Possessão Psiônica

3 Capítulo III - Um provável novo (único) amigo?


CAPITULO III

Corri para o banheiro com o maior desespero do mundo, minha vontade de gritar era enorme, mas estava me segurando pra não chamar tanta atenção. Eu conseguia ouvir dentro da minha cabeça pessoas fazendo contas, fofocando, tramando coisas, estava conseguindo ouvir até os mais obscuros pensamentos de cada um dessa escola ao mesmo tempo.

Me segurei em uma das pias do banheiro, molhei o meu rosto e encarei o meu reflexo cheio de olheiras, com uma expressão de insanidade, e comecei a expirar e respirar devagar, tentando me concentrar. As vozes foram se esvaindo aos poucos até eu conseguir ouvir apenas os meus pensamentos, e por alguma razão mais um estava surgindo e dessa vez tentei focar apenas nesse: "Onde está esse garoto? sai correndo assim do nada, e eu tenho que ir atrás..." Eu consegui ouvir claramente e parecia estar falando de mim. E então alguém entra no banheiro e grita atrás de mim:

—Cara... Tudo bem com você? — Era aquele aluno novo, que estava de dupla comigo.

—Sim, mais ou menos. Mas por que você veio atrás de mim? — Perguntei estranhando, já que mal nos conhecemos.

—O professor me mandou atrás de você, pra ver o que aconteceu e bem, temos que terminar o nosso teste de trigonometria.

Nesse momento eu parei por um instante e comecei a reparar nele, era um garoto que parecia ser um pouco mais velho do que eu, com a pele negra bronzeada, cabelos dread curto e uns olhos meio esverdeados quase cinza, com dentes brancos e perfeitos, a sua aparência era digno da capa de uma revista Teen. Eu via em seus olhos, que ele não se preocupava comigo e que ele só veio por causa do professor e a sua maldita prova de trigonometria, mas eu não disse nada.

—Qual é mesmo o seu nome? — Perguntei pra ele, tentando não fazer parecer que estou desinteressado.

—Silber, Herz Silber e o seu?

—Klischee, mas pode me chamar de Klis –Respondi de forma fria- E que maneira é essa de se apresentar? Estilo James Bond. — Eu disse olhando para o chão, mas eu meio que tinha achado aquilo bacana.

—Não sei, estou tentando descontrair. — Ele disse com uma voz tremula colocando a mão sobre o pescoço — Você está extremamente suado e tipo esta nevando lá fora, tem certeza que está tudo bem?

—Urrum... — Eu ainda estava desconfiado do quanto ele se importava.

—Olha Klis, nós dois somos novos nessa escola – Ele expirou profundamente e calmamente continuou- e você não parece ser muito sociável e eu também não conheço ninguém daqui, mas você pode contar comigo, se precisar. -Herz dizia essas últimas palavras com um sorriso estampado no rosto com a voz e expressão mais simpática que eu já tinha visto.

"Eu não posso falar o que está acontecendo comigo no momento para o meu pai, ele anda muito estressado e preocupado com tudo, não quero ser mais um peso pra ele. Talvez esse Herz sirva pra algo." Pensei comigo mesmo enquanto ele terminava de discursar.

—Bem, é algo muito complicado, mas acho que irei tentar compartilhar com você depois da aula- Respondi ele cortando o seu longo discurso sobre amizades- ainda temos que terminar aquela prova antes que o período acabe. — Eu falei enquanto tentava sorrir e ser carismático como ele, mas o meu jeito desengonçado deixou na cara que eu estava desesperado.

—Okay então, vamos pra sala terminar a prova e na hora da saída você fala comigo no parque, eu pago o lanche. — Ele terminou a frase me dando um soco de leve no meu ombro. E eu me afastei pra não ser tocado de novo.

Fui com o Herz para a sala de aula com a cabeça abaixada sem olhar pra ninguém sentei no meu lugar e tentei disfarçar que nada aconteceu. comecei a fazer a prova e apesar do meu novo "colega" tentar ajudar, ele não conseguia me acompanhar nas contas e ficava perdido então eu abri a minha mochila e tirei um caderno de desenho e uns lápis de cor entreguei para o Herz e disse:

—Segura – segurei a minha risada, enquanto entregava isso para ele — Brinca com isso aqui enquanto eu faço a nossa prova, não precisa se preocupar. — Ele me encarou envergonhado e respondeu:

—Estava tentando ajudar, não precisa ser ignorante – Ele pegou os lápis e o caderno – Mas eu não consigo te acompanhar, você parece saber o que esta fazendo então eu vou fazer um desenho pra você – Ele começou a rir e escondeu o caderno.

Menos de quinze minutos depois eu já tinha acabado a prova, antes que muitas duplas ainda, entreguei ao professor com total confiança de que havíamos tirado um dez, então virei para o Herz:

—Já acabamos a prova- Virei o olhar em direção a janela – Bem, eu acabei então podemos sair mais cedo para conversamos.

—Você quis fazer a prova sem ajuda, você parecia estar se divertindo até — Ele abafou essa última parte parecia estar com vergonha – Podemos ir sim, mas antes veja o meu desenho.

Ele tirou de baixo da mesa o meu caderno com um desenho imenso de um pênis.

—Um pênis — eu dei uma risada de canto de boca- Quanta maturidade. — Nesse momento eu estava com vergonha pra ele.

—Calma, não é só isso – Ele folheou as páginas para cima dando o efeito de que o pênis estava gozando – Minha obra de arte pra você.

—Como você é produtivo – Nesse momento eu comecei a realmente rir e senti vergonha pra nós dois.

Saímos de sala devagar, e no caminho até o nosso destino eu fui explicando para ele tudo o que me aconteceu nessa última semana desde quando eu fui acordado pelo zelador até o ultimo surto na sala de aula. Depois que eu terminei a história ele me olhou de cima a baixo com um olhar enigmático, passou as duas mãos no rosto como se tivesse alisando uma barba que não existe e então ele deu um sorrisinho meio suspeito e disse:

—Ah sim, eu entendi o que está acontecendo com você – Ele disse colocando a mão no meu ombro com um certo pesar.

—Você sabe mesmo? — Respondi meio surpreso.

—Sim, eu sei. Me encontra amanhã nesse endereço, que vou ajudar a resolver o seu problema – Ele disse isso pegando um pedaço de papel e uma caneta da sua mochila e anotando o endereço e me entregando.

—Okay, amanhã não tem aula então te encontro por volta das 13 horas, nesse lugar. — Eu ainda não confiava totalmente nele, mas eu não tinha muitas opções e isso estava começando a me apavorar.

Depois disso, fomos a praça de alimentação onde ele me pagou um sanduíche e conversamos por mais um tempo sobre o que eu estava passando. Quase escurecendo eu me despedi dele, confirmei o local e o horário amanhã e fui embora pra casa, um pouco nervoso e ansioso para o dia seguinte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.