Por trás de Frozen
2 Capítulo 1 - Encobrir. Não sentir.
Notas iniciais
POV ELSA
— Vossa Alteza. — diz a empregada pela quinta vez, enquanto bate na porta de meu quarto novamente.
Não respondo. Continuo observando meu quarto, me atentando aos detalhes que já decorei há muito tempo. É um quarto grande, pois Anna dormia nele comigo. Após o incidente, a mudaram para outro quarto, do lado oposto do corredor. Não consigo olhar pela janela, pois o gelo e a neve encobertam os vidros. As quatro paredes estão congeladas.
Até hoje, me lembro das palavras do Troll que curou Anna: “Escute, Elsa. Seu poder aumentará muito. Existe beleza nele, mas também grande perigo”.
De que adianta ter um poder belo se é perigoso, tão perigoso a ponto de eu ser obrigada a me esconder de tudo e de todos durante a maior parte da minha vida?
As únicas coisas que não estão congeladas são os objetos que toco com as luvas. Tenho certeza de que, se meus pais não tivessem naufragado, eu os teria congelado.
E uma das coisas que mais doem em mim são as lembranças. As lembranças de quando eu era feliz. De quando era livre. De quando conseguia descongelar as coisas. E com tanta naturalidade...! E, de repente... Não consigo mais. Nada. Não consigo descongelar nada. Há 13 anos falhando e falhando em toda mísera tentativa. Mas, pior que não conseguir descongelar, é não conseguir controlar quando congelar.
— Senhorita Elsa...? — tenta novamente. — Trouxe seu almoço.
Meu estômago ronca quando ouço a palavra "almoço", e ele insiste em brigar comigo para que eu abra a porta e pegue a comida.
Eu pensei, em certa época, em pedir para fazerem uma pequena portinhola na porta para me entregarem comida, minhas roupas e entre outras coisas, mas isso acarretaria em chances de Anna tentar entrar aqui no quarto, então desisti da ideia.
Ela não pode entrar em meu quarto, ninguém pode entrar em meu quarto. Nem eu queria estar aqui.
Tento dizer isso ao meu estômago, mas ele ronca novamente.
Não tendo mais argumentos contra ele, suspiro e abro a porta o suficiente para pegar a bandeja com a comida e logo fechá-la novamente.
— Obrigada. — murmuro.
Desde os 8 anos vivo em quarentena, não podendo sair de meu quarto para nada, muito menos para comer em uma mesa cheia de pessoas que poderiam se machucar com meus malditos poderes.
Ponho a bandeja no chão o mais rápido que posso e observo o cozido de rena, fumaça saindo da comida.
Quente. Por um momento, tiro as luvas para poder sentir calor em minha pele, e deixo as mãos acima da fumaça. Fecho os olhos e sinto o calor emanando do prato.
De repente, o calor cessa. Olho para a comida e lá está ela.
Congelada.
Nem a toquei, e ela está congelada. Completamente endurecida e azulada.
Grito de frustração, jogo a comida e a bandeja na parede e coloco as luvas novamente.
Minhas luvas. Somente nelas posso confiar, nem em mim. Como posso ser Rainha e continuar o legado de meu pai dessa maneira?
Fecho os olhos e respiro fundo. Eu consigo. A solução é usar as luvas, sempre usar as luvas e não sentir.
Ouço passos apressados no corredor que param em frente a minha porta.
— Elsa? Elsa, está tudo bem? — diz a voz de Anna, preocupada.
Anna.
Ela está com 18 anos agora, deve estar uma moça. Como será que ela está? Mais parecida com mamãe ou papai? Será que está tão desesperada quanto eu? Imagino que não, porque não será ela que se tornará Rainha amanhã.
Penso em todas as ordens que terei que decretar e problemas que deverei resolver. Em todos os cidadãos que contam com a minha ajuda e que esperam de mim um reinado justo e bom, como fora o de meu pai. Esses três anos foram administrados por um dos conselheiros do Rei, e ele me passou todas as informações que julgou como necessárias por debaixo da porta. Eu aleguei que estava com gripe para ele não entrar no meu quarto.
Tento o mínimo de contato possível com as pessoas, e assim será no meu reinado. Tentarei ter mais contato com papéis do que com pessoas. E confiar, sempre confiar na minha luva e na minha capacidade de não sentir. Treino há três anos para esse momento, para encarar algo que não seja meu quarto, e não vou desistir agora.
Suspiro. Uma das pessoas que mais devo afastar é minha irmã, pois eu tenho vontade de ir até ela para encontrar conforto e, finalmente, um abraço, uma consolação, pois ela é tudo o que restou para mim.
Entretanto, encontro forças para dizer o que devo dizer.
— Vá embora, Anna. — digo, minha frase infeliz, ridícula e corriqueira há 13 anos.
— Elsa, eu só quero saber se você está bem. — ela diz, num tom conciliador e persistente.
Não respondo, e ela solta um gemido de frustração.
— Vou falar com os quadros das paredes, pelo menos eles me respondem!
E sai marchando, revoltada.
Cada vez que Anna se distancia de mim, mais me sinto desesperada e que o poder toma controle sobre mim.
Respiro fundo.
Ouço papai me dizendo: "Não sentir".
Deito na minha cama e, instantaneamente, ela se congela. Na realidade, tudo o que quero fazer é fugir, fugir para algum lugar distante em que ficarei sozinha com o gelo, para ver se consigo fazer as pazes com ele.
"Não sentir".
Só posso sentir o frio e o gelo abaixo de mim, e é nele que encontro meu desespero e meu conforto.
Lágrimas caem, congeladas, no colchão congelado.
"Não sentir".
Não sentir.
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