Possession
1 Cap. Único - Possession
Nico estava em um cemitério próximo ao Acampamento Meio-Sangue. Em suas mãos trazia uma sacola marcada com a logo de um supermercado qualquer. Dentro, coca-cola e sanduíches do McDonalds. A guerra acabara há poucos dias e, embora todos estivessem em paz, Nico podia sentir que logo as coisas ficariam loucas outra vez. Ele precisava saber que não estava sozinho, que nem a morte poderia separá-lo dequem amava.
O garoto despejou o refrigerante em uma cova aberta a sua frente, e em seguida jogou os sanduíches. Respirou fundo, sentindo o vento gélido batendo contra seu rosto com força, e começou a cantar. A música em grego antigo era melancólica e saía como um sussurro dos lábios finos e arroxeados de Nico.
— Bianca. — Ele chamou. — Por favor, apareça. Preciso de você. Por favor. — Implorou, os olhos castanhos se fecharam e em pensamentos ele continuou a implorar. A música voltou a sair de sua boca, e logo a temperatura pareceu diminuir ainda mais. Quando voltou a abrir os olhos, vários espíritos se remexiam inquietos na cova.
Ele já fizera aquilo várias vezes, e era corajoso, mas nunca se acostumaria a estranha sensação que tinha quando via os espíritos. Seu pai estava certo, mexer com a morte não era uma tarefa fácil, e exigia muito mais do que coragem. Um espírito mais forte e mais brilhante que todos os outros jogou-se dentro da cova, consumindo tudo que Nico jogara, e aos poucos tomou a forma de uma garota.
— Mais pálida do que quando era viva. — Nico brincou, mas não arrancou nenhum sorriso da garota, imóvel e emburrada.
— Por que continua me procurando, Nico? Sabe que é errado e que só irá trazer mais sofrimento. — Ela reclamou em um tom cansado.
— Desculpe. Eu só precisava... Não sei. Senti que deveria entrar em contato com você. Tenho um pressentimento ruim, acho que algo vai acontecer.
— É claro que vai. Desde que nascemos nada é normal, e sempre temos um problema para enfrentar. Deveria ter se acostumado. — Ela parecia menos nervosa agora. Apenas uma garota cansada e preocupada com o irmãozinho. — Você cresceu. Está bonito. — Comentou.
— Queria poder dizer o mesmo de você. — Ele disse, implicante. E finalmente fez ela rir.
Nico estava realmente diferente. Mais alto, mais forte, mais poderoso. Não era mais um menininho que brincava com bonecos gregos e corria para a irmã quando sentia medo. Quem dera ainda pudesse fazer isso. Seu cabelo escuro estava maior, e na orelha esquerda trazia um transversal e um alargador. O anel de caveira em destaque na sua mão direita.
— Nico, não deveria te pedir isso, mas... Acho que você está aqui em uma boa hora. Não queria que continuasse me procurando e tentando falar comigo... Mas já que não dá para te controlar, acho que talvez você possa ajudar um amigo. Ele tem assuntos pendentes com uma pessoa e precisa entrar em contato com ela. Pode ajudá-lo?
— Quer que eu traga essa pessoa para vê-lo? Como eu estou vendo você agora? — Ele questionou sem entender por quê sua irmã parecia tão séria falando sobre isso. — Não me diga que essa pessoa é Percy. Eu não o trarei. Nunca. Eu tenho alguns problemas relacionados a ele, e acho que devo ficar longe. — Ele avisou.
— Não, não, não. — Ela sacudia a cabeça de forma negativa. — Eu preciso que você... Que você deixe-o "entrar".
— Entrar? O que quer dizer com entrar? De quem estamos falando?
— Estou falando de possessão, Nico. — Ele arregalou os olhos. — Não esse tipo de possessão. Não é algo ruim. É para ajudar alguém que não teve a chance de se despedir. Deixe-o entrar e, assim que ele fizer o que precisa, sairá do seu corpo sem causar nenhum dano. Eu não pediria isso se não fosse importante, irmão.
— De quem estamos falando? — Nico repetiu.
— Luke Castellan. — Ela disse baixinho. — Ele cometeu muitos erros. E precisa se desculpar.
