Pouring Rain
8 Capítulo VII - We could steal time, just for one day
Notas iniciais
Não é como se eu fosse um vagal, ou coisa do tipo.
Eu só prefiro dizer que estou indisposto e sujeito a vomitar a qualquer momento que fazer educação física. E o professor Walters não liga muito para isso, porque ele sabe que se me reprovar, eu estarei aqui de novo. E de novo. E de novo. Como se fosse um ciclo.
– Sente-se na arquibancada, Valdez. – diz ele, antes de soar o apito. – e pelo menos finja estar chateado por não fazer a aula.
E eu me sento. O sol aquece meus braços e ombros, e agradeço mentalmente pela chuva matinal não ter deixado nenhum rastro. As gotas violentas se chocavam contra as janelas da sala de aula e o barulho era insuportável. Como se já não bastasse não estar no mesmo horário de Biologia que Reyna, e o fato de que o professor falava cuspindo, eu teria que conviver com a chuva?
Quando Walters grita com todas as garotas que definitivamente não cooperavam com o jogo de vôlei, eu aceno de volta para um Jason sorridente do outro lado do campo. Jake Mason tinha quebrado o pé, logo não poderia ser o capitão do jogo de sábado. Assim que o nomearam capitão (temporariamente), Jason entrara na minha classe de Cálculo gritando a plenos pulmões. Se não fosse pelas reclamações da professora, ele teria me erguido nos ombros e me carregado até o corredor, onde o resto do time já causava certa balbúrdia.
Foi quando ele me deu a notícia de que após Dakota ser suspenso por brigar com um terceiranista, o resto do time decidiu que eu era o melhor "candidato" a substituí-lo.
Eu.
– Sem chance. – dissera. – Jason, eu não gosto de me locomover. É sério.
– Qual é, Leo. – ele deu tapinhas em meu ombro. – você joga bem, cara. É só despertar el diablo dentro de você, que é sucesso. Pensa que nós nunca o vimos jogar?
– Nós nos escondíamos atrás da arquibancada durante a aula de História – completou Zack, o slotback. – para ver as líderes de torcida treinarem, e ver você jogando com os outros era um bônus.
– Eu odeio todos vocês. – murmurei. Não havia jeito, afinal. Eu teria de jogar.
Ay, Dios mio. Onde fui me meter?
Futebol americano não é de todo ruim. Eu só acho que vou acabar caindo e quebrando o pescoço porque, por melhor que seja no campo, sou um desastre ambulante. E isso é fato.
Suspiro. Frank não me deixou pregar o olho durante a noite passada devido a um estúpido trabalho de física quântica. Ele murmurava as coisas o tempo inteiro e ainda perguntava se eu sabia que diabos era aquilo. As tentativas de abafar sua voz com o travesseiro foram inúteis, então eu simplesmente me sentei no beliche e ficamos conversando numa tentativa de tranquilizá-lo.
Física quântica assusta sino-canadenses, afinal de contas.
Talvez o ápice da madrugada tenha sido quando Nico parou de resmungar sobre querer dormir e se levantou, como um zumbi, e sentou ao meu lado. E ele começou a falar de absolutamente tudo.
Isso porque di Angelo era um cara fechado.
Frank parecera completamente absorto em suas palavras. A mãe de Nico havia sido assassinada num quarto de hotel em Vegas, e a verdade é que ninguém nunca achou o culpado. E ele nunca esqueceu disso, é claro. A irmã mais velha, Bianca, morreu num acidente de carro. Era de se esperar que ele não gostasse de falar sobre seu passado.
Mas aconteceu, e ele não pareceu querer consolo ou palavras amigáveis. Nico queria botar pra fora, e o fez.
– E meu pai nunca mais apareceu. – disse, esfregando as têmporas. – é como se eu estivesse preso num episódio de Castle, mas não há ninguém investigando meu caso.
É como se nós fossemos o trio mais infeliz do orfanato inteiro. A mãe de Frank servia ao exército, e ele falou sobre isso também. Ela morreu, e ele não queria aquela estúpida medalha de honra, oras!
Nós conversamos sobre passados infelizes, fins de semana na casa do lago e o gosto horrível que o café do refeitório tinha até Nico desabar sobre meu colchão e eu ter sido obrigado a dormir no beliche de baixo. E Frank babou em seu trabalho, mas são apenas detalhes.
– Leo? – Jason me cutuca. – ei, cara. A aula acabou. Estou te chamando há uns cinco minutos...
– Quê? – eu pisco, notando que o campo está vazio e nós somos os únicos no local. – argh, eu dormi?
Ele ri, me ajudando a levantar. Nós atravessamos o campo com passadas rápidas, visto que o céu começa a fechar novamente.
– Na verdade, você ficou completamente fora de órbita. – responde, quando chegamos no corredor. – você faz isso às vezes, sabia? Fica olhando para o nada, e às vezes murmura coisas. O mundo do Leo deve ser mais interessante que a vida real.
Eu concordo, em silêncio. Para falar a verdade, nunca tinha realmente percebido esse tipo de coisa. É estranho gostar de saber coisas sobre as pessoas, mas não saber muita coisa sobre si mesmo?
Talvez seja por isso que Jason é meu melhor amigo. Ele pode parecer um pouco sério demais, mesmo que seja um tanto avoado, mas se preocupa com as pessoas. E as entende.
– Eu tenho Sociologia agora. – resmungo, me espreguiçando. O corredor parcialmente vazio indica que estamos mais atrasados do que pensava. – nos vemos depois, superman.
