Porvir
5 Família Redfox
Notas iniciais
Família Redfox
Magnólia — x802
A pequena maga atravessou a sala aos tropeços, inicialmente devido ao sono, posteriormente em razão dos inúmeros brinquedos espalhados pelo chão. Ela já havia praticamente chegado a cozinha, quando pisou — forte demais, infelizmente — em um carrinho que estava jogado por ali. Não conseguiu evitar de gritar de dor e praguejar em seguida, arrependendo-se imediatamente do ato. Seu estardalhaço surtira efeito.
O som agudo do choro infantil ecoou pelo apartamento. Primeiramente, o bebê que apenas resmungava sonolento em seus braços, começou a chorar ressentido pelo susto que levou. Logo depois, outro choro infantil fez coro com o primeiro, porém provinha do interior da residência. Desolada, a maga teve vontade de prantear também.
— Oe, Levy! — Gajeel apareceu na porta da sala, já com o pequeno Kaien no colo. Mesmo amparado pelo pai, o menino fazia questão de continuar aos berros. — O que aconteceu? Por que gritou? — Questionou preocupado.
— Nada demais! — A jovem de cabelos azuis respondeu, soando nada convincente. Afinal, algumas lágrimas de dor lhe escaparam quando pisou no brinquedo, e era visível que mancava enquanto tentava ninar Dan, seu caçula.
— Você não parece bem. — Gajeel comentou, tentando acalmar Kaien, imitando as ações de Levy. Porém, o dragon slayer grandalhão era um tanto desajeitado, causando a impressão de que estava agitando uma coqueteleira, não um bebê.
— Apenas pisei em um brinquedo. — A maga explicou, assintindo desesperada seu mais velho ser sacolejado pelo pai. — Pare de sacudir o menino assim, ele vai acabar passando mal! — Alertou.
— Se eu parar, ele vai berrar ainda mais. — Justificou. — Veja. — Demonstrou, parando de balançar o pequeno.
O efeito foi imediato: Se antes ele apenas chorava com vigor, agora parecia que ia explodir de tanto gritar, já que estava ficando cada vez mais vermelho.
— Viu? — Perguntou, em tom superior.
— Tá, tá, que seja. — Levy comentou com pouco caso, concentrada em acalmar seu próprio chorão. — Só, por favor, faça ele parar! — Pediu, desesperada. Sua cabeça estava estourando. Novamente.
— Fazer como? — Indagou o grandalhão. Estava especialmente sonolento, demoraria alguns minutos até que sua mente pegasse no tranco.
— Da alguma coisa para ele comer. — Orientou, enquanto ela começava a preparar a mamadeira do caçula, convencida de que aquele seria o único método para aquietá-lo.
Só existia um adjetivo, na mente da maga de cabelos azuis, que poderia definir adequadamente seu estado físico e mental: Acabada. Ela começava a temer a visita até mesmo de amigos, pois achava extremamente desagradável os comentários que recebia de como parecia exausta.
Mas também, como não ceder ao cansaço, quando você tem dois bebês para cuidar, um de oito meses e outro com poucos dias de nascido?
Era complicado escutar as críticas. Os vizinhos a chamavam de louca, por engravidar exatos quarenta dias após o nascimento de seu primeiro filho, Kaien. E de certa forma, não podia deixar de concordar que era loucura mesmo.
A maga jamais se arriscaria a ter outra criança tão cedo (na verdade, ela nem mesmo pensava em um segundo filho). Acontece que seu marido faminto, reclamava todo santo dia durante o período de quarentena, e foi com tanta sede ao pote quando o resguardo finalmente acabou, que ignorou todo e qualquer método contraceptivo.
E o resultado, foi esse: Quando Kaien completava três meses, E Levy ainda estava acostumando-se ao ritmo da maternidade, descobrindo a cada dia o as dificuldades de cuidar uma criança, recebeu essa notícia com o mesmo impacto que um tijolo teria se lançado em sua cabeça. Estava grávida novamente.
Inicialmente, o jovem casal ficou completamente desnorteado. Como Levy podia estar com um bebê de três meses no colo e um de dois no ventre? E outra: Como fariam quando, dali a sete meses, o novo integrante da família chegasse, deixando os pais inexperientes com dois bebês com menos de um ano de diferença para cuidar?
