Porto Seguro
1 Wonderwall
A princípio ela o repudiava; agora, o amava incondicionalmente. Aquela coisinha que se apossou de seu corpo e o dominou por completo, agora também dominava seu coração.
Seu erro, seu castigo, sua consequência indesejada, seu grande amor, seu filho.
João Eduardo Medeiros de Mendonça e Albuquerque, uma mistura do nome dos pais, feito em um rompante de falta de criatividade e pressa para sair da maternidade. Aquela coisinha pequena, com a pele de alabastro da mãe, íris de um castanho-esverdeado brilhante e a cabeça coberta de espessos fios escuros como o pai. Um amor que tomou-a aos poucos, no susto, no desespero de perdê-lo.
Se quando o descobriu, desejava desesperadamente tirá-lo de seu corpo e de sua vida, ao sentir a ameaça de perdê-lo, soube que lutaria com todas as forças para protegê-lo de todo o mal que poderia ameaçá-lo.
Agora, alguns anos passados, ainda se surpreendia com a intensidade de seus sentimentos pelo filho, além de todas as mudanças que ele havia trazido à sua vida. A principal delas, seu pai, João Lucas.
Dividido entre dois tornados vermelhos, um mais devastador que o outro, foi naquela enxurrada de amor que era João Eduardo, que João Lucas encontrou seu caminho. Porque soube, no momento em que lhe avisaram que Du e o filho corriam risco, que aquilo não era um erro. Nem o filho, e muito menos a mulher que o carregava.
Eles eram a sua família, aquela que ele tanto aguardava, na qual ele nunca seria errado ou atravessado. De seus jeitos tortos, ele e Du seriam perfeitos um para o outro e, tinha certeza, perfeitos para seu filho.
Aceitou de bom grado o desafio de provar à ela que realmente queria aquela família, que Maria Isis era uma página virada e esquecida. Batalhou e se esforçou, até enfim conseguir levar ao altar a mulher que amava, ainda carregando o fruto daquela bagunça toda em seu ventre.
Claro que depois disso não houve o letreiro manuscrito de “viveram felizes para sempre” e nem a vida se transformou em um mar de rosas, ou uma comédia romântica água com açúcar. Tiveram que se acostumar com a vida a dois, futuramente três, e o que a chegada desse novo membro acarretaria. Foram dias de confronto até que conseguissem se ver livres das asas do comendador e de Maria Marta: ele não querendo ser afastado de seu único neto herdeiro, e assim privado de inferir o que achava certo à educação dele; ela, pelo simples prazer de se sentir no comando da vida de sua prole.
Assistidos pelo apoio de Maria Clara e Cristina, cada uma a seu jeito e técnica, conseguiram a liberdade tão logo o bebê estava para nascer. José Alfredo lhe deu uma casa abastada, em um bairro nobre e digno do sobrenome que carregavam.
Se não fosse a nova condição de pais, provavelmente o casal teria transformado a nova morada em uma amostra grátis do inferno, com festas, bebidas e drogas. Porém, a responsabilidade e o cuidado por aquela nova vida já tinha instaurado suas raízes nos dois corações revoltosos, lhes trazendo finalmente a paz depois da tempestade.
Agora, cinco anos passados de tudo isso, o sol brilhava alto em uma tarde de domingo. Os empregados haviam sido dispensados naquele dia e João Lucas colocara Dudu não banco traseiro do carro, os dois logo voltando com diversas sacolas de papel com o logo do McDonald’s.
Os três comeram juntos, sentados à mesa de ferro retorcido do jardim, os pais repreendendo o filho por ignorar o lanche e se distrair com os brinquedos obtidos no restaurante.
“João Eduardo.” Du repreendeu com sua voz mais grave, fazendo o menino soltar os bonecos dos Minions e voltar a atenção ao pequeno hambúrguer.
Lucas narrava uma discussão da tarde anterior, ocorrida na casa do comendador. Como parte do acordo para sair do ninho de cobras, o caçula tinha que levar o filho à casa dos pais todo o sábado, para que os avós passassem o dia com o menino.
Mesmo agora que Maria Clara tivera sua primeira filha com Vicente, João Eduardo seguia sendo o favorito do avô para um dia herdar seu império.
