Povoando Suas Páginas
15 Capítulo 14 - Pontos de vista
Notas iniciais
Melanie PDV
Estava boquiaberta com a cena que acabara de presenciar. Simplesmente haviam dado um tapa na cara de porcelana, e até mesmo ele parecia sem reação. Tudo bem, era apenas um tapa. Ele merecia uma voadora. – o que seria engraçado ver um gordo fazendo. Mas o fato não era apenas o tapa, – que já era muito para uma pessoa esnobe –, mas sim o fato de que não era eu quem havia batido nele, o que seria perfeitamente compreensível. Havia sido um ator da sua linhagem. Ou seja, até pessoas como ele achavam ele um completo imbecil. Me dar conta de tudo aquilo me deu uma imensa vontade de rir, por isso saí correndo do banheiro antes que meu riso explodisse. O que não foi muito inteligente, porque acabei rindo ao ponto de doer a barriga, e isso na frente das pessoas, e agora além de julgarem minha aparência, me julgavam louca. Sabe aquele tipo de pessoa que sentimos como se elas se incomodassem com a nossa felicidade? Era exatamente como me sentia em relação a ruiva de cabelo repicado, e o homem com traços japoneses me lançando aquele olhar que me fariam ter vontade de cavar um buraco no meio do restaurante mesmo, e me enterrar. Como dementadores sugando a minha felicidade. Queria voltar e ver o que o Dobrev ia fazer em relação àquilo. Principalmente quando vi um homem de 2 metros usando óculos escuros e terno preto – provavelmente um segurança –, adentrar o banheiro às pressas. Mas achei que naquele momento a coisa mais inteligente a se fazer era voltar à minha mesa, esperar o meu pedido, comer, e se der uma grande merda, pelo menos eu comi.
Me acomodei novamente em minha cadeira confortável. Nesse momento sentia até meu bumbum mais leve. Talvez isso fosse paz de espírito... Ter o bumbum mais leve? Também. Mas me refiro a uma vontade enorme de me engasgar de tanto rir de um filho da mãe, mostrando-lhe que para cada ato existe uma consequência. Que se ele não sente culpa por praticar atos ruins, que para cada tentativa de transa com uma mulher compromissada existe um belo tapa na cara de um gordo o esperando. Existe uma mão carnuda que em contato com sua cara te dirá sem precisar pronunciar: “Ei, você é um cretino!”. Ele provavelmente repetiu para si um “não doeu”, – assim como fazem as crianças orgulhosas na tentativa de se mostrarem fortes, mas tudo que conseguem é um tapa de maior intensidade – mas no fundo, mesmo que imperceptivelmente, sentiu algo. Ou não. Eu sabia que o Dobrev não parecia ter conserto. Mas provavelmente esta noite será minha última chance de vê-lo. Então acho que fiz com classe.
Alguns poucos minutos depois, observei o garçom caminhar em minha direção. Ele colocou o meu prato na mesa. E, devo admitir, era uma carne muito bonita, e parecia bem suculenta. Ao seu lado, um montinho de arroz decorado com uma folha. Algo que parecia uma espécie de salada também o acompanhava. Na outra mão trazia uma garrafa, provavelmente daquela coisa mais cara que o Dobrev pediu a fim de me aguentar, que nem me preocupei em tentar ver o nome porque não conseguiria decifrá-lo. Se eu soubesse que escutar música clássica me deixaria bonita, eu teria a ouvido desde sempre. Claro que se a minha sina não fosse virar um bife. Peguei o primeiro talher que se parecia com um garfo em meio a tantos, e o primeiro que se parecia com uma faca, e cortei a carne. Nada parecido com uma sola de sapatos, a carne foi cortada com uma facilidade absurda, mesmo sendo grossa. Peguei a parte que cortei usando o garfo, e levei à boca. Preciso dizer que orgasmo alimentício continua existindo na minha vida, e que ele não é possível de desfrutar apenas com doces. A sensação era que a carne derretia na boca. Era, de muito longe, a carne mais gostosa que já comi na vida.
–Foi divertidíssimo, pirralha. – ouvi a voz do Tutuzinho em plena ironia em plano de fundo, e foi como ser puxada pelo pé das nuvens. Mesmo assim, não o encarei. Era estranho que estivesse ali ainda. Que não tivesse dado um chilique e ido embora. Ele realmente queria que eu fizesse aquela declaração para a imprensa.
