Emma jamais imaginou que poderia sentir tanto prazer com um simples banho quente. Deixou o jato de água escorrer pelas suas costas, a pele estava vermelha devido à alta temperatura, mas ela não se importava. Era um bálsamo, precisava se lavar da sujeira. Emma não sabia dizer quanto tempo passou presa no umbral, tinha a impressão que foram séculos, ela havia perdido a noção de tudo, até mesmo de quem era. Se Regina não a encontrasse...

Regina.

Emma tinha plena consciência dos movimentos da morena no andar de baixo. Seus sentidos estavam extremamente aguçados e perto de Regina eram quase doloridos. Mesmo àquela distância, Emma ouvia o som da sua respiração, absorvia a onda de calor que o corpo dela emanava, sentia o seu cheiro.

(Ela é uma delícia)

Cala a boca.

Emma balançou a cabeça, não deveria ter aceitado o convite. Não queria que Regina ficasse sujeita a Ele. Mas não conseguiu resistir, sem ela, tudo seria muito mais difícil.

O seu corpo e a sua mente haviam mudado, ela se sentia possuída por uma força descomunal, que transitava velozmente por suas células e tentava se manifestar a todo o instante, diante do menor estímulo. Sentia raiva. Sentia-se selvagem. Invencível.

E a voz, claro, a maldita voz. Era mais do que uma voz, era uma presença. Seu poder, denso, era movido pela escuridão. Entranhava-se em sua alma, camuflava-se. Era uma luta difícil.

Mas Emma ainda estava no comando. Ela tinha consciência de quem era e do que estava acontecendo, e ela tinha autodeterminação. Ele se esgueirava, sussurrava, provocava, Ele a conhecia bem. Mas se Ele precisava seduzi-la, é porque não podia forçá-la. Emma sabia que não.

Se não tivesse certeza disso, não estaria ali naquele momento, jamais submeteria Regina a tal risco.

Ainda assim, hoje ela se perdeu, aquele episódio com Hook foi lamentável. Ela não gostava daquele jeito dele de impor presença, de constranger fisicamente, mas também jamais tomara uma atitude a respeito. Até hoje não sabia bem como se portar, sentia-se muito bruta para um conto de fadas. Nunca pediu por aquilo, nunca quis ser a Salvadora, mas se achava obrigada a corresponder às expectativas de todos. Dos seus pais, do seu filho, dos moradores da cidade. Apenas Regina não a pressionava. Apesar da trajetória tumultuada delas, Regina parecia vê-la como ela realmente era e a respeitava desta forma. Não esperava nada dela, embora pudesse ter tudo.

Emma não poderia ser injusta com Hook, ele estava se esforçando, tinha se sacrificado diversas vezes por ela, quase morreu para salvá-la. Não merecia ser tratado daquela forma. Ela simplesmente não conseguiu se conter, na realidade, quando se deu conta já estava sufocando o pirata. As emoções negativas alimentavam as trevas dentro dela, a manifestação era poderosa, ela ficava intolerante. Se Regina não a tivesse trazido de volta à tona, o desfecho poderia ter sido ainda pior. Deveria ter se desculpado com ele, mas não conseguiu, ela estava muito instável. Falaria com Hook amanhã, teria uma conversa franca, ele merecia isso. Ela realmente o amava, ele era seu parceiro. Era engraçado, leal e bonitão, apesar da fanfarronice. Era um bom amigo. Emma suspirou, tinha consciência de que o iludia, alimentava sua esperança de ter um final feliz ao lado dela. No fundo, Emma o usava, ela nunca foi tão boa assim afinal.

(Ele merece, é um cretino)

Emma O ignorou, não daria espaço para Ele hoje. Hoje, ela tinha Regina.

“Fica comigo, juntas nós podemos tudo”. Aquele convite ressoava nos ouvidos de Emma, o abraço ainda ardia no seu corpo. Recriminou-se por ter tomado Regina em seus braços naquele momento, poderia tê-la machucado seriamente. Agiu por instinto, estava desorientada, parecia o certo a se fazer. E a morena a acolheu, a protegeu, a salvou do seu próprio inferno. Não foi a primeira vez. Só Regina podia fazer isso, entendê-la, resgatá-la. A conexão que havia entre elas, seja lá de onde viesse, era poderosa, única, especial.

