Notas iniciais
Pois é, a ideia é escrever uma Regina bem mais dramática do que aquela que apareceu nos spoilers da 5a temporada. Afinal, aqui todas as ideias são livres. Por favor, me digam se estou em um bom caminho. Beijo.

Alguns curiosos começavam a se aglomerar em torno do grupo e, para evitar especulações, eles decidiram ir para o apartamento de David e Snow. Henry já estava lá, assim como o pequeno Neil. Com cuidado, Regina contou o que havia acontecido com Emma, temendo a reação de Henry, mas o garoto, apesar de nitidamente preocupado, demonstrou segurança.

– Eu não queria que ela tivesse feito isso, Henry, eu não queria. Mas não pude evitar. – Regina disse com o olhar cabisbaixo. Não queria que o filho visse suas lágrimas.

Henry sorriu compreensivo, tomando as mãos de Regina entre as suas.

– Eu sei, mãe. Eu entendo a minha mãe. Ela agiu certo. Nós somos uma família e protegemos uns aos outros. E não se preocupe, nós vamos encontrá-la. – Abraçou Regina, na tentativa de apaziguar o seu coração aflito.

– É claro que nós vamos encontrá-la, meu príncipe. E vamos ajudá-la a sair dessa. – Regina disse, tentando passar confiança para Henry.

Hook, jogado em uma poltrona, olhava para a cena com desprezo. Sentia-se preterido. Ele era o maior prejudicado, era o amor verdadeiro dele que tinha sido subtraído, mas ninguém lhe dava atenção, todos faziam questão de consolar Regina.

– Você quer mesmo ajudar, Regina? – Hook se levantou repentinamente, aproximando-se da morena com olhos injetados. – Então nos faça um favor, fique longe da Emma! Porque quanto mais vocês se aproximam, mais ela corre perigo! Ela está sempre arriscando a vida por sua causa! – Ele se inflamava cada vez mais, até ser interrompido por David, que se colocou entre o pirata e a rainha.

– Você está dizendo bobagem, Hook. Emma faz as próprias escolhas e é a única responsável pelos seus atos. Ninguém tem culpa do que houve. – Encarou o pirata, preocupado com a expressão que tomava o seu rosto. – Não há nada que possamos fazer hoje, Belle prometeu nos ligar assim que Rumple acordar. É melhor você ir embora, está muito nervoso. Falaremos amanhã cedo.

Hook olhou ainda mais irritado para David. Então é isso, todos preferiam Regina.

– Esperar até amanhã? Sabe-se lá o que pode acontecer com Emma até amanhã! Nós temos como encontrá-la imediatamente, é só invocá-la! – Aproximou-se da mesa onde estava depositada a adaga e fez menção de tomá-la para si, mas Regina chegou primeiro.

– Invocar Emma? Fazê-la sentir como é estar sob o domínio da adaga? Nem pensar, não vamos submetê-la a isso. – Regina disse, entregando a adaga a David.

– Mas não foi esta a escolha que ela fez? — Hook retrucou, irônico. – Quanto mais cedo ela encarar a realidade, mais cedo irá se acostumar. Não sabemos o que ela é capaz de fazer consigo ou com outras pessoas, é melhor que ela fique sob os nossos cuidados!

– Não, Regina tem razão. – Snow interveio. – Não vamos invocar Emma. Nós a encontraremos de um modo menos traumático. É melhor mesmo você ir, Hook. Nós sabemos onde te encontrar caso haja alguma novidade.

Hook sustentou o olhar de Snow por alguns segundos, virou as costas e foi embora a passos pesados. Regina se sentiu subitamente fraca. Será que o pirata tinha razão? Será que ela só fazia mal à Emma? Fechou os olhos com força, tentando espantar o pensamento incômodo. Ela não podia se preocupar com isso agora, precisava fazer alguma coisa.

– Vou procurar alguma informação que possa nos auxiliar a encontrar Emma. Henry, por favor, fique aqui com os seus avós. – Regina disse, dirigindo-se até a porta.

– Eu vou com você. – Robin se adiantou, assustando Regina, que havia se esquecido do ladrão. Ela se sentiu subitamente incapaz de suportar a presença dele. Ela não podia, ou melhor, não queria focar em nada que não fosse Emma neste momento.

