Por trás de Frozen
11 Capítulo 10 - E Arendelle?
Notas iniciais
POV LUDVIG
Após a menina Anna ir embora em seu cavalo a alta velocidade, fico em estado de choque. Ouço relativamente alguns gritos e xingamentos por parte dos cidadãos de Arendelle, mas tudo parece muito longe de mim — inclusive a neve que cai em minha cabeça e ombros. A maioria dos cidadãos abraça a si mesmo numa tentativa de se esquentar, mas há um vento frio tão forte que não sei se adianta alguma coisa.
Eu deveria ter previsto isso, não deveria? Afinal, eu fiquei responsável pelas meninas. Sabia que tudo isso seria absurdamente difícil para elas – talvez nem tanto para a Anna, mas principalmente para Elsa. O Rei de Arendelle me pediu isso com propriedade antes de embarcar naquele navio. “Se algo acontecer a nós, cuide das meninas. Especialmente de Elsa. Tome conta para que ela não saia de seu quarto mais do que necessário”. Apenas assenti, rindo daquela alternativa de que algo ruim pudesse acontecer com o Rei Agdar e a Rainha Idun.
Agora, as duas estão fora do meu alcance, sabe-se lá onde nessa nevasca horrível. Meu corpo se curva com o tamanho da culpa que sinto em minhas costas, e meu coração bate dolorosamente, com um medo que faz meus pelos eriçarem.
O que será das minhas meninas, daquelas crianças – sim, crianças – vagando por aí? O que será de Arendelle, completamente desolada?
— Não se preocupe, bom senhor. – diz o tal Príncipe Hans, colocando uma de suas mãos em meu ombro enquanto tento respirar devidamente. Uma dor latejante começa em minha cabeça, e me sinto um pouco tonto. – Enquanto eu estiver no comando, Arendelle estará em boas mãos.
Encaro-o, mal conseguindo focar seu rosto. Apesar disso, percebo que está sorrindo para mim, provavelmente numa tentativa de me tranquilizar. Mas quem sorriria em uma situação dessas, pelo amor de Deus? Em especial, quando sua “noiva” acaba de adentrar em uma aventura na neve, sendo que nunca saiu nem de seu próprio castelo?
— Será que eu deveria ir atrás delas? – balbucio para mim, tentando conter minha voz trêmula. – Que diferença eu faria ante a personalidade forte daquelas duas? Meu Deus, que situação horrorosa.
— LUDVIG! – ouço a voz da minha esposa chamar em pânico, e identifico o choro destrambelhado de Jorgen quando viro o rosto para trás, o pânico fazendo meu coração bater tão forte que o sinto na garganta, e penso em tudo o que pode ter acontecido.
Será que alguém se machucou? Alguém foi congelado?!
Levanto-me num sobressalto e procuro por ela, tentando deixar meus sentimentos terríveis de lado. Por fim, ela está em pé, tremendo e com o rosto sem cor ao lado da fonte.
— Querida. – e abraço-a forte, tentando encontrar força para nós dois, enquanto tomo cuidado para não machucar Jorgen, que continua a chorar. Ela e Jorgen parecem bem, mas não encontro Daven e Sigrid, e isso faz meu estômago embrulhar. – O que aconteceu?!
Me afasto e a encaro, mas ela olha para frente, consternada e com os olhos arregalados.
— Eu... Eu... E ela veio com o rosto cheio de pânico, e aí... – ela respira fundo, tentando continuar a falar, e meu nervosismo é palpável. — E então... Foi aí que... que eu perguntei se estava tudo bem... E ENTÃO A FONTE CONGELOU! – ela aponta para a fonte enquanto sua voz se descontrola. – E o chão! – aponta para o chão. – E tudo congelou, e um vento terrivelmente gelado e forte nos atingiu e Jorgen começou a chorar e me afastei da Rainha que fugiu e Anna correu atrás dela e então... Meu Deus, nunca imaginei que a Rainha fosse uma bruxa! – Jorgen chora ainda mais alto e ela parece deixar um pouco as lembranças de lado enquanto o balança no colo. Ela mexe a cabeça, inconformada. — Ah, Lud, foi terrível!