“Ele que sempre dizia que seu sucessor teria que fazer por merecer, incitou tanto que eu e meus irmãos competíssemos, agora quer nomear nosso moleque como sucessor dele.” Resmungou o antigo playboy, irritado. “Mas eu já deixei bem claro que o Dudu será o que quiser. Eu não vou ser que nem meus pais e colocar cabresto nele, muito menos tão novo assim.”
A esposa nada disse, apenas sorriu orgulhosa da atitude madura do marido, em nada semelhante aquele moleque inconsequente com quem ela se deitara em um rompante de loucura. Se a gravidez a havia mudado, com João Lucas o processo havia sido de renascimento.
Nenhum dos dois perdera sua essência, mas com certeza haviam achado a peça que faltava.
“E se eu quiser ser jogador de futebol?” A voz do menino lhes soava como um canto de anjos, uma harmonia celestial desde o primeiro choro esganiçado.
“Vai precisar começar a treinar desde já.” Riu o pai, lhe bagunçando o cabelo já bagunçado.
“Vai precisar é estar de barriga cheia.” Bronqueou a mãe, observando o filho com severidade. “Saco vazio não para de pé, Dudu, tem que comer tudo.”
“Ah, mamãe, mas eu quero brincar.”
“Depois do almoço, filho. Aí o papai brinca com você.”
Sabiam que estavam longe de serem perfeitos, mas tinham que reconhecer que se saíram muito bem na matéria de pais. Penaram à princípio, sozinhos com um bebê recém-nascido, sem o auxílio que deveria ser provido por suas mães. Mas com algum esforço e a parceria que os anos de amizade geraram, conseguiram superar as noites sem dormir, as madrugadas de cólica, as febres inesperadas.
E uma coisa eles tinham certeza: em nenhum momento de sua pequena vida, João Eduardo havia se sentido rejeitado pelos pais.
Dedicaram cada segundo possível de seu tempo à ele, mesmo nos momentos mais complicados, mesmo nas noites em que Lucas chegava da empresa esgotado ou nos dias em que Du estava à beira de um colapso... A ruiva sempre preparou e deu o almoço ao filho; o pai sempre lhe deu banho e contou uma história antes de dormir.
E a noite, quando o menino já estava embalado pelos sonhos, os pais se amavam no quarto ao lado.
Diferente do que Du havia profetizado ao saber da gravidez, tinham um lar feliz e repleto de amor. Talvez não fosse nada do que ela e Lucas haviam imaginado para suas vidas, mas com certeza era uma realidade maravilhosa.
Lavando a pouco louça que sujaram, a ruiva observava pai e filho pela janela da cozinha. Diferente de durante semana, o marido usava apenas um shorts velho, os pés descalços e o peito nu. Dudu, por outro lado, corria apenas com a cuequinha de super-herói, reclamando que fazia muito calor. Entupiram os poros do garoto de protetor solar, temendo que a pele clara assumisse o tom vermelho que já havia experimentado em uma ida a praia alguns anos antes, o que rendeu uma ida para o hospital e uma grave briga com o avô da criança.
O sorriso era inevitável ao admirar aquele quadro, no qual o homem driblava a criança, que ao invés de se irritar, ria das manobras inexperiente. Os olhos brilhavam por trás dos fios de cabelo soados, enquanto ele se atirava nos braços de seu grande herói, que lhe rodopiava pelo ar.
“Mamãe.” O gritinho a tirou dos devaneios, enquanto pai e filho vinham pela grama. “Nós podemos arrumar meu quarto hoje?”
“Por que hoje?” Ela questionou, secando as mãos e se apoiando na bancada. “Achei que faríamos isso amanhã, quando você voltasse da escola.”
“Ah, mas hoje o papai está aqui.” Ele sorriu com os dentinhos de leite perfeitamente brancos e quadrados, mostrando duas pequenas covinhas. Se já não estivesse decidida a aceitar, ali mesmo teria se rendido.
Há algum tempo já haviam tirado o berço branco e substituído por uma cama, mas agora João Eduardo queria deixar para trás todo o estigma de criancinha. O quarto, decorado pela tia Ara, trazia o tema do fundo do mar.