Assim que cruzou seus olhos com os de Regina, há quatro anos, Emma soube que sua vida nunca mais seria a mesma. Soube que, de alguma forma, aquela mulher ficaria nela para sempre.

Emma sorriu, aquela noite foi realmente mágica. A vela, o pedido, aquele garotinho extraordinário surgindo à sua porta, “Oi, o meu nome é Henry, sou seu filho”. Emma nunca duvidou, teve certeza de que era verdade no mesmo instante em que ele afirmou. Aquele menino, que ela nunca havia esquecido, reapareceu na sua vida quando ela tinha desejado não estar mais sozinha. E trouxe a outra mãe consigo.

Quando viu a mulher abrir a porta e correr aflita ao encontro deles, Emma foi imediatamente arrebatada pela profundidade daqueles olhos castanhos. “Você é a mãe biológica de Henry?”. “Oi”. Emma perdeu a respiração, a beleza de Regina a desconcertou, sempre desconcertava. Perto dela, Emma ficava nervosa, não sabia o que falar, o que fazer com as mãos, era patético. Torcia para que Regina não notasse, mas desconfiava que ela se divertia com a sua confusão.

Emma demorou a perceber que havia se apaixonado por Regina. O fato de achá-la diabolicamente sexy não surpreendia Emma, não era a primeira vez que se sentia atraída por uma mulher, sua vida sexual costumava ser diversificada antes de ir para Storybrooke. Mas com Regina era surreal. Emma atribuía a força do apelo aos predicados superlativos da morena, que era absolutamente perfeita. A voz rouca, a cicatriz da boca, as linhas sinuosas do corpo bem desenhado, o estilo imponente, o cheiro inebriante. Era uma tortura.

Elas brigavam, se provocavam, e no início Emma se ocupava sobrevivendo à intensidade de Regina. Com o tempo, o desafio passou a ser viver ao lado dela. Entre bruxas, gigantes, maldições e magia, Emma se descobriu perdidamente apaixonada pela Prefeita, a que todos odiavam e temiam. Emma nunca entendeu bem a forma como as pessoas a viam, mesmo depois da quebra da maldição, mesmo depois de descobrir que Regina havia sido a Evil Queen e feito loucuras para tentar destruir sua mãe. Esta história ainda soava muito estranha aos ouvidos de Emma. Snow White, Evil Queen, Príncipe Charming. Para Emma, sempre foram Mary Margareth, David e Regina, e continuavam sendo.

Quando a maldição foi quebrada e todos se voltaram contra Regina, Emma se dispôs a defendê-la, não poderia conceber a possibilidade de vê-la ferida. Emma sabia que a ira da população tinha fundamento, mas Regina era a mãe do seu filho, tinha sofrido tanto quanto todo mundo, e certamente havia mudado. Não era mais a Evil Queen, era uma pessoa em transformação. A complexidade de Regina instigava Emma, era uma das suas características mais impressionantes. Enquanto todos viam uma pessoa perigosa e traiçoeira, Emma via uma mulher em busca de redenção, de uma chance. Regina era capaz de amar e de odiar com a mesma intensidade, era corajosa, tenaz, disciplinada, forte. Quando deu por si, Emma já a amava com todas as suas forças, como jamais se imaginou capaz. Mais um desastre na sua vida.

E assim Emma se equilibrava na corda bamba, reprimindo os desejos que nutria pela morena, já prometida ao ladrão por um pó de fada vidente. Ver Regina sofrendo por aquele imbecil destroçava o coração de Emma, ela não conseguia entender como eles poderiam ser almas gêmeas. Emma não entendia bem este conceito, mas não via nenhuma afinidade entre eles, nada a conectá-los que não fosse aquela maldita tatuagem e a esperança de uma segunda chance. Mas Regina acreditava, acreditava na magia, acreditava em Robin, queria que a história deles desse certo. À Emma só restava respeitar e lutar para que Regina tivesse o seu final feliz. Emma não poderia estar bem se Regina também não estivesse. Só assim elas poderiam seguir em frente.