— Sim, Tyra, eu sei, mas está tudo bem com as crianças? – minhas mãos começam a tremer, e não é de frio. — Onde estão Sigrid e Daven?!
— FOI MUITO LOUCO! – me encaminho para o outro lado da fonte e vejo um Daven de olhos e rosto brilhantes contando a história com encenações absurdamente dramáticas. Me seguro para não cair no chão de alívio. – A Rainha veio, shipáá, correndo e olhou para mamãe com o rosto cheio de medo assim – e fez uma careta para demonstrar a outras crianças que vieram para perto a fim de ouvir sua história. -, e aí, crec crec, a fonte congelou e alguns fizeram ooohhh! e outros fizeram aahh!, gritando mesmo, mas claro que não gritei porque sou muito corajoso, e começaram a apontar para ela dizendo um monstro, uma bruxa!, e quando eu estava prestes a ir até ela, ela saiu, shipáá, correndo novamente deixando um rastro de gelo para trás.
— Uau. – uma menininha que deve ter a idade do Daven olha para as próprias mãos, como se esperasse gelo sair delas. – Eu queria poder congelar as coisas!
— Demais, não é?! – continua ele, olhando para ela e para as outras crianças. – “Sou a Rainha Elsa e faço gelo, pshhh!” – e abre as mãos na direção das crianças, como se as congelasse, e elas riem e gritam.
Oh, céus. O que eu daria para ser criança novamente e não conseguir enxergar a gravidade da situação.
— Daven, pare com isso. Tudo o que você fez foi gritar como uma menininha. – diz uma Sigrid que, mesmo com o rosto voltando a ter cor aos poucos, tenta se recompor e manter a ordem. Uma nova onda de alívio me invade — graças a Deus, ela está bem. Entretanto, percebo com o coração falhando, ela parece muito fraca e ainda mais branca do que já é.
— Mais respeito pela Rainha Elsa, Daven. Você não sabe pelo que ela passou – eu digo, depois de ter pego uma cadeira para acomodar minha esposa. Ele bufa e vem até a mim, juntamente com Sigrid. – Sigrid, você está bem? Parece fraca, filha.
— Estou bem. Estou só com muito frio. – ela estremece e bate os dentes.
— Mais respeito pela Rainha Elsa?! – uma voz já infelizmente familiar se coloca acima das outras, trazendo a atenção de todos para nossa conversa. – Respeito por uma bruxa?! Respeito por um monstro que deixou o reino dela à mercê do gelo?!
— Com licença, Duque de Weselton. – intervém respeitosamente o Príncipe Hans, que subiu com cuidado na fonte para chamar atenção. – Mas Arendelle está sob os meus cuidados, não à mercê do gelo.
— Tá, tá, dá na mesma. – retruca o velho, enquanto reviro os olhos. Vai ser uma longa noite. E gelada, acrescento para mim mesmo. – Mas como podemos respeitar uma mulher assim?
— Eu concordo! – grita um cidadão que reconheço como o padeiro. – Depois de tantos anos sem um governante oficial, depois de tanta expectativa para, finalmente, ter uma Rainha, como ela pôde nos deixar?!
— E, pior que isso – continua o sapateiro do reino. -, no mesmo dia da coroação!
— E não só a “Rainha” Elsa nos deixou, como também a Princesa Anna! Que tipo de família é essa, que se esconde do seu povo durante toda a sua vida e foge na primeira oportunidade? – intervém uma servente do palácio.
As vozes transbordam raiva e inconformidade, e em algumas o sentimento de injustiça e repulsa é tão palpável que até me causa arrepios. É como se toda a alegria que senti Arendelle expressar antes da coroação tivesse se transformado em sentimentos contrários. A atmosfera é pesada e fria, assim como a neve que cai em nós, despreparados para recebê-la. Tenho a impressão de todos estarmos pisando em um território delicado, de gelo fino e, se algo errôneo acontecer, como todos se colocarem contra a Rainha Elsa e a Princesa Anna, ele quebrará.
E, com ele, toda a Arendelle.
O povo continua gritando e discutindo, emitindo opinião por todos os lados. Jorgen continua a chorar. Daven e outras crianças recomeçam a brincar. Meu coração continua a despencar enquanto luto para sair desse estado hipnótico que não me deixa pensar bem.
