, porque a sua apelação estava no ápice. Me estiquei na cama, desfrutando de toda aquela maciez desconhecida por mim. Parecia que ela era feita de travesseiros de penas, e ao mesmo tempo era firme, elegante e moderna. Era maior que a minha. E eu me questionava o porquê de uma cama assim tão grande. Afinal, gente rica dorme certinho, e acorda no mesmo lugar. E o tamanho daquela cama parecia ter sido moldada para um cafetão. Mas enfim. Mal podia contar a quantidade de almofadas douradas que ela tinha. Observei controles, na mesinha ao pé da cama, e me estiquei pegando todos. O primeiro era bem pequeno, o que será que ele fazia? Apertei-o, e as luzes do quarto se apagaram, e apenas um abajur divino que estava do meu lado acendeu. Uau. Até aquele abajur era fino. Parecia ter cristais pendurados, refletindo a sua luz suave que dava até sono. Apertei o controle de tamanho médio, e vi as cortinas douradas, do lado esquerdo do quarto se abrirem. Levantei-me, curiosa com a vista. Era umas das vistas mais bonitas que eu já vi na vida. O natural se misturava com o antrópico numa harmonia invejável. Os prédios, menores que estes, munidos de luzes, encantavam os meus olhos. As arvores, se encontravam dispersas, e também juntas, ao longe. Eu achei linda aquelas arvores roxas. Estavam perto do que parecia um lago cristalino. No céu, eu podia enxergar muitas estrelas, mesmo com toda essa iluminação. Estar aqui encima, era de se tirar o fôlego. Entendi porque pessoas se suicidam pulando de prédios: é uma boa vista a se ver pela última vez.

–Está encantada com isso? – uma voz irônica perguntou, me tirando dos meus devaneios. Vinha detrás de mim, arrogante e detestável. Ignorei. – Isso é tão comum. Francamente, em que mundo você vive?

–Em um mundo que damos valor às pequenas coisas da vida. – falei, ainda observando o local. Ele bufou.

–Eu achava que o inferno era um lugar, até te conhecer. – ele disse, e virei para encará-lo. Trajava também um roupão, que lhe dava um ar elegante. Seu cabelo loiro escuro estava encharcado, e ele o mexia com a palma da mão, espalhando algumas gotas em mim. Por um momento questionei porque a aparência não refletia as pessoas por dentro. Mas cheguei à conclusão de que não existia nada tão feio para o ilustrar, então parei de observá-lo, e corri até a cama, me jogando, e quicando um pouco ao tocar o colchão.

–O que pensa que está fazendo? – perguntou, mal humorado. O entreolhei. Ele, com aquele intensidade, misturado à luz suave do quarto, eram uma combinação agridoce. Mas eu não ligava.

–Vou me preparar para dormir. – disse, bocejando. – Acordei bem cedo hoje, para dirigir por horas até aqui, e esperar por horas pra conhecer você. Enquanto durmo, esqueço o quanto fui burra.

–Mas quem disse que a cama é sua? – ele questionou, zombeteiro, eu apenas zombei junto.

–Francamente, Dobrev. Não espero cavalheirismo de você. – eu disse, me alongando na cama. – Mas eu cheguei primeiro.

–As coisas não funcionam por ordem de chegada. Saia da minha cama. – ele me ordenou de braços cruzados, e eu neguei com a cabeça.

–Quem disse isso? Um homem que considera o mundo um parque? – caprichei na ironia, enquanto dava o sorriso mais antipático que consegui.

Assisti ele vim até a mim, sua mão firme agarrou uma das minhas pernas. Rapidamente, segurei na cabeceira da cama firmemente com as duas mãos, enquanto ele me puxava com força, sem se preocupar com o quanto aquilo doía.

–Maldita. – ele balbuciou, largando a minha perna.

Previ que ele viria soltar os meus braços, e me muni com uma almofada, jogando na sua cara quando estava muito perto. Ele me olhou incrédulo com tamanha a infantilidade, e logo depois pareceu ficar mais bravo ainda. O que custava me deixar dormir na cama?

Foi então que o que eu não esperava aconteceu, ele pegou a almofada e jogou novamente na minha cara. Desta vez, eu era a incrédula com tamanha infantilidade vinda de um homem daquele tamanho. Apesar dele ser forte, não doeu muito. Mas tive que retrucar. E então eu estava tendo, mais uma vez, um dos episódios que eu queria na vida; uma guerra de travesseiros. Novamente o destino me encoxava. Quando recebeu uma almofada bem forte na sua cara, quase amassando a perfeição do seu nariz, o manequim se preocupou com a aparência e parou o joguinho. Me puxou da cama com força, me apertando contra o seu corpo com tanta força que podia sentir seus músculos embaixo do roupão, e não conseguia sair. Tudo acontecia como eu sonhava, só que do jeito errado. Me colocou no chão, e foi pra cama, sentando em seu meio. Egoísta.

