Possessão de sonhos
1 Invocamos um espírito
Notas iniciais
‘’Eu estudo em um colégio normal, como qualquer outro da pequena cidade de Dayli, que fica no sul da República M, uma das 25 que dividem o nosso país, o antigo Estados Unidos. Essa revolução aconteceu 2 anos atrás, depois de um colapso na economia mundial, então, cada país foi dividido em aproximadamente 25 Repúblicas, cada uma representada por uma das letras do alfabeto. A partir de então, com a ajuda mútua entre as Repúblicas, vivemos uma vida normal, como era antes da revolução econômica. Cada jovem vai ao colégio até os 18 anos e depois decide qual carreira gostará de seguir e bem, foi nesse colégio que eu conheci as pessoas que fazem parte da minha história, e que mesmo sem querer eu envolvi nela.
Era mês de maio, o tempo já começara a mudar, pesadas nuvens ainda encobriam o céu durante a manhã, coisa que mudava rapidamente á tarde, quando ou aparecia o sol ou desatava a chover. Estávamos com uma aula livre, a professora que lecionava História do país havia faltado. Um grupo de seis pessoas se reunia no fundo direito da sala, cada uma dessas pessoas foi muito importante em m eu relato, assim como o que aconteceu depois com elas.
Para que se entenda o rumo da nossa vida a partir daí, preciso dizer como era cada um dos membros desse grupo, vou descrevê-los como eu os via, mas hoje em dia, isso vindo de mim não é uma coisa em que se pode confiar totalmente.
Eu sempre fui a alienada do grupo, a leitora curiosa, nerd e orgulhosa, tanto que, eu acho que foram partes dessa minha personalidade que me fizeram trilhar esse caminho sem volta, a garota magrela de olhos claros e cabelos castanhos que quase toda sala de aula tem.
Lauren Nicker era a patricinha loira e fazia jus a ser chamada de ‘’loira burra’’, demorava a entender tudo, pois estava sempre pensando em maquiagem, cabelo e moda. Hoje em dia, pessoas fúteis e excêntricas acabam sendo comuns.
Jenna Trevs era o contrário de nós duas, era corajosa quando se tratava de proteger os outros. Aventureira, topava qualquer coisa que fosse um desafio. Tinha cabelos castanho-escuros, quase negros, assim como seus olhos.
Matt Herold era o típico garoto de colégio, popular por estar no time de futebol, era forte, tinhas olhos azuis e cabelos castanhos claros, assim como os meus. Era o ‘’gatinho’’ tão aclamado pelas garotas. Se quer saber minha opinião, ele não passava de um playboyzinho grosso e metido.
Arthur Blake, bem, esse é difícil de explicar, cabelos e olhos negros, aquele tipo de garoto sombrio e isolado, que vive escondido pelos cantos, ou está sempre com fones de ouvido. Ele só andava com a gente porque, bem, nem eu sei direito o porquê. Depois do dia em que o professor de Filosofia o encaixou no nosso grupo ele começou a interagir com a gente, coisa que ele não fazia com mais nenhum aluno do colégio.
E por fim, Christopher Hooke, o típico engraçado da turma, o palhaço que faz piadinhas em momentos inoportunos. Ele tinhas olhos verdes e cabelo castanho enrolado, seus olhos tinham aquela expressão ‘’não olhe agora, mas eu coloquei um cartaz de ‘me chute’ nas suas costas’’. Ele era um gamer, viciado em jogos e fast-food. As guloseimas que ele ingeria em uma semana poderiam fazer uma criança ficar hiperativa por um ano inteiro.
Todos nós tínhamos aproximadamente a mesma idade, 16 anos, pois estudávamos na mesma classe. Como eu disse, estávamos em aula livre, você deve lembrar. Estava muito frio ao ar livre, por isso resolvemos ficar em sala de aula, e não no pátio do colégio.
–Vocês já viram aquele jogo ‘’Charlie Charlie Challenge’’? –perguntou Christopher.
– Cruzes, eu só vi os vídeos e já fiquei com medo. –disse Lauren.
– Eu não estou sabendo, que jogo é esse? –perguntei.
Infelizmente quem me respondeu foi Arthur, a história por si só já era assustadora, mesmo que agora, depois que tudo que passamos não achemos a mesma coisa. Aliado á sua voz sinistra, tudo aquilo mexeu comigo, e com minha curiosidade.