— Estamos perdidos!
— Perdidos em todos os sentidos!
— O que vamos fazer agora?
—... só pode ser bruxaria!
— Deve ter um motivo por trás disso! – ouço Gerda, a governanta do castelo, falar. Assim como eu, ela sempre cuidou das meninas, e entende que elas nunca fariam uma coisa dessas se tivessem pensado em outra alternativa. – Conheço a Rainha Elsa! Ela estava apavorada, assim como a Princesa Anna! Tenham dó das garotas!
— É verdade! O Rei e a Rainha sempre nos reinaram com sabedoria. Tenho certeza de que a Rainha Elsa continuará o legado!
— Se ela estivesse aqui, talvez...
— Se ela não congelar a todos, talvez...
— Por favor, me escutem!
— O que é Arendelle sem a governança da família do Rei e da Rainha?
— Qual o futuro desse lugar?
— Ai, meu Deus!
— E nosso trabalho no palácio?
— Quem nos representará?
— Podem me escutar, por favor...?!
—... e correu como se não tivesse nada e nem ninguém para sustentar!
— Que vá para bem longe, não desejo ser governado por uma bruxa!
—... aceitou se casar no mesmo dia, suas opiniões não são muito confiáveis...
— Povo de Arendelle, vocês poderiam... Ei!
— Nunca ouvi falar desse Príncipe...
— É A CRISE!
— É o apocalipse!
— É a crise apocalíptica!
— Fora, Rainha Elsa!
— ME ESCUTEM! – o Príncipe Hans grita tão alto que seu eco ressona por todos os cantos, agora congelados, da vila em que o povo de Arendelle debate desesperadamente seu futuro. A maioria para de falar e olha em sua direção. Satisfeito, toma a compostura e continua a falar. – Olhem ao redor de vocês. – percebo a tristeza de todos ao olhar o chão, as casas e as montanhas congeladas em pleno verão. Trememos enquanto flocos de neve caem constante e pesadamente do céu e o vento gélido belisca nossos rostos. – Essa situação continuará se não mantermos a calma e bolarmos um plano. A Princesa Anna me deixou no comando e, assim, convoco uma reunião de urgência no castelo com aqueles que têm contato com os negócios de Arendelle. Peço que voltem às suas casas. Em breve, voltarei com notícias, cobertores e comida quente para aquecer a todos. Vocês não estão sozinhos. – ele olha para cada cidadão tão firmemente e tem uma voz tão plácida que até eu começo a acreditar que, no fim, tudo não terminará em desastre. Mas tem algo nele que... Talvez suas costeletas... Não sei. – Tudo se resolverá, de uma forma ou de outra.
Ao terminar, o povo se cala por uns momentos antes de voltar à baderna, e o Príncipe se dirige ao castelo. Fico pensando naqueles que deverão resolver esse terrível problema em que a vida nos colocou. Pobres homens.
— Querido... – minha esposa chama, agora mais recomposta. Seus olhos ainda estão arregalados de medo, mas ela acaricia gentilmente o rostinho de Jorgen, mais calmo, enquanto fala comigo.
— Sim?
— Você deve ir.
— Oh. – meu coração começa a bater rápido novamente. Tudo o que eu queria era entrar em casa e proteger minha família do modo que pudesse, mas isso era impossível nesse momento. Lembro-me do rosto do Rei quando me pediu para cuidar das meninas e, consequentemente, de Arendelle, do modo que pudesse. Mesmo que fosse completamente desamparado, despreparado e confuso.
Olho para minha esposa, de modo que ela entenda tudo isso, e ela apenas acena com a cabeça.
— Vá para casa com as crianças, Tyra, está muito frio aqui. – digo, beijando a testa de cada um. — Volto o mais rápido possível.
— Não se preocupe, Lud. – ela sorri e se levanta, acompanhada de Daven e Sigrid.
— Ai. – minha menina pisa em falso e cai no chão, e o mais rápido possível a pego no colo para levá-la para casa. Ela treme muito.
— Já vamos chegar, filha. – digo, com o coração apertado e embrulho no estômago, preocupado. Meu Deus, como um dia que prometeu ser um dos melhores da vida de Arendelle pode ter se tornado esse pesadelo?
