Por trás das câmeras
5 Obrigada, peso morto
Notas iniciais
Acabei saindo do bar acompanhada pelo Jooheon e pelo peso morto chamado Kim Sungchan (alguns considerariam lucro sair com dois caras, eu considero estresse extra). Só dentro do táxi lembramo-me de um detalhe muito importante: estou na Coréia, não no Brasil, e a casa do manager se abre com uma senha, não com chave, e, por acaso, eu não faço a mínima ideia de qual possa ser. Jooheon não lembra nem o aniversário do coitado, mesmo que esse seja um chute muito óbvio e que provavelmente não desse certo. Então, sem muita escolha, acabamos levando-o para o dormitório dos meninos.
Bufando com o esforço, carrego, com a ajuda do rei das covinhas (ele insistiu em carregar sozinho, mas usei o meu bom e velho argumento de direitos iguais), o nosso querido peso morto até o sofá, onde o jogo sem muita delicadeza. Ajeito as pernas dele e, por fim, dou uns tapinhas maternais em sua cabeça, embora ele esteja bodado demais para senti-los.
“Boa noite, senhor manager.” Uso o meu melhor tom maternal, mas acabo mostrando um sorriso divertido, o que estraga minha encenação. Olho para o moreno ao meu lado. “Olha só, parece um anjinho dormindo, você não acha?” Considerando que o manager está com uma mancha de cerveja na camisa, torto, roncando com a boca magnificamente aberta, meu comentário se torna bem irônico, e essa é a intenção. Jooheon ri.
“Com certeza. Tivemos sorte de ter um menino tão lindo assim. É a sua cara.” Sei que é brincadeira, mas acabo ficando meio sem jeito com esse comentário. Começando pelo fato de ele implicar algo existente entre nós dois e terminando na talvez afirmação sobre minha beleza (ou o contrário, não tenho certeza), só não sei o que dizer, então mudo de assunto.
“Já que minha missão está cumprida, vou para casa. Você vai ficar por aqui mesmo ou vai voltar para o bar?”
“Eu vou acompanhar você até em casa. Está tarde e não quero deixar uma moça indefesa andando por aí.” Ele incha o peito, criando uma imagem meio cômica, mas me esforço para não rir. Em vez disso, o olho indignada e é ele quem ri da minha expressão. Faço bico e levando o dedo em protesto. Que ele se prepare para mais um discurso sobre mulheres e suas capacidades.
“Primeiro, sou uma mulher, um ser humano normal, não uma moça indefesa que precisa ser socorrida a cada 5 segundos. Pelo amor de Odin, não estamos em um dorama. Segundo, eu aprendi Hapkido, e você sabe o que é isso? É a arte de causar dor e miséria. Sério. Quer que eu teste em você? Dói. Terceiro, nós estamos na Coréia, as chances de eu morrer ao pisar fora dessa casa são realmente baixas. Por fim, minha casa é perto, eu não vou estar sujeita a esse super perigo extremo e ilusório do qual você quer me defender por muito tempo.” Empino o nariz no final. Não falei com raiva. Na real, meu tom estava mais divertido do que chateado, o que faz as covinhas surgirem e o riso sair alto.
“Aish, que menina bruta.” Ele fala com um sorriso nos lábios. “Tudo bem, senhorita Sun.” Ele ergue as mãos na defensiva. Passo alguns segundos para entender, porque meu nome é Lisa, não Sun, mas então me lembro da personagem coreana de Sense8. “Então você me defende desse perigo extremo e ilusório. Eu vou voltar para o bar e, pelo que você comentou mais cedo, sua casa fica no mesmo caminho, não?” Derrotada, apenas assinto e deixo que ele me siga.
No caminho, Jooheon anda ao meu lado, com um sorriso no canto dos lábios e as mãos nos bolsos do casaco. Ele olha para frente, mas, vez ou outra, noto uma olhadela na minha direção.
“Então... Hapkido? Sério?” Ele pergunta depois de um tempo de silêncio meio incômodo.
“Sim. E um pouco de aikido, taekwondo, kung fu e muay thai. Sempre fui meio obcecada por arte marcias, mas a que me conquistou mesmo foi o Hapkido. Sabia que o kimono é preto?!” Falo animada. Nesse momento, pareço ter 13 anos, não 25. Ele ri.
“Esse parece ser um excelente motivo para escolher uma arte marcial.”