Na realidade, Emma não sabia se poderia conviver com Regina ao lado de Robin ou de qualquer outra pessoa. Vê-la se derretendo para o ladrão embrulhava seu estômago. Percebeu o brilho diferente no olhar da morena quando ela e Henry retornaram a Storybrooke um ano após a quebra da maldição. O modo como ela se portava ao lado dele, insegura, tolerante, ansiosa por aprovação. Emma ficou com raiva, aquilo não era digno de Regina, não entendia por que ela se submetia. Decidiu retornar a Nova York assim que derrotassem Zelena, ela não queria estar ali para testemunhar esta relação, não tinha condições psicológicas. Mas, como sempre, o desfecho da história foi imprevisível, Emma bagunçou a vida de Regina, precisava lhe devolver a chance de ter o final feliz que tanto desejava. Mesmo que fosse com alguém que não a merecesse.

O que lhe confundiam eram os sinais de Regina. Os olhares longos, as frases dúbias, a linguagem corporal insinuante. Já pensou mesmo ter visto afeto naqueles olhos chocolate, quem sabe até amor. Muitas vezes tinha a impressão de que a morena sentia ciúmes dela, mas se convencia de que era apenas o seu estilo irônico e ácido de ser. Não queria se dar falsas esperanças, só agravaria a sua ânsia. Regina já tinha o seu amor verdadeiro, e não era ela. Este tipo de amor não é escrito em conto de fadas.

(Nós podemos mudar isso. Seria ridiculamente fácil se livrar deste palerma)

Emma suspirou profundamente. Desligou o chuveiro, não poderia ficar ali para sempre, Regina esperava por ela. Deleitou-se com o toque aveludado da toalha branca sobre seu corpo castigado. Sorriu ao ver uma calça jeans escura e a já conhecida camisa azul de seda sobre a cama do quarto de hóspedes, ao lado de um pijama de flanela listrado. Também havia um jogo de lingerie novo em uma caixa.

(Meigo)

Emma prendeu o cabelo em um coque no alto da cabeça, não se importando com algumas mechas que caíram sobre seu rosto e sua nuca. Vestiu a calça justa e macia, aspirou o aroma da camisa. Olhou para as botas ao pé da cama, achou descabido usá-las neste momento. Ao sentir o contato agradável do chão imaculado da mansão sob seus pés, decidiu ficar descalça.

Emma desceu as escadas, encontrou Regina na cozinha. Trajava um vestido azul, justo, decote canoa, cintura bem marcada. Mesmo ali, usava salto alto e batom vermelho. Emma encostou o ombro no batente da porta, mãos nos bolsos de trás da calça, admirando a elegância da mulher enquanto cozinhava, desfilando entre panelas e pratos. Sorriu, não pôde deixar de lembrar que, da última vez em que ela esteve ali, Regina pretendia envenená-la. Muita coisa aconteceu desde então.

– É esse o seu estilo casual, Sra. Prefeita? – Emma disse em tom de brincadeira no intuito de quebrar a tensão, esforçava-se para ser uma companhia agradável, não queria atingir ainda mais Regina com tudo o que se passava no seu íntimo.

Regina sorriu com o canto da boca, deliciada pela admiração que Emma tentava, sem êxito, disfarçar.

– Esse é o meu estilo “jantar acompanhada”, Miss Swan.

Emma olhou para os próprios pés.

– Hum, acho que não estou apropriadamente vestida então.

Regina se virou, examinando Emma de alto a baixo sem pressa, o corpo definido se destacando sob a roupa justa. Sorriu com um brilho no olhar.

– Digamos que você está autêntica.

– Tomarei como um elogio.

– Certamente – Sustentou o olhar de Emma por mais um segundo, virou-se para a travessa que havia colocado no balcão da pia – Espero que você goste da minha torta de carne. Henry adora, então acho que é compatível com o paladar infantil – Sorriu provocativa. Emma sorriu de volta.

