Por trás das câmeras

34 Finalmente abrindo a boca


JOOHEON

Depois do dia anterior, o objetivo principal de Jooheon era deixar Lisa em paz. Não que quisesse isso, mas havia sido rejeitado, o que o deixava sem muitas opções. Evitou fazer contato com ela ao longo do dia e, enquanto a observava rir com os outros, sabia ter feito o certo. Ela não merecia ser magoada novamente e, para que isso não acontecesse, tudo o que ele tinha que fazer era ficar longe.

Mas a luz faltou e todos os seus planos foram por água abaixo. Sua primeira reação foi levar um susto, o que abriu um espaço para o medo, mas logo lembrou de Lisa, dos primeiros dias, quando tudo era mais simples, e, antes de raciocinar bem o que fazer, já estava indo ao encontro dela. Estava bem escuro e era impossível se guiar pelo visual, mas seu corpo de alguma forma sabia para onde ir. E, quando seus olhos se acostumaram, conseguiu distinguir silhuetas, e apesar da limitação causada pelo breu, a dela chamava atenção. Mesmo nas situações mais inusitadas, Lisa se destacava.

Foi até ela, a envolveu e fez de tudo para acalmá-la. Em nenhum momento sua mente sã o dominou, seus movimentos eram todos alimentados pelo instinto. A amava, então queria vê-la bem. Sabia que já tinha feito o mal e que havia muito para se redimir, mas não foi esse o sentimento motor de sua ação. Foi a mais pura e sincera preocupação.

Quando as luzes voltaram, o mundo parecia não existir. Vê-la ali, tão perto e senti-la em seus braços, sinceramente, o deixou feliz, mesmo quando a situação que ocasionou isso não era a ideal. E também triste, porque, no fundo, sabia que ela não era sua. Não lembrou que podiam estar sendo observados, foi ela quem o fez. Porém, ele seguiu seu olhar e, no momento em que encontrou o do Changkyun, soube a dimensão do erro que cometeu. Não que ajudar Lisa tenha sido um, mas vinha cometendo vários, e esse ato revelou-os.

Evitou Changkyun pelo resto do dia, enquanto digeria a informação e pensava em como lidar com a situação. Teria que ter uma conversa séria com ele, explicar tudo o que guardou para si, pois sabia que, depois da cena presenciada, o mais novo já devia ter adivinhado muita coisa, e não queria que ele ficasse criando o pior cenário possível em sua cabeça. Afinal, a última coisa que Jooheon faria é roubar a namorada de um grande amigo.

Já no dia seguinte, Jooheon procura primeiro Lisa para se desculpar e esclarecer que não tinha a intenção de complicar a relação dela com Chang, mas, enquanto todos estão se arrumando para começar o dia de trabalho, ela não está presente. Depois de olhar todos os cômodos da casa, vai até o quintal, mas não encontra nem sinal de Lisa.

“Você está procurando por ela?” Escuta a voz do mais novo atrás de si e, ao se virar assustado, o encontra com um pequeno sorriso sem emoção no canto dos lábios. “A Lisa foi embora, voltou para Seoul. Mas a pergunta é, por que você está procurando por ela?”

“Eu...” Jooheon limpa a garganta, sem saber direito o que responder. “Eu... Realmente não sei como responder essa pergunta.” Na sua confusão, acaba optando pela honestidade.

“Tudo bem. Então responde outra. Você gosta da Lisa?” O mais novo está sério, o que não dá espaço para Jooheon fugir, e este não deseja fazê-lo. Essa é uma conversa que já adiou demais. Com um suspiro longo, reúne coragem para finalmente abrir a boca.

“Sim. Eu sou louco por ela. Mas não se preocupe, eu não pretendo roubar a namorada de ninguém. Pelo contrário, estava procurando-a para me desculpar por ontem e dizer que não vai voltar a acontecer.”

“Namorada?” O mais novo deixa escapar um riso triste. “Eu fui rejeitado, Jooheon. Ela não é minha namorada. É uma amiga muito íntima e uma pessoa que eu amo, mas só.” Suspira. “Por que diabos você não me disse antes? Eu sempre suspeitei, claro, até o jeito que você olha para ela é diferente, mas, como você não me disse, eu me enganei e reneguei meus instintos. Mas aí é que está o problema: você não falou nada.”

“Er... Eu...” Ainda surpreso com a rejeição e sem entender o que aconteceu, o mais velho fica confuso e tem problemas para juntar as palavras em uma frase que faça sentido. Balança a cabeça, se esforçando para focar no necessário. “Eu tive medo. Você disse que estava gostando dela primeiro, e eu não queria te confrontar. Imagina se ficasse um clima estranho entre nós... Temos um grupo juntos, moramos juntos e, além disso, eu prezo pela sua amizade. Não queria que uma garota ficasse entre nós, mesmo sendo a Lisa.”

“Mas ela ficou entre nós de qualquer jeito, não foi? Ela é incrível demais para não ficar.” Changkyun exibe um sorriso triste. “Nós gostamos da mesma garota e tudo o que podemos fazer é lidar com a situação.” Dá de ombros. “Eu gosto da minha melhor amiga, que me rejeitou, e a única coisa que posso fazer é superar e seguir em frente. Mas e você? O que vai fazer agora?”

“Eu não sei.” Jooheon desvia o olhar. “Ainda tenho medo em relação a nós e, ao mesmo tempo, quero estar com ela. Mas eu também meio que fui rejeitado, então não tenho muita opção.” Changkyun solta uma risada seca e sem emoção.

“Você, rejeitado? Depois do que eu vi ontem? Duvido muito. Você só precisa deixar de ser cego e ir atrás dela. Não se preocupe comigo, não é a primeira vez que não sou correspondido, eu vou sobreviver. É uma merda, mas vai dar certo.” O mais novo se vira para voltar para dentro da casa, mas, antes de entrar, pára e olha para trás. “Ah, a Lisa não está aqui hoje porque ela foi liberada para ajeitar os últimos detalhes da viagem. Amanhã ela volta para o Brasil, então, se você não acelerar o seu processo, vai perdê-la para sempre.” Então continua seu caminho, deixando um Jooheon boquiaberto para trás.

Lisa voltar para o Brasil... Essa é uma realidade que ele nunca nem ao menos havia considerado. A possibilidade de nunca mais vê-la, e deixá-la ir sem ao menos se desculpar pelo todo mal que fez, o faz ficar sem ar. Agora, mais do que nunca, seus próprios erros e o que tem que fazer para se redimir se tornou claro. No turbilhão de pensamentos de sua cabeça, um é mais forte e prevalece:

Eu vou atrás dela.