“Ei, é um Kimono realmente bonito.” Finjo um tom de voz chateado, mas o sorriso me entrega.
“Sim, sim. Você deve ficar toda selvagem, fazendo os seus movimentos de causar dor e miséria.” Ele faz uma careta e fica mexendo os braços aleatoriamente, o que me faz rir alto.
“Nossa, você já praticou hapkido?! Você tem uma técnica incrível.” O olho fingindo surpresa, mas logo volto a rir. Ele ri junto.
“Eu sou um gênio das artes marciais.” Jooheon faz um floreio exagerado, como se tivesse agradecendo por aplausos, e eu acabo de fato aplaudindo, para esticar a brincadeira. “Mas falando sério, se você é toda selvagem e pode se defender de tudo... Qual o teu medo? Todo mundo tem algum.”
“De fato, todo mundo tem algum. Ouvi dizer que você tem um monte.” O provoco, com um sorriso maldoso, mas também divertido, nos lábios. Ele dá de ombros, sem negar. “Eu também tenho. Um bem forte, inclusive. Morro de medo de escuro. Não suporto.”
“Argh, eu também não gosto muito, mas até que consigo conviver bem com ele. O problema é se tiver espíritos. Eu realmente odeio espíritos. Gosto nem de falar sobre.” Ele olha em volta, parecendo realmente assustado, e eu acho isso fofo.
“Já eu não lido bem, independente da presença de espíritos. Durmo com a luz do banheiro acesa e, mesmo assim, as vezes não consigo desligar a do quarto. Se vou acampar ou algo nesse estilo, sempre levo mais lanternas do que, sei lá, papel higiênico, por exemplo. O escuro simplesmente me aterroriza. Tem algo a vez com uma história de infância que eu não lembro, vivo deletando ela da minha cabeça, acho que tem algo a ver com ficar perdida em uma trilha. Mamãe diz que, depois desse tal dia, eu nunca mais consegui ficar relaxada no escuro.” Percebo que, depois do meu discurso, a atmosfera ficou mais séria e pesada. Arrependo-me por ter sido honesta, quando eu podia simplesmente mudar de assunto.
“Que bom que você tem esse mestre das artes marciais para defendê-las contra os perigos do escuro.” A atmosfera instantaneamente alivia e eu sorrio para ele, agradecida.
“Até vir um espírito e ele correr para trás de mim.” Respondo no mesmo tom brincalhão.
Mais rápido do que o desejado (não é certo admitir isso, mas é verdade), chegamos na minha casa. Eu paro em frente ao portão.
“Bem, é aqui.” Ele para na minha frente e me encara. Somos imersos por um silêncio constrangedor de alguns segundos. “Obrigada pela chance de protegê-lo contra os perigos ilusórios da madrugada, Jooheon. Foi realmente divertido.” Antes que eu consiga raciocinar o que estou fazendo, o abraço.
Ele não sabe muito bem como reagir, dá para perceber, então, meio incerto, delicadamente pousa a mão nas minhas costas. Essa confusão dura no máximo dois segundos, pois, assim que ele me toca, percebo o que fiz e o solto. Meus olhos estão meio arregalados e espero que ele perceba, pela minha reação, que isso foi um acidente.
“Desculpa, costume antigo.” Acho que essa frase não melhora muito a situação, pois ele ergue uma sobrancelha enquanto me observa. “Digo, do país antigo. De casa.” Balanço a cabeça, para organizar minhas idéias. “Deve ter sido o álcool e a conversa, sei lá Por um segundo, esqueci que estou na Coréia, mesmo que eu claramente esteja falando coreano.” Dou um tapinha na minha própria testa, indignada com a minha falta de inteligência. Vejo a sombra de um sorriso divertido nos lábios do Jooheon. Se esse sorriso se formar, eu não vou agüentar de vergonha, então é melhor eu fugir antes que isso aconteça. “Então, é um costume no meu país abraçar os amigos ao cumprimentar e se despedir deles. Não que nós sejamos amigos, a não ser que você queira, é claro. Eu adoraria ser sua amiga.” Vejo o sorriso se aproximar cada vez mais. Droga, eu estou me enrolando e falando besteira. “Enfim! É isso. Boa noite. Tchau. Obrigada.” Entro o mais rápido possível em casa, sem dá-lo oportunidade de resposta. Mesmo que não veja, sinto o sorriso divertido terminar de se formar.
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