Agora, peixinhos e habitantes coloridos do fundo do mar dariam lugar ao Batman, Superman, Hulk, Capitão América e seus companheiros. Dudu não conhecia Marvel e DC, usando o escudo do patriota da primeira junto da capa do homem de aço da segunda. Seu travesseiro trazia a fronha dos Vingadores, enquanto o lençol resplandecia o símbolo do morcego.
Em sua cabeça infantil, só existiam heróis que combatiam os vilões, juntos, sem distinção.
“Aí, o Homem de Ferro pegou e chamou o Flash, e disse ‘Vamos vencer o Coringa juntos.’ Aí o Flash pegou o martelo do Thor emprestado e...” O garotinho narrava sua história imaginária para os pais, enquanto os mesmos colocavam prateleiras e tiravam adesivos infantis. “Eu posso ter fotos no meu quarto?”
“Claro que pode.” Concordou Lucas, distraído com a parafusadeira.
“De quem você quer ter foto?” Du se afastou do marido, se abaixando em frente ao filho e acarinhando seus cabelos.
“Eu quero uma com o vovô Zé; uma com a tia Clara, tio Vicente e Larinha, e uma com você e o papai.”
“E a vovó Marta? Ela vai ficar chateada se não estiver aqui.” Lembrou o pai.
“E a tia Cris...”
“Ixe, é mesmo.” Ele colocou a mãozinha na cabeça, fazendo os pais rirem. “Você me ajuda, mamãe?”
“Pode ir, amor. Eu me viro aqui.” A ruiva saiu aos risos, se divertindo com a falta de habilidade manual do marido.
No escritório haviam diversos porta-retratos ainda embalados, comprados por Maria Clara quando decorou a casa (algo para o qual Du realmente não tinha paciência). A exceção de algumas fotos de Dudu e uma do casal, organizadas pela faxineira sobre o aparador da sala, nunca haviam espalhados retratos da família pela casa.
A mãe imprimiu as fotos que o filho escolheu no arquivo do computador, o ajudando a colocar dentro das molduras. Ao todo foram sete: ele no colo do avô, na cadeira de presidente da Império; ele na piscina sobre os ombros de Vicente, enquanto Maria Clara segurava a filha no colo; ele ao lado de Maria Marta, que lhe contava uma história de um livro; junto de Cristina na cozinha, em uma tarde que a tia lhe fizeram brigadeiro; recém-nascido, dormindo no peito nu do pai, os dois em sono cúmplice; agarrado ao pescoço da mãe após a apresentação em sua homenagem na escola.
E por último, talvez a foto que João Eduardo mais gostasse no mundo: em seu primeiro aniversário, nos braços do pai com a mãe ao lado, os três assoprando a velinha de número 1. Se dividiu entre essa e a que os dois beijavam suas bochechas gorduchas logo depois, mas essa ele pediu para a mãe colocar na sala.
Organizou as imagens com precisão milimétrica, arrancando risos dos pais, que se divertiam com seus trejeitos infantis. Preencheu os espaços com os bonecos de super-heróis, e com a ajuda do pai colou diversos pôsteres nas paredes. Ainda teve pique para separar alguns brinquedos no armário, para serem doados junto dos itens de decoração que foram tirados do quarto.
Com tudo isso, caiu exausto logo após a pizza do jantar.
Já devidamente banhado e vestido pela mãe, foi acomodado no novo quarto pelo pai. E, é claro, Ted, seu fiel companheiro, foi colocado junto dele. O primeiro presente que João Lucas lhe dera, tão logo ele saiu da maternidade, fora um ursinho bem tradicional, que foi batizado com o clichê de Ted. E que nunca havia saído de seu lado.
Ao contrário do garoto, os pais não pareciam nada cansados. Assim que Lucas foi para o quarto de ambos, a porta foi trancada e os pijamas voaram consideravelmente longe, dando início a mais um momento de paixão entre os eternos melhores amigos.
“Eu te amo.” Sussurrou Lucas, quando já estavam acomodados nos braços um do outro.
“Também.” Ela ajeitou melhor cabeça sob o peito dele. “Meu superman da parafusadeira.”
“Você brinca, mas não viu como é difícil manusear aquele negócio, tá?” Os dois riram baixinho. “Hoje o Dudu disse que quer ver os seus pais.”