A orientação médica em sua primeira consulta foi imediata: Para própria segurança, a maga poderia abortar. Isso porque seu corpo ainda não estava preparado para uma nova gestação, podendo deixar tanto sua vida quanto a da criança em risco. Fora as possíveis complicações da gravidez.
Naquele momento, a baixinha ficou ainda mais desorientada: Tinha acabado de receber a notícia de que esperava mais um bebê e estava sendo aconselhada a livrar-se dele. Completamente atarantada, simplesmente saiu correndo do consultório, deixando o médico que ainda falava e Gajeel para trás. Chegando em casa, chorou com tudo que pôde.
Mais tarde, naquele dia, a conversa que se desenrolara com seu esposo, ficaria marcada para sempre em sua memória:
— Levy? — Cautelosamente, Gajeel espiou o quarto que dividia com a companheira. — Posso entrar? — Perguntou, já adentrando o cômodo.
— Hai. — A pequena mulher, que até estão estava deitada, agarrada ao travesseiro, sentou-se e secou o rosto com as costas das mãos.
O dragon slayer de ferro, que trazia Kaien no colo, aproximou-se, também sentando-se sobre o móvel. Com cuidado, acomodou o bebê que dormia profundamente no meio do colchão.
— Você saiu tão desesperada que aposto que nem se lembrou que Kaien estava comigo. — Comentou.
— Não mesmo. — Falou, afagando a cabecinha de seu pequeno.
— Então — Começou, com cuidado. -, você pensou no que devemos fazer? — Questionou.
— Me diga você. — Falou, inexpressiva. — O que fazer?
— Você realmente quer a minha opinião sobre isso? — Indagou.
— Você está doido? — Devolveu, irritando-se. — Você não é o pai dessa criança? — Perguntou, pondo as mãos sobre o próprio ventre. — É claro que deve opinar! — Exclamou, enérgica.
— Entretanto, é você quem a carrega. — Rebateu. — Você que vai passar pelo transtorno de suportar uma nova gravidez. — Continuou. — E é você que pode correr risco de vida. — Pontuou. — E sinceramente, eu fico desesperado de apenas pensar na possibilidade de perder você. Mas…
— Mas? — Incentivou Levy, vendo que o dragon slayer de ferro foi reticente.
— Mas acho que também devemos pensar nessa criança. — Opinou. — Digo, se pudéssemos excluir todos os riscos que essa gravidez implica, eu realmente gostaria de ter esse filho. — Desabafou.
— Isso é sério? — Questionou a pequena.
— Sim. — Assentiu o grandalhão.
— Mesmo? — Insistiu.
— Eu já não disse que sim? — Perguntou de volta.
— Estamos falando de mais uma criança, Gajeel. — Lembrou a maga. — Mais um bebê chorando de noite, mais um bebê para cuidar, isto é, ao mesmo tempo que ainda cuidamos de Kaien, já que ele nem terá completado um ano quando o outro nascer. — Explicou. — E, é claro, despesas em dobro. — Completou.
— Não pense que sou louco de acreditar que vai ser fácil. — Disse o moreno. — Mas acho que damos conta. — Externou. — Sabe, tudo na minha vida foi um acidente. O sumiço de Metalicana, minha entrada na Phanton Lord e posteriormente na Fairy Tail, conhecer você, o nascimento de Kaien... — Começou a narrar. — Tudo sempre repentino, nunca planejado. Mas todos esses acidentes me conduziram para a vida que levamos hoje, e eu não me arrependo nem um pouco disso. — Confessou. — Sequer consigo imaginar que as coisas pudessem acontecer de forma diferente.
A maga, que tinha a boca aberta em um perfeito "o", estava chocada. Era extremamente raro Gajeel falar de seus sentimentos. Ela sempre se surpreendia quando isso ocorria.
— E sabe, eu temo realmente que essa situação possa se converter em meu primeiro arrependimento, independente do caminho que escolhermos. — Desabafou. Levy o encarou, complacente.
— Bem, se você pensa assim — Começou a mulher de cabelos azuis. — Então eu vou ter essa criança. — Anunciou.