Depois de deixar Sigrid em casa, dirijo-me o mais rápido possível para o castelo. É impressionante como o cenário mudou em alguns minutos. Tudo adquiriu um tom azulado e obscuro, e o frio que sinto é tão grande que acho que todos os casacos que possuo não poderiam me deixar quente – meus músculos parecem travados, meus dentes não param de bater e o vento forte está me causando uma dor de cabeça lancinante. Esse frio não é o natural do inverno de Arendelle, e me preocupo que possa deixar muitos cidadãos doentes. Esse frio, percebo com pesar, foi causado por Elsa.
Elsa. Pela primeira vez, penso sobre o que aconteceu, e parece loucura. Um pesadelo seria a única forma de explicar tudo isso. Como é possível que ela tenha poderes que controlam o gelo? Eu a conheço desde bebê. Como pude não perceber isso? Como ninguém pôde perceber isso?!
Então, a óbvia resposta me atinge junto com uma nova onda de dó e desespero.
É claro. Ela se escondia em seu quarto por esse motivo. Por isso ela não conversava e nem falava com ninguém. Ela tinha medo do que o próprio poder podia fazer. Oh, pobre menina Elsa!
Desde quando isso acontece, não sei. Nem o porquê. Mas tudo o que me interessa neste momento é o quanto a pobre garota deve estar assustada e aflita.
Se ela fez tudo aquilo de propósito apenas para não governar? Não, obviamente não. Eu posso não ter visto seu olhar de pânico quando congelou a fonte, mas o vi no castelo quando brigava com a menina Anna. E aquilo cortou meu coração de tal forma que quis correr até ela e dizer que não precisava se preocupar, mas era impossível. Além de eu ter ficado alguns minutos no salão para acalmar o pessoal, eu mesmo estava com receio de me dirigir até Elsa, que parecia estar tão desesperada por ficar sozinha que não me atrevi a ir atrás dela.
Agora, Anna. Como ela se sentiu? Que coração quente deve ter aquela garota para ir atrás da irmã que a isolou por tantos anos.
Que dupla incrivelmente afetada e ferida pelo destino.
Sou recebido no castelo por mais uma corrente gélida, como aquela que sentia vir do quarto de Elsa, e conduzo Hans e os outros até a Sala do Rei para discutirmos.
Junto comigo, estão Gerda, o Duque de Wisentown e os representantes diplomáticos da Alemanha, França, Irlanda e Espanha. São os negociantes mais próximos de Arendelle.
— Obrigado por virem. – inicia Príncipe Hans diplomaticamente. – Estamos aqui para tentar encontrar uma solução de primeira instância para...
— É UM ULTRAJE! – interrompe o Duque, ignorando completamente o Príncipe. — A Rainha Elsa deve se retirar do poder e alguém competente e não-bruxo deve exercê-lo. Como parceiro comercial mais próximo, acredito que eu...
— Essa não é a questão em pauta, Duque – corta Hans com os dentes cerrados. – O que viemos discutir é o que fazer com Arendelle. Não é a fuga de Elsa, nem seus poderes, nem o futuro comandante do lugar.
O Duque bufa e penso como Príncipe Hans parece calmo demais para alguém que, subitamente, tornou-se responsável pelo comando de todo um Estado. E não, não é a personalidade dele – se fosse, teria esperado mais para pedir Anna em casamento. Hum.
— Sugiro, como uma primeira medida, que estoquemos toda a comida possível, assim como distribuirmos cobertores e alguma comida quente para a população – continua o Príncipe. – Depois, vamos lidando com os problemas que aparecerem. Tentar manter o povo aquecido e satisfeito é a minha... nossa prioridade.
— Mas e a Rainha Elsa e a Princesa Anna? – intervém Gerda. – Não podemos deixá-las.
— Elas se resolverão. Tenho plena confiança na Princesa Anna. – responde Hans.
— Mas... – tento dizer, com o coração na mão. Como ele ousa deixá-las à deriva quando mal sabem andar para fora do castelo?! Uma pequena centelha de raiva começa a borbulhar em mim, mas me contenho.
