— Vai Peter, conta aquela história... — Os gêmeos falaram caindo um por cima do outro, ali mesmo no chão, perto das almofadas.
— Vocês estão realmente preparados? — Fiquei deitado no ar com um sorriso no rosto.
— Claro que sim, conte logo! — Cabelinho colocou a mão nos joelhos enquanto estava sentado em uma almofada roxa.
— É, conta! Estamos curiosos! — Piuí tropeçou no mesmo momento que terminou de falar, e caiu no chão ao lado de um monte de almofadas.
— Wendy também quer ouvir. — De leve cruzou os braços, olhando para Wendy com um sorriso no rosto.
— Já que vocês se prepararam bem, vou contar. Mas já vou avisando, é de arrepiar. Vão ficar sem dormir uma semana! — Falei com um grande sorriso no rosto e comecei a contar a história.
Tudo começou na minha viagem para o Polo Norte, quando fui conversar com o velho do Natal sobre uns assuntos e...
Depois de sair da Terra do Nunca e chegar ao Polo Norte, fiquei muito encantado com toda a beleza da neve sobre os pinheiros, mas, sem me demorar, fui voando até a casa do Noel seguindo a placa que dizia “Fábrica de presentes”. Quando cheguei lá, vi vários duendes desesperados, o trenó estacionado perto de um pinheiro gigante e ao lado dele as renas mágicas. Não demorei a ficar curioso pela forma como os duendes se comportavam, foi quando peguei um deles, o levantei até a altura de minha cabeça e falei:
— E aí, o que está acontecendo?
— Uma catástrofe... O Natal está arruinado! — Ele respondeu com os olhos marejados.
— O quê? Por quê? — Fiquei desconfiado.
— Noel sumiu, e os presentes também! — A senhora Noel chegou à porta, falando em um tom preocupante.
— Simplesmente desapareceu? — Olhei para a Noel e joguei o duende para um lado, voando na direção dela.
— Sim, e por causa disso o natal está cancelado! — Ela se virou e encostou a mão na parede, parecia que estava chorando.
— Ora, ora... Não podem fazer isso! Se as crianças não ganharem presentes este ano vão achar que o velho não existe e assim vão crescer mais depressa! — Agora eu também estava desesperado, pobres crianças do mundo!
— Você... Você poderia tentar achá-lo? Pode começar amanhã! — Ela se virou com um sorriso meigo no rosto.
Olhei pra ela e para o resto da paisagem branca e verde, pensei no grande e vermelho Noel, nas crianças e não pude esperar até o outro dia, resolvi procurá-lo, mas não sabia como fazer. Tive uma ideia, poderia arrumar pista por ali. Pedi permissão para tal e ela aprovou.
Olhei ao redor, vi algo diferente no meio da neve, parecia que algo foi arrastado. Segui aquele rastro estranho por entre os pinheiros, rochedos, o rio congelado e me deparei com o trenó de Noel vazio. Quando fui olhar mais perto, me deparei com pegadas de rena, óbvio, mas no meio delas havia pegadas do Noel e patas de coelho.
Fui voando na minha melhor velocidade no meio da chuva de neve, minha velocidade era tão grande que mal podia ver ao redor, a neve também ajudava, foi quando eu reparei algo grande e vermelho na frente, infelizmente não era o Noel e sim sua adorável esposa. Tive de parar de bruscamente para não me chocar contra ela, mesmo assim ainda estava indo em sua direção, tentei desviar, consegui, mas quase dei de cara com um pinheiro, se não fosse por ela me segurar.
— Ora garoto Pan, não devia voar desse jeito em uma ilha de neve. — Ela falou me soltando. — Problemas com a sombra?
— Não, minha sombra não me da problema faz uns meses... O problema é outro, achei pegadas do Noel e patas de coelho.
— Mas coelhos não vivem por aqui! — Mamãe Noel retrucou quando contei para ela.
— Isso mesmo! Isso me leva a crer que Noel tem um coelho de estimação. — Falei com a mão no queixo.
— Ou que o Coelhinho da Páscoa está envolvido! — Ouvi uma voz doce e calma vindo de trás de mim, e me virei e vi Rudolph, a rena de nariz vermelho.
— Rudolph, quanto tempo! — Voei até o meu velho amigo e dei um tapinha em suas costas!
— O que quer dizer com isso, Rudolph? — A Noel veio em direção a rena e falou preocupada.
