Pouring Rain
15 Capítulo XIV - My hands, your hands, tied up like two ships
O final de Setembro passa e Outubro chega, o clima de Bristol ficando mais frio a cada dia.
Eu amo o inverno.
Amo como o gelo se acumula nos cantos das janelas, e como as faces alheias se tornam coradas e o modo com que eu posso ver minha respiração enquanto caminho até o ponto de ônibus. Amo como as pessoas se escondem debaixo de camadas e camadas de casacos, e luvas quentinhas, chocolate quente e lareiras acesas.
A lua vem, a lua vai e os dias passam. Jogos de futebol nos quais, felizmente, eu não sofro nenhuma fratura realmente grave, testes horríveis de Cálculo e seminários de História.
E, claro, a revolta de Percy.
– Mas, treinador – repete ele, pelo menos na quinta vez só naquele dia. – isso não é nada, cara! Eu só tenho que andar com essa tipoia estúpida por alguns dias...
– Percy – eu o seguro pela barra do casaco, visto que o treinador está prestes a perder a paciência. – depois a gente resolve isso.
– Mas... – ele solta um urro de frustração ao ver o treinador sumir num oceano de alunos que povoa o corredor principal.
Nós seguimos para o portão em silêncio, onde ele se despede de mim com um aceno silencioso e some na esquina mais próxima.
Ao invés de pegar o ônibus e ir direto para o orfanato, decido ir até o café do outro lado da rua.
É um lugar bonitinho, pequeno e confortável. Poltronas vermelhas, paredes creme e aquele cheirinho gostoso de café e biscoitos recém saídos do forno.
Sorrio para a atendente, que sorri e ajeita o coque bem feito. Antes mesmo que eu possa fazer o pedido, alguém bufa, duas mesas de distância.
Eu não deixo de ficar feliz ao ver Reyna revirando os olhos, fazendo ruído ao provar do frappuccino. Pouco caramelo e muito creme.
– Um café com creme e dois muffins de chocolate, por favor. – e continuo olhando para Reyna.
Me sento ao seu lado quando o pedido chega, e deslizo o pratinho de um dos muffins para perto dela.
– Obrigada. – murmura, partindo o bolinho ao meio com os dedos finos.
– Então – meu tom é desafiador, e levanto uma sobrancelha. – ciúmes?
– Ah, por favor! – as bochechas de Reyna adquirem um tom rubro. – por que eu teria ciúmes de você?
– Porque eu sou irresistível. – eu abro meu sorriso mais cafajeste, fazendo-a ficar mais vermelha ainda. Quero rir, mas não posso estragar o momento.
Ela passa algum tempo em silêncio e posso ouvir as engrenagens de seu cérebro funcionando, em busca de alguma resposta.
– E além do mais – diz, as sobrancelhas franzidas. – olha aquele decote! É permitido trabalhar com a renda do sutiã aparecendo? Estou certa que não!
Eu realmente não tinha reparado no decote. Olhando por cima do ombro, posso notar que a atendente deixa pelo menos três botões da camisa abertos. Ela até se inclina ao falar com outro garoto.
– E ela se joga pra todo cliente! – exclama Reyna, batendo as mãos na mesa. – estou pensando no seu bem, Leo. Não é legal sair com garotas desse tipo.
– E eu deveria sair com garotas de que tipo? – ergo uma sobrancelha novamente.
– Tipo... – e sua voz morre, ela dá de ombros. Desvia o olhar. – ... Eu não sei.
Eu a observo por algum tempo depois que a xícara vazia passa a ser só mais um enfeite em cima da mesa de madeira polida. A mão esquerda de Reyna permanece ali, cinco centímetros do pratinho de muffin.
Meus dedos coçam para tocá-la, sentir seu calor, apertar suas mãos pequeninas nas minhas. Mas, não posso.
– Você não tinha que pegar o ônibus? – perguntamos, ao mesmo tempo, um para o outro. Eu rio, ela faz o mesmo.
Sua trança escorrega por seu ombro quando ela ri, e uma minúscula covinha surge no canto de sua boca. E some, tão rápido quanto apareceu.
– Eu vou passar numa loja de CD's. – diz, erguendo uma mão e pedindo a conta. – a loja dos Summers, para falar a verdade. Você... Você quer ir?
Me lembro de algumas ocasiões em que Clara citou que eles possuem uma loja, mas a informação passara batido. Eu peço a conta também.
– Claro. – digo, sorrindo, na esperança que ela sorria também.
Reyna não o faz, mas ajeita a bolsa no ombro e faz um gesto para que eu me levante.
–x–
– Olá, crianças! – Clara deposita dois beijos estalados em cada uma das minhas bochechas, sorrindo abertamente em seguida.
– Querida, eles não são crianças. – grita Patrick, do caixa. Ele acena para nós.
Clara revira os olhos antes de se virar para fazer uma careta para o marido.
– O que os traz aqui? – pergunta, mais para Reyna que para mim. – se não seus pés que nunca recebem nenhum mérito por nos carregar para lá e para cá?