– Obrigada, mas eu preciso ficar sozinha. – Disse sem cerimônia, em um tom de voz que não permitia questionamento. Robin demonstrou surpresa, mas não disse nada. Assentiu com expressão triste, depositou um leve beijo na testa de Regina e foi embora.

Regina foi até a sua cripta, começou a procurar livros que pudessem esclarecer o que houve com Emma, mas não conseguia se concentrar. A cena da loira sendo tomada pela escuridão não saída da sua cabeça. Olhou para o sofá no qual ela e Robin passaram a noite há não muito tempo. Parecia que tinham se passado séculos. A cena que antes lhe aquecia a esperança, agora nada mais era que uma lembrança esmaecida, perdida em um canto da sua mente atormentada. Nada mais tinha importância a não ser Emma. Sentiu-se repentinamente desconfortável no lugar, decidiu ir embora. Em um rápido gesto, transportou-se até a sala de estar da sua mansão. Olhou para a garrafa de cidra, mas decidiu pelo whisky. Não tem nada mais forte?, Emma lhe dissera anos atrás, quando se conheceram. Naquela fatídica noite, Regina achou que a loira seria o seu fim. De certa forma, foi mesmo.

Regina tomou o destilado em um só gole, servindo-se de mais uma dose generosa. Lembrou-se daquele dia que passaram na Floresta Encantada, vivendo o novo e bizarro enredo que o Autor havia escrito. Cada sensação, cada momento ainda pulsava, fazendo com que Regina encarasse a verdade que tentava a tanto custo ignorar. O fato é que, lembrando dos sentimentos puros que permitiu fluir naquela realidade paralela, Regina teve ainda mais certeza de que, seja lá o que ela tenha com Robin, ninguém lhe é mais caro do que Henry e Emma. Do que Emma e o filho delas.

Embora sem o refinamento de que tanto se orgulhava, Regina gostou da sua versão “fora da lei”. Gostou da mulher que se tornara sem crescer sob a tortura da sua mãe, sem a influência sombria de Rumple, sem o ódio, sem a sede de vingança que norteou sua vida por tantos anos. Nesta curta história, Regina foi a mulher livre que sempre desejou ser, embora ainda rodeada por circunstâncias desfavoráveis. O que não era nenhuma novidade. As circunstâncias sempre lhe foram desfavoráveis antes de encontrar Henry e Emma.

Mas a inocência daquela Regina desprovida de amarras lhe permitiu perceber seus sentimentos com mais clareza. Regina lembrou de como ficou confusa com a sensação de familiaridade que Henry lhe despertou imediatamente. A Regina “fora da lei” nunca tinha visto aquele menino, mas foi tomada por uma vontade enorme de abraçá-lo e protegê-lo. Regina quase riu ao lembrar de como tinha atribuído aquele estranho ímpeto à carência, de ter achado que estava perdendo a sanidade. Ela carregava consigo a sensação de que vivia sozinha, escondida na floresta, desde sempre. Seu passado era uma vaga lembrança, como uma história mal contada e nunca questionada. E então aquele garoto apareceu lhe chamando de mãe, contando uma história maluca sobre tatuagem, alma gêmea e amor verdadeiro. Aquela Regina também achava que nunca teria um final feliz. E então o persuasivo garoto lhe apresentou Robin Hood como seu amor prometido. E lhe deu esperança, que se desvaneceu assim que ela descobriu que o ladrão estava prestes a se casar com outra mulher. A Regina “fora da lei” ficou irritada por ter acreditado naquela bobagem e quase feito um papelão na frente de todo mundo. Tratou de espantar aquele garoto perigoso, que partiu em uma missão impossível, salvar a “outra” mãe, presa pela rainha má em uma masmorra impenetrável. É, tinha esta história também, ela dividia o filho com outra mulher, e não havia um pai envolvido na relação. Regina ficou intrigada e, por mais que tivesse tentado, não conseguiu tirar o garoto e a outra mãe da cabeça. Flagrou-se desejando que ele tivesse êxito, pois prometeu voltar. E ele voltou. Incrível, aquele garoto era mesmo incrível. Retornou trazendo a outra mãe, com seus olhos verdes desconcertantes.