– Vê se tenta não dormir, Valdez! – ele se afasta com uma risada, seguindo o corredor oposto.
–x–
Eu não tiro os olhos de uma cascata de cabelos negros duas cadeiras à frente. Eu a vejo inclinar a cabeça para esquerda, como se estivesse refletindo sobre o que o professor disse sobre Karl Marx. Ela volta à posição inicial e então levanta uma das mãos, colocando uma mecha atrás da orelha.
Reyna está estonteante e isso me lembra o dia anterior.
Ela dormira a viagem de volta inteira, e depois de algum tempo passou a apoiar a cabeça sobre meu ombro. Eu já estava achando um milagre muito bom o fato de Reyna ter se sentado ao meu lado, e foi quando o aroma de seu cabelo recém lavado invadiu minhas narinas. Não era só xampu. Era algo próprio, como lavanda, noites de inverno e chocolate quente com marshmallows. Reyna.
Quando o sinal bate e eu me levanto rumo à aula de Inglês, Reyna me surpreende antes mesmo que eu possa chegar até o corredor.
– Leo?
Eu me viro, as mãos nos bolsos da calça. Ela tem uma sacola nas mãos, e eu quase tinha me esquecido.
– Obrigada pela jaqueta. – diz, baixinho, e estende a sacola para mim.
Dois pontos, ou talvez três, para Leo Valdez. Antes de sair da casa do lago, o tempo realmente fechou e estava frio, e ela não tinha nenhum casaco. Eu simplesmente lhe entreguei minha jaqueta preferida, aquela militar e que é meu xodó.
– Não há de quê. – eu sorrio, tentando não sorrir demais. Isso é possível? Existem níveis de sorriso?
E nós ficamos ali, na sala vazia, sem dizer nada. Ela abre a boca para dizer algo e torna a fechá-la várias vezes. Decido quebrar o silêncio.
– Agora... Você tem aula de quê?
De qualquer forma, sei a resposta. Inglês. O poema. Nossa dupla. A lembrança me faz sorrir.
– Inglês. – diz, afinal, com um sorrisinho. – me acompanha?
Com uma reverência exagerada, nós partimos para o corredor cheio. Ela ri. É como se o resto do mundo não existisse mais.
–x–
– E então eu disse – Reyna gesticula enquanto fala. – ei, cara, você não pode simplesmente chegar aqui e estacionar seu carro bem na frente do portão. Porque, realmente, ele não podia!
Uma pausa.
– É claro que eu devo ter parecido patética. – ela continua. – ele era, mais ou menos, o dobro de mim. Os outros clientes ficaram em completo silêncio, e eu pensei que o sujeito ia se irritar de verdade. E ele se virou para mim e pediu desculpas!
– O mundo está nos eixos certos, afinal. – murmuro, segurando o riso. Reyna revira os olhos.
– E, por fim, tirou o carro da frente do portão. – concluiu, percorrendo os dedos pela espiral do meu caderno. – desculpe. Eu comecei a tagarelar e você nem parece interessado no assunto...
– Ah! – eu exclamo, esfregando os olhos. – não é culpa sua. Foi uma história interessante, sério. É que tinha esse trabalho de física quântica, e o Frank estava insuportável, Nico não parou de falar e... Eu não dormi.
Ela dá uma olhada por cima do ombro antes de se virar para mim novamente. A professora parece absorta demais nas palavras de alguém sentado na primeira fileira, e não percebe que estamos conversando desde que ela entrou na sala. Era suposto que fizéssemos uma redação de pelo menos cinquenta linhas sobre o que gostaríamos de ser no futuro, mas minha folha continua em branco. A sala mergulha num silêncio tão profundo que Reyna é obrigada a sussurrar.
– Você devia dormir um pouco depois da aula. – ela pisca. – ou estará ocupado demais com os treinos do futebol?
– Ah, é verdade. – sussurro, tentando encontrar um modo de ver o campo pela janela. – eu tinha me esquecido disso... E como você sabe disso?
– Boatos correm – responde. – mas Annabeth transmite uma informação mais rápido ainda. Ela está animadíssima com isso.
– Annabeth é uma graça. – bocejo. – Dios mio, eu poderia dormir aqui mesmo. De qualquer forma, Jason não disse nada sobre os treinos. Ele está eufórico e isso me cansa só de olhar.
Nós rimos juntos depois de algum tempo. A professora, Tanya, nos lança um olhar irritado. É uma visão engraçada. Ela, com seu vestido florido e livro na mão, com essa pose de vovó adorável e a expressão irritada.
O sinal bate, os alunos agradecem a Deus, folhas voam e Reyna e eu caminhamos em silêncio até os portões da escola. Piper corre por nós gritando qualquer coisa relacionada a estar atrasada para o almoço com o pai, e pede para que eu avise Annabeth caso a veja. As duas tem andado bem unidas, e isso é bom.
– Leo? – Reyna me cutuca. – tem alguém esperando você?
– Ahn? – eu olho para a rua movimentada, e então para os portões abertos. – eu não sei... ?
No meio de tanta gente, é quase impossível enxergar. Quando a maioria já corre para fora da escola, eu noto uma moça acenando. Cabelo preso num coque alto, olhos verdes. Com ela, um cara bem alto. Óculos, barba por fazer e um sorriso familiar no rosto.
E com eles, duas crianças. Gêmeas. Ah.
– Mas aqueles são os...
Reyna me olha como se aquela fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ela acena de volta para eles. Eu demoro algum tempo para raciocinar direito.
– Os Summers. – diz.
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