— Lembro-me de ver um ovo da páscoa por aqui ontem! — Ele falou bem calmo.
— Ovo de páscoa no natal? — Perguntei confuso.
— O mais estanho é que nunca tem entregas aqui, além de cartas de natal, porque no Polo Norte só vive Noel e seus duendes... E claro que a mamãe Noel e nós renas! — Assentiu quase se esquecendo.
— Eu vou até o Mundo da Páscoa, fica perto! — Falei me pondo a voar em instantes.
Voei por vários dias, encarei nevascas, avalanches... E assim que mudou o clima fui pego por uma tempestade, calor e desidratação... Devia ter levado um pouco de água.
Quando cheguei já era dia primeiro, realmente demorei a ter essa pista, chegar aqui também não foi fácil, enfrentar diversos problemas com o clima, aquele velhinho que não quero nem me lembrar, a longa viagem e o cansaço... Considerando que o Coelho mora em clima tropical!
— Olá, tem alguém em “toca”? — Gritei enquanto me jogava naquele buraco de entrada.
— Ei, quem está aí? — Ouvi uma voz grossa ecoar pela enorme toca.
Fui até o chão da toca e tentei achar quem era, quando avistei um coelho grande, mais ou menos do tamanho dos meninos perdidos, ele usava uma cartola preta com um óculos preso nela, também usava luvas azuis, era estranho ver um coelho de gala.
— Ora, você é o coelhinho da Páscoa? Que prazer, eu adoro fazer a caçada com meus amigos! — Falei pegando o Coelhinho, que era bem fofinho, e voando com ele.
— Ei, me solte... Eu não te conheço! — Ele começou a se debater, preferi levá-lo ao chão para que nada acontecesse.
— Quando foi a última vez que viu o bom velhinho, Noel, Coelho? — Interroguei.
— Deixe-me ver... Nunca! — Ele falou um pouco irônico.
— O quê?
— Não nos encontramos seu jovem tolo! — Ele me mandou ir embora com riso nos olhos, que aos poucos desapareceu conforme entrava no buraco
Sabia que estava mentindo, pois vi uma foto dele com Noel lá na fábrica de brinquedos. E também, por que ele se esqueceria de mim?
— Algo está me cheirando mal. — Pensei e me joguei no buraco que ele havia entrado.
Escondi-me em uma pilha de ovos coloridos, dali deu pra ver o Noel amarrado junto dos presentes, fiquei feliz pela descoberta e irritado pelo que o Coelho fez, me preparei para avançar e dar-lhe uma lição e assim o fiz, voando na direção dele e me jogando em cima do mesmo.
— Ei, me solta moleque... O que faz aqui? — Ele disse um pouco desconfortável.
— Peter Pan! — Noel resmungou sem conseguir falar muito.
— A única coisa que está me deixando mais irritado que o fato de você ter acabado com o Natal, é como que um coelhinho conseguiu arrastar esse gordo e os presentes até aqui! — Deixei-o preso no chão com minhas mãos.
— Obrigada garoto Pan! — Ouvi uma voz familiar demais e então plantei uma bananeira com os braços apoiados nos ombros do coelho.
— Dona Noel? Como chegou tão rápido, isso aqui fica muito longe... — Fiquei abismado.
— Não vem ao caso, o que importa é que você estragou meus planos, muito obrigada! — Ela falou e na hora fiquei assustado, pensei em fazer algo, mas, em instantes estava desmaiado.
Acordei dentro de um calabouço em um pico oriental, não faço a mínima ideia de como fui parar ali e muito menos do que faria para sair. As grades eram de algum tipo de ferro de titânio e não dava para eu passar por elas, já que eram muito coladas. Sentei-me, fiquei pensando, por que será que a Noel está sequestrando o próprio marido? Por que o Coelho disse que não me conhece e... E como que eu vim parar aqui no oriente?
Fiquei um pouco aflito, e serrando as grades com minha adaga, percebi que mesmo me esforçando muito não obteria sucesso. Foi quando ouvi a voz de Rudolph e senti algo se aproximando, dei um pulo me encostando na parede e vi a rena de nariz vermelho quebrando as grades com seus chifres.
— Rudolph, garoto... Obrigado! Não vai acreditar, a Noel e o Coelhinho raptaram o Noel e não sei o que vai acontecer!
Ele falou alguma coisa, mas eu não ouvi, pois já tinha levantado voo e estava desesperado atrás de alguma pista.