– Ônibus. – respondo, fazendo com que Reyna me acerte uma cotovelada nas costelas.
– Eu estou a procura de um CD. – diz, se afastando para bisbilhotar algumas prateleiras. – Konk, do The Kooks. Vocês tem algum no estoque?
Eu as deixo conversando e aproveito para dar uma olhada na loja.
É um estabelecimento pequenino e aconchegante, como praticamente tudo em Bristol. As estantes de discos de vinil vão do chão até o teto, cobrindo as paredes, e há estantes menores de CD's no centro. O carpete é vermelho e tem até uma máquina de café no canto, xícaras bonitinhas e um pote de biscoitos que eu sei que foram feitos por Clara e as meninas, pois há confeitos coloridos e certa vez eu ganhara um saquinho cheio desses.
É tudo tão limpo e organizado que é quase como se eu me sentisse em casa. Porque, afinal, eu sou o tipo de pessoa que gosta de coisas limpas. E organizadas, mesmo que eu não consiga passar um dia sem tirar algo do lugar ou derrubar algum copo.
– Gostou? – me pergunta Clara, depois de atender outro cliente. Ela pousa suas mãos em meus ombros, sorrindo de modo meigo.
Eu me sinto bem.
– Adorei. – respondo, e é verdade. – as meninas... ?
– Estão lá em cima. – ela aponta para o teto, um gesto fofo. – sabe, nós moramos no prédio de cima. Você quer vê-las?
E eu sei que aquilo tem um significado muito maior. Não é só ver Charlotte e Phoebe. É conhecer a casa dos Summers, a casa onde... Onde, um dia, eu possa passar a morar.
Aceito.
Clara indica uma escada nos fundos da loja que leva até a casa. Eu cutuco Reyna antes de subir, e digo que verei as gêmeas. Ela sorri, e diz que vai me esperar aqui.
Eu subo. A escada me leva até a cozinha, que fica no primeiro piso. É espaçosa, com piso de madeira brilhante ao invés de ladrilho. Há uma ilha no centro, com banquinhos de assento almofadado, e há armários de madeira tingida de verde suspensos nos cantos superiores das paredes. Vejo diversos desenhos, feitos pelas gêmeas, grudados na geladeira e sorrio. A sala de jantar é o segundo cômodo do andar, espaçosa e com tapeçarias florais que combinam com Clara. Há giz de cera e papel em cima da antiga mesa de madeira, e no canto fica a escada que me leva até a sala de TV.
Fico encantado com a divisão de cômodos. É extremamente adorável e praticamente grita "Summers!". Eles são tão simples, tão gentis… Tão eles.
Eu não resisto e dou uma olhada nos porta-retratos das paredes e em cima da cômoda que, também, acomoda um vaso de flores. Fotos de Phoebe e Charlotte quando nasceram, o casamento de Patrick e Clara, uma senhora de idade que presumo ser a mãe de Patrick pelo modo com que ela sorri exatamente como ele. A fotografia de Clara grávida das gêmeas me deixa extremamente feliz. O sorriso dela é de uma orelha até a outra, tão brilhante e tão materno. Mesmo sem ainda conhecer aquelas pequenas menininhas, ela as amava. E amava muito. A prova concreta de que você não precisa conhecer alguém para amá-lo incondicionalmente.
Sinto uma dor no peito realmente incômoda. Eu gostaria de ter alguma foto de Esperanza Valdez.
Há uma porta fechada no canto, e presumo que seja o quarto de Patrick e Clara. Subo as escadas.
Assim que piso num corredor longo, ainda adorando a divisão de tudo na casa, ouço aquela risada gostosa que toda criança tem até certa idade. Vem da última porta à direita.
– Meninas? – arrisco, ainda no topo da escada. – Lottie? Phoebe?
Silêncio. Segundos depois, as duas abrem a porta com uma pressa surpreendente e gritam meu nome repetidas vezes. Eu dou três longos passos antes que elas se choquem contra minhas pernas, rindo.
– A gente não sabia que você ia vir! – diz Phoebe, cruzando os braços. Ela faz uma cara de emburrada antes que eu me ajoelhe para ela poder me dar um beijo na bochecha.
– Eu ia colocar um vestido mais bonito. – Lottie gira em seu vestidinho vermelho, desequilibrando-se em seguida. Eu a seguro antes que ela caia, segurando o riso.
Mesmo com todo esse frio, a casa está quentinha. De qualquer modo, ela também usa uma meia calça branca que parece aquecê-la de modo com que não pegue nenhum resfriado. Phoebe usa um macacãozinho jeans e uma camiseta branca manchados de tinta, e há uma manchinha azul em seu nariz. É tão adorável que eu resisto à tentação de apertá-la até ela virar suco de gente.
– Você tá linda. – digo. E acrescendo para Phoebe. – você também está, não faça essa cara. Eu vim até a loja com a Reyna e decidi dar um olá.
Elas trocam sorrisos sapecas, o que me faz ficar com um pouquinho de vergonha. O que essas crianças de hoje em dia aprendem na escola?
