Por trás das câmeras
2 Divinamente com a bunda no chão
Notas iniciais
Nada melhor do que iniciar um dia de trabalho com uma belíssima queda. Principalmente se a sua câmera e todas as suas lentes estão na sua bolsa. Esse é o primeiro pensamento que perfura o meu mantra e eu, abandonando completamente o profissionalismo (como se ainda tivesse sobrado algum, né) e abraçando o desespero, tiro a bolsa das minhas costas com pressa e checo o que está lá dentro. Observo cada mínimo detalhe, procurando um arranhão ou coisa pior, mas tudo parece estar inteiro. Suspiro, aliviada.
“Everything... ok?” Só então lembro que bati em uma massa, em alguém, um homem (deduzi pela voz e pelos sapatos na minha frente, mas nunca se sabe). Um ser que ainda está me encarando e tentando falar em inglês comigo. Tamanho foi o meu desespero que, por um segundo, esqueci até que estou em um país estrangeiro, e que claramente não pareço uma local.
“아니요” Respondo que não em coreano, língua que aprendi quando decidi me mudar. “Acho que minha bunda quebrou em milhares de pedaços.” Falo em tom brincalhão, que as vezes não é muito bem compreendido pelos coreanos, principalmente os mais velhos, e eu não faço ideia da idade da pessoa, pois ainda estou checando minha lente. Ao pensar nisso, me arrependo instantaneamente, pois, se for meu chefe, acabei de mandar meu profissionalismo de volta para o Brasil. Desisto da câmera, a guardo novamente, respiro fundo e finalmente levanto meu olhar.
Não é um homem mais velho que me encara e acho que meu comentário não surtiu um efeito negativo, pois me deparo com um enorme sorriso, como se a pessoa estivesse se divertindo com o espetáculo que estou proporcionando (apenas óbvio, quem não se divertiria?). Mas também não fico muito feliz ao descobrir a identidade do ser misterioso que gosta de ficar no caminho dos outros, pois esse enorme sorriso vem acompanhado de covinhas, e essas covinhas eu reconheceria a 100km de distância. Claro, eu tinha que esbarrar em uma das pessoas que vou trabalhar com, que mais vou conviver nos próximos dias, e que provavelmente vai ficar rindo de mim pelas minhas costas todas as vezes que me ver. Eu tinha que esbarrar somente em um dos caras mais fodas da indústria musical coreana, conhecido também como Jooheon. Se eu tivesse a capacidade de ficar vermelha, com certeza estaria agora.
“Quer ajuda?” Ele pergunta em coreano e estende a mão. Eu nego com a cabeça e me levanto sozinha.
“Obrigada, mas prefiro recuperar o que sobrou da minha dignidade.”
Boto o meu melhor sorriso no rosto, fingindo que está tudo bem e que eu não estou morrendo de vergonha. Profissionalismo, Lisa. É isso aí. Curvo-me levemente, para cumprimentá-lo de forma apropriada, pois parece o certo a fazer, principalmente se estou querendo mostrar que essa foi uma quedinha de nada e que não me afeta. Então continuo meu caminho, com o objetivo de nos separar por pelo menos alguns minutos, pois sei que vou ter que encontrá-lo logo mais, é inevitável. Noto que ele caminha na minha direção, mas me esforço para não virar o rosto e ando mais rápido. Mas, como eu tenho muita sorte mesmo, somos confinados no mesmo elevador, só nós dois.
“Então, você não é daqui.” Escuto dizê-lo, embora não olhe para mim.
“Então, você é daqui.” Respondo vagamente, sem querer engatar uma conversa. Não parece ter o efeito desejado, pois, pelo canto do olho, percebo que ele me olha e sorri.
“O que está fazendo aqui? É trainee?” Rio baixinho com essa pergunta, pois é apenas hilário imaginar eu, a rainha das desengonçadas, dançando e cantando.
“Eu provavelmente vou ter que esperar pela próxima encarnação para ter a capacidade de dançar e cantar de forma minimamente aceitável.” Olho o visor que exibe os andares. Ótimo, está perto do meu. “E quanto ao que eu vim fazer aqui... Bem, acho que você logo vai descobrir.” Pisco um olho para ele enquanto a porta se abre. Estou flertando? Provavelmente, é mais forte do que eu, é a minha forma de brincar, e o meu sorriso divertido mostra isso. É a única liberdade que vou me permitir antes de assumir minha fachada 100% profissional (eu acho).
Saio do elevador antes que ele possa responder e caminho rápido, sem olhar para trás. Escuto as portas se fecharem, mas não as vejo. Balanço a cabeça de um lado para o outro, tentando me desligar e esquecer momentaneamente esse acontecimento completamente inesperado. Um último sorriso brinca nos meus lábios, mas logo trato de reprimi-lo, pois agora é hora de encontrar meu superior, e eu não posso parecer uma garotinha boba.
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