–Hm... Melanie. – eu disse, o corrigindo, e colocando mais um pedaço da carne na boca. Também desfiz o meu montinho de arroz com o garfo.
–Seu nome não me interessa. Quando acabar de comer, espero que coloque um ponto final nisso tudo. Já me basta de você. A bola de gordura saiu escoltada pela porta do fundo do restaurante, e fiz um enorme esforço pra não ser também. E agora te olhando comer uma carne de 350 como se fosse feita por deuses, também faço um enorme esforço para não me escoltarem por agressão. – ele disse, agressivo, mas ainda assim, contido. Aquilo deveria ser a carne mais cara do mundo...!
Resolvi, enfim, olhá-lo. O lado direito do rosto um tanto vermelho, cor que por si só, não me fazia ter nenhum resquício de pena. O maxilar travado... A mão correndo lentamente pela mesa até achar a taça com o seu líquido precioso a que tomou uma bela golada numa reversão da ressaca que deveria sentir de mim. Enquanto o líquido descia pela sua garganta, por um momento me encarou. Se os olhos são a janela da alma, os olhos azuis esverdeados tinham em contraponto uma alma escura. Eu sabia que sim. Mas os fitando não era o que eu via. Eu não sabia porque ele estava olhando para mim, o que estava pensando. Mas parecia tentar decifrar meus pensamentos. Isso era constrangedor. Fiquei feliz quando de mim desviou o olhar. Aquilo durou apenas fração de segundos, mas foi imensamente desconfortável. Tratei de comer.
–Doeu? – perguntei, mas não exclusivamente em deboche. Ele ignorou a pergunta como quem ignora uma mosca. E eu apenas sorri, tentando fazer formas geométricas enquanto cortava a minha carne. Alguns minutos se passaram e novamente o peguei olhando para mim. – Meu nariz tá pintado de vermelho?
–Ah, pirralha. Mil perdões por olhar pra você visto que eliminou o meu campo de visão agindo como uma criança. – ele disse. Se houvesse uma escala de ironia de 0 a 1.000, aquilo sem dúvida seria 1.000.000,00. Mas eu não me importava com escalas. Havia comprovado a teoria de que ele de fato me olhava.
–Mil perdões se estava agindo como adulto a levando pro banheiro feminino. Mas certeza que deu tempo de você chegar lá. – sorri amarelo.
–Que engraçada! Não tem que se meter na minha vida para me dar lição de moral. Sou um homem solteiro, e pego quem eu tiver a fim. Poderia ser a mulher do presidente, ainda não é da sua conta. – ele disse, bebendo o resto da sua taça. Pareceu pressionar algo na lateral da mesa, e comecei a me perguntar se havia um botão ali para chamar o garçom. O garçom apareceu em exatos 1 minuto, enchendo novamente a sua taça, ele diante do meu silêncio, resolveu continuar – Infelizmente, por exclusiva culpa sua, as fãs têm agido como loucas. Achando que só porque supostamente dormi com uma delas, o farei com todas que tentarem me atacar, isso é um saco. Ainda acreditam que estou escondendo um namoro. – ri.
–Que besteira elas pensarem isso. – continuei rindo – Deveriam saber que você não é digno de dormir com elas, nem comigo. E que jamais seria capaz de assumir um compromisso com uma mulher.
Juro que o vi sorrir.
–Acha que sabe tudo sobre mim. – ele ergueu a sobrancelha direita – Sim, odeio compromissos. Mas vocês mulheres gostam disso. Gostam de aventuras, gostam de mentiras. O compromisso é uma troca desigual, e vocês sempre acabam dando mais de si. A aventura é algo intenso, que não carrega o pesar das memórias. Apenas o suficiente para querermos repetir a dose.
Esse não era um motivo cabível para não se atrelar a alguém. Fala sério, ele era um escritor de romance e estava me dizendo isso? Talvez não sejamos o que colocamos no papel, talvez a escrita nem sempre seja uma parte de você, talvez uma parte do que queira ser, ou do que querem que seja.
–É justificável o fato de não querer compromisso, mas não o fato de usar as mulheres. E não o fato de destruir compromissos só para aliviar seus desejos momentâneos. – falei, enquanto mexia na minha salada com o garfo, sem a mínima vontade de ser saudável.
–É aquilo que chama de compromisso? – ele debochou, e percebi que havia secado outra taça. Se continuasse assim, ele ia ficar bêbado em tempo recorde – Pirralha... Realmente acredita que aquele mulherão só deu mole pra mim durante todo o tempo? Eu fui apenas o primeiro a ter atitude.