Ia desistir, mas o seu olhar dizia: “ganhei, sou superior”, e a isso não pude resistir. Levantei, dando distância e me jogando na cama, no resto que sobrava, não suportando o seu joguinho.

–Vão pensar que nós estamos transando, sua lunática. – ele reclamou.

–Foda-se. – resmunguei, deitando de bruços, sentindo o seu olhar de fúria em mim.

–Foda-se você, pirralha. – ele rosnou do meu lado. Pela primeira vez não disse um “não acredito que falou assim comigo”.

Ficamos calados, por um tempo. Ambos cansados daquela briga infantil que tivemos para sermos donos de uma cama por uma noite, e no final, os dois estavam nela. Era idiotice alguém como ele deitar-se ao lado de alguém como eu só por teimosia e capricho. Mas estávamos afastados o bastante, porém, ambos parecíamos incomodados visivelmente, por mais que disfarçássemos. Respirei fundo, tentando me concentrar. Só consegui me sentir em posição de dormir, quando fiquei toda largada na cama. Ouvi sua respiração forte do meu lado, e ignorei. Quando ia fechar os meus olhos, me assustei com a televisão enorme à nossa frente sendo ligada. Observei incrédula ele passeando pelos canais, até encontrar um canal de futebol. Ri, sem humor. Ele queria me provocar. O que ele não sabia, é que eu não odeio futebol. Como o nome mesmo diz, é fútilbol. Porém, eu assistia para zuar os jogadores. Meu pai odiava quando eu fazia isso. Mas essa era a única forma de me entreter vendo aquela porcaria. Ele aumentou o volume, a fim de que assim eu despertasse algum comportamento.

–Seria interessante se eles desprezassem o atrito com o vento quando se achassem no direito de pedir falta. – observei, vendo o jogador choramingar para o juiz asiático – Esse juiz tem cara de que sabe física. Foi visível que ele tropeçou no jogador Ar. – falei, rindo, o Dobrev estava apenas de braços cruzados, me ignorando.

–Olha, acho que esse goleiro sonha, um dia, ser jogador. Desse jeito, ele vai acabar tomando cartão vermelho. Tudo bem que o ataque do outro time é bosta, mas agir como um fanfarrão tem suas consequências. – disse, mais uma vez – Já não basta esta chuteira fluorescente deles que dói no cérebro?

–Dá pra calar a porra dessa boca? – ele perguntou. Gentil.

–Não, Tutuzinho. – chamei-o assim, sem querer.

Ele olhou para mim, sua face máscula parecia queimar. Sua mão direita segurou meu rosto com força entre os dedos.

–Eu não me importo que seja uma garota. Se disser mais uma palavra, eu vou esquecer completamente que é uma. Está me ouvindo? – ele rosnou, senti até um pingo de cuspe na minha face. Sorri tranquilamente. Eu me diverti com a ideia de que meu apelido o irritava, porque, de início, ele foi o mais carinhoso que encontrei, e agora ele era munição.

–Me desconsiderar uma mulher, significa que está deitado ao lado de um homem? – me atrevi a perguntar. Ele fez menção de que iria me bater, em seguida desligou a televisão, e saiu do quarto, a passos arrogantes, indo para outro cômodo. Nem deu tempo de agradecer.

Arthur PDV

Peguei uma garrafa de vinho, decidido a bebê-la de gute-gute. Eu precisava de grandes porres para aguentar aquela pirralha. Além de ser a primeira garota que deito ao lado sem fazer nada, era a que tinha o perfeito dom de me irritar, e me fazer sentir repulsa do que era a cada segundo. Eu precisava de algo para aliviar a tensão, e com a pirralha aqui dentro, eu não podia fazer nenhuma ligação para chamar alguém. Então, tudo o que me restava, era a curva da garrafa de bebida que agora eu tinha em mãos. Bebi vários goles seguidos, de forma que aquilo queimou minha garganta. Sentei na poltrona, brincando com a taça de cristal, com detalhes em ouro. O líquido dançava na taça, visivelmente homogêneo, mas quando eu o saboreava, sentia a heterogeneidade de seus sabores. De repente, olhos refletiram na minha taça. Observei olhos do típico tom de cocô me observarem, encostada na porta da sala de estar, ela apenas me fitava ao longe. Não trajava mais um roupão, e sim um vestido branco. Seu cabelo estava preso grosseiramente, e alguns fios escapavam para o seu rosto, que era uma mistura de sono e curiosidade. Arfei. Aquela garota não podia dormir simplesmente?

Foi então que ela veio até mim, os passos sutis faziam o mesmo barulho que faria se ela não estivesse tocando o chão. Sentou na poltrona que restava do meu lado. As suas pernas cruzadas... Pisquei, observando novamente a minha taça. O líquido já estava se esvaindo, e a dança estava chegando ao fim. Me questionei se estava um pouco cheia, ou simplesmente muito vazia. Meu ponto de vista de quem queria entornar tudo, considerou-a muito vazia, então, novamente, a completei.