– Hoje eu comeria até a sua torta de maçã.

Regina riu alto, surpreendendo Emma, que prendeu a respiração. Nunca a tinha visto rindo deste jeito, franca, solta. Emma sentiu o coração acelerar, ela conseguia ficar ainda mais linda. Sem se dar conta, Emma se materializou ao lado de Regina, que se limitou a arquear uma sobrancelha diante do deslocamento inusitado. Emma não sabia o que fazer em seguida, queria mesmo era abraçar a morena, dizer que a amava, que sim, queria ficar com ela, mas de todas as formas possíveis.

– Quer ajuda? – Foi só o que pôde oferecer, encarando os olhos chocolates. Preciso me controlar, reforçou para si mesma.

– Bom, você pode levar esta travessa para a mesa. Pensei em abrir um vinho, mas talvez não seja a melhor oportunidade.

– Hoje não – Emma respondeu, não poderia baixar a guarda – Mas espero que este convite se repita – Acrescentou, para se martirizar em seguida. Por que diabos eu disse isso?

Emma saiu apressada da cozinha, evitando olhar para Regina. Ajeitou a travessa sobre a mesa quadrada, já posta. Sentaram-se em lados contrários. Emma provou a torta.

– Henry falou a verdade a respeito da sua comida – Disse, subitamente alegre.

Regina levantou uma sobrancelha.

– E que verdade seria essa?

– Que é a melhor do mundo – Emma respondeu, dando de ombros, sorriso maroto, expressão igual a do filho. Regina riu em resposta, genuinamente lisonjeada, e mais uma vez Emma se emocionou.

(Linda)

(O ladrão é um homem de sorte, não é mesmo?)

Emma fechou o semblante, cala a boa seu maldito! Levantou-se, punhos cerrados.

– Regina, desculpe, eu preciso me retirar.

Preocupada, Regina se aproximou de Emma, fez menção de tocar sua mão, mas a loira se retraiu.

– Você sabe que pode me falar tudo, não sabe? Não precisa me poupar.

Emma assentiu com os olhos brilhando, mas nada disse. Regina pegou os pratos e se dirigiu a cozinha. Quando se inclinou sobre a pia, Emma notou um hematoma próximo à sua nuca. Em um piscar de olhos, Emma surgiu atrás dela, corpos quase colados. Regina permaneceu imóvel, respiração levemente alterada.

– Você está ferida – Emma finalmente disse, voz grave, lábios próximos ao ouvido de Regina.

– Tivemos bastante ação nas últimas horas – Regina respondeu, a voz subitamente fraca – Não é nada demais.

– Deixe-me ver.

Regina assentiu em silêncio. Emma abriu o zíper do vestido devagar, a pele da morena se eriçava à passagem da sua mão. Emma sentiu um aperto no coração ao ver as costas expostas de Regina. Um enorme hematoma se iniciava na lombar e subia em direção ao pescoço, tomando-lhe boa parte do tronco. Havia uma ferida quase aberta em um ponto próximo ao ombro. Emma fechou os olhos, o sangue ferveu.

Você vai pagar por isso.

Emma inspirou profundamente, afastou um pouco mais o vestido, pousou a mão esquerda com delicadeza na altura da barriga de Regina.

– Vou te curar.

Regina manteve os olhos fechados. Emma passou a mão direita a poucos centímetros da pele machucada da morena, sentido o calor transitando entre as células, a efervescência causada pela agitação das moléculas. Em pouco tempo, a magia começou a circular pelo corpo de ambas, as consciências se confundiram, e Regina chorou. Emma a enlaçou com ambos os braços, puxou seu corpo contra o dela, pousou a cabeça na sua nuca e se deixou ficar. Regina apertou os braços de Emma com os seus, sentindo o toque do corpo forte da loira sobre a pele sensível das suas costas. Imergiram na sensação de pertencimento, seus corpos aquecendo na velocidade da respiração, até que foram subitamente despertadas pelo toque insistente da companhia.

– Regina!

Era Robin Hood.

Notas finais
Só digo uma coisa: esta noite será longa. Muito longa.