Posse

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Esse capítulo contém lime (Sexo homossexual entre dois homens, porém sem grande intensidade, pois tratá-se do ponto de vista de um terceiro).

Capítulo 2 — O segredo do quarto azul

Dois meses se passaram desde o dia em que cheguei a essa casa, existem muitas coisas difíceis de se compreender nesse local. Todas as manhãs acordo em um belo aposento e uma criada de meu mestre me trás o desjejum. Sou vestido com roupas finas e levado para o encontro de meus tutores, que ensinam-me história, religião, música e francês. No almoço compartilho a mesa com meu mestre e seu irmão, retorno aos meus tutores a tarde, até as quatro horas.

Quatro horas são sem dúvida o momento mais peculiar de meu dia, sou deixado nessa sala fechada junto com vários livros a minha disposição e em companhia há sempre o irmão de meu mestre. Mentiria se falasse que sua presença me incomoda, sou indiferente a ela, mas não compreendo a necessidade de passarmos tempo juntos.

A forma que ele fala e gesticula é agradável aos olhos, mas não sinto gosto da parte dele estar em minha presença. Certo dia ele queixou-se de ter de ficar ali com o clima ensolarado do lado de fora, eu nada comentei e senti um pouco de fúria vinda dele, aguardando o meu interesse em suas palavras.

Se ele deseja tanto ficar do lado de fora, por que não sai? Pensei em fazer-lhe essa pergunta, mas não o fiz, temo que exista algo que o proiba de fugir dessa sala, mesmo que sua porta esteja sempre destrancada. Não vejo mal algum ler em sua companhia, os livros deixados são de meu agrado, é uma das poucas horas do dia onde posso ler histórias de ficção, mas vejo que o interesse da parte dele em literatura é limitado.

- Você não se cansa de ficar aqui todo o dia? — Perguntou-me com sua tradicional irritação, ergui os meus olhos para ele, ciente de que seria descortês de minha parte ignorar uma pergunta voltada para mim, dado que era o único presente no local.

- Não, senhor Alfred, pois fico aqui apenas duas horas por dia. — Respondi, ele sabia que eu não ficava o dia todo naquele local e pelo conforto presente, dúvido muito que mesmo se ficasse, sentiria-me cansado.

- Você sempre leva tudo ao pé da letra? — Em seus olhos senti seu desprezo, eu apenas neguei de leve com minha cabeça, abaixando o livro que tinha em mãos e colocando-o em meu colo, marcando a página com meus dedos, ciente que ele exigiria minha atenção por mais alguns minutos.

- Não sei o modo adequado de respondê-lo, senhor Alfred. Não é de meu conhecimento que letras possuam pés. — Falei, imaginando que seus comentários eram sempre devassados por gírias e expressões populares e impedira minha compreensão.

- Esqueça o que eu disse! — Falou, levantando-se do sofá em que estava sentado e começando a andar pela sala. Mesmo que ele não tivesse pedido, não teria dado importância as suas palavras, visto que ele não desejava dar-me ordens ou orientar-me.

Voltei-me mais uma vez para a leitura, supondo que nosso diálogo estivesse encerrado. Minutos depois, quando já tinha dado umas cinco voltas pela sala em seus passos vagorosos, notei-o se sentar no sofá em minha frente, com os olhos voltados para mim. Não me foi de surpresa ou incomodo seu olhar insistente, desde a minha chegada tinha recebido olhares semelhantes, a maioria por curiosos que pouco sabiam sobre mim.

- Você sabe para onde Arthur vai todas as tardes? — Perguntou-me, tentando atiçar minha curiosidade, eu apenas mantive meus olhos na página de livro diante de mim, fazendo um aceno negativo com minha cabeça. — Nunca notou que ele desaparece nesse horário? — Insistiu, eu apenas mais uma vez voltei a olhá-lo.

- Desconheço o paradeiro do senhor Kirkland, senhor Alfred. Temo não poder ajudá-lo. — Respondi com educação e sinceridade, esperando que ele desistisse para que eu pudesse retornar a ler. Não era de minha importância o que o meu proprietário fazia em seu tempo livre e considerei inoportuno o tema exposto.