— Peter, espera! Eles voltaram ao polo Norte, agora me ouve. — Rudolph apareceu do meu lado bem rápido.
— Uau, que rapidez! Leve-me para o Polo Norte então. — Subi na cela, ele foi a uma incrível velocidade, chegando ao Polo Norte em segundos.
Desci, me despedi, fui voando até a casa, vi os duendes agitados outra vez, segurei um deles na altura de meu rosto, perguntei mantendo minha voz inabalável para não parecer preocupado.
— O que houve dessa vez?
— Mamãe Noel sumiu, e as renas também! — O duende falou desesperado.
— Rudolph estava comigo... — Falei apreensivo.
— Então foi você? — Os milhares de duendes falaram juntos e vieram correndo na minha direção.
Soltei o duende que eu estava segurando e comecei a correr deles, levantei voo e fui contra o vento frio de inverno, uma hora outra parava e jogava algumas bolas de neve para poder despistá-los.
— Vocês são rápidos... — Falei enquanto gargalhava, apesar de tudo, estava divertido.
— Volte aqui, vamos te prender e você vai devolver tudo! — Eles gritaram em coro.
Continuei voando e então aumentei a velocidade, olhei para trás, eles já tinham me perdido de vista. Quando olhei pra frente dei de cara em um urso polar gigante, que me segurou e me chacoalhou igual a um boneco.
— Ei, ei... Vá com calma aí! — Falei um pouco enjoado.
— Vai Besta, pegue ele! — Os duendes me alcançaram outra vez e estavam dando ordens ao urso polar, que me levou de volta a casa de Noel e me amarrou no grande pinheiro onde o Trenó estava estacionado, isso me deixou nervoso, precisava me soltar, a verdadeira luta é contra o tempo afinal.
— Ei, duendes... Olhe ali, é Noel! — Menti e todos os duendes, incluindo o grande urso polar foram se distraíram por um minuto, isso foi tempo suficiente para eu puxar minha adaga rapidamente, cortar as cordas que me amarravam e poder voltar a sobrevoar o Polo Norte. Não achei nada suspeito, a não ser as renas, a Noel e o coelho conversando... Espera!
— Ei, o que eu perdi? — Gritei lá de cima e eles me viram. A Noel saiu correndo com o coelho, as renas vieram na minha direção, quase me pisotearam em pleno ar.
Elas eram mais rápidas que eu, fiquei aliviado por ter conseguido desviar por pouco, mas, não foi o suficiente, elas continuaram tentando me atacar com aqueles chifres enormes e afiados, foi ai em que percebi que elas estavam enfurecidas, parecia que queriam acabar comigo de qualquer jeito... O que estava acontecendo? Bom, eu não sabia, mas descobriria de qualquer jeito.
— Esperem, voltem a si! Por favor. — Rudolph chegou desesperado, chegou até a me assustar quando ele se enfiou na minha frente e fez as renas pararem.
De repente eles trocaram o idioma? Estavam conversando quase igual a Sininho, só que com guizos! Deixou-me bastante confuso, me intrometi e Rudolph me deu uma breve explicação:
— Peter, a Mamãe Noel está sob o controle das renas!
— O quê, como assim? — Falei um pouco desesperado.
— Isso mesmo, não sei o que deu nelas, mas estão cansadas de trabalhar para o Noel! — Rudolph lamentou.
— Isso é estranho... Mas e o Coelhinho? — Retruquei.
— Não sei, ele era tão legal...
— Foi a água que me mostrou, que o Natal é muito mais valorizado que a páscoa! — O coelhinho gritou lá de baixo, eu fui até lá para ouvir. — Todo mundo acredita no Noel, a parcela que não acredita é pequena, agora no coelhinho da páscoa é ao contrário!
— Você parece triste! — Falei pausadamente, pois estava desconfiado.
— Claro que estou... Mas, isso acaba quando as crianças começarem a ter páscoa no Natal também! — Ele falou esboçando um sorriso que nem sequer era dele.
Rudolph desceu um pouco, mas não parou de voar, teria que ficar pronto caso as renas atacassem, ele parecia assustado e falou em um impulso:
— Água? Não me diga que beberam da fonte mágica?
— Fonte mágica? O que é isso...? — Virei e pus, pus a mão na cabeça para enxugar o suor, já estava cansado há muito.
— Peter, você tem que salvar o Noel! Deixa que eu dou um jeito aqui! — A rena do nariz vermelho falou e na mesma hora eu sai em disparada no rastro da mamãe Noel.