— Tem certeza? E o risco que vocês correm? — Indagou o mago, preocupado.
— Isso não me preocupa, Gajeel. — Respondeu Levy. — Digo, não no que me diz respeito, pelo menos. — Retificou. — Eu estava mais preocupada que você me achasse irresponsável e não quisesse esse bebê, porque ainda é muito cedo, e também por causa das despesas. — Revelou.
— Você é idiota? — O grandalhão perguntou, irritado. — Não fui eu que coloquei esse moleque aí dentro? — Indagou.
— Não use esses termos! — Censurou a companheira. — E não fale como se fosse menino. Ainda não sabemos o sexo da criança. — Lembrou.
— Aposto que é outro menino! — Falou, com convicção!
— Eu não ia achar ruim se fosse uma menina. — Levy ponderou.
Depois daquilo, eles foram conversar com Porlyusica. A curandeira confirmou que realmente tratava-se de uma gravidez de risco, e que existia grande probabilidade de um parto prematuro. Mas também falou que acreditava que, com os devidos cuidados, Levy ficaria bem e a criança poderia nascer saudável.
Claro que os magos da Fairy Tail fizeram a maior festa. Para o alívio do casal, ninguém na guilda os criticou pelo deslize de terem outra criança tão cedo. Afinal, se existia um fato inegável, era que todos os membros dali eram igualmente loucos. Ninguém podia falar de ninguém.
Assim, de acordo com a previsão de Porlyusica, seu segundo filho, Dan, nasceu cinco meses depois, deixando entre seu irmão mais velho não a diferença de onze meses, como estimado, mas sim de oito.
Dessa forma, começou o maior desafio da vida de Gajeel e Levy: Cuidar de dois bebês, sem negligenciar nenhum deles. Afinal, não era apenas no tamanho que eram diferentes, mas também nas necessidades.
E realmente, não vinha sendo nada fácil. Era especialmente exaustivo se adaptar ao ritmo dos dois bebês. Enquanto Kaien estava começando a dormir durante a noite, adaptando-se a uma maior diversidade de alimentos, começando a engatinhar, Dan, que mal tinha chegado ao mundo, fazia com que eles repetissem toda a rotina melindrosa que viveram com o primogênito: Passar noites em claros, preparar mamadeiras (já que Levy não tivera leite para alimentar nenhum dos dois filhos, para seu extremo desgosto), esquentar a água para o banho e por aí vai.
Todavia, sentiam-se aliviados pela escolha que fizeram. Seus filhos eram a coisa mais preciosa do mundo. Quando observavam Dan e lembravam-se que chegaram a cogitar a possibilidade de interromper a gravidez, eram acometidos de um sentimento terrível.
Afastando essas lembranças, Levy voltou ao presente, enfiando apressadamente a mamadeira na boca do caçula, que já protestava com mais força, em seu colo.
— Hai, hai! — Falou com carinho, enquanto o pequeno sugava o bico de silicone com todas as suas forças. — O mundo não vai acabar, pode mamar com calma. — Falou.
— Ele não entende você. — Gajeel comentou.
— Ah, sério? — Ironizou Levy, encarando o marido. Gajeel estava sentado de frente para Kaien, que estava acomodado em sua cadeirinha especial, alimentando-o, com uma pasta composta de várias frutas amassadas. O pequeno, que tinha os cabelos negros do pai e os olhos verde oliva da mãe, jogava para fora a maior parte da gororoba. Era nojento, mas tinham se acostumado com aquilo.
— Odeio quando você fica debochada. — Comentou, pegando mais uma colherada e enfiando na boca do bebê.
— Odeio quando você caçoa de mim por conversar com os meninos. — Devolveu, sentando-se em uma cadeira ao lado do marido, ainda alimentando o caçula.
— É meio estranho. — Ele virou-se para ela, sem retirar a colher da boca de Kaien.
— Mas você também faz isso. — Acusou Levy.
— Nem por isso deixa de ser estranho. — Concluiu o moreno. — E também, é mega esquisito quando você fica lendo para o Kaien… — Começou.
— Gajeel. — A baixinha tentou interromper.
— … Porque ele não entende nada, mas mesmo assim… — Ignorando a esposa, o grandalhão continuou.