— Então está decidido. – Hans se afasta em direção à porta. – Vou conversar com a população para acalmá-los. Você – ele aponta para mim. –, compre toda a comida possível e você – aponta para Gerda – a distribuirá com ajuda de outros serventes. Os representantes diplomáticos, por favor, peçam cobertas às criadas e também que o Grande Salão seja organizado para receber o povo. Digam que o Príncipe Hans ordenou.
“O Príncipe Hans ordenou”... Olho para Gerda, pedindo que entenda o meu desgosto por esta criatura, mas ela parece muito entretida no que ele diz.
— E eu? – pergunta o Duque.
O Príncipe olha para trás com um olhar petulante na direção do Duque.
Talvez ele não seja tão ruim assim.
— Como o parceiro comercial mais próximo de Arendelle, sugiro que volte para Wisentown...
— WESELTON!
—... e peça ajuda à população de lá. – completa Hans.
O Duque tenta argumentar com Hans e eu e Gerda, o mais rapidamente possível, nos dirigimos para fora do castelo.
— Que situação horrível para nossas meninas, Gerda. – eu digo com pesar.
— Não podemos pensar nisso. Elas são garotas fortes. Com certeza continuarão preocupadas com Arendelle, principalmente a Rainha Elsa. Talvez ela só precise de um tempo. Mal sabia eu que tinha poderes com o gelo, é inacreditável...
— Eu sei! Ela...
— Com licença! – chama uma garota que vem em nossa direção de mãos dadas com um jovem, ambos tremendo de frio. Reconheço-a como a Princesa de Corona Rapunzel e seu esposo, e paramos para recebê-los.
— O que podemos fazer por vocês? – pergunto com uma reverência.
— Nós é que fazemos essa pergunta a vocês. – a garota responde, sorrindo e com o olhar preocupado.
— Gostaríamos de ajudá-los no que fosse possível. – complementa o jovem José. – Eu tenho algumas panelas que trouxe.
— José, pare de falar nas panelas! – olho de soslaio para Gerda, que parece conter um sorriso. – Enfim, posso enviar uma carta para meus pais pedindo auxílio e também temos quatro guardas que vieram conosco para nos escoltar até aqui. Eles, assim como nós, estamos a seu serviço.
Observo aquela garota que parece transbordar bondade mesmo no seu estado mais preocupado. Sorrio um pouco.
— Agradeço que tenham confiança na Rainha Elsa e na Princesa Anna, senhores. – respondo. – Mas acredito que vocês estariam mais protegidos se retornassem a seu reino.
— De jeito nenhum! – ela responde, e seu esposo tem o mesmo olhar determinado. – Elsa e Anna são minhas primas, e me sinto na obrigação de ajudar. Não é, José?
— Isso mesmo, loura. Ah, morena. – ele bate na própria cabeça e ela sorri um pouco.
— Se assim desejam – responde Gerda, com uma mesura. -, ficaríamos gratos se pudessem ajudar a distribuir cobertores e comida. E, principalmente, se conseguem animar o povo nesse estado desesperador em que se encontram. Tentar transformar a tristeza em ao menos um pouco de alegria. Apenas peço que, antes, se dirijam ao Grande Salão para pegarem roupas que os aqueçam. Imagino que não tenham trazido muita bagagem.
— Se tem uma coisa que Rapunzel faz bem é transformar as pessoas – José a encara e ela sorri, envergonhada. Depois, ele se volta para nós. – Pode deixar, capitão! E capitã!
— Obrigada por nos deixar ajudar! Toda história merece um final feliz. E, se eu consegui sair daquela torre após dezoito anos e descobrir que sou uma Princesa e até me casar com ele, tudo é possível!
Eles riem e se afastam, enquanto Gerda e eu nos apressamos em direção ao mercado. É terrível em ver como até a maioria dos alimentos foram congelados e alguns, inclusive, estragados.
Pegamos o que foi possível carregarmos e, ao chegarmos no caixa, um moço loiro está discutindo com o pobre dono do mercado.
— Como assim não tem cenouras? Me mandaram buscá-las aqui ontem mesmo!
— Todo o estoque estava do lado de fora do mercado, senhor, e foi congelado. Está inútil.