–Não importa o que disser, não vai fazer com que eu sinta que fez o certo. – eu disse, peguei a salada no garfo, e, sem pensar para que não desistisse, a joguei goela a baixo. Nossa, aquilo era tão sem graça.
–Apenas estou te mostrando o outro lado do ponto de vista. Deveria ficar feliz por eu ter paciência de fazer isso depois do que fez comigo. – me assustei, ao já ver a sua taça cheia novamente. Comi o resto do arroz, e o último pedaço da carne.
–Já me mostrou vários pontos de vistas depois do que fez comigo. – disse, me referindo àquela noite. Ele apenas deu de ombros – Não há nada que justifique o seu jeito de ser, a sua farsa está até no que escreve.
–Na verdade sim. – ele balançou a cabeça – Eu fui o filho de um estupro. A família do meu pai era rica. A da minha mãe, empregados. Ela tinha apenas 16 anos quando foi chamada em seu quarto para lhe servir o jantar. A menina era inocente demais para desconfiar. A porta foi trancada, e ela foi seduzida, o grito abafado só ecoou da sua garganta quando se deu conta do que ele a fazia. Implorou para que parasse, sendo ignorada. Ao terminar o ato, em pedaços, foi ameaçada de morte caso contasse aquilo à alguém. Foi obrigada a juntar todos os cacos e sair do quarto. Sua família foi demitida pouco tempo depois. Porém, algum tempo depois ela apareceu dizendo estar grávida, e... Meu pai mandou que ela abortasse. Tinha o dinheiro. Conseguiu um médico especializado. Só não conseguiu que ela concordasse. Ela sumiu no mundo. Aos 3 anos da criança ela saiu para supostamente comprar o seu presente, e foi encontrada dias depois boiando na água, debaixo da ponte. Dela, me lembro apenas a cor de cabelo cor de mel. Meus avos tentaram me criar sem condições, mesmo abrindo mão dos seus próprios alimentos. Me mandaram para o meu pai, pedindo com toda piedade do mundo, que pelo menos me arrumasse um lugar, mesmo não sendo com ele. Diante da minha incapacidade de ser o modelo de criança que ele queria, fui criado por uma empregada severa, e era lembrado por ele todos os dias que deveria ter sido abortado, até mesmo quando não tinha idade para saber o que aquilo significava. Quando perguntei como nasci, enquanto se embriagava, ele me descreveu a cena do estupro como se descrevesse um capítulo de um livro. Só os anos me deram discernimento para entender o que uma criança de 8 anos não foi capaz. Mesmo assim, ele pôs na minha mente que era meu herói, e que se não fosse por ele, acabaria boiando embaixo da ponte assim como minha mãe. Passei a minha vida tentando impressioná-lo, até que percebi que só conseguia fazê-lo quando fazia coisas ruins. Era nesses momentos que me tratava como filho, como herdeiro. Me ensinou que ambição era essencial para ser alguém, para que todos pudessem prestar atenção em mim. Fui traído pela minha primeira namorada. Eu só fui capaz de escrever romances porque nas mulheres que escrevia, eu via minha mãe. A manti viva nessas páginas. Por isso continuo. – ele disse, por fim. A taça sendo virada afoitamente. As palavras ditas se encaixando na minha mente como peças de quebra-cabeças. A situação pelo qual passou se traduzindo no que é hoje. O molde lhe dando as formas que hoje apresenta. O pensamento que hoje tem. Senti um arrepio na espinha, e não sabia mais como encará-lo a partir daquele momento. Eu havia o julgado tanto, e, de fato, eu não o conhecia.
–Vo... Você... – tentei dizer algo, seu olhar se voltou a mim me sondando – Eu... Não sei o que dizer. Eu só... Desculpa. – eu disse, pela primeira vez sinceramente. A culpa travando a minha garganta. – Eu não tinha noção que havia passado por tudo isso...
–E não passei. – ele sorriu amarelo.
–O que? – perguntei, confusa.
–Estou apenas te provando que mulheres gostam de mentiras. Você me acha um filho da puta, e foi só eu inventar um mero clichê que só faltou cair nos meus braços chorando. – ele zombou.
BURRA! BURRA! BURRA!
(...)