— Hei, Gajeel! — A mulher tentou novamente, sendo igualmente ignorada.
— ...Você fica interpretanto o texto, fazendo umas caretas bizarras, para não dizer medonhas… — O dragon slayer continuou, como se não estivesse ouvindo.
— GAJEEL! — Levy gritou, finalmente atraindo a atenção do mago.
— O que é? — Ele perguntou, irritado.
— O KAIEN ESTÁ COMENDO A COLHER! — Avisou a maga de cabelos azuis, desesperada.
— DROGA! — Praguejou o mago, puxando o talher da boca do menino, que agora era composto apenas pelo cabo de metal. — Estragou mais uma. — Lamentou.
— Quantas vezes eu já te avisei para usar apenas colheres de plástico quando for dar comida para o Kaien?! — Ralhou, transtornada. — Você sabe que ele tem os seus poderes e mesmo assim fica dando essas mancadas! — Acusou.
Desde o nascimento de seu primogênito que o casal sabia que ele havia herdado os poderes do pai. Afinal, a magia dos dragon slayers modifica o corpo dos magos praticantes, por isso não é estranho que essas características passem de pai para filho.
Além disso, os dragon slayers podem reconhecer outros dragon slayers pelo cheiro, razão pela qual Gajeel identificou a natureza dos poderes de Metalicana em seu filho mais velho, e posteriormente, no caçula. Assim como os dois filhos de Natsu e Lucy, ambos os filhos de Gajeel e Levy foram agraciados com a magia draconiana.
E se ainda havia alguns resquício de dúvida de que os sentidos do pai quanto ao filho poderiam ser falhos, foi sanado quando Kaien, na época ainda com apenas seis meses de vida, simplesmente comeu a grade de proteção que separava a sala da cozinha. Naquele dia, eles descobriram que não poderiam, por um bom tempo, ter nenhum tipo de mobília que fosse de metal.
— Também não precisa ficar tão irritada. — Apanhando outra colher, dessa vez de plástico, Gajeel comentou. — Você sabe que isso não vai fazer mal a ele. — Afirmou, quase orgulhoso.
— Mesmo assim, vamos gastar uma fortuna se tivermos que continuar repondo os talheres que ele come. — Lembrou a maga.
— Tá, tá. — O moreno assentiu, indiferente.
— É estressante ficar repetindo sempre a mesma coisa, droga! — A maga reclamou.
— Você está muito rabugenta. — Observou o grandalhão, virando-se abruptamente a surpreendendo a esposa com um selinho.
— Não pense que vai me dobrar com isso. — Corada, Levy voltou-se para o seu caçula.
— Não se preocupe, eu conheço maneiras muito mais eficientes de te dobrar. — Vangloriou-se, em tom extremamente malicioso.
— É mesmo? — Indagou a maga, cinicamente. — Pena que ainda restam trinta dias de resguardo e você vai ter que guardar esses métodos fantásticos para si mesmo. — Debochou.
Gajeel resmungou, mal humorado. De fato, para ele, aquela era a pior parte de todas. Esperar quarenta dias para poder se relacionar novamente com sua esposa.
Da última vez, ficara tão descontrolado, que a manhã do quadragésimo primeiro dia mal apontara e ele já avançou para cima dela, sem pensar nas consequências. O resultado dessa brincadeira, estava naquele exato instante curtindo o colo de sua mulher, coisa que ele gostaria bastante de fazer.
— Esses dias não passam nunca. — Reclamou.
— Eu nem estou com tanta pressa. — Provocou Levy.
— Cretina! — Xingou Gajeel. — Me aguarde daqui a trinta dias. — Desafiou.
— Eu juro que se você me fizer mais um filho, eu te mato! — Avisou, desesperada com a possibilidade.
— Por favor, nem brinca com isso. — Pediu o moreno, arregalando os olhos. — Me fez até perder a vontade. — Constatou, fazendo Levy gargalhar.
Inegavelmente, nada estava sendo fácil para os dois. Contudo, assim como o dragon slayer lhe falara, a pequena maga não se arrependia de nenhum dos acasos que os conduziram até ali. Principalmente dos dois preciosos "acidentes" que descansavam nos braços dos pais.
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