- Nessa casa há um terrível segredo, poucos criados o conhecem e não falam nada sobre o assunto. — Começou a me contar, modificando o seu tom de voz, deixando-o mais baixo e suave que o de costume. Senti que toda a dramatização que ele fazia era desnecessária, além de repetitiva, pois se presume que quando se é um segredo, tal assunto não deve ser discutido. — Existe um quarto todo azul, onde nele se encontra um pedaço do céu. — Confidenciou-me, compreendi que só iria satisfazê-lo caso comentasse algo.

- O céu não pode ser guardado em um quarto, se deseja fazer metáforas, peço que o faça com maior clareza, senhor Alfred. — Pedi, um sorriso diferente nasceu nos lábios dele, senti malícia em sua expressão, sem dúvida causada por minha interpretação.

- Para você, que ainda é muito criança, não deve ser fácil compreender a única forma de se atingir o céu. Mas digo, Arthur visita todos os dias esse quarto, satisfazendo-se de modo imoral e perverso! — Ele manteve o sorriso mesmo depois de falar, supondo que tinha conseguido ganhar o meu interesse.

- Suas crenças falam que o céu está livre de perversidade, não acho que seja possível satisfazer-se e ignorar a moral social nele. — Respondi, vendo-o rir e virar a face para o lado, perdendo o gosto de discutir comigo.

Olhei para as páginas amareladas com letras impressas a minha frente, mas fui incapaz de dar atenção àquela história fictícia. Cogitei a possibilidade de Alfred não prosseguir discutindo porque eu tinha tocado o ponto chave do tema e passei a pensar no que leva um homem ao céu através do imoral e perverso.

Quando o meu tempo com Alfred acabou, fui junto com ele encontrar-me com Arthur e nós três ceiamos, mais tarde fui para a cama, mas tive dificuldades em adormecer. Fui jogado em uma charada e não ficaria satisfeito até resolvê-la, indo em busca da minha única pista.

O quarto azul.

Não foi de grande dificuldade desvencilhar-me do meu último tutor do dia e seguir os caminhos que Arthur tomava antes de desaparecer. Caminhei por corredores e passei por salões da residência que até então nunca tinha visto, aquela área era de beleza mais rustica e suave, passando uma inocência perfeita para se ocultar um segredo.

Abri portas, entrei em salas e cheguei a um corredor vazio e sem janelas. Meus cálculos deixaram-me cogitar a possibilidade de estar na parte referente aos fundos da propriedade, isolada demais para se ver ou ouvir sons do restante da casa. Encontre-me diante de uma porta pouco chamativa, levando as mãos a maçaneta e abrindo-a.

Um biombo de madeira clara impedia-me de ver o interior do quarto diretamente, entrei lentamente no quarto e ouvi sons, hesitando em prosseguir, mas minha curiosidade dominou-me e vi-me caminhando para o canto do biombo, discretamente olhando para o que era ocultado.

Os móveis eram todos em madeira clara, as paredes azuis, o estofado de algumas poltronas espalhadas dividiam-se em branco ou azul e todo o local passava um forte sentimento de paz. Exceto pela cama, onde ocultada por um véu branco, vi a inusitada cena responsável por fazer os barulhos.

Era Arthur, despido e deitado na cama, em cima de seu corpo, sentada sobre o seu sexo, pensei ser uma meretriz. Estava preste a me virar e retornar pelo caminho que tinha vindo quando um vento leve balançou o véu que servia de cortina para a cama, deixando-me ver o contorno do corpo daquela outra pessoa.

Era um homem.

Causou-me repulsa a principio, mas esse sentimento foi se desfazendo em poucos segundos, deixando apenas um enorme vazio em minha mente. Não sei o que pensei, sei apenas o que vi.

As respirações aceleradas de ambos e os movimentos que o rapaz acima de Arthur executava ao mover o quadril eram responsáveis por todo o som do ambiente. As mãos do meu proprietário seguravam a linha do quadril do rapaz, pouco abaixo de sua cintura, orientando o caminho que ele precisava utilizar naqueles movimentos de subida e descida.

Notei que as mãos do rapaz encontravam-se no abdomen de Arthur, utilizando-o como base para sustentar o seu corpo. Com as costas levemente arqueadas, deixando a cabeça jogada para trás, o rapaz mantinha os olhos fechados, permitindo que abafados gemidos escapassem de seus lábios sempre que o sexo de Arthur afundava-se todo no seu interior.

Naquele vazio em que minha mente vagou, causou-me uma distinta emoção ver a face do rapaz, tingida de rubro pelo constrangimento e excitação. Ele mordeu de leve os próprios lábios, murmurando algo que devido a distância não compreendi, mas que fez Arthur erguer-se, deixando a comoda posição deitada para se sentar, e parando de segurar-lhe o quadril para abraçá-lo.