– Hmmmm, Reyna... – Charlotte se balança nos próprios calcanhares. – que interessante... Vem ver o nosso quarto, Leo!
E as duas me puxam pelo corredor, não deixando de parar na porta que antecede a delas.
É um quarto vazio, as paredes nuas, composto apenas por uma cama com colchão sem lençol e um armário. Phoebe me dá um beliscão por cima de minha calça jeans e eu ergo uma sobrancelha para ela.
– É um quarto de hóspedes muito estranho. – digo, confuso.
– Não é um quarto de hóspedes, seu bobo! – exclamam as duas, rindo.
Eu olho novamente para o cômodo, as sobrancelhas franzidas. De repente, a verdade me atinge com um tapa na cara e algum comentário maldoso sobre eu ser tão lento assim.
Dios, aquele quarto era... Seria... Talvez fosse...
Meu?
Eles realmente vão... ?
Antes que eu pudesse gaguejar qualquer coisa, elas me empurram para dentro de, dessa vez, um quarto que era um paraíso cor-de-rosa e lilás. Uma beliche de madeira tingida de rosa claro na parte de baixo e lilás na de cima, com roupa de cama branca e travesseiros fofinhos e milhões de bichinhos de pelúcia espalhados por todo canto.
As paredes deviam ter sido algum tipo de acordo entre as gêmeas. Eram brancas, mas cobertas por desenhos de arco-íris e pôneis e princesas e até...
– Aquele ali sou eu? – indago, completamente surpreso. – eu sou um mecânico?
– É que você ficaria muito fofinho com um cinto de mil e uma utilidades. – explica Phoebe. Ela cruza os bracinhos e apoia o queixo no punho fechado, pensativa. – e nós adicionamos as chaves de fenda e a ferrugem. O nosso próximo pro... Pro...
– Projeto? – opino, rindo.
– Isso! – exclama, os olhinhos brilhando. – o nosso próximo projeto é criar a sua oficina. Você poderia consertar as carruagens das nossas princesas.
– Seria uma honra. – e faço uma reverência.
Depois de finalmente ceder e brincar de bonecas por algum tempo com elas, quem bate à porta é Reyna. Ela abre um sorriso quando me vê segurando uma bonequinha ruiva de vestido azul. Eu sorrio, meio sem graça, deixando a boneca cair.
Isso faz com que Charlotte me acerte um tapa na cabeça.
– Você derrubou a Catherine! – exclama, irritada. – isso lá é jeito de tratar sua sobrinha, Leo?
– Ah, desculpa! – eu pego Catherine novamente, deixando um beijinho no topo da cabeça da boneca de pano. Isso faz as gêmeas soltarem um "ownnnn", e Reyna dá um risinho.
Charlotte dá tapinhas no espaço restante do tapete coberto por bonecas, vestidos, tiaras, pôneis e até um dragãozinho que em algum momento foi o vilão da história. Ela quer que Reyna se junte à brincadeira.
Ela balança a cabeça.
– Eu tenho que ir agora, meninas. – diz, erguendo os ombros. – e queria saber se o Leo vem comigo ou não... ?
Eu estou prestes a dizer que sim quando Phoebe se levanta num salto e tenta me por de pé com aqueles bracinhos curtos.
– Ah, ele vai sim! – diz ela, rindo, e puxa meu cabelo quando não consegue me levantar. – não vai, Leo?
– Está me expulsando? – formo um bico com os lábios, tentando usar um tom magoado. Ela faz que não, mas ri.
Sou praticamente chutado para fora da casa com muitos beijos na bochecha e até um desenho que ganhei de presente. É um dragão todo feito de ferro, um robô. Autômato. Há um "Festus" rabiscado no topo da páginas. Mas, antes de ir, Phoebe arranca o papel de minhas mãos e acrescenta um pequeno Leo em cima do dragão, e agora o título é "Festus & Leo".
– Eu adorei. – murmuro, quando as gêmeas me perguntam se realmente gostei do desenho. – de verdade. Adorei. Obrigado.
Nós passamos pela loja e nos despedimos de Clara e Patrick, que possuem um sorriso tão grande no rosto que me sinto na obrigação de sorrir também. A Sra. Summers deposita um beijo em minha bochecha e abraça Reyna, e Patrick só acena. Ele volta correndo para o caixa.
Quando saímos, neva.
E incluo outra coisa na minha lista de razões para amar o inverno.
Porque eu amo o jeito com que os flocos de neve pousam, tão delicados, nos fios de cabelo de Reyna e permanecem ali. E o modo com que ela inclina o rosto corado de frio para trás, e os pequenos flocos tocam suas bochechas e derretem segundos depois.
Eu amo o modo com que ela caminha sobre a neve, deixando pequenas pegadas para trás. E o jeito com que acena para mim, perguntando porque eu fiquei parado ali na calçada.
E, acima de tudo, eu amo quando, no ponto de ônibus, ela enlaça seus dedos nos meus somente por alguns segundos. Seus dedos frios e longos bem escondidos em minha mão quente e, de alguma forma, do tamanho certo para segurar a dela.
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