– Alguns dizem que Charlie é um espírito, outros um demônio, conta-se que toda vez que o chamamos, ele aparece. O jogo consiste em duas canetas equilibradas, uma sobre a outra e um papel. É na verdade uma simplificação da Tábua Ouija. O problema é que o jogo só pode ser terminado se Charlie permitir, e ele nunca permite. Quando se termina sem sua aprovação, os jogadores são castigados, a ás vezes até mortos. – explicou Arthur.
Uma coisa que me arrependi amargamente depois foram das minhas palavras seguintes.
–Bem, agora que já sabemos, estamos esperando o que? Que o jogo comece.
O pior defeito do ser humano é a curiosidade. Alguns não a possuem, ou pelo menos, não tanto quanto eu. Essas pessoas tem uma dádiva em suas mãos. Eterno seja o ditado ‘’a curiosidade matou um gato’’. E nesse caso, não era um, eram seis e não eram gatos, eram humanos.
Muitas pessoas já avisam, com esse tipo de coisa não se brinca. Mas não. Eu tive que tirar a prova, eu tive que ver aquilo como um desafio, o qual eu teria que desvendar e vencer. Eu e Arthur. Ele também nos incitou a fazer o jogo, mas a culpa que ele não demonstrou sentir grudou em mim, no meu peito, no meu coração, na minha mente, no meu ser.
–Escreve sim e não, no sentido horário, alternando-os na folha. -disse Arthur.
Depois de tudo pronto, eu já estava ansiosa. Estávamos os seis na sala, Lauren, Jenna, Chris, Matt, Arthur e eu. E em coro falamos, já de mãos dadas e bem concentrados.
–Charlie Charlie, are you here?
Estávamos invocando algo, portanto era pra caneta de cima mover-se respondendo nossa pergunta. Nada aconteceu.
Tentamos várias vezes, falando em coro, mas nada. Os cinco já queriam desistir, mas eu insisti.
– Só mais uma vez, vamos.
– Ah fale sozinha, não tem Charlie nenhum mesmo. –replicou Jenna.
– Ainda bem. –concordou Lauren.
– Mas já são medrosas... –zombou Chris.
– Prefiro mexer com coisas sólidas, que eu posso dar um soco. –Replicou Matt.
– Se você insiste vamos fazer isso direito. –Disse Arthur.
– Então todo mundo fecha os olhos e se concentra, vamos tentar, uma última vez. –Eu pedi.
E assim fizemos. As palavras foram ditas e a caneta mexeu. Juntamente com meu coração que saiu ás cambalhotas, mas logo quase parou ao ver que não era Charlie nenhum, Jenna havia soprado.
Enquanto eu a repreendia por fazer isso e os outros riam de mim, aconteceu a coisa menos provável que poderia acontecer. A caneta foi pro não, o círculo ainda estava formado, e havia um ser conosco, mas não era o Charlie, tive a impressão que era algo muito pior.
Ficamos olhando abobalhados, alguns com medo, outros espantados e eu satisfeita, se é que é possível ficar assim quando se é visitado por um espírito.
Quem estragou tudo, desta vez, não fui eu. Lauren gritou e se lançou para trás, consequentemente quebrando o círculo. Ela saiu correndo e depois de uns cinco passos caiu no chão, pensamos que havia tropeçado em alguma carteira, afinal, ainda estávamos na sala de aula.
Também soltamos nossas mãos e Matt e eu corremos para ajudar. A levantamos, estava consciente. Porém, aquela não era ela. Assim que levantou a cabeça vimos seus olhos mudaram do azul para o negro, não a íris, mas todo globo ocular.
– Vocês estão mexendo com o espírito errado. –disse uma voz que saía da boca de Lauren, mas não era a dela. – Parem ou sofrerão as consequências.
Lauren pegou um lápis de uma carteira da sala e correu para a parede. Eu até hoje não descobri como um lápis arranhou uma parede daquela forma sem quebrar, assim que terminou o desenho na parede Lauren voltou para sua mão e tive a impressão que gravou lá a mesma figura. Depois disso voltou a si, olhou-nos com seus antigos olhos azuis por um segundo e caiu desacordada. O mesmo aconteceu com os outros quatro. Eu era a única consciente do grupo.
Encolhi-me em um canto, olhando fixamente para a parede onde havia desenhado com um lápis uma foice dupla, não uma foice humana, aquela parecia ter sido arquitetada pelo mestre de armas do mundo inferior, capas de cortar não apenas coisas sólidas, mas também a sanidade das pessoas. Então eu fiquei ali, esperando o sanatório chegar.
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