–Poderia... Me dar um copo disso? – ela pediu, e eu ergui uma sobrancelha.

–Não. – sorri ironicamente.

–Mas eu tenho 19 anos. – ela protestou, parecendo uma criança querendo provar não ser mais criança.

–Não é por idade, o fator é que a bebida é minha. – falei, saboreando o cruzar de sabores escondido com a grande porcentagem de álcool. Eu não era alcoólatra, mas beber me causava prazer. Talvez por eu não lembrar de nada depois.

–Eu tive o meu pior dia, eu só queria... – ela falou, e eu a interrompi, prestando atenção apenas na bebida. Ela falou mais algumas palavras, que não dei atenção, ou me preocupei em compreender – Tutuzinho. – ela disse, e esse maldito apelido, me fez prestar atenção.

–O que você quer, pirralha? – perguntei, irritado. Beber era algo que limpava a minha irritação, mas com essa lunática do lado, sempre havia o efeito rebote.

–Não consigo mais dormir. Quero beber pra esquecer. – ela disse, suave, as palavras pareciam lutar entre si. Como ambas eram pesadas, desistiram, e terminaram numa luta de sumô, uma encima da outra.

Bufei, lhe dando uma dose, a que ela bebeu com gosto. Não parecia ter tanta suavidade agora. Deixei que ela se servisse, mas com o tempo, comecei a completar, porque ela terminava ao mesmo tempo que eu.

Seus olhos cor de mel me fitavam, doce como o vinho que agora saboreávamos. Observei-a de cima a baixo, até começar a sentir que ela era bonita. Aí parei, porque já estava num estágio extremamente perigoso. Mas aí esqueci disso e continuei bebendo.

–Sabe, Tutuzinho, aksoelajdpsdmv – ela disse, e eu caí na gargalhada, assentindo. Ela riu também, se mexendo tanto que quase derrubava o copo no chão.

–Batata... agora a piada é minha. Era uma vez, e... oisdvknsdmk – parei, caindo na gargalhada, e tive que recompor – Aí, oamcopn e opakdopsdjvc. – assisti ela quase rolar no chão de tanto rir – E eles amdmsdkfps.

–Você é um idiota. – ela disse, tropeçando nas palavras, e eu ri. Engraçadas. As duas soltaram seus cabelos longos lindos, os balançando. Uau, que sensual. Acho que meu membro saíria da minha calça só pra observar isso – Mas tá sendo legal.

–Vocês também são legais, se não tiverem registro na polícia. – eu ri, e o quarto do hotel pareceu rir também, porque ele estava rolando. A batata riu, entornando mais um copo. Ela era menos batata agora. Seus olhos cor de mel pareciam brilhar que nem uma estrela no céu. Uau. Ela colocou glitter. Que tipo de pessoa põe glitter nos olhos? Isso pode cegar. Observei que ela tinha uma boca rosa, que nem parecia ter sido advinda de sexo, e sim desenhada por um artista. Terminei mais um copo, ainda a fitando. Ela mordeu o lábio, sem perceber. – Quando eu estava escrevendo Povoando Estrelas, nunca imaginei que olhos podiam, de fato, brilhar como elas.

Ela me olhou, com a sobrancelha direita levantada. Não, eu não estava flertando, eu só... Nossa, que calor. Uh... as estrelas, cadê as estrelas? Merda de teto. Ué, quem bebeu meu vinho?

Melanie PDV

Acordei com um extremo enjôo misturado com dor de cabeça. A minha visão estava bem embaçada, e estava me sentindo mal fisicamente. Um mal-estar terrível. Era a minha primeira ressaca, e, bem... Eu não sabia como lidar com ela. Me virei, sentindo maciez. Não sabia como vim parar na cama, e não lembrava muita coisa da noite anterior, exceto o fato de pedir para o Dobrev um pouco de bebida, num momento de fraqueza. Pisquei várias vezes, querendo ver nitidamente as coisas ao redor. Tirei o lençol fino que me cobria calmamente, e meus olhos se arregalaram ao notar que, tudo que eu vestia era uma calcinha de renda e um sutiã. Dei um pulo na cama, amaldiçoando o mundo inteiro com meus xingamentos, enquanto piscava, desejando acordar de verdade, querendo que tudo aquilo fosse um sonho, uma ilusão. Foi aí que o vi sem camisa e de cueca.

–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Não, Melanie Laurence Campbell... Você não pode ter dormido com ele. Não pode.

Continua...

Notas finais
O.M.G O que o álcool não faz, não é mesmo? E o Arthur, como vai reagir à isso, sendo ele o deficiente de memória quando em estado alcoólico? Será que lembra de, pelo menos, começar a achar a Mel bonita depois de umas entornadas? O futuro não planejado é um estupro inconsciente do destino. Mas você gostar disso ou não, depende de você, de seus gostos, huahua. Ignorem essa frase escrota que acabei de inventar. Beijo.