Regina, a loira falou, analisando o ambiente, e a morena se arrepiou com a intimidade daquela voz dizendo seu nome. Você deve ser a outra mãe, Regina disse, tentando disfarçar o nervosismo. Mas se arrependeu. A linda mulher cravou os olhos nela e a prendeu. Dejavu. Elas se conheciam muito bem, Regina sentiu com todas as células do seu corpo, mas lutou contra aquela perturbadora sensação. A loira era tão maluca quanto o filho, disse que ela precisava ir atrás de Robin Hood, reclamar o afeto da sua suposta alma gêmea. Aquilo lhe pareceu ridículo. Ela não iria interromper um casamento para dar um beijo “de amor verdadeiro” em um homem que ela vira uma única vez na vida para quebrar uma suposta maldição e ter seu final feliz. Esta história não fazia o menor sentido, ela não precisava de um homem para ser feliz.

Mas então Emma lhe invadiu a alma com olhos tristes e marejados, disse que havia perdido o homem que amava e que só poderia tê-lo novamente se Regina acreditasse nela. Regina sentiu uma indecifrável pontada no peito e se rendeu ao apelo. A loira precisava dela.

Foram os três até a igreja, mas Regina continuava hesitante com a estratégia do beijo de amor verdadeiro. Tinha o pressentimento de que não iria dar certo. Não queria entrar na igreja, o que iria dizer? Acho que neste caso ações falam mais alto do que palavras, Emma a encorajou. Regina engoliu em seco, aquilo era loucura. Ela não queria ir. Foi quando percebeu o rosto da loira ser tomado por uma emoção indefinida e contraditória. Tristeza? Dor? Satisfação? Regina ficou alerta. Algo muito importante acontecia, a loira parecia estar em conflito. Você não se lembra, mas um dia eu prometi que lhe ajudaria a ter o seu final feliz. Estou contente por estar aqui para ver isso, ela disse, e Regina se sentiu estranhamente decepcionada. No fundo, esperava que a loira desistisse da ideia. Mas logo as coisas se tornaram ainda mais confusas, pois Rumpelstiltskin, que supostamente era um cavaleiro branco, apareceu para impedi-los. A corajosa Salvadora começou a lutar com o cavaleiro e Regina correu até a igreja, abriu a porta, seus olhos cruzaram com os de Robin, mas apesar do sorriso que ele lhe deu, ela resolveu olhar para trás. Neste momento, a loira jazia desacordada e Rumpelstiltskin estava na iminência de matar o menino. Regina simplesmente não suportou esta ideia. Sem titubear, correu em direção a eles e se colocou entre Henry e a espada. Sentiu a lâmina cortar sua carne, ouviu o grito de Henry, a loira chamou seu nome em desespero. Sua visão escureceu e Regina sentiu que estava morrendo. Não se arrependeu, morria por aquele garoto e aquela mulher que, ela agora tinha certeza, faziam parte dela. Pouco tempo depois, Regina acordou em Storybrook, com Henry ao seu lado. Ele era o novo autor. Eles tinham conseguido. Eles tinham vencido mais esta luta.

Regina lembrou de como tinha procurado Emma com os olhos, emocionada, ansiando mais do que nunca abraça-la. Mas ela já tinha saído em disparada atrás do pirata e Regina, ressentida, procurou consolo nos braços de Robin. Aquela experiência tinha sido esclarecedora para a Rainha, mostrou que Henry e Emma eram a sua mais forte conexão com o mundo e com o que havia de melhor nela. Mas Emma parecia não sentir o mesmo por Regina. Apesar de alguns poucos indícios de reciprocidade, a Salvadora nunca sustentou seu olhar senão quando elas brigavam. Regina tinha a impressão de que Emma fazia questão de manter uma certa distância entre elas.

Regina piscou os olhos ardidos, despertando do seu devaneio. A garrafa de whisky estava no fim e a morena foi tomada pelo torpor. Anestesiada, deixou-se levar pela exaustão e dormiu no sofá, embalada pela lembrança do sorriso doce que faria de tudo para reencontrar.

Notas finais
Essa foi realmente a interpretação da Bandit Regina do último capítulo da 4a temporada. E é também a reação que eu espero que ela tenha. Se não aparecer, acredite, aconteceu off screen. 8-)