— Isso é uma loucura. Eu não estou aqui para isso. Eu vim para que você me ajude, não para servir de receptor de um espírito. — Nico exaltou-se, suas mãos moviam-se no ar.
— Não durará muito. Se fizer isso... Eu prometo aparecer sempre que você me invocar. — Ela ofereceu.
— Por que faz tanta questão? O que Luke Castellan disse para te convencer?
— Não é só por Luke. É por Thalia. Ela foi uma amiga, mesmo que por pouco tempo. Ela ajudou a nos salvar. É importante para ela, irmão. Tenho certeza disso. Prometi a Luke que te pediria isso, caso você me procurasse, mas eu não achei que isso aconteceria mais, depois da última vez em que te proibi de invocar os mortos. Estou cumprindo minha palavra.
— Isso não vai funcionar. Não posso entregar meu corpo para Luke Castellan. Quem me garante que ele sairá?
— Eu te garanto. Nenhum espírito pode possuir o corpo de um humano, ou quase humano, por muito tempo, e você ainda terá controle. Seu espírito continua aí, você também manda.
— Serei um idiota se concordar com isso. — Ele disse após um longo e pesado suspiro. — Mas estou cansado de me sentir sozinho. Você me deu sua palavra. Vou procurá-la depois disso, Bianca. E você terá que vir. Foi uma promessa. — Ela assentiu, esperançosa. — Diga a Luke Castellan que estou pronto para emprestar meu corpo. Mas não por muito tempo
[...]
Nico estava de volta ao acampamento logo cedo, o sol já estava claro e a temperatura amena.
— Aonde acho a caçadora Thalia? — Perguntou a um dos campistas do Chalé de Hefesto.
— Junto com as outras, no chalé de Ártemis. — Ele falou como se fosse óbvio. Claro.
Nico caminhou até os chalés, passando por cada um em passos rápidos e pesados. O chalé 8 tinha uma fachada feita de prata, com desenhos de luas, arcos e ursas caçando, tudo entalhado a ouro. Poucas janelas e uma porta de madeira com o rosto de uma ursa entalhada nela. Nico subiu os degraus e bateu. Uma garota, aparentemente com seus 13 ou 14 anos, abriu e fez uma cara insatisfeita.
— O que quer? — Perguntou.
— Preciso falar com a Thalia. É urgente.
— Ela não está. Procure ela em outro lugar e não incomode mais. Tchau. — E bateu a porta com força.
— Tudo bem — Disse para si mesmo — Ela só pode estar no chalé do pai. Estou perdendo tempo.
Para quê andar, quando podia simplesmente correr? Foi o que Nico fez. Dessa vez sequer bateu, apenas entrou, surpreendendo Thalia que mexia em algumas fotos espalhadas pela cama.
— Nico? — Ela começou a juntar as fotos e jogar dentro de uma gaveta. Uma última restou, caindo no chão. Ela e Jason, quando ele ainda era um bebê. Ela recolheu rapidamente e colocou sobre a cômoda ao lado da cama. — O que faz aqui?
— Tenho pouco tempo. — Ele se aproximou um pouco, suas expressões refletiam nervosismo.
— Pouco tempo para... — Antes de terminar a frase a boca de Nico já estava na sua, a língua pedindo passagem, mãos experientes arrastando-se em suas costas.
Uma descarga elétrica pegou Nico de surpresa, obrigando-o a se afastar.
— SEU IDIOTA. O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? EU VOU TE MATAR. — Thalia avançou sobre ele, mas Nico segurou seus pulsos, contendo-a.
— Preciso que me ouça. O cofre. Você me pediu para abrir, depois de perseguirmos a cabra que Zeus mandou para você. Enquanto eu tinha um veneno nas mãos você me deu um beijo e disse que eu era admirável. Você disse... Você disse que confiava em mim. A profecia para você. Dizia exatamente que seu caminho seria triste e solitário, mas que um dia encontraria sua família outra vez. Eu sou sua família. Eu vim encontrá-la.
Ouvir aquela história já era surreal demais para Thalia. Ainda mais na voz de Nico.
— Não estou entendendo nada. Você entra aqui, me beija e começa a contar uma história que... O que está havendo? Quem te contou essas coisas?