“Ele me disse também, enquanto arrumávamos as fotos. Comentou que não tem nenhuma foto com os outros avós, porque nunca vê eles.”
“Mesmo depois de todo esse tempo eles não demonstram curiosidade ou desejo de ver ele?” A ruiva negou.
“Do mesmo jeito que não davam a mínima para mim, dão menos ainda para ele.”
“Por sorte ele tem um avô babão, mesmo que um pouco controlador, e uma avó meio leoa maníaca.” Ela riu da maneira que ele nomeava os pais. “E ele tem nós dois, que amamos ele mais do que tudo.”
“Você acha que a gente consegue dividir esse amor um pouquinho?” Perguntou a moça, erguendo os olhos para encontrar os do marido, que lhe sorria. “Deu positivo.”
“Finalmente... Já tava começando a me perguntar o que eu tava fazendo de errado. Te engravidei com uma tacada na primeira vez, e na segunda não consegui nada por um ano.”
“Você acha que o Dudu vai gostar?”
“Acho que ele vai amar.” Garantiu o homem, lhe beijando a ponta do nariz. “Especialmente porque nós vamos ensiná-los a serem amigos, não inimigos como meus pais fizeram.”
“Só me promete que dessa vez vamos escolher o nome antes, não juntar nossos nomes na saída da maternidade.” Os dois riram do acontecimento desastroso, no qual o filho nasceu ainda sem nome decidido graças a uma discussão dos avós, o que fez com que os pais juntassem os nomes de qualquer jeito para poder sair do hospital.
“Ah, só porque queria batizar de Maria João?”
“Jamais.” Negou a ruiva. “Eu gosto de Isabela.”
“E eu de Mateus. E já temos os nomes decididos.” Ela riu pelo nariz. “Você imaginava isso? No dia que apareceu na minha casa e me contou que estava grávida?”
“Se eu tivesse feito o que imaginava naquele dia, teria destruído nossa vida.” Ele segurou o rosto dela.
“Mas não fez. E salvou nossas vidas.” Sorriram um para o outro. Uma pequena batida na porta os assustou, enquanto ouviam as fungadas de Dudu.
Lucas levantou, calçando a cueca pelo caminho, enquanto Du vestia a camiseta e a calcinha depressa. Ao abrir a porta, o pai encontrou o garotinho abraçado ao ursinho, manhoso.
“Eu to com medo de dormir no meu quarto novo.” Os pais riram da afirmação. “Posso dormir com vocês?”
“Hoje pode.” Concordou Du da cama, enquanto Lucas apanhava o filho do chão, fechando a porta atrás de si. Dudu se acomodou entre os pais, que o abraçaram. “Ainda tá com medo, filho?”
“Um pouquinho.” Ele suspirou.
“E se a gente te contar uma coisa boa, o medo passa?” O menino concordou. “Você vai ganhar um irmãozinho.”
“Que nem você tem a tia Clara, a tia Cris e o tio Pedro?”
“Exatamente.”
“E onde ele está?”
“Aqui, na barriga da mamãe. Ele vai ficar aqui um tempinho, que nem você ficou.” Explicou Du, afagando os cabelinhos.
“E vai ser menino ou menina?”
“Ainda vai demorar um pouquinho para descobrir.” Explicou Lucas.
“Não importa, eu vou gostar do mesmo jeito.” Ele deu o sorriso de covinhas. “Obrigado mamãe, obrigado papai... O medo passou.”
“Menino corajoso.” O pai riu, apagando a luz e se acomodando direito. “Então pode dormir. Nós três estamos aqui te fazendo companhia.”
“Boa noite papai, boa noite mamãe, boa noite irmãozinho.”
“Boa noite, tampinha.”
“Boa noite filho.”
E os três (quatro) dormiram juntinhos, do mesmo jeito que permaneceriam para sempre.
Notas finais
Algumas pessoas estavam me pedindo uma oneshot LucaDu (porque tá sem condições de mais uma long), então aqui está... Cês sabem que meu forte é histórias família, né? E amo as possibilidades que a gravidez da Du abre ♥
Anyway, espero que tenham gostado e comentem, dizendo o que acharam. Quem sabe Aguinaldo me dá mais material na novela para criar mais oneshots, certo?
See you ;*
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