Eu acordei mais uma manhã na minha nova casa. Um novo capítulo estava começando para mim e para minha família.

Os móveis ainda não estavam arrumados por completo, as caixas não estavam todas vazias e nem todas as minhas roupas estavam no armário. Mudanças são sempre complicadas,

mas algumas fazem bem para a alma.

Minha mãe havia conseguido uma transferência para o lugar onde ela nasceu em cresceu, Juiz De Fora.

eu e minha irmã mais nova, Clarisse, nascemos e fomos criadas no Rio de Janeiro. Mas minha mãe simplesmente não conseguia se acostumar em um lugar tão grande e cheio

de gente, ela só estava lá pelo meu pai e depois que ele partiu, ela não via mais motivos para continuar.

Nossa casa fica em um bairro pequeno com muitas árvores, distante do centro e perto da casa dos outros parentes.

É uma casa não muito grande, mas pelo menos não divido mais o meu quarto com minha irmã.

Eu olho pela janela e está um dia lindo lá fora, as crianças brincam pela rua, as mulheres conversam nas varandas e dão risadas, mas eu não consigo desviar meu olhar

da janela da casa ao lado. O neto dos nossos novos vizinhos, que por sinal são padrinhos da minha mãe, está se trocando bem na frente da janela. Ele é bonito, mas nada

de especial. É magro, alto, e com cabelos lisos e pretos caindo em seu rosto. Eu estava paralisada ao olhar pra ele até perceber que minha irmã estava me chamando.

"—Ana, ta tudo bem ai?"

Clarisse estava parada na porta do meu quarto me olhando fixamente com seus grandes olhos castanhos, eu ainda não conseguia acreditar em como ela tinha crescido tão

rápido. "—Esta tudo bem, Clari. Não se preocupe."

"—Mamãe me pediu para perguntar se você quer descer para tomar o café e depois ir visitar a madrinha dela."

Eu gelei assim que minha irmã disse que visitaríamos a madrinha da minha mãe, isso significaria que o garoto da casa ao lado estaria lá.

"—Diz pra mamãe que eu já vou descer."

Eu minha família não nos reuníamos para um café, um almoço ou uma janta há muito tempo. Nós nunca fomos tão ligados a isso.

Minha mãe e eu passamos o café todo em silêncio ouvindo minha irmã falar sobre como sentiria falta do Rio e de como não estava satisfeita com aquilo tudo que

estava acontecendo. A mudança de bairro, de casa, de vida.

Mamãe olhava o relógio em seu pulso de três em três minutos ansiosa, até que uma hora ela com um sorriso no rosto mandou a gente se levantar da mesa e ir se arrumar

pois iríamos na casa da Madrinha Cláudia.

"—Tão cedo, mãe?" Clarisse questionava enquanto nossa mãe corria em direção às escadas.

"—Sim, querida. Temos hora marcada com a madrinha, e ela não gosta de atrasos." Minha mãe gritava do segundo andar enquanto batia a porta do seu quarto.

Clarisse revirou os olhos e subiu as escadas murmurando, ela realmente não queria visitar a madrinha e certamente não estava feliz em ter se mudado.