— Thalia, sou eu. Luke. É uma história complicada, mas essa foi a única forma que encontrei para te ver e falar com você novamente. Nico di Ângelo está me ajudando. Servindo como um intermediário entre nós. Esse é o corpo dele, e a alma dele também vaga aqui dentro, mas eu estou no controle. Prometi que não seria por muito tempo, mas sinto que não posso mais me afastar de você.
— Que loucura. — Ela colocou o cabelo escuro atrás das orelhas. — Isso... Isso é muito louco. É impossível. Não, não, não. Você é Nico di Ângelo. E por alguma razão quer brincar comigo, mas isso não tem a menor graça. — Ela disse irritada, com o dedo indicador ameaçadoramente postado em frente o rosto do garoto.
— Nesse mesmo dia veio a minha profecia. Que eu seria um traidor. Quando estávamos a salvo você me perguntou se algum dia eu seria capaz de te trair e eu disse que não. E que o que quer que acontecesse, eu te protegeria, não permitiria que você se sacrificasse por ninguém. Eu falhei com as duas promessas. — Ele insistiu e pela primeira vez pareceu ter convencido Thalia. — Foi quando encontramos Annabeth.
Sutilmente Thalia pegou algo debaixo do travesseiro. Uma faca. Agilmente colocou a ponta da lâmina no pescoço exposto de Nico/Luke e se aproximou o máximo possível.
— O que quer? — Perguntou ameaçadoramente.
— Me desculpar. — Ele engoliu em seco. — Me despedir.
— Você falhou comigo. Falhou com Annabeth. — Ela acusou.
— Eu sei.
— Você foi um idiota.
— Eu sei.
— E mesmo assim eu não consegui desistir de você. — Thalia tirou a faca do pescoço dele e a jogou em um canto. — Seu ladrãozinho estúpido. — E se atirou sobre ele.
Beijos urgentes, mãos ousadas, saudade sem tamanho.
— Era meu destino. — Ele disse entre os beijos, enquanto Thalia arrastava a boca por seu pescoço. — Eu não sei se poderia ter evitado. Thalia, Nico não parece muito feliz aqui dentro. — Ele avisou.
— Mande ele dar um tempo. Estou querendo me despedir de você. — Ela o beijou mais uma vez, a vontade crescendo a cada segundo.
— Não acho que ele esteja de acordo. Mas também não vou facilitar.
[...]
— Como ficam as coisas agora? — Thalia perguntou encarando o teto.
— Eu saio do corpo de Nico, e as coisas voltam ao normal. Eu estarei no mundo inferior, e você segue a sua vida.
— Que vida? Provavelmente serei expulsa da caçada. — Ela reclamou. — Não há vida, Luke. Não sem você. — Ela virou-se para ele.
Como queria ver aqueles olhos claros mais uma vez. E tocar nos cabelos cor de areia, sentir a aspereza da pele de Luke. Nico tinha uma pele de bebê e cabelos mais lisos do que o dela. Não era a mesma coisa. Nunca seria.
— Quero voltar no tempo. Por mais difícil que fosse fugir dos monstros, ao menos eu ainda tinha você. Sinto falta disso.
— Eu voltarei. — Ele prometeu, beijando a mão dela com delicadeza. — Vou renascer e tenho certeza de que saberei chegar até você, esteja aonde estiver. Não acho que as coisas irão acabar assim, tão facilmente.
— Vou estar te esperando. — Ela sorriu, mas dos seus olhos lágrimas pediam para sair. — Por toda a eternidade, se for preciso.
— E eu virei. — Seus lábios depositaram um beijo na testa dela. — Eu virei. — Repetiu, trazendo-a para perto. Thalia descansou ali, sendo envolvida pelos braços de Nico di Ângelo, mas sentindo-se abraçada por seu grande amor, Luke Castellan. Não se sabe por quanto tempo Luke ainda permaneceu ali. Mas quando Thalia acordou estava sozinha. Nico/Luke se fora, deixando apenas um bilhete rabiscado com uma caneta que estava falhando as palavras "Nos vemos em breve". Ela se apegou a isso. Estaria esperando por ele. Esperaria o tempo que fosse necessário. Ela não sabia se havia perdido a imortalidade, mas se tivesse, daria um jeito de consegui-la de volta, e estaria pronta para quando Luke aparecesse. Daria um jeito de recuperar o tempo perdido e viver tudo aquilo que tiraram dela.
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