Toda a cabeça do jovem está coberta com uma touca e cachecol pretos, menos os olhos e alguns fios dourados de seu cabelo. Ele olha para uma rena que está na porta do mercado e que, se meus olhos não me enganam, parece triste.
— Argh, mas que droga! – ele bate nos joelhos e se apoia em algumas caixas de batata. — Já não basta agora ter gelo pra dar e vender, ainda não tem cenouras...
Reconheço o jovem de algumas vezes em que o encontrei pela vila, mas sei que não mora aqui. Já me perguntei quem é e de onde veio mas, sempre que aparece, some rapidamente. Tudo o que sei dele é que possui uma rena, sua companheira inseparável.
— Sinto muito, senhor. Mas sei de um local que pode ter cenouras aqui por perto.
— Sério? – pergunta o jovem, interessado.
— É... Não tão perto assim, na verdade. Fica umas duas horas de viagem a cavalo daqui.
Ouço um relinchar de rena cheio de pesar.
— Sven, amigo, terá que aguentar até chegarmos nesse lugar. Qual o nome, senhor? – pergunta, virando-se para o dono do lugar.
— Chama-se Armazém do Carvalho Errante e Spa. O nome do dono é Oaken. Você saberá que é ele quando citar oferta e procura. Ele adora economia. – e balança os ombros, parecendo inconformado.
— Obrigado. – o rapaz retira a touca num gesto de cumprimento e a coloca de volta enquanto sobe em sua rena em direção a tal armazém.
— Não há de quê. – responde o dono ao colocar em caixas de madeira a mercadoria que passo a ele. – Que frio terrível, hein?
— Que situação terrível, você quer dizer. – ajeita Gerda.
— Na verdade, não. Acredito que as coisas têm um motivo para acontecerem. Todas as nossas perguntas serão respondidas em alguns dias.
Suspiro, subitamente aliviado.
— Graças a Deus ainda existem cidadãos que não culpam as pobres garotas. Mal sabem cuidar delas mesmas, quanto mais de um país. – cito, feliz em encontrar alguém que não se colocou contra minhas meninas. – Estou vendo que a população daqui irá se dividir quanto ao comando do reino quando a situação se resolver.
— Ah, sim. Isso já acontece. Minha mulher já me mandou dormir no sofá, porque diz que não quer viver em um lugar cuja soberana é uma bruxa. – responde o homem. – E eu disse que confio na Rainha Elsa e na Princesa Anna.
— Ah, Deus. – lamenta Gerda. – Imagino como estarão as meninas neste momento. Elsa deve estar assustadíssima e muito preocupada.
— Assim como Anna. – eu digo.
Fico quase até de madrugada distribuindo comida, cobertores e acalentando muitos dos cidadãos quando, na verdade, era uma tentativa de consolar a mim mesmo. Alguns, devido à brusca mudança de temperatura, encontram-se doentes – uns apenas estão resfriados, outros têm febre e arrepios, e não há um padrão. Existem pessoas de todos os tipos e idades acamadas e trêmulas.
Inclusive minha Sigrid.
E que esse terrível dia seja um pesadelo, penso, ao deitar na cama, esperando que amanhã eu acorde no dia da coroação.
Pego a mão de minha esposa e ela a aperta.
— Quanto tempo será que ficaremos nessa situação, Tyra? – sussurro. – Eu sei que a Rainha Elsa está com medo, mas... Por que não descongela tudo?
— Talvez ela não saiba. Não saiba nem que congelou tudo, nem como descongelar.
Suspiro.
— Independente do que acontecer, sempre estarei do lado delas. – digo.
— Eu sei.
O tom dela é cortante, e eu fico em estado de alerta.
— Você também estará ao lado delas, Tyra? – pergunto, com o coração batendo rápido. Sem ela, como passarei por isso...?
— Frio... – ouço Sigrid murmurar de seu quarto e meu coração se aperta.
Minha esposa prontamente se levanta da cama e joga as cobertas para o lado.
— Vou ver Sigrid. – ela responde um pouco seca.
Ela acende uma vela e sai do quarto, me deixando sozinho no escuro.
Viro-me para o lado esquerdo, o lado do castelo de Arendelle, e penso com todas as minhas forças até pegar no sono:
Um pesadelo. Um pesadelo. Um pesadelo...
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