Cheguei a uma caverna de gelo umas horas depois encontrei Noel e os presentes em uma pista elétrica que o levava na direção de um poço sem fundo.
— Calma aí... Isso está cada vez mais louco! Espere por mim. — Voei na direção onde Noel estava, infelizmente fui puxado pela gola pela esposa dele.
— Não Peter... Não vai fazer isso! — Ela amarrou uma corda nos meus pés antes que eu pudesse impedir e me jogou longe.
— Droga... Eu vou conseguir, e vou te libertar do comando das renas! — Falei enquanto cortava a corda com minha adaga, a ouvi gargalhando junto de Noel, fiquei realmente confuso, ainda mais quando o Coelho chegou gargalhando junto de Rudolph e as outras renas.
— Ei Coelho, pode parar isso!?! — Noel gritou para o coelho, que imediatamente foi desligar o mecanismo.
— Oras... Estou muito confuso e é bom me explicarem! — Falei com um pouco de raiva.
— Você caiu Peter... Era tudo um plano! — A Noel chegou perto de mim e mostrou que Noel não estava amarrado e que os brinquedos eram falsos.
— Os presentes verdadeiros estavam na minha toca, foram todos entregues na data certa com a ajuda de minhas tocas! — O Coelhinho se jogou no chão de tanto gargalhar.
— Enganaram-me! E até os duendes encenaram bem. — Sorri.
— Eles também caíram direitinho! — Relâmpago, uma das renas, falou.
— Vocês enganaram a todos... Tudo bem, foi uma grande brincadeira e eu gostei, mas, preciso dormir porque não durmo desde o dia 23 e já estamos no dia 14 de Janeiro! — Falei bocejando.
— Visite-me na páscoa, talvez possamos inverter o caso! — O coelhinho zombou, sorri e tomei voo retornando para a Terra do Nunca, apesar de estar irritado, preocupado e confuso isso foi divertido.
— E eu sai de lá e todos continuaram rindo. Quando eu voltei vocês estavam dormindo! — Terminei a história e todos estavam rindo — Tudo bem, parem de rir!
— Desculpa Peter... Essa história é fantástica, conte outra! — Os gêmeos falaram entre um bocejo e outro.
— Tudo bem, teve aquele dia em que eu fui visitar os dragões e... — Wendy tapou minha boca e tomou a palavra.
— Vocês não querem dormir? Já está muito tarde.
— Não, Wendy... — João reclamou.
— Eu não estou com sono... — Cabelinho falou e logo depois pegou no sono junto dos gêmeos.
— Amanhã eu conto mais então! — Sorri.
— Peter, essa história é real? — Miguel me perguntou enquanto coçava os olhos.
— Tão real quanto eu ou você! — Respondi e fiquei a pensar sobre aquele mês, será que era realmente uma pegadinha? Ficou tudo muito estranho e faltou explicações...
Um tempo atrás, naquele mês...
— Ele já foi... — Relâmpago falou bem calmo.
— Será que realmente acreditou? — Noel falou apreensivo.
— É bom que sim... E essa foi por pouco, quase que ele descobre sobre o ritual de transformação! — O Coelho falou, passando a mão no rosto.
— Silêncio, Coelho, ele pode estar por perto. — Noel balançou as mãos.
— Agora teremos que esperar mais cem anos para a lua se alinhar com o trópico de câncer e o trópico de capricórnio entrarem em sintonia com Vênus, Sol e Terra para transformar o Noel em vampiro! — A mamãe Noel lamentou.
— Desculpem-me por quase estragar tudo! — Rudolph se desculpou.
— Tudo bem, meu caro, você não sabia que a família Noel é uma legião de vampiros! — Noel desculpou a rena.
— Bem que faz sentido, por isso que são imortais! — Rudolph se pôs a pensar e pensar.
— Tudo bem, mas deve tomar mais cuidado... Tive que inventar que tenho inveja! Droga sou um coelho vampiro, afinal de contas, não sinto inveja! — O Coelho resmungou.
— Ora, ora... Acalme-se, coelhinho! — Rudolph chegou perto dele, abaixando-se.
— No próximo Natal, você será transformado! — Mamãe Noel colocou a mão no ombro de Papai Noel e deu um sorriso.
— Hohohoho... — Papai Noel soltou sua risada marcante e todos foram embora dali.
Até o próximo Natal, com muita imortalidade, MUHAHAHAHAHAH!
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