Após engolir o meu Cheesecake de amora que só custou 100, que havia demorado mais que eu desejava, tentei me perder no gosto que era meio pudim, meio queijo cremoso, meio bolo, para esquecer o quanto eu estava totalmente com raiva daquele idiota à minha frente, que, nesse momento, já parecia estar bêbado julgando pela forma que passou a me olhar. Como ele ousava brincar assim comigo? Como pode ter feito eu acreditar num histórico traumático que tornava a sua figura atual em parte justificável? E eu pensando que iria irritá-lo aquela noite. Mas ele quem conseguiu me irritar. Eu só não entendia porque a possibilidade dele ter sido uma folha manchada me agradou ao ponto de eu ficar cega.
Muitos minutos se passaram, até que engoli o último pedaço da sobremesa gigante que havia pedido. Ignorava o seu olhar a mim durante o percurso com a mesma frieza que ele ignorava os fãs.
–Não gostaria de um local mais reservado? – ele perguntou, rindo. Nem olhei pra sua cara.
–O que quer que eu faça para desmentir na mídia o nosso caso? – perguntei, ignorando-o. Agora eu que queria terminar logo com aquilo.
–A gente pode moldá-lo conforme eles querem. – ele disse sorrindo, e eu bufei – Sabe... Quando vi aquele vestido que a loira comprou, eu fiquei imaginando como ficaria uma deusa dentro dele. Mas também ficou fora dele.
–Entendi... Eu gravo um vídeo e espalho pela internet. – anunciei – Sendo assim não precisaremos nos pronunciar em conjunto para isso.
–Eu tenho uma ideia melhor. – ele soluçou, bebendo mais ainda – Nós vamos para a sua casa e conversamos melhor sobre isso.
–Tenho uma melhor... Cada um pra sua casa.
Eu juro que tentei por várias vezes chegar a um acordo com ele, mas ele não dizia coisa com coisa, e fui ao meu estopim quando ele tentou acariciar a minha perna por debaixo da mesa enquanto ria. Era engraçada apenas a parte dele agir como se tivesse fumando maconha e eu fosse a alucinação mais bonita. Pedi ao garçom a conta de quatro dígitos, no qual o Dobrev pagou, se exibindo com seu cartão dourado. Tentei sair do restaurante sem nem me despedir, porém o maldito me seguiu, pedindo uma carona pro aeroporto, e eu obviamente o mandei chamar um táxi.
(...)
Depois de minutos, minutos estes que ele inclusive ficou na frente do meu carro para que eu não saísse, eu destranquei a porta, deixando que sentasse no banco do carona. Ele era extremamente irritante bêbado, e eu só podia notar isso porque estava sóbria, infelizmente.
–Você pode me levar pra onde quiser. – ele anunciou, sorrindo, se atrapalhando ao pôr o seu próprio cinto.
–Te levar pro inferno queimaria os meus pneus. – zombei, o que o fez sorrir mais ainda.
– “Como pode sequer pensar em inferno se em você só vejo o céu?” – ele citou uma das frases favoritas de seu livro. Gelei, e ao mesmo tempo senti meu coração esquentar com aquilo, por mais que quisesse admitir que não. Droga!
– “Como posso chocar com o chão se contigo estou sempre em pleno voo?” – completei, institivamente, e quase me soquei por isso. Ele deu o sorriso mais bonito que eu já vi na vida nesse momento, e então aquilo valeu a pena.
– “E se o voo é tão pleno, por que insistem em nos prender em gaiolas?” – continuou.
– “E se a gaiola é tão sólida, como conseguiu me fazer escapar?”
– “A gaiola é uma metáfora. Eu só lhe dei asas.” – ele disse, por fim. Meu coração acelerou mais que o determinado. Por noites, eu havia lido aquele diálogo do livro, e por todas aquelas vezes me apaixonei por quem escrevia.
Senti-lo se aproximar de mim. O hálito era puro vinho, mas não era algo que me causava repulsa naquele momento, e aquilo me assustou. Parei de olhá-lo, virando o rosto, mas ele me cutucava para que eu olhasse. Ele tocou meu rosto.
–Melanie... Você é linda. – CARALHO... COMO ASSIM ELE LEMBRA O MEU NOME?
Isso não era nada, Melanie. Era apenas um homem que não lembra o nome de ninguém sem ser o seu próprio lembrando o seu nome. Perfeitamente normal, não há nada de sobrenatural nisso.
Ah, quem eu estou querendo enganar? FODEU. E ele percebeu isso, porque na mesma hora seus lábios chocaram nos meus, rápido demais para que eu pudesse hesitar. Intenso demais para que eu pudesse sair.
Continua...
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