O ritmo aumentou, o som da respiração aflita e dos dois corpos em movimento tornou-se ensurdecedor. Prendendo-o naquele abraço, Arthur movia todo o corpo do amante, enterrando-o contra o seu quadril enquanto ele circulava a cintura de Arthur com as pernas e pousava suas mãos nos ombros dele, usando-o de apoio.

Estava vindo.

- Mais! — Exclamou o rapaz com a voz rouca, perdendo o fôlego em seguida, eu mesmo entendi o que ele pedia, queria que fosse mais forte. Cravei minhas unhas contra o biombo, extremecido por presenciar a chegada dos dois ao orgasmo.

O ritmo dos corpos diminuiu até parar totalmente, suor escorreu pela face do rapaz e Arthur lambeu-o assim que ele atingiu as bochechas do outro. O corpo de Arthur foi lentamente de encontro ao colchão e o rapaz acomodou-se em cima dele enquanto ambos tentavam recuperar o fôlego.

Recuei em passos suaves, não desejava ser ouvido, caminhando em seguida para a porta e fechando-a as pressas. Acredito que a batida da porta foi ouvida, pois um som se fez do lado de dentro, mas eu não fiquei lá para ser descoberto, saindo correndo pelos corredores. Quando voltei para a ala já conhecida da casa, senti o meu coração ainda disparado e a minha face quente.

Havia dezenas de coisas para me impressionar, eu conhecia aqueles atos, mas nunca tinha os presenciado. Não julgava-os por tê-lo feito, compreendia que o corpo dos adultos sentia prazer diante desses toques. Mas existia um único ponto que deixava-me completamente desconcertado ao recordar-me das cenas.

Aquele rapaz era igual a mim.

Devia ser seis ou sete anos mais velho, a idade de Alfred provavelmente, mas tinha uma semelhança física comigo pertubadora. Asiático, mesmas traços faciais, corpo esbelto e estatura baixa. O pouco que me diferenciava dele era o meu tom de cabelo, castanho escuro contra os fios negros que ele possuia, e a linha de expressão facial.

Minhas sobrancelhas, um pouco mais grossas, eram arqueadas, enquanto as dele eram retas e suas expressões bem mais nítidas. Meu ponto forte sempre foi ser inexpressivo, isso permitiu que eu chegasse ao meu quarto sem ser questionado sobre o meu nervosismo interno, mas aquele rapaz demonstrava tudo o que sentia.

Sentei-me em minha cama, meus olhos não tinham nenhum foco, estava atordoado demais para pensar com clareza. Eram tantas dúvidas, queria saber todas as respostas, mas nenhuma pergunta tinha formação definida. Respirei fundo, fechando os meus olhos e deitando-me em minha cama, precisava analisar os acontecimentos e ser sensato.

Por que Alfred me contou do quarto azul? Ele desejava que eu descobrisse a existência do mesmo, o que Arthur fazia lá. Por que Arthur me comprou? Devia ser porque queria alguém de aparência semelhante ao garoto do quarto, um substituto. Mas se fosse o caso, Arthur não precisava tratar-me com tanta gentileza, bastava usar o meu corpo e deixar-me de lado.

Recordei-me que assim que cheguei na Inglaterra, Arthur demonstrou surpresa pelo meu tamanho, estaria então esperando que eu crescesse para usar-me? Não tinha muito sentido, o rapaz atual não era muito mais velho e estava saudável. Se Arthur desejasse mesmo profanar-me, já teria o feito!

Entendi por fim qual era a pergunta correta: Por que Alfred e eu somos obrigados a passar algumas horas diárias juntos? Porque Arthur comprou-me para ele, para que o seu irmão pudesse ter com quem deitar-se sempre que sentisse necessidade. Alfred queria que eu descobrisse isso, queria que eu soubesse os planos de Arthur.

Ouvi os sons das badalas do relógio, eram quatro horas da tarde. Respirei fundo, olhando-me no espelho e tentando me recompor, caminhando para a saída do quarto rumo ao salão. Não temi por minha castidade, Alfred não sabia que eu tinha descoberto a resposta, e mesmo que soubesse, ela não deveria mudar o mais simples dos fatos.

Ele me desprezava.

Fim do capítulo 2.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.